IMAGENS TROPICAIS!
IMAGENS TROPICAIS!




Do Recife à Bermuda

TROPICAL PICTURES

From Recife to Bermuda


Um vídeo VHS de duas horas está disponível para os interessados


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Clich the names to follow the links and watch the pictures linked in the text. Sorry it is in portuguese, but you can still watch the pictures!

























IMAGENS TROPICAIS

O convento é um lugar fechado com uma única abertura de acesso, ao lado do motor e do gerador, com quatro beliches encimados dois a dois, um par junto à porta e outro ao fundo. As infiltrações pelo costado ou pelo convés mantêm o seu interior num estado de permanente humidade transmitida de peça a peça por osmose numa temperatura que excede os quarenta graus centígrados. Dormir no convés ou no castelo de popa é a saída, mesmo para os felizardos que habitam a nave central com temperaturas de valor muito mais baixo, tornando a busca e manutenção do espaço um verdadeiro exercício de sem abrigo, o que valeu ao castelo de popa, mais solicitado, o baptismo de favela. Depois de muito sacudido, baldeado, arrastado, atirado contra o primeiro obstáculo nos dias piores, acontece com frequência acordar com uma chuvada, fugir, com o cobertor que era, além disso, também colchão e lençol, para o primeiro buraco coberto, às escuras, aos trambolhões e quando não aos empurrões para ganhar espaço, torna-se um lugar comum...
Os da nave central voltam aos seus suportáveis beliches; aos do convento resta-lhes o banco do jardim... em número inferior às solicitações...
À meia noite, primeira entrada de quarto. O clima, um pouco tenso, os tripulantes, os recém chegados, não se conhecem... não conhecem os cantos à casa, na qual os que transitaram se sentem como se fosse sua e fazem-no saber... Mal refeito ainda do jet lag..., o chefe de Quarto anuncia: "Fulano para leme com Beltrano..." ...duas horas da manhã!... - Beltrano é um tarimbeiro que entrara umas pernadas antes e que era suposto já não estar ali... mas que devido às suas "qualidades"... se tornou "indispensável"... faz parte do núcleo duro dos donos da casa, para quem os recém chegados são uma espécie de hóspedes indesejados, ignorantes e incómodos...e, provavelmente, possíveis concorrentes!... Eles sabem tudo...onde ficam todos os botões, todos os fios, todos os pregos, martelos, cabos, bombas, garrafas, pacotes de manteiga, palitos, papéis higiénicos, canos de esgoto e tratam primorosamente as sanitas!... "por causa da higiene..." e mal as pessoas que se servem delas... saudavelmente!... Pode mesmo estabelecer-se um paralelo entre a capacidade para limpar e consertar sanitas e a maldade para com os companheiros indesejados... acrescentando-se a isto uns laivos de psicose com manifestações paranóicas... tem-se uma imagem tropical!... mas também real de como afirmam os seus poderes sobre os pobres ignorantes. Sabem tudo... menos navegar; sabem onde ficava tudo... menos os pontos cardeais!... mas querem ser chefes!... ah!!!... ser chefe!... onde é que eu já vira isto?!... e do qual pretendia fugir!... na minha busca de evasão vindo meter-me na boca do lobo?!...

Como verdadeiro principiante, ignorante e incómodo, tenho de ser submetido a um exame rigoroso de leme...às duas da manhã!...pois o homem pretende provar a sua valia e quanto eu devo admirar a sua mestria no domínio do leme e de leitura dos quadrantes indicadores dos diversos parâmetros de navegação...que ele repete maquinalmente sem entendê-los!...
Viver num grupo confinado (*) é um desafio, mesmo para uma personalidade forjada para esse efeito, que atinge facilmente os limites da tolerância!...a esta hora da manhã!... é demais..."fulano... o que é que queres saber?..." pergunta-me na expectativa de começar a lição e testar-me... "o rumo..." respondo. Frustrado " ...só?!..." só... " respondo. Dá-me o rumo. Para mantê-lo tenho que fazer correcções e como o leme é accionado por dois aparelhos de força dos quais ele mantém um dos cabos... contraria todos os meus movimentos a fim de provar-me que preciso de algo mais que o rumo!... às duas da manhã!!!...!!!... no meio mar!...
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As cidades não me impressionam particularmente, a menos que sejam antigas e monumentais. O Recife não é excepção. Àparte a sua vegetação tropical e não passaria de mais uma cidade igual a tantas outras. As recepções simpáticas no Club Português e no Centro Português de Leitura foram isso mesmo... manifestações simpáticas...
Nas imediações, Olinda, situada num morro sobranceiro à cidade e ao mar, de vegetação luxuriante, belos monumentos e uma panorâmica soberba, é digna de registo... penso, enquanto faço o balanço de perdas e ganhos em estar ali.

