COSTA RICA
COSTA RICA



Viagem ao paraíso possível!... com passagem pelo inferno.

LOCALIZAR Auto-intitulam-se orgulhosamente de TICOS, são simpáticos, acolhedores e vivem no país das maravilhas... pena é que para alcançá-los tenhamos que tocar os domínios de Frankenstein!... de quem são súbditos fiéis!...

CLICK PARA AMPLIAR O País das maravilhas fica a sul do Trópico de Câncer numa zona de forte incidência de luz cuja intensidade e inclinação dá às coisas volumes e tonalidades diferentes daquelas situadas mais a norte. O calor e humidade daí decorrente dão à natureza uma exuberância fascinante e às gentes um carácter de quem vive em permanente contemplação da beleza.

É atravessado obliquamente por cadeias de montanhas coroadas por uma fila de vulcões, activos ou adormecidos, nas faldas dos quais existem, felizmente ainda, as mais belas florestas do mundo!... com quedas de água, animais únicos uns, raros outros, todos ameaçados e alguns em vias de extinção!...

Protege 25% da sua área territorial e desenvolve verdadeiros esforços de conservação numa luta desigual entre esta e os interesses económicos degradantes...

Deambular por ali, por caminhos de terra batida, escarpados, aos solavancos ou calcorrear trilhos de montanha por montes e vales, atravessando ribeiros saltando em pedras que fogem debaixo dos pés dentro de florestas impenetráveis, é experiência extenuante de reconforto... e, só por si, compensadora de todo o desconforto sofrido para alcançá-lo... sobretudo se, mesmo contra-vontade, sem tiver que tocar um país chamado USA.

O voo da Ibéria de Madrid para San José não é directo. A escala em Miami é um verdadeiro exercício de nepotismo, achincalhamento, humilhação e terror para alguns passageiros que nem sequer tinham intenção de tocar aquele país!...

Contra toda a lógica, bom senso e economia de meios, os passageiros em trânsito não ficam numa área reservada neutra e são forçados a proceder a todas as formalidades de desembarque e reembarque deambulando entre terminais distantes no curto espaço duma escala... e, é aí, que toda a Odisseia começa!... esta pior que a de Ulisses pois não acontece pela força do destino ou por castigo dos deuses ou titãs em luta pelo poder servindo-se de pobres mortais, mas sim por castigo de homenzinhos envolvidos na mesma tarefa!...

CLICK PARA AMPLIAR É esta a maneira que estes homenzinhos têm de violar a liberdade e mesmo a intimidade corporal das pessoas, num esforço que tem tanto de intrusivo quanto de patético, para controlo do mundo inteiro indivíduo-a-indivíduo!... Basta que, por motivos comerciais, um avião toque solo americano para que se sintam no direito de controlar pessoas a que de outro modo não teriam acesso numa paranóia securitária que conduz ao paradoxo de em nome da liberdade restringir abusivamente o seu exercício num recuo de séculos ou mesmo milénios com recurso a métodos intimidatórios e repressivos que repugnam à consciência moderna!...

Apesar das reservas, ou mesmo objecções, à organização social, partilha do bem-estar, administração da justiça ou igualdade de oportunidades a milhas do minimamente desejável!..., a UE é, parece, neste momento, o espaço de maior liberdade no mundo!... do qual os EUA se afastam progressivamente recuando a um passado que já perde a Idade Média de vista utilizando, paradoxalmente, o seu potencial tecnológico para atingir esse objectivo de regresso social.

Orwell, visionário faccioso, acertou na sua visão dum Big Brother (até na língua que ele utilizaria!...) mas colocou-o na pátria errada!...

Esse Big Brother, na forma cibernética escondida, já é conhecido há muito tempo!... (Echelon) mas agora, em nome da liberdade, assume-se social e administrativamente contra ela.

CLICK PARA AMPLIAR Percorrem-se longos corredores solitários e "transporters" onde temos a certeza de não estar sós, a correr (parar é acto suspeito!...) até às cabinas de controlo, noutro terminal, onde policias grotescos, arrogantes insultam os passageiros como criminosos pelo simples facto de estarem ali, mesmo contra-vontade.

À terceira tentativa, os formulários, idiotamente concebidos, com repetições patéticas dos mesmos dados e com uma lógica, no mínimo, discutível, são rejeitados sem mais explicações, depois de se ter esperado religiosamente junta da passadeira vermelha estendida no chão e dentro da qual não pode estar um milímetro da biqueira do sapato!... (isto é que é segurança!...)

