OS TRÊS ATLAS
OS TRÊS ATLAS



Marrocos 2005.

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As montanhas do Rif mergulham no Mediterrâneo entrecortadas por sucessivas depressões cavadas pelo leito dos rios e dos ribeiros. O espectáculo é tremendo de beleza e esforço para contemplá-la, ao cair da tarde após uma noite de condução, não dormida, por uma estrada que se estende, tal fio de Ariadne, serpenteando montes e vales numa sucessão labirintica de curvas.

CLICK PARA AMPLIAR O Unimog devora-as com sofreguidão na esperança vã de esgotá-.las e o Barão Vermelho que virá, mais tarde, a revelar-se um verdeiro devorar de dunas, tem aqui um dos seus primeiros desafios.

Mas quando a noite surge e a estrada se transforma em pista de alta montanha e um nevoeiro cerrado, que se levanta do mar, se mistura ao pó levantado pelas viaturas tornando a visibilidade nula.... é de loucos!...

Al Hoceima, a mártir de 1994 e 2004, recompôs-se mas a noite aqui passada é que não recompõe as energias dispendidas na etapa anterior.

Há muito que abandonámos o track expressamente traçado, a partir da mais recente cartografia de satélite, para esta expedição e cujo objectivo era testar a sua fiabililidade no terreno, para uso na preparação de expedições em áreas mais remotas. Mas vicissitudes de participantes heterogénios, alguns equívocos de objectivos e papéis a desempenhar levaram a que assim acontecesse.

CLICK PARA AMPLIAR O objectivo para hoje é Taourirt passando pelos Montes Snassen, do nome da tribo berbere que os habita desde tempos imemoriais, onde se situam a Gruta do Camelo e as Gargantas do Zegzel, mas os mesmos equívocos não resolvidos levam a que os assumidos líderes da expedição falhem o alvo devidamente localizado no track.

Não fora uma noite passada no leito dum afluente do Moulouya, o Za, a sul de Taourirt, recortado entre altas montanhas, e a história do percurso até Merzuga seria uma página em branco. O desprezo pelo track substituído pela navegação Michelin leva-nos quase sempre por alcatrão. Com o track cruzamos nos pontos em que este intercepta a estrada com uma exactidão inesperada para um trabalho de secretária. É uma validação pontual mas até aqui sem reparos. Que pena não poder fazer a validação total já que os pontos mais controversos da interpretação dos mapas não se situariam necessariamente nestas intercepções!... e corremos, numa paisagem inóspita, por alcatrão ou pedaços de pistas que estão a ser engolidas por ele.

Marrocos asfalta-se a um ritmo acelereado. é um bem da civilazação a que têm direito mas que torna a vida cada vez mais difícil ao TTista puro.

CLICK PARA AMPLIAR Merzuga, antigo sanctuário de qualquer iniciação ao deserto, não o é mais!... atingida por alcatrão desde há alguns anos passou a local degradado de turismo de massas e TTismo parolo. Mesmo assim, a travessia do Erg Chebbi, fora do alcance destes, dá-nos ainda alguma sensação de desafio!... As dunas, de dificuldade média, atravessam-se sem grandes dificuldades. é o baptismo de fogo do Unimog... seis toneladas de ferro sobre areia mole com algumas vertentes quase a pique!...
Mas a verdadeira estrtela, contra todas as expectativas, é o Barão Vermelho!... esvoaça alegremente como uma avezinha pela crista das dunas.... naquela zona proibida a qualquer TT que não queira correr o risco de rodar sobre o seu eixo longitudinal!...

Uma estrada que ainda não existia o ano passado devorou a pista que ligava Merzuga a Taouz encurtando na mesma proporção a clássica pista do sul. Batida pelo TTismo parolo de carrinhos série acabados de sair do stand e lavadinhos ou limpinhos a cada paragem, cometem toda a espécie de atrocidades nas pistas constituindo um perigo novo. Caiem sobre as povoações e albergues como pragas de gafanhotos e atascam, em cachos, nos primeiros centímetros de areia como pobres aves canoras de asa derrubada!... e pasmam quando um pequeno colibri passa por eles esvoaçando... ou um pesado albatroz poisa, observa, e levanta voo com toda a naturalidade!...

CLICK PARA AMPLIAR Uma participante, atarefada com a pá nas mãos, ainda arranja humildade para perguntar ao Barão Vermelho: "onde é que se arranjam carros assim?!..."

