A VELHA SENHORA
A VELHA SENHORA



An Old Lady

CLICK PARA AMPLIAR Chegando a Inglaterra tem-se sempre a sensação de visitar uma velha senhora. Respeitável, solene, impassível e fria. É a atitude dos seres superiores que olham do alto os pobres mortais!...

Com a herança da dinastia Stuart, que se julgava de origem divina e dona do reino ("a deo rex, a rege lex") e a grandeza imperial da rainha Victoria, a Inglaterra de hoje vive ainda a ilusão deste sonho desaparecido.

Embora o despotismo nunca tenha vingado, internamente, a Inglaterra soube aplicá-lo com eficácia ao mundo exterior e, à semelhança do que se passa hoje com os EUA, escravizou, explorou e roubou o mundo inteiro de então, cujas sequelas são ainda visíveis nos racismos, ainda activos, da América à Índia passando pela África do Sul, numa atitude sobranceira, arrogante e agressiva (Mapa Cor de Rosa), não poupando amigos e aliados!..., atitude hoje caricaturada por um primeiro ministro estouvado, petulante e insensato que pode trazer ao seu povo sofrimentos insuspeitados!...

Esta agenda escondida tinha como contrapartida a agenda oficial da decência, delicadeza, solenidade e respeito que, de algum modo, também encontramos nela após alguma convivência.

CLICK PARA AMPLIAR Centro desta grandeza era a cidade de Birmingham que já vira nascer a revolução industrial e se transformara no motor do desenvolvimento moderno. Nomes como James Watt hão-de permanecer na memória dos povos muito para além do da própria rainha, exposta na Praça de seu nome, sempre de véu, pretensamente solene, angélica e feminina!... mas... lancinante jogo de contrastes!... na qual divisamos traços de cabo de guerra com o mundo na mão atravessado por um punhal!... A cidade há muito que ultrapassou a herança de grande fábrica sem negar essa influência e o resultado é um equilíbrio bem conseguido entre passado e presente, patente aqui, bem como noutras cidades da região. Nesta praça e na contígua, Chamberlain, situam-se os pontos de interesse arquitectónico e cultural da cidade. O imponente Council House, em estilo neoclássico e o impressionante Town Hall, imitação dos templos romanos de Nîmes e do que resta daquilo a que chamam Templo de Diana, em Évora, são os elementos mais relevantes. Ali junto o City Museum and Art Gallery, cujo acervo cobre as mais diversas manifestações culturais e uma área que pode levar uma semana a explorar!..., merece uma visita.
A recuperação da antiga zona dos canais transformou-a numa zona agradável, a um tempo moderna e com atmosfera histórica.

CLICK PARA AMPLIAR A turbulência industrial, hoje, em grande parte, convertida em serviços, da grande metrópole contrasta com a natureza quieta, rural e conservadora da região vizinha a sul West Midlands. Dada a sua proximidade a Londres, esta zona foi palco da maioria dos dramas da sua história, albergou a maioria da nobreza cortesã e algumas regiões ou cidades ostentam o nome de alguns desses dignitários que ali fundaram o tiveram os seus castelos. Um deles, Walton Hall, transformado em hotel, situado numa zona rural à beira dum ribeiro afluente do Avon, oferece, apesar do frio e da chuva, ou talvez por isso mesmo!.. um daqueles momentos raros de êxtase numa estadia ali: os corvos que grasnam nas chaminés mergulhadas na neblina, quais almas penadas, tocam as nossas memórias ancestrais de terror em cenas shakespearianas de traição, amor, ódio, expiação e morte!...; os gansos que levantam voo em grandes bandos, quais dinossáurios do nosso tempo, excitam a nossa sede de liberdade e ultrapassar esta pobre condição terrena e contemplar este pequeno e conturbado mundo lá do alto!...; e aquele clima parado de luminosidade baça e difusa reforça o desejo de segurança que só a perenidade dá!...

CLICK PARA AMPLIAR Dali a Stratford é um pulinho que nos transporta entre dois passados diferentes e próximos. Stratford_upon_Avon respira Shakespeare, espreme, destila, vende Shakespeare!..., a sua geração ascendente, descendente, os colaterais.... num processo industrial que lembra as técnicas modernas de extrair mais azeite do bagaço, ainda que de pior qualidade!..., do que aquele que era possível pelos processos mecânicos tradicionais!... Apesar de tudo, mantém um encanto inegável... e fica na retina!...

A cidade soube conciliar a necessidade de sobrevivência moderna com a traça tradicional. A harmonia entre a necessidade de fazer dinheiro a todo o custo e o respeito pelo passado é aqui quase completa. É um encanto deambular pelas suas ruas pejadas de edifícios medievais com as suas estruturas de madeira (half_ timbered), a maior parte das vezes quase desconchavadas mas perfeitamente assumidas e conservadas que lhe dão um encanto inusitado!... resistindo àquela pressão materialista, tão nossa conhecida, de construir caixotes de cimento e vidro em nome da segurança!... Daí que a venda de Shakespeare, para além do que o comedimento aconselharia me pareça de, certo modo, compensada. Vale a pena!...