A funcionária da transportadora, diligente e enquadrada, resolve o problema de uma maneira simples: basta a pessoa renunciar ao seu nome e chamar-se como americano quer!... simples!... mas... e o passaporte?!... esse já está preenchido e nem sempre para agradar a americano!...

O homem folheia-o, mete dados no computador... volta a folhear... volta a meter dados e... aparentemente... a imaginar pelo seu ar carrancudo... este não lhe está a responder a contento. Agora folheia de trás para a frente e da frente para trás... mete mais dados... muda de terminal... e... aparentemente nada!....

Os colegas, impedidos de esperar, desaparecem no labirinto de salas, átrios e corredores para voltar ao mesmo terminal e embarcar...
CLICK PARA AMPLIAR Os minutos passam. Muitos!... longos!... nesta altura já tinha percebido o problema do homenzinho mas não tomei a iniciativa. Não queria dar-lhe a vantagem de uma pergunta susceptível de ser redefinida como um sinal de ansiedade, medo ou culpa. Esperei a pergunta. Mas esta não vinha.

Estávamos num impasse com o homenzinho completamente embaraçado sem saber o que fazer. Após um longo silêncio de embaraço começa o segundo assalto...

Se a máquina não dá nada, talvez o suspeito, porque era disso que se tratava, já esteja psicologicamente debilitado para ceder ao interrogatório que permita a captura dum terrorista!... este, tinha tanto de infantil quanto de idiota e girava à volta de factos óbvios: o nome, apelidos, morada, data e local de nascimento, morada país mais uma vez de trás para a frente e de frente para tas... interpolados... repetição em tom ameaçador quando, por motivos de língua a resposta não era expedita... e nada... o embaraço persistia e eu persistia em não fazer a pergunta fundamental: " o que é que se passa?!..." que ele ansiosamente esperava.

Finalmente... o homenzinho decidiu-se a dar o último passo e a revelar o que tanto o preocupava... "o que é que você foi fazer a Marrocos?!..."

CLICK PARA AMPLIAR A resposta natural, justa e merecida era outra pergunta: "o que é que você tem com isso?!... sou um homem livre... vou para onde quero e não tenho contas a dar-lhe disso. A sua autoridade limita-se aos actos que eu praticar aqui no seu país, onde apenas vim por engano e onde não queria estar!..." mas não!... não foi essa a resposta dada!... Num pouco tempo, de longos minutos, um pacato cidadão, à beira da terceira idade, cuja folha de irregularidades não chega a meia dúzia de infracções de estacionamento, é transformado num perigoso suspeito de terrorismo só porque tem um carimbo de Marrocos no passaporte!...

Quem constrói estas ficções com tão pouco, construiria outras maiores com aquela resposta. A paranóia é uma doença psicológica, que pode ser colectiva, e consiste em construir fantasmas enormes a partir de pequenos estímulos reais!... para tornar visível aos não doentes o grande medo que causam!... D. Quixote, ao construir gigantes a partir de moinhos de vento, era uma personagem quase sã comparada com estes americanos!...
"... ah!... sabe!... tenho um Jeep Cherokee que é o melhor do mundo!... gosto de fazer todo-o-terreno e... não imagina!... como é deliciosos vaguear livremente pelas dunas do deserto do Sahará!... "

CLICK PARA AMPLIAR O rosto do homem esculpido a escopro e camartelo começa a iluminar-se... qual Miguel ângelo invisível desbastando-lhe as rugas, desfazendo expressão carregada de um bloco bruto de pedra para transformá-lo numa pietá!... que quase beatificamente diz ao entregar o passaporte: " boas férias na Costa Rica e bons passeios no Sahará..." coisa também rara naqueles funcionários duros que mais parecem uma personagem de Charlie Chaplin, nos Tempos Modernos, triturados entre as engrenagens duma grande máquina!...

Perdida a comitiva de vista, perdido naquele dédalo de corredores, átrios e elevadores, sem fio de Ariadne, continua o risco de ser devorado pelo Minotauro!... qualquer engano pode ser fatal!... intuição e acaso constroem o fio que conduz ao terceiro acto desta tragicomédia: o reembarque.

à primeira vista tanto pode ser um ritual no Templo de Baco como uma cerimónia de Vesta: pessoas descalças, semi-nuas, descompostas numa promiscuidade de idades, cores, nacionalidades e sexos dão os seus haveres, num ritual profano, à devoração do deus-máquina!... (quem disse que estava livre do Minotauro!...)

