|
RAID TAMBACOUNDA RAID TAMBACOUNDA
Uma Corrida Sem Vencedor!...
No princípio era o sonho!... e o sonho se fez miragem... e, finalmente, a miragem virou realidade!... uma viagem ao deserto... e a África!... ia, enfim, começar!..
O fim da tarde escura, já noite, de Janeiro albergava o sonho do "rendez-vous" em Algeciras. As equipagens iam chegando... faziam-se os primeiros contactos... observavam-se os equipamentos... os participantes... faziam-se as apresentações...
Era extra-oficial esta reunião. O raid começaria no dia seguinte em Essaouira... que ficava só a oitocentos e tal quilómetros dali!... comentava-se... parecia um pouco excessivo para um dia em que havia de passar-se no barco e fazer as formalidades de fronteira com Marrocos!...
O percurso era de navegação livre. Quem quisesse poderia ter ido mais cedo, não se atribuía como grande falha de organização!... e o idílio continuava incólume!...
Devido ao atraso na fronteira e ao traçado e estado de algumas estradas, ao começo da tarde Essaouira ainda não passava duma miragem longínqua "avant la lettre!"... confundindo-se com o próprio deserto!... Havia que aproveitar as melhores oportunidades... até que, poucos quilómetros percorridos em auto-estrada, um braço no ar de alguém fardado a mandar encostar à berma.
"bom dia...""bom dia!... algum problema?!..." inquiri. "sim..." respondeu-me. E continuou: "rodava a cento e trinta e um quilómetros e o limite de velocidade é cento e vinte... os seus documentos, se faz favor... " . Entregues os documentos enquanto arengava algumas desculpas... que tinha entrado havia pouco na auto-estrada... que tinha sido uma distracção momentânea já que sabia que o limite era 120!... ao que ele surpreendido pergunta: "como é que sabia?!..." "informei-me... ...quando viajo para um país estrangeiro procuro sempre saber as suas regras e normas para cumpri-las... não quero ter problemas!..." expliquei. " a sua carta de condução?!..." Surpreendido por não estar com os documentos entregues, procurei junto dos que me restavam mas de carta de condução nada. Ia conversando enquanto procurava explicando que fazia parte dum grupo que ia fazer um raid... etc... etc... prolongando a conversa para encobrir o embaraço da sua falta. " a sua carta de condução?!..." insistiu.
Resolvi enfrentar a situação com honestidade sem inventar desculpas em respeito, não apenas por mim, mas também por ele!...: " bem!... parece que tenho aqui um problema grave!..." pausa, continuando logo depois: "a minha carta de condução deve ter ficado em casa!..."Uma volta ao carro, como que para certificar-se que tudo estava em ordem, algumas perguntas de circunstância para distanciar-se da resposta... estende-me os documentos, como se a não tivesse ouvido!... com o aviso: "não se esqueça que o limite é 120!... ... boa viagem." A cordialidade sempre informou os meus contactos, em situação de falta, ou não, com a polícia marroquina, sem jogos de poder, sem subornos!... de uma forma civilizada de fazer inveja à Europa onde tanto anseiam entrar!... Uma única vez, depois do perdão duma falta grave, me foi solicitado "un cadeau", não como suborno (a multa já estava perdoada!...) mas como recordação e tratava-se duma simples esferográfica!... "En route!..." Essaouira estava agora mais longe!... as aldeias sucediam-se... a tarde avançava... a noite descia... a estrada estreita de bermas partidas sem marcações, molhada, cruzada por pessoas, animais, veículos sem luzes ou com elas completamente desfocadas apontando em todas as direcções tornava o avanço penoso!... e os acidentes não se faziam esperar... Que sucederia a quem tivesse um, sem carta de condução em país estrangeiro e não encontrasse um polícia tão compreensivo?!... ou poderia o mesmo sê-lo em caso de acidente!?... No hotel o jantar, já frio, esperava e a cama, de lençóis húmidos, foi o conforto possível para a recuperação dum dia difícil.
Oficialmente, o raid começa ali. No dia seguinte, a circulação é livre. Com o Christian, o suíço, como lhe chamam os franceses, por morar na Suiça, fazemo-nos à estrada, após visita à cidade, por montes, vales, curvas e contracurvas pelas quebradas da paisagem semeada de "argan", a planta dominante na região, de folha de recorte miudinho e dum verde molhado fascinante!... atravessamos aldeias, divisamos paisagens incríveis, panorâmicas deslumbrantes, frequentemente, com mar à vista!...