A próxima escala é Fortaleza a quatro dias de navegação. é a primeira prova de fogo para os novos tripulantes atirados (ainda que voluntariamente!) para um meio completamente hostil. O mal estar é evidente com os tarimbeiros e repetentes a disputarem palmo a palmo o espaço vital, sobretudo o psicológico. É mesmo neste que a verdadeira luta se tratava... Explicitamente, estamos numa sociedade perfeita de pessoas adultas, civilizadas, prestáveis e amistosas; implicitamente tudo se disputa desde o que se come e bebe até ao direito a contar anedotas, dizer piadas (às vezes verdadeiras baixezas!), ter opinião e até a ser ouvido!... só há um direito verdadeiramente universal...o riso!... (**). Todos têm o direito (dever!) de rir das piadas dos iluminados!...
Mas o exercício que mais se cultiva é o murmúrio. Murmura-se com o vizinho do lado para o visado ouvir, sem lhe dirigir a palavra, murmura-se em solilóquio e murmura-se calado, com os olhos, com os esgares, com os gestos e mesmo com a ausência deles. Não raro deparamos com um olhar de ódio espetado sobre nós que se esvai e dissimula ao ser detectado quando não se assume mesmo... sem sabermos porquê...provindo de pessoas com quem não trocamos mais que uns monossílabos... outras vezes, de pessoas com quem simpatizávamos...
Ao fim de alguns dias um tripulante amistoso rompeu o silêncio para perguntar-me o que pensava do ambiente, confidenciando-me que, para ele, era tal que chegara a ter receio pela própria vida!... real ou imaginária, a experiência foi vivida. Apesar de alguns momentos de desconforto nada me aproximou sequer de semelhante experiência!... apesar de, uma vez, um alucinado me gritar enfurecido de que, no dia anterior, tinha tido vontade de bater-me, altura em que me pareceu uma pessoa tranquila!.. que sorte!.. a vontade de bater vinha-lhe um dia antes de se enfurecer!... quando ainda estava calmo!...
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Lá fora, as águas de um azul indescritível sob um céu que assenta, em calote, sobre um grande círculo à nossa volta, faz de nós o centro do mundo!...Uma cercadura de cúmulos orna o horizonte como se de um rendilhado se trate e quando o pôr do sol chega é sempre um espectáculo inolvidável. Azul marinho?!...não... pelo menos não o daqueles pintores urbanos que nunca viram o mar senão com o pé em terra!... e onde ele nunca mostra a verdadeira face. Azul marinho?!... sim...porque é o azul do mar...o autêntico... o indescritível, irreproduzível porque é mutante!...abrange todas as tonalidades sem se saturar, simultaneamente transparente e denso, metálico, vítreo, líquido e aveludado. As configurações que assume no seu constante refulgir com as incidências da luz não se repetem nunca e, no entanto, mantém em si duas categorias antagónicas: identidade e diferença.
Os peixes voadores, nas suas rasantes, entram a bordo e os golfinhos, quais torpedos vivos, vindos sabe-se lá donde, evoluem ao lado da proa em movimentos de acrobacia dos quais parecem tirar um verdadeiro prazer já que essa actividade nada parece ter de utilitário ao contrário das outras espécies que nos visitam. Quando satisfeitos, mergulham a pique e desaparecem.