Este, insaciável como o outro mas menos selectivo (não come apenas virgens!...) devora tudo: roupa suja, lavada, máquinas, ferros, cintos, fivelas, sapatos!... mas, paradoxalmente, parece não gostar de meias!... só come os sapatos!... (não será por causa do xulé!... mistérios profanos!...) e, de tudo isto, só excreta uma imagem virtual com que os seus tratadores parecem satisfazer-se!... e o meu canivete sobrevive à terceira depuração!...

CLICK PARA AMPLIAR Vinte e seis horas de tortura que separam Lisboa de San José são o preço duma ida ao paraíso possível!... mas como ensina a catequese mais escatológica os caminhos que aí conduzem não são os mais fáceis nem os mais bonitos!...

A entrada não apresenta qualquer dificuldade já que, segundo o meu passaporte ainda estou nos EUA !... (com carimbo de entrada, autorização de estadia de 90 dias e sem carimbo de saída... - é assim o colonialismo moderno!...)

San José, tal como Lisboa, só é bonita vista de cima à distância a que não se veja o lixo e a miséria!...

Contudo, apesar dum certo ar de terceiro mundo no tipo de construção, San José ganha a Lisboa naquelas duas variáveis. Vista da montanha de Escazú, a cidade, o Vale Central e a cordilheira do mesmo nome, em frente, onde se situam os vulcões Barva e Poas cobertos de nuvens nas quais o arco-íris descreve decomposições cromáticas caprichosas, é uma sensação inolvidável!...

À lupa, San José, é uma cidade diferente. O terceiro mundo parece reticente em afastar-se apesar do puxão para a frente nos preços!... As suas marcas são ainda muitas que as tentativas de clonagem do modelo americano não conseguem esconder. A moeda oficial é o Cólon, a moeda real é o dólar presente em todos os preços que, só a pedido, serão convertidos em moeda local. Mais submissão?!.... impossível!...

CLICK PARA AMPLIAR Elogia-se a Costa Rica pelo facto de não possuir exército e, assim, canalizar esses recursos para a saúde e a educação. Sem negar o seu avanço, relativamente, à região, a realidade parece ser outra!... Com tal fidelidade ao dono!... de quem precisa defender-se?!... onde até o euro, actualmente, a moeda mais forte, é um ilustre desconhecido, que, para trocá-lo, nos poucos bancos que o aceitam, o passaporte é sujeito a um escrutínio mais severo e demorado que na alfândega dos Estados Unidos!....

Mas a verdadeira Costa Rica, a das gentes, da natureza exuberante, das florestas, das montanhas, dos parques naturais (ainda que em grande parte propriedade americana!...) é outra realidade!...

O verdadeiro encanto da Costa Rica cresce à medida que nos afastamos de San José... subindo a Cordilheira Central. A cada recanto, curva da estrada ou subida de uns metros novas maravilhas se desenham numa natureza pródiga com um recorte geomorfológico que faz lembrar uma Suiça mais quente e com uma vegetação muito mais bela, variada, exótica e prolífica.

Estamos a mais de dois mil metros de altitude e a natureza, das ervas às árvores, das flores aos frutos é de uma abundância e frescura de um gigantesco jardim... a textura dos caules, a disposição dos ramos, a forma das folhas, a fragrância das flores arrancam exclamações de surpresa e encantamento sucessivas!...

CLICK PARA AMPLIAR Começam as primeiras tentativas de identificação do Guanacaste, símbolo fitológico da Costa Rica... mas fácil!... fácil!... mesmo que nunca visto antes ao vivo... é identificar o café!... que além do seu agrado para o paladar é um encanto para os olhos!...

Fácil também... mesmo sem placas indicadoras é identificar Zarcero, cujo jardim temático é uma das atracções locais.

De encantamento em encantamento atingimos Fortuna nas imediações do vulcão Arenal que não se deixa ver devido ao tempo nublado e chuvoso. A estrada rodeia a montanha da qual se avista apenas o sopé. Na tentativa de encontrar uma aberta afastamo-nos para além das nascentes quentes de Tabacón até junta da laguna Arenal que se estende por uma vasta área até acima de Tilarán. Neste percurso, de primeiro contacto com floresta exuberante tem-se o baptismo zoomórfico costariquense: um pizote vagueia tranquilamente pela estrada, deixa-se mesmo aproximar sem que isso lhe cause qualquer susto ou estranheza!... depois outro!... e outro!...