Transposta a montanha, avista-se uma panorâmica fenomenal em encosta debruçada sobre o mar em quebradas serpenteantes ao fundo das quais se incrustam aldeias, a maior das quais, quase se confundindo com o horizonte ribeirinho, se vem a tornar Agadir!...
Após Tiznit o "road book" aponta para a pista que nos levará a "Fort Bou Gerif", local do acampamento berbere que nos espera para passar a noite. O sol já declina no horizonte e o piso acidentado retarda-nos a marcha. É o primeiro contacto com "off road ..." e, alguns quilómetros mais adiante, já com o entardecer a anunciar-se, numa descida acentuada, o primeiro acidente da caravana. Três participantes parados, um deles com um amortecedor partido!... A organização está fora do alcance rádio e a assistência parece já quase impossível!... a nossa aparição é um alívio!...
Marcado o ponto no GPS, partimos para avisar a organização. A distância a percorrer é ainda considerável... Escurece. A orientação por "road book" torna mais difícil a leitura dos sinais. O Christian na frente... avançamos, recuamos, giramos em círculos atravessando os precipícios mais incríveis, galgando ribeiros, trepando encostas... até descobrirmos que estamos completamente perdidos enquanto as horas tinham passado sem darmos por isso!...
Noite avançada, batemos à porta duma quinta(?!...) onde um guia, de ocasião, nos pede uma importância exorbitante para nos ensinar o caminho. Negociado o preço lá nos dirigimos a "Fort Bou Gerif" que já não fica longe!... Após alguns quilómetros, do alto duma escarpa avistamos luzes do outro lado do vale que nos fazem sinal. São os carros da organização que vêm em busca de retardatários!... O rio, de noite, com passagem a vau ao lado de pedregulhos enormes, mete algum respeito pelo desconhecimento da profundidade das águas!...
Esperam-nos mais de mil quilómetros através do Sahará Ocidental, zona de isenção de taxas para desenvolvimento de actividades e fixação de pessoas, para atingirmos a Mauritânia...
Tan-Tan com os seus dois camelos beijando-se... Laayoune, cidade nova com esplendor pouco comum em Marrocos e quilómetros e quilómetros duma paisagem fantástica de deserto, ora pedregoso ora liso, visitado por alguma manada de camelos, recortado pela desembocadura de alguns rios e salpicado de uns poucos povoados isolados, remotos que confrange pensar como se pode viver ali!... frequentemente no meio duma nuvem de areia... à direita sempre o mar ao fundo duma costa de recorte escarpado... à esquerda pivoteam as montanhas longínquas, as dunas prateadas debaixo dum sol ascendente, em contra luz, enchendo da fascínio misterioso um infinito fantástico!...
Igual a si própria a paisagem muda de tons com o girar do sol que vai despenhar-se, finalmente, num mar de fogo!... e a noite mais uma vez nos visita ainda em viagem. A paisagem desaparece engolida por uma escuridão na qual as luzes desenham um túnel luminoso para além do qual só existe o nada!...
O ponto GPS do acampamento ainda fica longe e o Christian, à frente, estica, após mais de uma dezena de horas de condução e muitas centenas de quilómetros percorridos, ansioso por chegar!...
Ainda Aurora dormia quando a caravana acorda!... algumas centenas de quilómetros a separam de Nouadhibou, na Mauritânia, com as formalidades de fronteira de permeio. Atravessamos Boudjour e deixamos Ad'Dakhla pendurada do seu nariz de pinóquio recortado sobre o mar prateado!... e paramos para atestar, principal e reserva, com isenção de taxas na área de serviço mais remota de todo este percurso!... ali, a sensação é de estar-se longe de tudo, num ponto no meio do nada!... mais de uma centena de quilómetros nos separando, ainda, de um nada muito maior!...