Anoitece. é o terceiro dia. O céu completamente limpo. O vento sobe. Estamos ao largo do Cabo de S. Roque, a parte mais oriental do Brasil, frente a Fernão de Noronha. O vento sobe e, com ele, o mar cresce...não há tempestade... o céu continua impecavelmente limpo!... fenómeno curioso!... o vento forte está, em geral, associado a depressões, com elas massas de ar frias ou quentes e nebulosidade!...aqui não!. Entre a meia noite e as quatro chega a atingir quarenta e cinco nós!... e com ele ondulação gigantesca que sacode a embarcação em movimentos laterais e longitudinais simultâneos dado-lhe uma trepidação do tipo tremor de terra.
Dormir?!... impossível... a água, embora não chova, entra por todos os lados no convés e chega, mesmo, a atingir a favela com ondas que rebentam no costado e sobem a pique para cair como tromba de água no castelo da popa. Este, elevado relativamente à linha de água, faz oscilações dignas duma catapulta pronta a disparar qualquer aventureiro que ali queira instalar-se.
A meio duma manhã, confundindo-se com o horizonte formado por uma linha de água oscilante e a neblina de fundo começa a adivinhar-se os contornos daquilo que poderia ser uma montanha. Que sensação nestes momentos de incerteza quase certa!... Aquilo é... tem que ser!... terra!... Nós sabemos que ela deve estar por ali mas imagino a sensação daqueles que, ao fim de longos meses de sacrifícios e incertezas, tiveram esta visão!...

Fortaleza é cada vez mais nítida... primeiro a montanha em plano de fundo... depois os edifícios mais altos da cidade e finalmente uma extensa linha branca de areia ao longo da costa... são quilómetros a perder de vista de praias!... A sul a paisagem é plana; a norte, tem um recorte curioso com a montanha ao longe, a mata com laguinhos, a duna, uma faixa arborizada e habitada onde se situam as estâncias turísticas e finalmente a faixa de areia na linha de costa.
Na duna fazemos um safari em buggi com algumas passagens arrojadas nas suas vertentes... numa dessas vertentes virada para um lago de água tépida pratica-se aquilo a que eles chamam skibunda que consiste em escorregar montando numa tábua até ao lago no qual se mergulha... e na praia a atracção, para além dos passeios a cavalo, é a jangada que consiste numa prancha artesanal com a proa quadrada e sem bordo, apenas levemente arrebitada, um mastro desmontável e uma vela enrolada neste. Nestas condições, no mar, tornam-se quase imperceptíveis e encontramo-las a mais de vinte milhas da costa, mas com a sua vela colorida desfraldada são um espectáculo bonito de ver!...
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A mil e seiscentas milhas fica a nova escala, Barbados. Os dias passam iguais... a costa brasileira afasta-se... e resta-nos a monotonia de bordo... e os seus rituais... nem um barco à vista, uma ave, ou um peixe. Os próprios golfinhos parecem ter-se zangado connosco e nem os peixes mordem a amostra ou, pura e simplesmente não existem por ali!... apenas umas nuvens de quando em quando e um ou outro trinó (aguaceiro, na gíria de bordo). A mudança de cor e limpidez da água diz-nos que passamos em frente da foz do Amazonas mas isso fica a mais de uma centena de milhas dali!...estamos a atingir o Equador, aquela linha imaginária que divide a terra em dois hemisfério e que nunca ninguém viu nem sabe exactamente onde fica mas que todos acreditam que existe. À noite há festa e no dia seguinte é o ritual do baptismo para os caloiros decalcado das praxes universitárias (transformadas em verdadeiros festivais de baixeza!...) mas muito mais suave... sem práticas verdadeiramente abusivas, diga-se.