O aproximar da noite dita o regresso para busca de acomodação na esperança de melhoria do tempo para ver o vulcão mais famoso da Costa Rica.

A manhã surge, no ressort simpático que escolhemos, mas o tempo não dá sinais de melhora e o Arenal e as suas vistosas correntes de lava continuam mergulhados no mistério das nuvens que os cobrem de alto a baixo. Há quinze dias que assim está.

CLICK PARA AMPLIAR Rumo a Caño Negro, no norte, junto à fronteira com a Nicarágua. O seu Refúgio da Vida Selvagem é considerado um dos mais ricos, preservados, menos conhecidos e frequentados da Costa Rica. A distracção, ausência ou pequenez da placa de sinalização na estrada, leva-nos a Los Chiles, povoação periférica remota, quase fora do tempo que nos causa uma sensação estranha.

Contudo, um percurso de barco no Rio Frio que também banha Caño Negro oferece-nos o primeiro e grande contacto de natureza. Da sua riquíssima fauna pudemos observar em seu habitat natural, numerosas espécies completamente desconhecidas. Não é todos os dias que se vê uma garça tigre imperturbável na sua actividade, uma das várias espécies de patos a secar as asas ao sol ou batendo com um peixe, acabado de pescar, num ramo de árvore para o matar antes de ingurgitá-lo inteiro, uma raríssima garça rosada voando e tantas outras espécies em perfeita coabitação, enquanto algumas aves nocturnas dormem a sono solto completamente expostas num ramo de árvore!... há ainda, no pequeno espaço de alguns quilómetros, iguanas, caimões, pássaros de diversas espécies e cores fascinantes... monos de que quase só ouvimos os rugidos e os ilusivos macacos de cara branca que parecem jogar às escondidas connosco acompanhando-nos saltitando de ramo em ramo nas árvores, sempre a coberto de alguma folhagem!...

A tarde avança quando se atinge Caño Negro. Ainda é cedo para ficar e já é tarde para visitar. A busca de alojamento, sempre causadora de alguma ansiedade em território remoto, leva-nos até Upala. Fica por saber se a sua reserva traria algum valor acrescentado relativamente ao Rio Frio, o que, por si só, justifica um regresso!...

CLICK PARA AMPLIAR Cai a noite em Upala, terra de ganadeiros, no norte. Com a aproximação do Natal está animada. As cabinas Maleku são motivo hilariante devido às ressonâncias do nome!... Básico mas aceitável para a passagem duma noite a caminho do Parque Nacional do Rincón de la Vieja.

O caminho, cinco quilómetros acima de Libéria, na transamericana, passa por uma propriedade privada onde se paga, à moda medieval, uma portagem. As vistas sobre a montanha são esplêndidas, como esplêndida é a localização do Lodge. Situado na orla da floresta é um verdadeiro oásis de bem-estar!... básico... acolhedor... um encanto de enquadramento!... Tem o seu próprio trilho privado de floresta e as suas fumarolas.

Mas o grande objectivo é a subida à cratera do vulcão!... a ansiedade de observar um vulcão activo, ao vivo, é grande!... No registo à entrada do Parque o vigilante é peremptório: "...com este vento!... desaconselho vivamente a subida... há trilhos estreitos e escarpados... e os acidentes já têm acontecido... " para prosseguir: "... está tudo nublado e corre o risco de não ver nada lá em cima!... "

Oito quilómetros de distância, por trilhos escarpados, com um desnível de mais de mil metros... um dia inteiro de marcha... é de ponderar... apesar da frustração.

"... há vários circuitos interessantes... " continua enquanto nos mostra no mapa... e lá optámos pelo "sendero de Las Pailas", um giro de 4km sem dificuldades... interessante com os troncos de algumas árvores milenares(?!) verdadeiras obras de filigrana tecida com os milhares de lianas que ao longo dos tempos se foram ligando para formar um caule supletivo do original que há muito desapareceu consumido pela idade!... uma cascata interessante que dá o nome ao percurso... algumas passagens de ribeiros sempre hilariantes!... pouca fauna visível (muita audível!...). Após a sua presença ruidosa, o fugidio e desconfiado peru selvagem deixa ver-se por momentos por entre a folhagem densa!...