Se é difícil imaginar que o acesso a um país se faça por uma pista!... mais difícil é que essa pista seja quase inexistente!... num trajecto acidentado pelo meio dum mato desértico e pedregoso. Mesmo a consciência mais endurecida não escapa à dissonância cognitiva de enfrentar-se com o desolamento quase às portas do mundo, dito, desenvolvido!.... Junto ao que resta do que fora o "Fort Guergarat", resquício dos tempos da colonização directa, numa zona completamente inóspita situam-se os pardieiros que fazem de instalações fronteiriças. Uns tugúrios rudimentares feitos com aproveitamento do relevo do terreno, paredes de barro e pedras com coberturas desconchavadas albergam, num único espaço reduzido uma mesa sebenta, os restos duma cadeira, um catre esconso com uma enxerga imunda e esfarrapada e em cima de pedras ou no próprio chão cacos com restos de comida coberta de moscas..., são as instalações onde se atendem os clientes em condições menos salubres que os estábulos europeus de há trinta ou quarenta anos!.... Os funcionários andrajosos, num sítio onde só se veria água se ali chovesse, deixam-nos na dúvida se são mendigos empregados... ou funcionários mendigos!... e a angústia assalta-nos por mais insensíveis que sejamos. Como é isto possível no mundo actual!?... e se assim é com pessoas que têm um emprego, como será com as outras?!... como é isto possível aqui mesmo ao lado dum mundo que se reclama de defensor dos direitos, da solidariedade e da dignidade humana!?... defensor de quem!?...
Com a nossa parafernália mais parecemos um insulto do que um visitante para quem vive em tais condições!... e não escapamos à sensação de com uns poucos de tostões irmos comer aquele pouco que alguns nunca Verão na vida!... mas se não vamos até desses poucos tostões os privamos... recurso insuficiente para resolver os problemas dum país que quase só tem areia, pedras e pessoas, sem condições para receber turismo de massas e cujo futuro, como o de tantas outros, passa por uma nova ordem económica internacional diferente daquela que tem vigorado nos últimos cinquenta anos ditada pelo vencedor da segunda guerra do século passado que faz convergir para si todos os recursos mundiais para ressarcir-se das despesas feitas na Europa.
Esse esforço, louvável!..., já está mais que pago. Hoje já ninguém lhe deve nada na justa medida em que tem exercido uma verdadeira extorsão sobre o mundo inteiro a que suga todos os recursos numa forma de colonialismo moderno sofisticado com imposição das suas regras, que só cumpre quando lhe são favoráveis, sem ocupação militar efectiva, limitando-se a enviar os seus exércitos a impô-las apenas onde estas não sejam voluntariamente acatadas, alternando a técnica do gangster (cujos esbirros são o FMI, Banco Mundial, OMC, etc.!...) com a do salteador de esquina ( o cobre do Chile derrubando Allende; o petróleo do Iraque derrubando Saddam) com a cumplicidade dos lacaios europeus a troco dumas migalhas.
A situação económica e social da África, particularmente a do Norte, aqui às portas da Europa, é insustentável!... socialmente, a pressão demográfica ameaça a todo o momento romper todos os equilíbrios.
Pensar-se que com arame farpado electrificado (fronteira Ceuta_Marrocos), polícias, militares, espingardas, canhões e bombas vai conter-se a pressão demográfica, que é já explosiva em toda a orla mediterrânica, é fazer prova de ignorância não apenas da história mas sobretudo da natureza e da vida. A natureza não é justa mas... vinga-se sempre das agressões que lhe são feitas!...
Mesmo do ponto de vista tecnocrático dos exploradores, é evidente que é preferível criar condições para que estes povos vivam em condições condignas na sua terra a correr o risco duma nova era de hordas de invasões bárbaras (*) com rotura de todas as estruturas sociais e produtivas, o que de algum modo, por processo lento, já está a acontecer!... e, nem o Atlântico é suficientemente largo para contê-las. Se o fosse a América de hoje nem sequer existia!... Basta uma pequena brecha na ordem geral existente e na sua relação de forças para que esse processo se acelere a ponto de tornar-se incontrolável. Contudo, a América parece ignorar o dito de um dos seus presidentes de que pode enganar-se muita gente durante muito tempo, mas ninguém engana todos durante todo o tempo, ou a Inglaterra, tal como Henrique VIII, recusa ouvir o dito de Thomas Moro de não há nada mais perigoso do que um homem que não tem nada a perder.