Atraídos por esta afluência, os albergues e outros apoios mais rudimentares crescem como cogumelos após uma chuvada de verão, retirando ao percurso o encanto de isolamento de pelo menos algumas horas!...

A sensação do já visto retira muito do encanto a uma paisagem. Porém, aquela sensação de navegar livremente numa superfície plana, a perder de vista, como é o Lago Iriki, traz sempre um pouco de entusiasmo a um dia que poderia ser mais um cumprir de calendário.
Almoço em Foum Zguid e pista para Tata. A navegação à vista e a Michelin tornam-se impotentes para lhe encontrar o fio e põe-se mesmo a hipótese de voltar para trás.
CLICK PARA AMPLIAR Os heróis só existem em tempos de crise e como tal a hora do track tinha (aparentemente) chegado. O Unimog, que se movimenta melhor naquele inferno de calhaus no leito do rio em que a caravana se precipitara, vai em busca dele e lá do alto orienta o Barão Vermelho no melhor caminho para chegar lá. Mas!... ironia do destino!... descoberta a pista, muita gente já sabia antes que ela era ali!... e toma logo a dianteira para pouco depois a abandonar, por desconhecimento, e entrar de novo no alcatrão uns cinquenta quilómetros antes do termo. Tal como as anteriores, lanços desta pista encontram-se em preparação para alcatroar.
Mesmo assim, a aproximação a Tata, ao cair da tarde, é uma das mais belas recordações que pode guardar-se com o sol a produzir, nas vertentes da montanha, inflexões de tonalidades modeladas por uma neblina turqueza sobre um fundo avermelhado, de uma beleza indiscritível... que qualquer artista plástico clássico sonharia reproduzir nas suas obras e a que, nem sequer, as câmaras modernas conseguem fazer justiça!...
São sensações que marcam tão profundamente a natureza humana com traços que só a extinção das células apagará!... mas quando uma lua cheia, qual pérola adamantina, aparece a coroar aquela gigantesca tiara de rainha oriental... as próprias palavras deixam de fazer sentido perante o absoluto do êxtase!...

CLICK PARA AMPLIAR A distância do céu à terra é absoluta e pequena. Depois do sonho vem a realidade... e a Michelin tem um poder insuspeitado!... Os líderes servem-se dos heróis para atingir os seus objectivos... nunca os daqueles!... e, para isso, nunca lhes confiam o poder!...

Navegação Michelin por alcatrão até ao oásis de Tagmoute. A partir daqui a pista corta transversalmente a montanha do Anti-Atlas por um vale frondoso, onde o sol, a espaços, tem dificuldade em penetrar. O ribeiro bordejado de hortas e aldeias é uma coisa bela de contemplar no meio de toda esta aridez!... Finalmente, a pista trepa ao dorso da montanha, o vale fica lá, no fundo, serpenteando verdejante até se perder nas sua próprias contorsões... e, do alto, os picos nevados do Alto Atlas, a norte, saudam-nos como que numa miragem de sonho.

CLICK PARA AMPLIAR Desta vez a realidade é a constatação de que a passagem por uma pista estreita, alcandorada com pedras de ambos os lados, um pneu do Unimog não resistiu à pressão e necessita de intervenção. Em Taroudant, ponderadas as várias opções o carro 1 decide ir a Agadir proceder à reparação. Informa a caravana dessa decisão e ouve-se na rádio "o carro três acompanha o carro um a Agadir..." e, pouco depois: "o carro quatro também...".
O carro dois que já antes tentara uma alteração do itinerário aproveitou a boleia que vinha mesmo a calhar... o jantar nas tasquinhas do porto de Agadir trouxe um pouco de urbanidade a esta expedição essencialmente rústica.

