OS ÚNICOS
OS ÚNICOS



Lonely People

CLICK PARA AMPLIAR Únicos são seres que não se repetem!... nascem sozinhos... vivem sozinhos e morrem sozinhos!... Na espécie humana não seguiram ninguém... ninguém os seguiu!... Fizeram a travessia solitários, num mundo só seu, não partilhado por mais ninguém. Não por egoísmo ou arrogância... mais pela incapacidade dos outros de penetrar nele. Por isso mesmo, e ainda por outros factores aleatórios, a maioria deles falhou; uns poucos venceram!...

Ser único, a maioria das vezes, não é uma vantagem... antes, um handicap... mesmo um inferno de personagem kafkiano!... Até para os que venceram, a vida nunca foi fácil. Dir-se-ia que não foram eles que venceram mas sim a sua obra, frequentemente, à posteriori. Gozaram de condições favoráveis aleatórias, uma vontade indomável para vencer contrariedades numa taxa de sucesso de menos de 0,000...1%. O resto, os que tiveram menos força ou sorte, falhou!...

Os normais estatísticos, mesmo quando os reconhecem, têm dificuldade em lidar com eles porque não conseguem catalogá-los já que não entram em nenhuma classificação: classicistas... modernistas... vanguardistas!... são rótulos que os medianos imitadores atribuem a si próprios designando o tipo de cópias que fazem uns dos outros. Vão até ao ponto de se auto-intitularem de criativos... génios... quando nunca saem do campo da imitação repetitiva com pequenas variações de pormenor, tão pequenas que só eles entendem, dando origem a uma nova casta de mediania (críticos!...) que julga saber acerca do que não sabe fazer!... - que mundo!...

CLICK PARA AMPLIAR Em toda a história conhecida desta civilização há uma mão (pouco) cheia de únicos que deixaram indelével a marca da sua passagem. Na arquitectura (arte hoje completamente morta!...), na música (hoje muito estropiada!...) na pintura (descaracterizada!...), na literatura (superficializada!...) na psicologia (charlatanizada!...) temos exemplos, mais ou menos recentes, da sua passagem.

Se bem que os crentes mais fervorosos (onde é que ainda há disso?!...) defendam que criador só houve um, a verdade é que outros se têm arrogado essa qualidade!... sem a possuírem e, se essa capacidade está ao alcance dos humanos, só estes raros dão mostras da sua existência!...

O ano de 2002 foi dedicado, por Barcelona, à memória do seu único, Antoni Gaudí, o arquitecto de quem disse, no acto da sua licenciatura, o Director da escola: licenciámos um génio ou um louco, o tempo o dirá...

CLICK PARA AMPLIAR Um templo gótico é igual a outro templo gótico na sua macro estrutura, as diferenças são de detalhe; pela mesma razão, um templo românico é igual a outro templo românico e é, por isso, que sabemos que são góticos ou românicos. É confortável, podemos catalogá-los, arrumá-los nunca categoria aonde vamos buscá-los de cada vez que queremos mostrar a nossa erudição!... toda a gente já disse tudo acerca deles pelo que não temos que inventar nada para falar do assunto (pedante, arrogante, solene ou mesmo gravemente!...) sem nada sabermos, bastando lembrarmo-nos de umas tantas palavras e construir umas frases!... se forem em número suficiente darão um livro!...

Uma obra Gaudí não é igual a nada, nem sequer ao próprio Gaudí, e só sabemos que é Gaudí por isso mesmo.

A verdadeira obra de arte, se por isso se entender um acto criativo, é um exemplar único, e não exemplares de colecções de semelhantes como a normalização comercial de objectos de lazer manufacturados impõe, especialmente nas chamadas artes plásticas, e a que chamam um estilo!... - o que não passa dum conjunto de regras simples de repetição para que os comerciantes não se enganem no seu investimento!... - .

Dentro de tais espartilhos quem poderia desenhar um templo como a Sagrada Família (?) cuja execução revela, a cada avanço, a beleza dum mundo de formas, a um tempo, fascinante, natural e familiar!...

CLICK PARA AMPLIAR Gaudi, diz-se (catalogando!...), é um naturalista, mas o seu naturalismo expressa-se de uma forma exuberante desde os ferros forjados, em forma de palmito, da cerca da casa Vicens ou do escudete do Palácio Güell, passando pelos interiores e mobiliário organicista da Casa Batlló, o puxador da porta e a tribuna da Casa Calvet, as galerias, em pedra tosca, do Parque Güell que se fundem na paisagem como troncos e copas de palmeiras!... rodeadas de casinhas de bonecas de verdadeiros contos de fadas às fontes zoomórficas onde uma imaginação delirante e sadia faz convergir todas estas formas, aparentemente díspares, num todo fascinante, caótico e inigualável!...