Os dias sucedem-se e finalmente um cargueiro ultrapassa-nos... uma manhã acordamos com um passageiro clandestino. Um ganso patolas tinha passado a noite na verga do mastro grande. De manhã desceu e pouco se incomodou com a nossa presença. Ficou dois dias a dormir e a cofiar as penas, recusando as ofertas que lhe fizemos de comida e bebida. A imundície já era grande na parte da proa de que se apoderou quando foi convidado a abandonar-nos... uma tartaruga solitária nada pachorrenta sabe-se lá para onde a mais de mil milhas de qualquer costa!... e os peixes começam a morder, alimentando a esperança, com a escassez de víveres frescos que começa a fazer-se sentir, de variar da sopa de repolho com repolho!... mas fogem todos com a amostra no acto da recolha para bordo!... até que a escassez de amostra também se faz sentir, a pesca é abandonada e a esperança adiada...

Assim, para variar, um dia come-se sopa com repolho... no outro repolho em sopa... comida, nos dias mais agitados, aos trambolhões... desde o momento em que é recolhida da panela na cozinha até àquele em que nos sentamos, se houver lugar!... é uma verdadeira odisseia!... numa mão a tigela escaldante que não pode largar-se nas costas do parceiro... e a outra para nos agarrarmos ao que tivermos à mão... que, às vezes, foge com o balanço, transformando o acto numa verdadeira acrobacia de andar no arame...para não espalhar tudo e evitar as consequências daí advenientes. O almoço é geralmente de faca e garfo, pão quando o há, e repetir só com ordem do cozinheiro que aproveita estes momentos para mostrar o seu verdadeiro poder!... nunca me tinha passado pela cabeça qual poder que um cozinheiro tem num grupo confinado!... goza de verdadeiras mordomias, tem lugar fixo à mesa, não lava loiça não levanta nem põe mesas, só cozinha e gere a dispensa... tudo numa algazarra de arruaceiro!...
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Dos quinze dias planeados para a travessia, três foram devorados pelos ventos favoráveis e, ao décimo segundo dia, Barbados apresenta-se na amura de estibordo, debaixo dum tremendo trinó.

O autocarro para a Gruta das Anémonas não passa de uma carrinha de nove lugares que leva quantas pessoas apareçam à beira da estrada. A música, ritmos locais, é ensurdecedora e o cobrador, um negro jovem de constituição forte, com tranças nos cabelos, dança todo o tempo: acocorado, sentado, vergado, enquanto dá entrada e saída aos passageiros e até quando se lhes dirige para cobrança... para ele é sempre festa!...por um dólar e meio vai-se a todo o lado... no mesmo autocarro. As pessoas têm um ar modesto mas digno fazendo lembrar a Europa de algumas décadas atrás. Não há manifestações de riqueza excessiva nem da miséria que flagela os países auto-intitulados de desenvolvidos. Excepto as autoridades portuárias pouco tolerantes com algumas faltas menores (evitáveis!...), as pessoas manifestam uma atitude prestável, digna e humilde (não servil!). A costa Oeste, banhada de águas tranquilas, verde esmeralda, onde um mergulho de quarenta metros num submarino para visitar o recife de coral é, talvez, o ponto mais alto desta expedição; a costa Leste, mais escarpada, árida e ventosa é menos frequentada; na costa Sul de praias, restaurantes e bares formigam as brancas depravadas, americanas e europeias, à procura de pretos" (***).

O solo é pobre e têm que importar quase tudo o que necessitam incluindo a água. Sem turismo não sei como viveria esta população!... A própria vegetação não é exuberante embora os Jardins de Andrómeda, na costa Leste, mereçam uma visita.
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A cadeia das Antilhas fica-nos a Oeste. As ilhas, ilhotas e ilhéus que deixamos para trás, sem os avistar, são incontáveis. As que avistamos aparecem e desaparecem no horizonte como locais de conto de fadas: mergulhadas na neblina que lhes dá aquele ar de magia que seduz e intriga, encimadas por um capachão de nuvens como quem usa chapéu, banhadas por um pôr de sol como se fossem a sarça ardente, pontilhadas de luzes, à noite, emolduradas por um mar que reflecte o humor da situação mais ou menos cóbreo, vítreo, argênteo, áureo e sempre ondulante como um grande manto estendido agitado por uma brisa interior!... às vezes é mais que isso!... mas esse é o preço que se paga por estar ali!...