CLICK PARA AMPLIAR As fumarolas e as lamas fervilhantes abundam em crateras de vários tamanhos numa zona considerada perigosa.

A Costa Rica detém uma grande variedade de paisagens e climas numa pequena área horizontal devido às suas grandes variações de altitude. Aqui atravessamos floresta densa e savana com uma facilidade estonteante. Numa destas clareiras vemos a maior e mais bela iguana de todo o percurso. Pena que não tenha dado para recolher imagens dada a fugacidade da sua aparição!... enorme!... azul claro!... com uma crina crispada em serrilha até ao focinho... a lembrar épocas proto-históricas da evolução animal... recortando-se sobre um calhau negro de lava, acima da erva seca... numa visão rara que nos transporta, momentaneamente, para fora do tempo!...

De novo na floresta densa, deglute-se a merenda enquanto mosquitos pequenos, mas vorazes, nos deixam uma marca de sangue no sítio onde acabam de pousar!... o veneno, que largam, tivessem eles o dobro do tamanho, acabaria com uma pessoa!...

O sol ainda vai alto e a cascata da Cangreja é a opção natural, perdida a subido ao cume. Cinco quilómetros... duas horas de caminho na floresta. Aparentemente, sem ganhos em altitude é uma tarefa exequível... mas... ainda na primeira meia hora, a realidade mostra-se outra!... Os desníveis que temos que vencer para passar os rios e desfiladeiros somados dariam provavelmente a altitude do cume!... o piso irregular com desníveis consideráveis entre pontos de apoio tornavam alguns troços do percurso numa verdadeira acrobacia!... conseguida com o recurso a troncos, raízes e ramos de árvores para vencer esses obstáculos. Já sem a frescura da manhã, o esforço dispendido retira à atenção a disponibilidade para concentrar-se no motivo do percurso: apreciar a paisagem e observar os animais, agora quase inexistentes pela hora do calor!... a tarefa começa a tornar-se penosa!...

CLICK PARA AMPLIAR O relógio vai-nos dando a ideia aproximada do avanço mas até este parece apostado em dificultar-nos a vida!.... "...ainda é longe?!..."
"...não!... mais ou menos meia hora!..."
"... é bonito?..."
perguntamos, aos que regressam, em busca de compensação para o esforço dispendido.
"...sim... muito bonito!..."

A meia hora tinha a idade da pessoa que deu a informação!... e, contrariamente ao senso comum... há meias horas de vários tamanhos!... e a cascata linda parecia, paradoxalmente, caminhar à nossa frente apostada em não deixar-se alcançar!... numa tentativa de esgotar-nos o resto das forças que ainda restavam!.... agora para descer já não bastavam troncos e ramos... eram as raízes e as pedras que tínhamos que transpor que faziam simultaneamente de ponto de apoio dada a amplitude dos desníveis a vencer na irregularidade do trilho... as forças no limite... as articulações desconjuntadas... o pensamento... "como é que vou sair daqui?!..." marcava presença constante!...

O esgotamento retira metade da disponibilidade para contemplar um espectáculo verdadeiramente belo!.... A tarde avança... a estadia vai ser curta... esgotado o resto das provisões após o banho ritual rápido e ensaia-se o regresso.

Onde arranjar forças para sair deste buraco?!... CLICK PARA AMPLIAR

Este regresso já não é difícil, nem sequer penoso... é um esforço arrastado, para além do limite... nunca antes experimentado... mas havia que sair dali antes que caísse a noite!...

é Natal, apaziguado o cansaço!..., passado no lugar mais encantador do mundo, mesmo que um escorpião se tenha passeado paulatinamente pela coberta da cama na noite anterior!... o entardecer oferece-nos um espectáculo feérico de luminosidade de beleza rara!....

à semelhança dum ser vertebrado, a interamericana funciona aqui como a coluna vertebral deste país... quase tudo depende dela... quase tudo se articula nela!... rumo a norte, a cordilheira montanhosa de Guanacaste acompanha-nos, à nossa direita, até ao Parque Nacional de Santa Rosa, à esquerda, entre esta e o mar.

