VERA CRUZ
VERA CRUZ



CLICK PARA AMPLIAR Óh!... Cambaaaaada!!!... grita-se, à noite, em tom cavo de arruaceiro, no Market de Bruges. A polícia passa de carro, olha interrogativa, para um grupo de troliteiros que invadiu a cidade. Poucos mas ruidosos que põem em polvorosa a fleuma flamenga!
Nos bares são eles que dão vida e animam com a sua exuberância ruidosa aquela monotonia de águas mornas de pessoas olhando-se, desejando-se, interessando-se desinteressada e desinteressantemente, numa aproximação afastada de sensaboria melosa que nos interrogamos se realmente querem alguma coisa!...

Meia-noite. Hora de regresso. A comitiva continua a sua saga. A do autor termina, duplamente. Mas essa é outra história!...

CLICK PARA AMPLIAR A Vera Cruz partira, de Lisboa, cerca de duas semanas antes. À expectativa da preparação segue-se, finalmente, o embarque, a partida, os primeiros instantes e, finalmente, o prazer de flutuar embalado pelo baloiçar das ondas!... Lisboa, à noite, acompanha-nos, rio abaixo, expande-se até à marginal e oferece-nos um espectáculo feérico só igualado pela miríade de formas que temos de usufrui-lo!... vista do rio atinge a mística do desconhecido que seduz e encanta.

CLICK PARA AMPLIAR A saída da barra desemboca na noite escura e reparadora (pouco) até ao próximo quarto com a Berlenga à vista na manhã embaciada. Estivera ali há mais de vinte anos. Então, já o desequilíbrio ecológico era visível. Agora o desastre é evidente! O rochedo cuja vegetação remanescente resiste dificilmente ao excesso ácido dos excrementos das gaivotas que, decididamente, se apoderaram dele dispondo já de zonas onde um humano isolado é expulso se não quiser sujeitar-se a umas bicadas!..., está, por isso, completamente degradado e, se ainda existem, não são visíveis outras espécies animais, oferecendo o todo um espectáculo desolador!... apesar da beleza espectacular da sua paisagem

CLICK PARA AMPLIAR Velas içadas, rumo ao continente. Nas nossas costas a silhueta vai-se afastando e como que mergulhando no mistério de que saíra naquela manhã de neblina. A procissão dos pescadores, à noite, espera-nos. O tempo baço continua. Com o anoitecer adensa-se... a procissão espera... o nevoeiro, agora, cerrado continua... e, por entre as ladainhas do evento... decide-se o cancelamento... já não há procissão!...

Zarpar

CLICK PARA AMPLIAR Tempo pesado. Ao longo da costa, invisível, a monotonia só é perturbada pela sucessão dos quartos. O enfado da reclusão começa a produzir os primeiros resultados, subtilmente. A melancolia estampa-se em alguns rostos; noutros, mais agressivos, os primeiros estereótipos. As coalições, as indiferenças, os antagonismos tudo ganha aqui uma dimensão escondida na relação directa do tempo e inversa do espaço disponível.

CLICK PARA AMPLIAR A agressividade está na razão inversa da segurança do agente; a segurança, no seio dum grupo, na razão directa da diferenciação. Sai-se da indiferenciação pelo grau de reconhecimento que se obtém junto do líder. Ora!... este produto psicológico compra-se!... com várias moedas. Não há... não haverá nunca uma moeda única para essa transacção!... e é assim que o protagonismo, a insinuação, a intriga se instalam minando, corroendo a cultura do grupo com reflexos na emocionalidade, e no bem-estar... até que... dia de sol!... costa da Galiza à vista... recolhem-se as imagens... há alguma euforia e o ambiente descontrai... só à superfície... as tensões mascaradas por um sorriso leve!... tal como os prazeres da vaga baloiçando-nos num mar plano que consoante as incidências da luz e as orientações da corrente se assemelha a um gigantesco cadinho plúmbeo, argênteo ou áureo cujos matizes, reflexos e cambiantes de luz escondem à superfície a insanidade duma civilização que, mais abaixo, nos recessos das suas fossas mais profundas arruma as arcas com génios do mal das mais que Mil-e-Uma-Noites modernas!... herança, em dívidas, duma civilização sem princípios, nem valores, nem pudor, para as gerações vindouras por centenas de milénios!...

CLICK PARA AMPLIAR Surpreendentemente, todo o Golfo da Biscaia é atravessado assim. O mar, aqui..., nem sempre é desta bonomia. Também podem ver-se aqui cones de água agigantar-se adamastoramente e afundar-se no mesmo sítio sem deixar rasto ou desabar dentro da embarcação como uma tempestade... cair dentro de vales profundos como se o nível do mar descesse repentinamente quatro ou cinco metros!... para não falar de outras perturbações mais comuns mas igualmente violentas!...