Martinica, a bombordo, desperta ressonâncias infantis com a canção da Chiquita Bacana... A sua silhueta em contra luz acentua-lhe a magia. A estibordo, a Dominica. O estreito entre ambas, passado de noite, requer a presença do comandante. As correntes e contra correntes tornam a pilotagem pesada. O rumo, em constante correcção, é mantido com ardor, mas o espectáculo nocturno da Dominica iluminada vale o esforço de estar de Quarto.

De manhã, uns picos isolados no meio do mar começam a emergir no horizonte desenhando uma passagem para uma enseada circular, qual cratera de vulcão afundado, semeada de prainhas de coqueiros e belíssimas vivendas nas encostas. Ao fundo a povoação. Estamos em Les Santes, uns ilhéus a sul de Guadalupe. Após o mergulho da praxe e com o aproximar do fim da tarde vai-se a terra para um jantar diferente da sopa com repolho. Ali, naqueles ilhéus remotos confirmamos o que alguém já dissera antes... "se houvesse um cataclismo generalizado só escapavam as baratas e os portugueses porque são as únicas espécies que estão em todo o lado!..."

Ao jantar, numa esplanada com toldo, debaixo duma chuva torrencial, aparece atrelado ao comandante um bêbado que já nos interpelara na rua. Ao ser-lhe apresentada a tripulação cumprimenta todos com um ritual que consiste no aperto de mão, e uma palmada com a outra nas mãos apertadas. Cumprimenta todos. Preparo-me para o ritual mas quando chega a minha vez aperta a mão e não bate com a outra. Perante o meu espanto acrescenta: "...não posso fazer isso contigo... tu és o meu ???..." e pronuncia um termo qualquer em linguagem local cujo sentido não apreendo na sua linguagem de ébrio. Vendo que não entendo, endireita-se, assume um ar teatral e diz alto enquanto aponta com o indicador em círculo sobre os circunstantes:"...you are the best!... the best of them!... all of them!..." confidenciando-me a seguir... "...tu és-me superior... e eu não posso fazer isso contigo". Penso que tem algo a ver com as superstições locais e embora nesta afirmação esteja implícita a afirmação imodesta de que também ele é superior aos outros todos, não posso deixar de dizer à distância: "...obrigado Eugène!..." O meu ego precisava disso. O stress da vida a bordo com os problemas de convivência tinha-se agravado a partir de Barbados. Os alinhamentos estavam feitos... bons para um lado..., maus para o outro... não havendo lugar para quem fosse o melhor. Em tais climas o melhor e o pior confundem-se e o protagonista chega a duvidar dos seus critérios de auto-avaliação e a debilitar-se...
Foi preciso a clarividência dum bêbado para insuflar um pouco de ânimo num ego debilitado!... "obrigado Eugène..." Não é preciso que aquilo que disseste seja verdade!... Disseste-o no momento certo!...
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Pela abertura oposta àquela em que entramos neste paraíso avista-se Guadalupe, a extremidade sul da Basse Terre com a montanha do vulcão La Sufrière na vertente da qual caem as cascatas do Carbet. A pouco e pouco as águas baixas delimitadas por canais que separam os dois lados da ilha vão desvendando Pointe à Pitre ao fundo do golfo.
Os guadalupenses ufanam-se da sua nacionalidade francesa e afirmam enfaticamente (os situacionistas, pelo menos!...) que "aqui é França".

Efectivamente, do ponto de vista administrativo, Guadalupe é um departamento francês com todas as prerrogativas dos departamentos continentais, mas, na prática, não apresenta o mesmo tipo de desenvolvimento mantendo ainda um visual de terceiro mundo. Embora não sendo a capital, Pointe à Pitre é a maior e mais importante cidade e não passa, com raras excepções, de um aglomerado de construções fanqueiras com lojas repletas de fancaria turística onde é difícil encontrar o objecto de gosto e de qualidade. Os supermercados são mais armazéns com prateleiras toscas de produtos onde a variedade e a qualidade, pelo menos da embalagem!, deixam muito a desejar. À noite, oferece um espectáculo desolador com as lojas de portas de chapa todas fechadas e escassa iluminação pública assumindo o aspecto de longos corredores de garagens fechadas, onde matrafonas descomunais oferecem os seus serviços em cada esquina.