Nouadhibou. O raid propriamente dito começa aqui. A etapa para leste, ao longo da linha do comboio mais comprido (vários quilómetros!...) do mundo que transporta minério (um dos poucos recursos da Mauritânia, para além das pescas, exportado em bruto sem qualquer valor acrescentado!...) desenrola-se num percurso misto de pista e dunas.Alguns espaços abertos e o prazer de evoluir sem restrições ao sabor das ondulações do terreno!... porém!... há sempre um porém... os carris e outras peças substituídas na linha e deixadas ao abandono cobertas ou semi-enterradas na areia são um perigo constante!... no mínimo de abatimento de peças à reserva de sobressalentes num raid que ainda agora começa!... As primeiras dunas... os primeiros atascanços... as primeiras aldeias e a primeira sensação de estarmos em África!... sem asfalto!... sem cidades!... as árvores raras e a paisagem quieta!... só a natureza em toda a sua dureza e esplendor!... A condução vertiginosa deixa-nos pouca disponibilidade para saborear tudo isto. Resta-nos espreitá-la pelo canto do olho dedicando toda a atenção ao piso... que a todo o momento pode esconder uma armadilha. As zonas de areia alternam com as de pedra e nestas, nem sempre, se evitam as agressões ao chassis!... a pista nem sempre tem um trilho bem definido e cada um escolhe, num relance, o melhor piso para passar!... até que, a dado momento... a viatura começa inesperadamente a saltar!... saltos cada vez mais altos e mais curtos de que resultam pancadas em baixo cada vez mais violentas terminando num voo e aterragem estrondosa lá adiante!... tal um atleta olímpico no salto em comprimento!... foi um momento!... intenso e violento de cortar a respiração e do qual nunca se sabe se se sai!...
... saiu!... e continua a rodar... nada no seu comportamento denuncia estragos significativos mas a dúvida agora é "como é isto possível?!..." e "...até quando?!..." (no interior a desordem é total desde a micro à macro estrutura. Apesar de amarradas, da bagagem e provisões nada estava como dantes e nestas últimas havia misturas inimagináveis pelo chefe mais criativo!...)
...até à noite no acampamento berbere junto ao monólito de Choum.
Ali perto outros monólitos recortam a sua silhueta no horizonte pálido duma atmosfera mística. O lugar de simbolismo sagrado alberga pinturas rupestres antigas e modernas: Em 1999 ali se reuniu um grupo de artistas internacionais que deixou na pedra as marcas da sua passagem.
Rumo a leste espera-nos a verdadeira prova de dunas. O grupo precedente levara nove horas para galgar uma distância de poucos quilómetros. Os franceses, já desde a véspera que olhavam e murmuravam com um misto de incredulidade e depreciação para o português e para a sua viatura sobrecarregada e de menor potência!... e este declarava-se principiante!... Eles tinham para além da sua experiência vários cursos de "quatre-quatre". Alguns mais prestáveis não se poupam a dar conselhos!... sempre bem-vindos!... e ao fim de três horas estamos do outro lado, incluindo o português, que se encontra entre os primeiros!... a prova de fogo está feita!... daqui para diante tudo será mais fácil!..., ...ilusão!...
Após as dunas a pista para Atar é extensa e mais uma vez a tarde avança mais rápida que nós!... velocidades de ponta de 120Km/h com aparecimento de obstáculos inesperados debaixo duma nuvem de pó branco que fica agarrado ao chão, em certos pontos, por um período prolongado não deixando ver a viatura da frente que, quando levanta, aquela já estava fora do alcance visual!... e às vezes sem referências da direcção a seguir!...
A noite desce mais uma vez antes de chegarmos ao destino. Na obscuridade crescente dentro de nuvens de pó o espectáculo é dantesco!... os faróis atrapalham mais do que ajudavam... e na pista não se vê vivalma!... os da frente desapareceram... os de trás descolaram!... Sem comunicação rádio resta o GPS.
À distância, avista-se, há algum tempo, uma falésia que cresce desmesuradamente com a aproximação!... agora já é um descomunal muro negro mergulhado no firmamento que parece querer romper o céu!... "Passe d'Aouinet" a sua subida. A pista de terra e pedras soltas, estreita e em curvas sucessivas, de visibilidade reduzida, muitas horas de condução exigente e cansaço... tornam este final de dia penoso!... o último, talvez!... isto não pode ser sempre assim!... é impossível!....