O Rio Frio e o Rincón eram etapas difíceis de superar!... e este Parque não conseguiu essa proeza. Mal explorado, só fizemos o trilho do índio, forneceu, ainda assim, o melhor exemplar de peru selvagem de todo percurso!... bem como outros espécimes raros... O nome do trilho vem da abundância duma árvore, que já nos intrigara antes, a que chamam de índio Desnudo devido à sua textura estranha... de cor semelhante à pele de índio e que esconde um curioso segredo de sobrevivência!... a pele descasca-se (desnuda-se!...) e, por baixo, aparece uma textura herbácea verde que exerce a função de fotossíntese da clorofila assegurando a sua sobrevivência sem folhas!... mas as surpresas da sobrevivência não ficam por aqui neste bosque. Apesar de não ser uma floresta húmida, a hipífitas existem, criando problemas de sobrevivência às hospedeiras com menos abundância de nutrientes em suspensão!... O medronheiro resolve este problema apresentando-se, em toda a extensão do seu tronco e ramos com o aspecto, textura e consistência duma árvore seca onde nada se pega, destacando-se, completamente limpo no meio de toda aquela confusão vegetal!...

CLICK PARA AMPLIAR Um pouco mais a norte, o Golfo de Santa Elena, é a última atracção antes da Nicarágua. Inexplorada, é, à semelhança de Los Chiles, um lugar remoto mas sem os turistas que ali já afloram. Uma reentrância do Pacífico recortada entre montanhas onde os pelicanos cinzentos quase rivalizam com as gaivotas da Berlenga, ganha em beleza pela exclusividade do usufruto!... devemos ser os únicos visitantes e dos raros que por ali se perdem!...

De Libéria, na inevitável interamericana, parte o acesso mais viável para as praias na orla do Pacífico. O mais directo conduz-nos surpreendentemente a uma espécie de Algarve de há trinta anos!... a praia e povoação de Cocos têm o mesmo aspecto subdesenvolvido (em vias de...) de uma qualquer povoação algarvia de há décadas onde é fácil adivinhar que os mesmos erros se vão cometer e os mesmos problemas aparecer!...
Há excesso de tudo... gente de porte duvidoso, piroseira, poeira, confusão, má qualidade da construção aos serviços, preços acima do valor real das coisas!... para uma única coisa boa: a orla marítima!...
Apesar disso o majestoso e enorme pargo grelhado do almoço, num restaurante com uma vista soberba sobre o mar, representa uma variação numa ementa um pouco rotineira até então... mas a natureza, mestra de todos os equilíbrios, até nisto nos desvela essa qualidade: os peixes de água quente perdem em sabor o que ganham em beleza e tamanho!... quando comparados com os de águas temperadas.

CLICK PARA AMPLIAR Estamos na época da desova da tartaruga Baula, um gigante que chega a atingir metro e meio de comprimento para os seus trezentos quilos de peso nos seus vários séculos de vida!... O parque onde o faz fica do outro lado do rio para norte da praia de Tamarindo. Esta, mais famosa que a de Cocos amplifica na mesma proporção os problemas daquela. Por isso mesmo, a pernoita ali é posta em causa... "...há uma praia mais próxima..." comenta-se enquanto se consulta o mapa... "...a Praia Grande... pode ser que lá seja melhor!..."

Rumo à Praia Grande. A direito não são mais que três a quatro quilómetros!... pela estrada... com maus pisos... contornando montes e vales..., algumas dezenas!... Ali!..., desde os lugares que não há nos hotéis mas... depois lá se arranja!... aos preços que de oitenta dólares que caiem para trinta!... há de tudo menos lugar nos grupos organizados e controlados oficialmente, para assistir à desova.

Regresso a Tamarindo. A noite cai. O hotel especulativo lá nos arranja quarto... mas lugar para o raid nocturno não há!... a esperança começa a desvanecer-se... "...nada a fazer!... o processo é controlado... ". os grupos estão todos completos..." Insiste inflexível o recepcionista.
"... e se houver desistências?!... avisam-nos?..." uma luz parece acender-se no cérebro da criatura, até ali completamente apagada. Esboça um ar de surpresa como quem acaba de descobrir o Novo Mundo!... pega no telefone e fala... "...afinal sempre se arranja... estejam aqui às onze horas..."
A travessia do rio completamente às escuras tem o seu quê de fascínio insólito de clandestinidade!... agrupamos na margem, formatura em colunas e marcha militar silenciosa em clima de emboscada!...

CLICK PARA AMPLIAR A passagem formal pelo posto de controlo tem o seu quê de farsa pois só se inscrevem pessoas até ao número estabelecido de visitas. Na escuridão e provável vista grossa dos controladores os que estão a mais passam despercebidos!....