Pela janela do autocarro desfilam, numa sucessão incessante, as árvores, as flores, os frutos dos mais diversos tamanhos, formas e cores de uma paisagem tropical soberba. As próprias povoações, os jardins e quintais são verdadeiras florestas com uma exuberância capaz de extasiar qualquer amante da natureza! é a paisagem de Guadalupe, da Basse Terre que curiosamente é a parte mais montanhosa e elevada da ilha a Oeste Sudoeste. Aqui se situam as duas mais importantes curiosidades naturais da ilha: o vulcão La Sufrière e as cascatas do Carbet, estas últimas ao alcance do autocarro, segundo informação do motorista. Despejado num cruzamento da estrada deveria apanhar outro, que afinal era mais uma vez uma carrinha que na Europa seria de nove lugares, para percorrer mais uns quilómetros findos os quais... "é aqui..." diz o motorista.
A montanha fica ainda a uma distância considerável mas, quem sabe?!... pode ser ilusão de óptica!... estamos num país tropical!...
A beleza circundante é recompensadora e a estrada subindo nem se faz sentir... as casas vão rareando... até desaparecerem... a natureza adensa-se e o porte das árvores aumenta... Um transeunte informa, num francês acotovelado que são dois quilómetros... entretanto... já só aparecem clareiras!... que desaparecem por fim... restando apenas a floresta densa, fechada em todo o seu esplendor!... árvores gigantescas que terminam por uma delicado ramo de belas e coloridas flores, albergando no seu tronco, nas axilas ou nos ramos tufos de outras plantas adventícias que por sua vez ainda hospedam outras de mais pequeno porte, sem nenhuma relação com o solo, alimentando-se umas das outras ou das substâncias em suspensão numa atmosfera de temperatura superior a trinta e cinco graus centígrados e uma humidade a rondar os cem por cento!...
Que sensação andar sozinho no meio duma floresta tropical sem nenhum factor perturbador e senti-la, ouvi-la, cheirá-la!... o perfume das suas flores e frutos, o canto, piar, chilrear, grasnar das aves, o rugir, ranger, bater, rastejar dos animais e plantas numa profusão de sons cuja origem desconhecemos mas perfeitamente distintos uns dos outros como verdadeiros solos, outras vezes em acordes onde a harmonia e a dissonância se juntam para formar a mais complexa e extravagante sinfonia jamais tocada por todas as orquestras do mundo juntas!..., é uma experiência que deixa memórias perenes!
Os dois quilómetros há muito se esgotaram!... e o caminho não para de estender-se em curvas e contracurvas sem sinais da montanha e da cascata... embora sempre subindo!... um indígena que só fala bem o crioulo consegue fazer-me entender que falta um quilómetro... depressa desmentido pela experiência. Os pés começam a reclamar do abuso e o resto do corpo a solidarizar-se com eles!... e o caminho não deixa de apresentar troços que terminam sempre em mais uma curva para além da qual mora a esperança... logo desvanecida... o avanço torna-se maquinal... já não interessam as cascatas... é preciso é chegar, chegar a qualquer lado!... até que finalmente... após a quebrada duma ravina... sinais de mudança.
À entrada do parque, a empregada de apoio dos serviços florestais vendo-me chegar pergunta: "como é que você veio?!..." "a pé..." respondo... "desde onde?!..." ...do autocarro... respondo de novo, acrescentando "...enganaram-me... não sabia que era tão longe!..."... "você é doido ou quê?!... ninguém vem aqui a pé!..."
Não são ainda as cascatas. Aqui começa o caminho pedonal de piso irregular com grandes pedras, rasgões e escorrimentos, degraus com desníveis abissais, escadas de madeira e pontes baloiçantes, em sobe e desce, ao sabor da topografia a caminho do vale... até que, numa quebrada, por entre os ramos e a folhagem... lá está ela!... majestosa!... gigantesca e impressionante nos seus mais de cem metros de queda livre!... acima dela, após uma quebrada, a segunda, na montanha mais longínqua só acessível através do zoom da objectiva, perdendo-se na neblina, vapor e nuvens que envolvem a montanha... e acima daquela ainda há uma terceira!... invisível daqui.
Vista de perto, faz-nos sentir pequeninos perante tal gigantismo. Num cenário de anfiteatro natural de vegetação luxuriante foram o cenário perfeito para o assalto à Missão no filme com este nome, descubro ao chegar aqui.
O caminho para a segunda cascata é atlético e perigoso diz a placa indicadora. Após quarenta minutos de subida a placa informa que falta uma hora e trinta minutos para atingi-la e mais de duas horas para a terceira...tudo somado com o caminho de regresso dá até à tarde de amanhã... e não é muito curial passar uma noite na floresta, desprevenido...
A meio do caminho de regresso, um carro passa, pára, a porta do lado direito abre-se e uma voz lá dentro ordena "...entre..." Perante o meu espanto esclarece: "a nossa função é ajudar as pessoas e eu acho que você precisa de ajuda!... vou levá-lo ao autocarro".
Fizera mais de trinta quilómetros a pé. A ajuda é bem vinda. Guadalupe tem uma organização florestal de fazer a Europa morder-se de inveja, como verifico mais tarde, mas a prestação duma ajuda depende sempre dum critério no julgamento duma situação. Por esse critério e julgamento, obrigado Me. Thams!... são, gestos para os quais os princípios e valores que os suportam há muito se esfumaram com o desenvolvimento europeu!...