A passagem do Tizi-n-Test consta de todos os roteiros como uma das mais belas paisagens de Marrocos e é uma das três passagens, por estrada, entre o norte e o sul do Alto Atlas. é mais uma pista alcatroada do que uma estrada mas nem por isso, o CLICK PARA AMPLIARalcatrão, lhe retira o encanto. Este é ampliado quando uma caravana de burros sobe a montanha por caminhos quase a pique conduzida por mulheres e crianças que entoam uma melopeia curiosíssima que em nada se assemelha às características músicas árabes.
Já na descida, a norte, a mesquita de Tinmel é lugar obrigatório de peregrinação. Foi fundada no lugar onde foi sepultado Ibn Toumert, que iniciou a revolta contra os Almorávidas e é considerado o fundador da dinastia Almohad cuja influência se estendeu da áfrica do Norte à Península Ibérica, incluindo Portugal, no século XII.
Esta é também a primeira oportunidade para testar extensivamente um track desenhado na carta de satélite quanto à sua exactidão no terreno, o que até aqui só pontualmente acontecera. Por outro lado, as zonas de montanha são as mais problemáticas de interpretação já que parte do traçado cai fora da linha visual da objectica mas, surpreendentemente, a exactidão obtida é suficiente para uma navegação segura!...

CLICK PARA AMPLIAR Marrakesh é a Jemaa el Fna e o seu apêndice: a medina. Tal como as pistas, esta também já não é o que era dantes. Aquele lugar em que, de repente, se entrava num mundo fantástico completamente estranho, como que num sonho real, vai desaparecendo à medida que os actores e os espectadores vão mudando. Aos encantadores de serpentes, contadores de histórias, lançadores de sortilégios, tocadores de rebab vão-se sucedendo os jogos insípidos com garrafas de coca-cola e os músicos tradicionais são substituídos por aparelhagens de má qualidade vomitando, em som ensurdecedor, melopeias que arabizam o pior da cultura americana!... onde os basbaques formam multidões semelhantes às que antes se viam à volta dum contador de histórias. Nas costas dum destes grupos impressiona, na penumbra da noite, uma figura pequena, ressequida, sem idade, com a sua barbicha em bico, relegada para a periferia, debaixo do seu tarbouche e enfiada na sua dgellaba... toca monocordicamente a sua rebab para uma multidão imaginária que só ela vê, alheia a todas alterações que entretanto se deram e das quais não se apercebeu.
Faz lembrar uma daquelas lojinhas velhas de bairro que vende preciosas antiguidades que ninguém quer à porta do hipermercado!... mais além, uma outra, inconformada com a concorrência faz um pouco mais de espalhafato com o arco mas com o mesmo resultado... ficando assim longe da quietude mística que a primeira figura inspira!...

CLICK PARA AMPLIAR O Alto Atlas, nevado, acompanha-nos, longínquo, à direita. O track orienta-nos a caminho das Cascatas do Ouzoud. Apesar de muito conhecidas e algo frequentadas, vale a pena visitar esta fractura natural com vistas de grande beleza.
O acesso a Zaouia Ahasenal faz-se, necessàriamente, por pista a prtir de Azilal. O track, que nos orientara até aqui, vai agora revelar-se de uma utilidade absoluta. O caminho é desconhecido dos participantes e esta é a hora da verdade. Os navagadores à vista/Michelin saíram mais cedo de Marrakesh e só nos resta alcançá-los.
A pista, de pouca dificuldade, sobe o dorso deste gigante de espinha gelada. A navegação pelo track, mesmo por caminhos desconhecidos, não apresenta dificuldades dada a sua exactidão. A atenção vira-se agora para a altitude atingida, frequentemente, lembrada na rádio... e, por volta dos 2700 metros, o gelo brinda-nos com a sua aparição!...
CLICK PARA AMPLIAR Passara um limpa neves que deixara à nossa direita uma falésia branca de cerca de metro e meio de altura mas, mesmo assim, a pista alcandorada no flanco da montanha, o piso estreito, molhado e com zonas de placas vidradas tornam o espectáculo de encantador em algo inseguro. O Unimog avança ligeiramente em diagonal relativamente ao eixo da via inclinada para a vertente. Com o avanço lento o sol parece apressar-se a caminho do horizonte e deixa-nos dentro duma obscuridade crescente ainda dentro desta zona problemática, quando na frequência surgem pedaços de modulação dos dois carros que, supostamente, iriam à frente. Afinal estavam perdidos. A pista que seguiram não tinha continuidade e iam voltar a Azilal para apanhar a nossa. "... não!... não façam isso!.... hoje... é muito perigoso para fazer de noite sobretudo pelo carro com pneus de estrada!..."