O desfiladeiro, qual boqueirão negro e incomensurável pronto a devorar qualquer presa descuidada, adivinha-se ali à direita com a sua grande bocarra aberta!... e as dificuldades do trilho acentuam-se à medida do avanço!... a ansiedade cresce!... e numa curva mais apertada... a viatura segue em frente deslizando sobre o piso solto!... é aqui!... acabou!... são os flashes de pensamento que surgem num instante enquanto salta de pedra-em-pedra com pancadas violentas sabe-se lá por onde!...
...nada a fazer... é deixar andar até que pare!... procurando apenas recuperar a direcção.
Ao fim de alguns instantes, encontra-se, como que por artes mágicas, na pista, de novo, a rodar e sem sinais de danos consideráveis!.... sem parar, segue-se viagem. O destino ainda está longe!...
"Chinguetti" atinge-se pela "Passe d'Amojar", feita de dia e por asfalto, pois a pista do "road-book" passando pelo "Fort Saganne" encontra-se impedida por deslizamentos de terras. Erguido numa paisagem desolada de cratera lunar!... o espectáculo que oferece é extra planetário!...
"Chinguetti" é um lugar lendário. Centro cultural e religioso no passado a sua fama e a sua mítica rivalizam com a da lendária "Tumbuktu" com quem partilha muitas das glórias históricas desta região!...
Há muitos anos que não vê chuva e o avanço das areias, à medida que empurra os habitantes menos perseverantes para a emigração..., aguça o engenho dos mais resistentes e fiéis à sua terra. As casas vão sendo acrescentadas em altura com a subida das areias a ponto de já igualarem a do minarete da mesquita, em tempos, a edificação mais alta da cidade!... numa espécie de sistema da vasos comunicantes em que ao mergulho desta corresponde imersão daquela!...Orgulha-se de ostentar aquilo a que chamam a biblioteca mais antiga do mundo num ambiente vetusto, a simular os tempos em que não havia ar condicionado e desidratadores, de poucas e estreitas aberturas para condicionar a entrada do maior inimigo dos manuscritos: a luz!... Acabamos de chegar!... dispersos... uns agora... outros depois... na sequência de mais uma condução vertiginosa em pista!... até que... a notícia corre... houve um capotanço!... vítimas?!... parece que não!... o suíço!... ele a esposa sairam pelo pára-brisas mas estâo bem!... Algum tempo depois, já depois do almoço, chegam enfim!... o carro anda mas está completamente amassado em toda a volta, sem vidros e a carcaça torcida. Põe-se a hipótese de continuar mesmo assim!... sonho que dura pouco. As portas não abrem dificultando o acesso aos haveres indispensáveis a uma viagem destas. Ficam... diligenciando o regresso.
E a caravana continua... por pistas de terra, pedras, pedregulhos, precipícios, desfiladeiros, rios e dunas numa sucessão vertiginosa derrapagens, sacudidelas, saltos e pancadas de esgotar as resistências das máquinas e dos pilotos!... pedras que espreitam sorrateiramente escondidas na areia ou se dispõem ostensivamente na pista no local onde podem fazer mais mossa!... são passadas com um sucesso de cortar a respiração!... enquanto que outras aparentemente inofensivas... batem estrondosamente como que a decompor toda a mecânica!... desníveis, rasgões, muros ou trilhos profundos no piso, passados sem fazer mossa, são vingados por outros dissimulados que nos fazem voar com estrondo!...
E a pergunta latente é sempre: "até quando vai isto durar?!..."
As etapas, longas, sucedem-se por pisos rochosos ou semeados de calhaus dispostos em cunha entremeados de dunas sobre pedras com ressaltos e passagens estreitas difíceis, onde é, por vezes, difícil descortinar o trilho, somando violência à já acumulada nos dias anteriores... os dias decorrem por paisagens fantasmagoricamente belas na sua rudeza!... dos planaltos aos desfiladeiros destes aos leitos de rios que há muito não vêem água... "bivouacs" em lugares incríveis!... ao anoitecer as fogueiras dão um toque ancestral àquela existência ao ar livre!... até que... um dia, transposto o dorso duma duna difícil... se avista a paisagem mais espectacular que um mortal pode contemplar!...
Chovera!... à nossa frente desenha-se um vale de pequenas árvores de copa achatada, maiores e mais densas no fundo, rareando e diminuindo de tamanho com a subida da vertente recortando-se sobre a colina de areia dourada, banhada de sol, com variações de tonalidade matizadas pela chuva que seca!... qual quadro, a um tempo, real, surrealista e "naive!"... estendendo-se em perspectiva sobre a direita perdendo-se no horizonte longínquo!...