CLICK PARA AMPLIAR A algumas milhas (a Inglaterra oficial, herdeira da imperial, insiste no orgulhosamente sós: milhas, condução à esquerda, £...) daqui, Warwick é famosa e tristemente célebre. Famosa porque possui o maior castelo medieval da Inglaterra; triste porque para ali foram levados, encarcerados, torturados e executados muitos dos prisioneiros da guerra dos cem anos e cujas recordações (celas e instrumentos de tortura) são hoje vendidas a £12 por cabeça!...
A fundação do castelo remonta ao início do sec VIII com Alfred The Great do qual resta apenas a uma muralha (The Mound) no ponto mais alto do morro, local verdadeiramente estratégico de acesso difícil para os meios da época. O castelo actual é o que resulta da construção do Sec. XV e restauros posteriores sobretudo devidos ao grande incêndio de 1870. Para além das câmaras de reclusão e tortura e respectivos equipamentos, históricos, do vasto acervo de material bélico e logístico, o castelo alberga ainda duas mostras verdadeiramente interessantes acerca daquilo que seria a vida castelã: o King Maker encenação, em figuras de cera (... mas dum realismo que na semi-obscuridade temos dúvidas se não serão pessoas vivas - nada daquele aspecto de cadáveres embalsamados que se vêem nos museus de cera!...) , dos preparativos de Richard, conde de Warwick, para a batalha final (armas, armaduras, munições, fardamentos, manutenção, ...) de 1471. O Royal Weekend Party é uma extravagância, em figuras de cera, daquilo que seria a vida castelã na era victoriana. O cuidado posto no realismo e na qualidade das encenações com cheiros e sons apropriados torna-os suficientemente convincentes para lhes perdoarmos a pressão sobre £!...
A parte mais impressionante do castelo é, porém, a sua silhueta, vista do outro lado do rio por onde se fazia o acesso pela ponte, hoje, em ruínas. é um maciço imponente com uma fachada que intimida e fascina a curiosidade de tentar adivinhar o que se passa lá dentro!... mesmo ainda hoje que sabemos que não se passa nada. Imagine-se o efeito que teria no auge do poder do seu senhor!...

CLICK PARA AMPLIAR A Europa acima de Paris é ( para usar um termo inglês ) dull com as cidades constituídas quase exclusivamente por edifícios incaracterísticos!... de tijolos incaracterísticos!.... Como afirmação geral continua verdadeira. Mesmo Londres, apesar de um ou outro monumento digno de registo, não escapa a esta caracterização. No entanto... há um lugar cuja fama corresponde à realidade e impensável naquela zona antes de ser visto!... Oxford. Famosa, menos pelas suas universidades (Colleges) mais ou menos formais e conservadoras (mesmo as que se reclamam de esquerda!...), do que pelas celebridades que as frequentaram, é, verdadeiramente interessante. O centro histórico, ao qual se resume ainda quase toda a cidade, não tem muitos monumentos... é um conjunto monumental de monumentos!... homogéneos na diversidade das suas formas clássicas, de predominância gótica . A cidade é toda universidades (com umas tantas construções particulares entre elas), verdadeiras jóias arquitectónicas na maior densidade por metro quadrado já vista!....
Embora poucos fragmentos remontem ás suas origens, no sec. XIII, a fidelidade das reconstruções não deixa perceber a diferença ao olho não experimentado, tal a qualidade posta nesta tarefa. Percorrer as suas ruas, travessas, caminhos , entrar nos seus pátios, visitar as suas bibliotecas, admirar as suas capelas é voltar atrás e experimentar sensações há muito esquecidas mergulhadas num passado no qual a cidade ainda vive hoje aos olhos românticos do forasteiro!...
Numa civilização desesperadamente à beira da extinção causa pena pensar que também este mundo vá desaparecer, um dia, ironicamente com o contributo de alguns dos seus mais célebres hóspedes!... pode até, por capricho do acaso, acontecer que escape e, na barbárie que se seguirá, pode até intrigar os vindouros que espremerão os miolos a tentar entender o que se passou inventando as teorias mais loucas para explicá-lo e promovendo a deuses os seus destruidores sem nunca entender que são os restos duma civilização que promoveu a primeiro plano o pensamento e comportamento idiota!..
Seja como for, a natureza ainda não acabou de surpreender-me, coisa que as pessoas já não conseguem!...

CLICK PARA AMPLIAR Símbolo dessa idiotia é Londres (bem como qualquer outra grande cidade!...) mas Londres não é a Inglaterra. Da velha senhora será o sótão, aquele lugar, na tradição bem inglesa, onde se guardam as velharias, as inutilidades, os restos dum passado que já não nos serve para nada mas do qual temos dificuldade ou não sabemos como desfazermo-nos dele. Aqui se guardam os restos de todas as civilizações que a galáxia do império, no seu movimento centrípeto, arrastou para o centro num turbilhão engolido pelo buraco negro que é a cidade: escravos, aventureiros, despojos de guerra, produto da rapina dos generais e corsários tudo organizado sob a forma de material social, artístico e cultural mas de facto roubado e cuja devolução, reclamada, no presente, pelos legítimos proprietários, continua a ser negada!... porque rende dinheiro!... muito dinheiro e a ganância é tal que nem uma imagem virtual, daquilo que na realidade roubaram, nos deixam registar!... NO PHOTOS vê-se por todo o lado. Até aquilo a que chamam casas de deus usurparam!...
Apesar de tudo, fechando os olhos à ignomínia, deambular por ali, visitar os seus monumentos e tesouros culturais é exercício sempre refrescante!...
Dessa amálgama antropológica resulta que em Londres não se come nem se bebe nada tipicamente típico embora quase todas as culturas estejam ali pretensamente representadas. Condimentadas com o gosto branco dos ingleses, as mistelas, qualquer que seja a tabuleta do escaparate, têm todas um cheiro branco, com gosto branco que causa um enjoo branco que ao terceiro dia evolui para um vómito branco!...

Será por isso que a maioria dos turistas não fica mais que três dias?!...............

Lisboa, Fevereiro de 2002



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