A bordo, uma ou outra quezília começa a vir à superfície mas prontamente dissimulada como se de uma família se tratasse. Só que isto não é uma família... e as famílias nem todas são funcionais!... Mas o jogo mais jogado é o das desqualificações e das pequenas velhacarias sempre escudadas pelo grau de diferenciação...

CLICK PARA AMPLIAR Ouessain!... é a ilha de Ouessain!... diz-se após uns dias de travessia. Confundindo-se com o horizonte e baloiçando-se ao ritmo do nosso posto de observação, começa a desenhar-se um contorno, mais imaginado do que percebido. A ilha de Ouessain, no extremo nordeste da Bretanha, é a nossa referência. Há dias que navegamos na sua direcção indicada por um way point marcado na carta.
Passamos ao lado, ao entardecer. A partir daqui, a costa do país de Merlin e do Rei Artur far-nos-á companhia , a estibordo, ora aproximando-se ora afastando-se ou desaparecendo ao sabor dos caprichos do seu recorte como que mimando o comportamento da Dama do Lago na lenda que se confunde com a sua história mais remota.

CLICK PARA AMPLIAR A entrada em St. Malo faz-se por dois alinhamentos numa zona de baixios cujos picos emergentes albergam fortalezas que constituem uma malha defensiva duma cidade com uma história de independência vincada, berço de corsários e piratas ao longo dos séculos. A sua silhueta fortificada avista-se, ao longe, mergulhada na mesma neblina mística que tanto reputa as suas lendas!... Nas suas águas a azáfama é enorme.

CLICK PARA AMPLIAR Intra Muros, um termo de origem latina que ali soa bem a português e nos dá a sensação de estar em casa... e se refere exactamente ao que é. É a cidade contida pelas muralhas, o núcleo histórico e coração de St. Malo. O conjunto é impressionante e o seu estado de conservação ainda mais atendendo aos bombardeamentos de que foi alvo na Segunda Guerra. A sua beleza é a beleza nórdica: austera. As ruas, apesar de estreitas, tal como o estilo arquitectónico, os materiais e as cores são duma regularidade (uniformidade!...) entediante! Salvo as sua muralhas, o ex-libris de St. Malo, cujo percurso nos proporciona alguns dos mais belos panoramas ribeirinhos, o seu interesse esgota-se à primeira vista.

CLICK PARA AMPLIAR À noite, no bar acanhado porque o espaço aqui está a prémio, há animação. Os troliteiros agitam-se aos sons do conjunto latino-americano que toca tristemente os seus ritmos alegres. Ao fundo, semi-escondido, um índio quase redondo e sem idade executa..., passa mecanicamente os dedos pelas cordas!..., completamente alheado de tudo o que o rodeia, mergulhado em profunda contemplação, como que a pedir perdão aos seus ancestrais por tamanho sacrilégio, só para descolar uns trocos para calar a barriga obesa!... ou sonhando talvez voar com as suas asas largas de condor sobre a majestade dos Andes !... em busca duma carcaça!... A única actividade visível é nas últimas falanges dos dedos... como que a corrigir o voo planado ao sabor das correntes!... Os outros, um pouco menos distantes lá vão dando o seu contributo para parecer que estão animados mas todo o seu aspecto é desolador... Representam o tipo de imigração económica e flutuante que a Europa central ainda tolera... mas decididamente despreza!...

CLICK PARA AMPLIAR Ali ao lado, o Mont St. Michel é o postal ilustrado de França. Apesar de já fazer parte das imagens coladas à nossa retina, a aproximação real ao rochedo é uma experiência impressionante!... aquela sensação habitual do já visto e a de novidade, aqui, cumulam-se!... ao contrário do que é habitual em que se subtraem.
Já a aproximação ao local, junto à costa, tem uma mística própria, que lhe advém dum conjunto de factores naturais que, raramente, se juntam para dar a um local aquela qualidade superior que leva os espíritos crentes a julgá-los beneficiados pelos deuses em que acreditam!...
Lá dentro, as ruas estreitas, em declive com lojinhas escavadas na montanha, a lembrarem os suks, a multidão de turistas (a nova praga dos locais famosos!...), dão-lhe um certo ar marroquino!... Trepar até lá acima!... exige alguma coragem para vencer os muitos degraus que conduzem à abadia carolíngia que remonta ao sec.VIII, exemplar raro da arquitectura da Baixa Idade Média de que existe um outro exemplar em Aix-la-Chapelle, hoje Achen, na Alemanha.