CLICK PARA AMPLIAR A modulação é entrecortada por momentos de ruído... silêncio... palavras soltas... e finalmente perde-se sem sabermos se tinham copiado as informações transmitidas. Noite fechada, perdem-se todas as referências visuais. No ecrã dos GPSs, agora objecto de todas as atenções, o track continua com fidelidade espantosa a tranquilizar-nos quanto ao nosso destino. Este é atingido mais tarde depois duma descida com curvas em tesoura onde é preciso, de quando em quando, fazer manobra sobre uma falésia alcandorada no escuro de profundidade desconhecida.
Na descida, numa dessas curvas recorta-se no escuro uma silhueta no meio daquele nada. Era um funcionário do albergue de Zaouia que nos avistara no alto da montanha e viera ao nosso encontro para indicar o caminho.

O acesso a Zaouia, de noite, para um veículo pesado e um condutor cansado, é tudo menos fácil mas quando se tem de passar por ruas estreitas, entre paredes, em curva, e fazer manobra em tal lugar sobre uma falésia de altitude desconhecida, raia o esforço sobrehumano que traz à rua toda a população, apesar do adiantado da hora, como se um OVNI tivesse ali aterrado!... CLICK PARA AMPLIAR Durante o jantar frugal, o estalajadeiro informa-nos com alguma emoção que no dia seguinte vai viajar. A Azilal!... a última povoação por que havíamos passado!... o que nos dá a ideia da distância a que esta povoação fica da civilização!... em pleno sec XIX!... mas foi também aqui que tivemos outras (agradáveis) surpresas.
"... não!... não é preciso guarda... aqui ninguém mexe em nada!..." respondeu-nos à pergunta de guarda para os carros.
De manhã, do alto do rochedo, a povoação emerge como um pigmeu frente ao grande rochedo da montanha sobranceira na qual o sol nascente desenha cambiantes de arte efémera que só a natureza sabe produzir!... e a outra surpresa espera-nos junto aos carros.
Com natural curiosidade as crianças aproximam-se mas não são aquelas crianças pedinchonas, desabuzadas e confrangedoras do "cadeau... cadeau... stilo... stilo!..."
A sua dignidade ombreia com a sua curiosidade natural de crianças e ficam realtivamente surpreendidas quando puxamos do saco dos rebuçados para oferecer que, mais uma vez , aceitam numa postura ordeira não usual em Marrocos.

CLICK PARA AMPLIAR Através duma beleza, às vezes, estonteante, a pista apresenta troços de duvidosa consistência para um veículo não standard. Para além deste aspecto o encantamento dura tanto quanto a extenção da montanha.
A meio da manhã surge, de novo, na frequência a modulação dos participantes perdidos no dia anterior:Tinham atingido o alto da montanha e a partir daqui a comunicação, ainda com perdas, começa a ser, cada vez, mais clara. Ao almoço juntam-se-nos. Tinham dormido em Azilal. Partem à frente ao seu ritmo.
Ao fim da tarde, na monotonia do alcatrão atinge-se Khenifra.

A partir daqui o itinerário diverge para a costa atlântica mas o carro 1 fizera saber, atempadamente, que tencionava seguir para Meknès. Dada a coesão, a solidariedade, a entreajuda, a comunhão de interesses e mesmo uma certa cumplicidade nas pequenas coisas mas igualmente importantes, os carros 3 e 4, à semelhança do que já vinha CLICK PARA AMPLIAR acontecendo desde Taroudant, juntaram-se-lhe.Uma volta pela floresta dos cedros, no Médio Atlas, permite a visita às nascentes do Oum-er-Rbia, almoçar num lugar paradisíaco antes de atingir Meknès onde a recepcionista do luxuoso Zaki tem dúvidas na capacidade de seis inergúmenos, sujos carregando muchilas imundas, para solver o seu compromisso. O ar hilariante e sentido de humor que reina leva-a, contudo, a conceder mesmo um desconto. Ao folhear os passaportes, repletos de carimbos e vistos, deve ter mudado de opinião!...

Os nossos amigos tinham rally no Algarve. O carro 1 não tinha pressa. A despedida deixa aquela sensação de perda de algo único que não volta a repetir-se. Os últimos quatro ou cinco dias tinham sido uma experiência grupal bem sucedida, fenómeno gratificante e tão raro como aquele outro sentimento maior que raramente acontece na vida de algumas pessoas. Obrigado amigos por esta oportunidade!...

Lisboa, Abril de 2005



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