Ser organicista é ser sistémico. E Gaudí era sistémico, reparo que nunca lhe é feito exactamente por ser um atributo raro, de difícil diagnóstico e ignorado pela crítica artística mais preocupada em psicologizar. Para ser-se sistémico não basta saber a sua arte. É preciso saber bastante das que lhe são afins a montante e a jusante e ainda um pouco de tudo na vida, o que torna este atributo tão difícil de encontrar e, pela mesma razão, de reconhecer.

CLICK PARA AMPLIAR Cada obra, qualquer que seja a sua dimensão (e Gaudí ocupou-se também de obras pequenas!... é um ser integral com uma espécie de vida própria, só possível se não lhe faltar nenhum dos seus atributos vitais como a cor, a forma, o ar ou a luz e mesmo características mais intangíveis como a funcionalidade e a fluidez!... Ocupava-se de tudo desde a aldraba da porta, a cerca metálica ao mobiliário e decoração interior que devem harmonizar-se quer com aqueles elementos quer com o desenho das portas e caixilharias e com as próprias vias de comunicação quase sempre sinusoidais ou parabólicas para evitar as sombras fortes ou recantos não arejados numa sucessão regular de irregularidades cujo paralelo só se encontra na moderna teoria do caos matemático que deu origem à técnica dos fractais, terminando no telhado. Este elemento, geralmente ignorado da arquitectura e que só existe porque as inclemências da natureza o exigem, é objecto de atenção estética especial da parte Gaudí. Quem mais se lembraria de fazer do telhado um dos elementos mais atraentes e decorados duma construção?!... é!... é isso um dos traços de genialidade criativa que se distingue da prática imitativa!...

CLICK PARA AMPLIAR Na primeira das suas grandes obras, o Palácio Güell, de traça aparentemente clássica devido às imposições do espaço, as marcas do seu génio revelam-se em todas as soluções encontradas desde as cavalariças na cave às chaminés do telhado e só encontra paralelo no horrendo oposto que é a prática adoptada de cobrar aos visitantes para ver e proibir a recolha de imagens mesmo para fins, confessadamente, pessoais! O telhado, aqui, já não é aquele plano inclinado com uma ou mais vertentes mas um espaço sinuoso, ondulante a crepitar de formas cor e vida. As chaminés já não são aqueles caixotes desinteressantes, negros e sujos e passam a ser esculturas!... Na casa Milá, algumas até nos fazem lembrar um Vader da Guerra das Estrelas avant la lettre!... enquanto o telhado da Casa Batlló é pura e simplesmente o dorso de um dragão multicolor!...

Apesar deste legado (aqui vagamente resumido) detrai-se Gaudí, ou fazendo incursões nas suas convicções e vida privada ou porque viveu na sombra do conde Güell. Gaudí era pobre, sem esse mecenato não teríamos hoje este património que não é de toda a humanidade (como tantas vezes nos querem impingir!...) mas daquela que pela proximidade ou pelo dinheiro e cultura tem acesso a usufruir da emoção estética da contemplação de uma obra verdadeiramente genial. Sem isso teria apenas engrossado a lista desconhecida dos que falharam!... Por outro lado raramente lhe abonam o facto de que numa disputa judicial acerca de honorários relativos à Casa Milá o próprio Gaudí os ter cedido a uma instituição de caridade vincando a posição de que não era de uma questão de dinheiro que se tratava, mas de princípio!... quando no fim da vida fazia peditórios para continuar a construção da Sagrada Família... um homem cujas convicções religiosas de juventude não terão sido muito consistentes!... confundindo, uma vez mais, os seus detractores que não sabem o que é realizar um sonho grandioso!...

Se um ser mediano é um mundo de contradições... imagine-se o que será um génio!... Ele teve-as com certeza!... mesmo assim... obrigado Gaudí.

Apostilha 1

CLICK PARA AMPLIAR Gaudí está para arquitectura como Bach está para a música. Ambos desenharam uma arte única, sem imitadores capazes e frequentemente mal entendida. O mesmo tipo de linhas ondulantes sinusoidais ou parabólicas que nunca se chocam e sempre se harmonizam, são comuns às duas formas artísticas e elas próprias dialogam entre si. Acompanhem-se as imagens de vídeo das formas gaudianas, sejam elas exteriores, interiores ou mobiliário, com os Concertos Brandeburgueses de Bach, por exemplo, ou da Sagrada Família com passagens da Tocata e Fuga, do Magnificat ou da Paixão Segundo S. Mateus para ver como elas falam!... à arte de Bach chamaram de contraponto, uma técnica que mais ninguém conseguiu dominar; à de Gaudí aconteceu o mesmo mas ficou sem nome próprio. Chamar-lhe-ei contraponto arquitectónico.

De algum modo, únicos foram ainda Jheronimus Bosh na pintura, Franz Kafka na literatura e fora das artes Eric Berne na psicologia. Todos fizeram um percurso solitário e não foram entendidos nem tiveram seguidores à sua altura.