A costa Oeste de Guadalupe, banhada de águas tranquilas, límpidas e cristalinas, é um pouco acidentada, desenhando pequenas baías e enseadas que abrigam prainhas acolhedoras. Numa delas situa-se a Reserva de Cousteau que pode ser visitada em barcos de fundo de vidro.
A norte viajo para visitar o museu do Rhum quando encontro a estrada cortada por uma barragem de carros blindados, capaz de conquistar Guadalupe três vezes!, cheios de polícias, todos brancos!...
Mais abaixo, junto à ponte, ardem pneus e chassis de camiões cortando a passagem. Debaixo da ponte corre um líquido castanho exalando um cheiro pestilento no meio duma paisagem de sonho!... Entre este e o outro extremo da povoação, também cortado, a população manifesta-se!... e com razão... o impossível estava ali!... sacrilégio no paraíso!... guardado por polícias armados até aos dentes!...
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Oito dias de mar nos separam da Bermuda e, apesar de não se falar nisso, nota-se um certo nervosismo em parte da tripulação. O fantasma do Triângulo está presente e, embora ninguém acredite... que ele há bruxas... há!... é o que se pode entender nas suas atitudes mais estereotipadas que antes.
A paragem rápida em Antígua para visitar English Harbour, local do Almirantado de Nelson e porto verdadeiramente abrigado, agora já em época baixa, e eis-nos ao longo de um dos lados do Triângulo das Bermudas. Um dia, ao anoitecer, vêem-se reflexos de relâmpagos de alguma trovoada existente para além do horizonte o que não seria caso de qualquer preocupação noutra ocasião. Hoje, porém, embora ninguém seja supersticioso, sou recomendado para verificar qualquer possível perturbação da agulha... por causa das perturbações magnéticas provocadas pela trovoada!.. foi a explicação.