A vítima, uma bisarma óssea descomunal já tinha aberto uma cratera de vulcão na areia dentro da qual depositava os seus mais de sessenta ovos desta postura!... iluminada por uma lanterna vermelha só do meio para trás parecia imperturbável com a presença de mais de vinte pessoas situadas religiosamente aquém dessa linha. Flashes absolutamente interditos sob pena de perda da câmara!... imagens impossíveis!...

Vêm de dois em dois anos, depositar de quinze em quinze dias, de sessenta a oitenta ovos, de meados de Outubro a Fevereiro.

As poucas sobreviventes desta enorme fecundidade voltam ao fim de doze anos repetir, durante a sua longa vida, o ciclo das suas progenitoras.

A Costa Rica parece ter com a natureza uma relação diferente da europeia. Nikos Kazantzaki escreveu que na sua Creta natal as pessoas tinham com os pássaros uma relação feita com a barriga. Quando viam um pensavam em comê-lo. Também me é familiar essa relação de infância e juventude mas mais... se uma lebre ou uma perdiz era para comer..., uma cobra ou uma aranha era para matar!... como se só houvesse lugar para uma espécie na terra!...

CLICK PARA AMPLIAR Aqui convivem paulatinamente pessoas e animais, alguns aparentemente repelentes, sem essa relação de antagonismo, apesar do seu estádio de desenvolvimento ser semelhante ao europeu de algumas décadas, onde a abundância alimentar era menor e as necessidades de sobrevivência poderiam ditar esses comportamentos!...

Aqui já vimos pizotes selvagens que não fogem ao ver-nos, antes se nos aproximam submissos, lagartos que impavidamente comem as suas folhas, esta ardilha que parece exibir-se comendo o seu fruto ou este lagarto gigante, na soleira duma porta, que se deixa fotografar, em pose, qual estrela de Hollywood!...

Atravessa-se a península de Nicoya numa natureza sempre exuberante mas já lugar comum, a novíssima ponte, atracção no extremo norte do golfo do mesmo nome, e a sempre omnipresente interamericana para alcançar a Reserva Natural de Monteverde e o seu famoso Bosque Nubloso. O acesso norte, por Juntas, faz-se por uma estrada de montanha com panorâmicas tão fabulosas sobre o golfo e a península quanto a irregularidade e mau estado do piso, atinge Santa Elena, porta de acesso a Monteverde. A pequena povoação é uma aberração de cosmopolitismo, repleto de turistas, amalgamado num terceiro mundismo que não consegue disfarçar!... tem juntas as duas pragas da fama: excesso de gente e falta de infra estruturas!... o que não espanta pois é para aqui que convergem todas as excursões que demandam a Costa Rica!....

CLICK PARA AMPLIAR Tem, no entanto, atracções que justificam a demanda. Para além do famoso Monteverde ali ao lado, a sua própria reserva, bem como as vizinhas Sky Walk e Sky Treck aliados à proximidade a S. José, são motivo suficiente para essa demanda. A primeira oferece-nos, finalmente, o baptismo de vulcão, ainda que visto a distância considerável!... envolto num capuchão de nuvens, o Arenal, a nordeste,começa a deixar adivinhar uma surpresa... e, após longos minutos de espera, o deus lá deixa adorar. O capuchão ora se desvanece ora se desloca permitindo algumas visões extraordinárias!... mas de lava que corre na vertente norte, nem vislumbre!...

O Sky Walk é um caminho numa floresta fabulosa apenas imaginada nos contos de fadas!... e oferece a perspectiva mais abrangente e variada duma floresta húmida exuberante... Possui uma série de pontes pênsil que atravessam desfiladeiros profundos possibilitando-nos, em poucos metros passar do nível do chão coberto de líquenes, à altura dos trocos e axilas das árvores cobertos de musgos que alimentam verdadeiras plataformas de hipífitas, à altura das copas e à visão da floresta por cima, às vezes, a alturas consideráveis!...

Apesar da sua fama, Monteverde não traria qualquer valor acrescentado ao já visto!... não fora a sua flora com flores selvagens com tanto de raro e estranho como de belo!... ou a vista do único quetzal, ave em vias de extinção, no seu habitat natural... ainda que apenas conseguido à custa do telescópio do guia!...