Apostilha 2

CLICK PARA AMPLIAR A Espanha é o país mais exótico que conheço. A sua morfogeologia oferece-nos espectáculos visuais que despertam sentimentos profundos de grandeza, solidão, entusiasmo e horror!... A história de carnificinas, feiras, festas, confusão e balbúrdia entre cavaleiros andantes, fidalgos, príncipes e nómadas está sempre no ar e, não raro, o horizonte se enche de música mergulhada numa neblina ardente, como o grito longínquo de batalhas, lutas e brigas que se esboroam nas profundezas do tempo e que parecem crepitar a cada incidência da luz.

São memórias ancestrais, reminiscências das vivências daqueles que deixaram os traços da sua passagem não apenas nas pedras mas também naquilo a que poderemos chamar, com propriedade, os testemunhos arqueológicos da vida: os genes. Os psicólogos têm procurado explicações desqualificantes para o fenómeno; os charlatães exploram-no sem pudor. Um dia a ciência porá as coisas no devido lugar chamando-lhe, ou não!...., memórias ancestrais, que são fragmentos de informações antigas vivenciadas pelos nossos antepassados e que são transmitidas fragmentadas e aleatórias tão naturalmente como o são a cor dos olhos, do cabelo ou morfologia do corpo!...

De que outro modo é possível a alguém, numa manhã de Junho, no alto dum cerro avistar, ao longe um penhasco (resíduo petrificado de uma antiga fortificação?!...) com uma torre no extremo sul, nunca antes visto, sofrer um choque emocional intenso de sentimentos contraditórios de alegria e medo, saudade e insegurança?!... Racionalmente não passa de uma colina nua, encimada por um penhasco com uma torre... na base uma povoação igual a tantas outras; emocionalmente, aquela colina está (em que eras?!...) coberta de tendas, gente em multidão, balbúrdia, desordem, violência, confusão, imundície e miséria. No alto, a casa senhorial inacessível donde imana a ordem mas também o respeito ou o terror.

Os sentimentos que provoca parecem emanar de uma cronologia rectroagida: alegria, saudade, entusiasmo (desejo de chegar e encontrar entes queridos?!... quem sabe!...) ansiedade, angústia (medo de encontrar desilusões?!...) tristeza profunda (desilusão encontrada?!... o quê?!..).. tudo num flash ou processo emocional de fundo acessível à consciência mas fora do alcance dos sentidos!...

Atienza se chama no mapa. Desconheço a sua história e os dramas do seu passado!... Na mesma rota, locais bem mais interessantes não causam nenhuma destas emoções apesar do encanto que emanam aqui e agora.

Numa zona desértica, pedregosa começa a desenhar-se um pequeno ribeiro contorcido entre as pedras como que perdido numa tarefa impossível tantos são os obstáculos. Pouco a pouco sucede-lhe um vale, estreito, verdejante, arborizado e fresco numa região ardente!... os pássaros cantam uma melodia celestial dando vida a uma região que ainda há pouco parecia morta!... onde almoçar?!... num sítio destes!... ... ali adilante em Ayllón... diz-nos uma velhota sentada à porta de casa para vencer a canícula.

CLICK PARA AMPLIAR Ayllón com uma praça medieval de galerias de madeira, no meio dum calor escaldante, faz-nos sair do tempo. O encanto de ainda encontrar locais como este não tem palavras, verdadeiras relíquias dum passado útil no presente que não deixa de nos fascinar. Mais adiante, Sepúlveda, também à beira dum ribeiro tributário do Douro, vista do penhasco oposto, é uma verdadeira miragem no horizonte.

Os castelos de Turégano, Cuellar e Coca oferecem belíssimas silhuetas ao visitante apreciador de imagens raras. Repletos de história foram testemunho ou abrigaram actos solenes ou dramáticos de grandeza maior ao longo dos séculos na história de Espanha, desde residências reais (Turégano) a masmorras do franquismo (Cuellar). O mais imponente, um belíssimo exemplar de arte mudéjar militar, o de Coca, fez o embaixador veneziano recebido por Carlos I em 1527, exclamar assombrado: o castelo, para além de fortaleza, é um palácio belíssimo!...

CLICK PARA AMPLIAR Salamanca, com a sua vetusta universidade, as suas catedrais e o seu centro histórico animado pela tarefa de capital da cultura 2002, termina uma incursão, a todos os títulos interessante, mas sem a emoção provocada por um pequeno cerro visto a certa hora da manhã, com certa incidência de luz e temperatura, sem interesse para o comum dos mortais!...
São, talvez, momentos como essse que nos fazem lembrar como surgiu um D. Quixote do espírito de Cervantes!... ou aqueles ecos longínquos de mistério na música de Manuel de Falla!...

Lisboa, Junho de 2002



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