CLICK PARA AMPLIAR Escrevi então: "St. Malo é bonita..., o Mont de St. Michel é lindo!..., Dinan é soberba!..." Situada a montante de St. Malo, nas margens do Rance, Dinan é uma jóia da arquitectura medieval bretã!... À uniformidade de St. Malo, Dinan opõe uma diversidade de formas, cores e materiais verdadeiramente surpreendente. As ruas estreitas e empedradas de casas com estruturas de madeira que às vezes parecem tocar-se no cimo, devidamente conservadas e assumidas dão-lhe aquela graça de quem está, não fora do tempo mas, num tempo que é de todos os tempos!... A ausência de turismo de massas ajuda a respirar uma atmosfera tranquila dum passado que já não existe e a preservar o seu carácter severo, vetusto, assumido. É num lugar destes que ainda parece mais aberrante a existência de Bushs, Blairs, Sadams, Sharons e tantos outros facínoras que se apoderaram dos destinos deste mundo e todos os dias põem a sua existência em causa!...

CLICK PARA AMPLIAR O colonialismo actual morreria de vergonha se conhecesse uma ciência, uma teoria, um conjunto de regras, ou, se se quiser, a forma estruturante natural e universal de toda a realidade a começar pelo próprio espírito humano e que nos permite afirmar que quem não age de acordo com ela sofre de uma de duas perturbações: loucura ou desonestidade. A Lógica, essa qualquer coisa indizível mas que nos permite dizer coisas com sentido, essa argamassa do juízo e do raciocínio válidos, base da gramática e do raciocínio matemático mas também de todo o acto consequente, é aquilo a que me refiro. Um dos seus princípios mais ofendidos é o da contradição. Na sua formação ontológica este princípio é, segundo Aristóteles, a afirmação e a negação do "mesmo predicado em relação ao mesmo sujeito". É pois, o primeiro princípio ou a lei fundamental da inteligência que não se apoia em nenhum outro e todos os outros o pressupõem.
Pois bem, o colonialismo ignora pura e simplesmente esta lei fundamental da inteligência e por uma das duas razões, senão pelas duas!...

CLICK PARA AMPLIAR A Espanha invadiu há dias um rochedo a vinte metros (com maré alta ou baixa?!...) da costa marroquina reclamando a sua soberania!... e, paradoxalmente, reclama da Inglaterra a soberania sobre um outro rochedo que só não está mais longe porque ligado por um istmo. Não se discute aqui a legitimidade dessa pretensão mas tão só a observância do princípio de contradição. Perde legitimidade uma causa que afirma uma coisa e seu contrário relativamente ao mesmo sujeito.
Loucura ou desonestidade?!...
A mesma Inglaterra que recusa ceder à Espanha, verga a Argentina relativamente a umas ilhas roubadas, noutro hemisfério, mantém um colonialismo obsoleto e fratricida na Irlanda, coloniza umas ilhas no Canal da Mancha, a que possessivamente chama seu!..., mesmo nas barbas da França mas entrega, de mão beijada, uma das últimas jóias da coroa, à China (porque é poderosa!...).
Loucura ou desonestidade?!...
Aportamos a uma das mais pequenas dessas ilhas, Alderney, de interesse reduzido e onde a prosperidade inglesa, apesar da proximidade, não é assim tão observável!...

CLICK PARA AMPLIAR Rumo a leste... encaminhamo-nos para a zona mais estreita do Canal. O tráfego é intenso. Comboios de cargueiros que demandam ou regressam dos portos do Mar do Norte; múltiplas linhas de ferries entre as cidades costeiros e ainda a navegação de recreio e os pesqueiros fazem desta zona uma das mais frequentadas pela navegação.
Manhã de sol velado, filtrado pela neblina intensa, a visibilidade ainda que baça é larga e, a bombordo, por trás do costado dum cargueiro começa a desenhar-se uma sombra, depois a silhueta mais definida duma falésia longínqua deixando-nos adivinhar que ali fica, como que mergulhado numa atmosfera de conto de fadas, o reino do donos do canal; a estibordo o contorno de terra é mais próximo mas envolvido no mesmo mistério de fantasia luminosa!...

CLICK PARA AMPLIAR Há, na vida, raros momentos de sensações únicas sem quantificação ou definição possíveis que deixam na alma (alma?!... à falta de melhor expressão!...) uma tão grande quantidade de bálsamo... fonte de bem-estar prolongado!... Sentado no castelo da popa colecciono um desses raros momentos... o último desta viagem que iria terminar inesperadamente, por motivos de indiferenciação, em Bruges...
A natureza, às vezes, é bem ingrata!...

Lisboa, Setembro de 2002


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