CLICK PARA AMPLIAR O projecto começava a entrar em franco desacordo com o tempo e nestas disputas sabe-se sempre quem ganha!... O Arenal deixara um sabor a pouco e, de vulcões, estava-se ainda quase em jejum!... Aproximávamo-nos de S. José e, nas imediações o Poas era a eleição ideal. As multidões eram, aqui, inevitáveis mas, mesmo assim, a Costa Rica reserva-nos quase sempre uma surpresa agradável. Este parque, de vegetação de pequeno porte, tipo mediterrânico, completamente diferente dos anteriores alberga, para além duma larga variedade de flores silvestres, a maior planta herbácea conhecida, cujas folhas, com mais dum metro de diâmetro, lhe granjearam o nome de "sombrilla de pobre".
A cratera do vulcão é um espectáculo de respeitável beleza!... Toda a força telúrica ali está expressa nas marcas ainda bem vivas dessa violência deixando atrás de si uma paisagem de aspecto extra planetário cuja grandeza de mil e trezentos metros de diâmetro parece um pequeno ponto de 2574m de altitude na crosta terrestre!...

Mais acima, a Lagoa Botos, do nome duma tribo índia que ali habitou, resulta do enchimento duma velha cratera do vulcão, extinta, e a recuperação duma natureza pródiga torna-a um lugar mais natural atirando para longe a rudeza telúrica ainda bem viva na cratera mais abaixo!...

Nas faldas da montanha, as cataratas de La Paz, uma sucessão de rápidos e quedas de água, são um espaço de inegável beleza. Espaço privado, onde o cuidado posto no arranjo do conjunto é um exercício bem sucedido, vale sobretudo pela beleza da paisagem e pelas flores!...

A noite cai na montanha e com ela as nuvens descendentes a invadir as copas das árvores, a descer ao vale e a cobrir tudo com o seu manto de mistério, cria-nos uma sensação estranha de nostalgia fascinante!...

CLICK PARA AMPLIAR É Inverno na montanha!... choveu toda a noite... uma chuva miudinha, ininterrupta, acompanhada de algum frio desconfortável!... parece ter vindo para ficar!... a descida ao vale, um vale a mais de mil metros de altitude!..., mergulha-nos numa agradável primavera!... uma primavera de Ano Novo cujo deleite ainda perdura na memória sensitiva dum europeu a braços com os rigores dum Inverno frígido!...

Lisboa, Março de 2004



Apostilha 1


Tal como o cão que se arrisca a morrer para salvar a vida do dono como se ela fosse mais importante que a sua, as autoridades aeroportuárias da Costa Rica, usaram tanto excesso de zelo à saída quanta a falta dele à entrada!...

Depois de vários controlos, repetidos à exaustão, com vasculhagem de todos pertences dos passageiros, quando já caminhávamos para a manga de embarque, um funcionário excesso-zeloso aborda-me para fazer, ao que imagino, um controlo aleatório de rotina. Mas, em breve, me apercebo do contrário. Depois da vasculhagem minuciosa da bagagem, posto de mãos no ar, como se de um criminoso perigoso se tratasse, é-me feito um varrimento electrónico pela frente, por trás, debaixo das axilas, perineu, nos pés descalços enquanto os outros passageiros se encaminham para a cabine. Só depois da operação terminada perguntei: porquê eu?!... obtendo por resposta uma evasiva que nada esclareceu!... O meu passaporte com carimbos de Marrocos continuava a assustar americano mesmo à distância!... e, dono manda, lacaio obedece!...
Em mi-a-mi, como a tripulação espanhola lhe chama!..., a aprendizagem feita relativamente aos impressos deu frutos logo à primeira tentativa mas o Minotauro que engolia tudo, talvez já enjoado de engolir canivetes, regurgitou o meu que resistira estoicamente a todos as investidas!... lá ficou saudosamente... (A Bem da Nação)!... companheiro de tantas aventuras!...



Apostilha 2


Depois desta experiência, a América há-de ficar sempre bem longe das minhas escalas. Passa bem sem mim. Infelizmente eu não passo bem sem ela!... Como gostaria que o meu Jeep tivesse sido fabricado noutro país; o meu computador trabalhasse com um processador e programas produzidos por empresas doutra nacionalidade!... Porém, desde há muito que me apercebi de que a América tem tudo o que a humanidade conhece de melhor e de pior e que os autores de umas coisas nem sempre são os mesmos das outras e que só têm em comum o facto de viverem no mesmo país!...

Este é o pequeno consolo que pode tirar-se duma situação em que são os piores a deter o poder!...


Lisboa, Janeiro de 2004



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