Porém, um facto que se presta a especulação, passa completamente despercebido por ser noite e os presentes não disporem de know how para interpretá-lo. Para além de uns pôr-de-sol fantásticos passam-se os dias na rotina comum, sem ver um barco. A meia noite aproxima-se e a bombordo, as luzes de um cargueiro indicam que estamos em rota de colisão... enquanto que a estibordo um outro se apresenta exactamente nas mesmas condições!... neste momento formamos um triângulo perfeito e convergimos os três para o mesmo ponto!... mandou o acaso que, depois de vários dias sem ver um barco e com tanto espaço disponível, de repente, três embarcações disputem o mesmo espaço ao mesmo tempo?!...
Como mandam as regras, o de bombordo afrouxa para dar-nos passagem e, pelo enfiamento das luzes de mastro, é visível que passamos safos na sua proa. Como barco à vela temos também prioridade sobre o de estibordo mas no meio do mar... e de noite!... não há que fiar!... porém, embora menos visível a sua manobra, o enfiamento de luzes assegura-nos uma passagem safa sem precisar de manobrar. Cruzam-se na nossa popa a uma milha de distância exactamente à meia noite!...
Uma noite de má visibilidade, um erro de comunicações, incumprimento de regras poderiam contribuir isoladas ou juntas para que colidíssemos e nos afundássemos sem deixar rasto!... e contribuir, assim, para aumentar a fama do Triângulo das Bermudas!...

Uma luz pisca no horizonte... vai alta a madrugada do oitavo dia. Será a bóia que delimita o canal?!... mas elas são duas... onde está a outra?!... o aparecimento da aurora dá os primeiros sinais... o pica pisca continua, agora mais nítido... mais luzes surgem entretanto num plano mais baixo... são luzes de terra!... e aquele é um farol... o nascer do sol é espectacular!... na rádio chamam para que nos identifiquemos... na bóia de espera um paquete aguarda... nós vamos a seguir...
O paquete contrai-se para caber no estreito à nossa frente, após o qual se apresenta não uma baía ou enseada mas um rendilhado de terra e água num emaranhado complexo de cantos e recantos de água tranquila, verde esmeralda, límpida e transparente bordejada de vivendas escondidas na mata todas de telhados brancos e aspecto cuidado.
Toda a Bermuda tem este aspecto sem sinais de miséria nem têm onde escondê-la pois poucos são os lugares de onde não se veja o mar. O ar de terceiro mundo das Caraíbas não existe aqui e tudo tem um padrão mínimo bastante acima dos substratos europeus. Em Hamilton e St. George os paquetes de luxo disputam os lugares de atracagem numa terra que não tem estação baixa. A contrapartida disto é um custo de vida quatro ou cinco vezes mais elevado que na Europa, um certo ar plástico e uma quase ausência de cultura popular, carácter e alegria de viver.
A falta de espaço leva a que para resolver os problemas de tráfego só seja autorizado um carro por família, não há automóveis de aluguer sem condutor e é estimulado o aluguer de motoretas e bicicletas por um preço diário que quase chega para comprá-las na Europa.
Uma visita às Crystal Caves revela uma das salas subterrâneas naturais de maiores dimensões já vista, atravessada por pontões flutuando no lago de que é formada com águas tão límpidas que, apesar dos seus quarenta metros de profundidade tem-se a ilusão de poder tocar o fundo com a mão!
No extremo norte as Dockyard são o ex-libris da Bermuda. Conjunto monumental de defesa que pretendia ser, para os ingleses, a Gibraltar do Ocidente.

O Brasil com a sua alegria contagiante de viver é bonito e convida ao regresso... é uma pena a sua miséria e insegurança!; as Caraíbas com a sua magia e encanto têm muito para ver; a Bermuda parece um produto acabado, está vista.

Lisboa, Agosto de 2000
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(*) Nota
""Chamo confinado a um grupo em que os seus participantes são social e psicologicamente livres de abandoná-lo, mas que, na realidade, estão fisicamente impossibilitados de fazê-lo".
(**) Nota
"Um autor isolou mais de uma centena de risos diferentes, a quase totalidade dos quais patológicos".
(***) Nota
"Refiro aqui pretos(entre aspas) como objecto de fixação da depravação das brancas. A população de Barbados é, na sua quase totalidade, preta e, como atrás referi, digna."


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