Descer serpenteando este mar de ouro e embrenhar-se no sonho de fundir-se na fantasia deste cenário incrível!... é um dos raros momentos em que um mortal transcende a sua condição material e se eleva à condição de puro espírito!... só então se entendendo como é possível a um crente imaginar isto uma obra divina!...
Estamos em plena zona "Tuareg. "Não há povoações e as raras pessoas encontradas parecem brotar da terra de geração espontânea!... as poucas árvores de espinhos, carregadas de ninhos, sem folhas para poupar água na transpiração. Água?!... nem sinais. Pausa para almoço. De repente, surgidas não se sabe donde nem quando, duas crianças deambulam por ali. Não entendem uma única palavra limitando-se a sorrir e aceitar alguma comida e esferográficas de que não sabem servir-se. Chupam incessantemente um pedaço de ramo (ou raiz?!...) em busca de alguma hidratação!...
As pistas agora são mistas e sempre mais longas que dia para fazê-las!... à saída do leito dum rio que percorremos há horas, o guia engana-se e conduz-nos a umas dunas intransponíveis. O Daniel, um indivíduo com ar de gorila boçal e grosseiro, espeta-se de frente numa das poucas árvores ali existentes!... retirado da árvore com o para choques em V aberto verifica-se que nada de vital foi atingido e segue-se viagem invertendo o percurso em busca do caminho certo. À noite, no acampamento, comenta-se com comiseração sarcástica: O Daniel espetou-se mas felizmente a árvore não sofreu nada!...
Uma paragem em "Tidjikja" à beira do "oued Rachid" que nos serve de pista, para reabastecimento e continuamos rumo ao sul. Agora começamos a encontrar algumas aldeias e o deserto começa a ceder espaço à savana. Os primeiros embondeiros num planalto rochoso semelhante ao local onde se encontra a carcaça de um Pajero estampado numa das provas do Paris-Dakar.
Após "Kiffa", última povoação mauritana de relevo, e a passagem da fronteira com o Mali, encontram-se as primeiras aldeias de casinhas redondas cobertas de colmo e a sensação de estar-se na África real!... e a violência sobre as viaturas continua, agora com trilhos profundos dentro quais se exerce uma verdadeira pressão sobre as direcções, uma das quais cedeu com rebentamento dos tubos, e cujas saídas acidentais provocam verdadeiras piruetas próximas do capotamento e despiste. É aqui que as pancadas que se ouviam nos ressaltos começam a ser mais frequentes mesmo em desníveis aparentemente inofensivos!... o saldo acumulado de agressões começa a pesar... é do lado direito... uma vez... outra e outra...atrás... sim... é atrás está localizado... deve ser amortecedor partido ou cansado!...
"Pas l'amortisseur..." diz o mecânico, à noite, no acampamento junto ao grande embondeiro onde a população da aldeia vizinha veio dar-nos a boas-vindas com danças e cantares do folclore local!... Pena que o cansaço não permitisse um melhor aproveitamento desta oportunidade de encontro cultural!... c'est une pièce en caoutchouc qui est brisée!... avez vous une de réserve?!...
...nom... elle n'étais pas dans la liste de pièces requises!...
...bon... rien à faire!... roulez moins vite!...
A manhã seguinte presenteia-nos com uma imagem fantástica de embondeiros gigantes, agora sem folhas nem flores, quais esqueletos protofitológicos teimosamente de pé numa paisagem diluviana!...
Estamos no Mali nas proximidades de "Kayes". A aproximação à cidade é uma verdadeira desilusão. Esta e as outras cidades africanas são o pior de África assemelhando-se aos subúrbios mais degradados das cidades europeias com algo para pior. Apesar do seu basismo, as aldeias conservam o encanto da sua proximidade com a natureza, coisa que as cidades perderam sem ganhar nenhuma das vantagens dos países desenvolvidos onde, essa vantagem, já é discutível!...O contacto com a população local limitou-se quase exclusivamente a um formigueiro de vendedores entre os quais um individuo desenvolto, que inspirava algum respeito aos locais, que exibia o seu passaporte com carimbos de quase todos os países africanos por onde andara em busca duma porta para a Europa. Não queria acreditar que na Europa corria o risco de vir engrossar as fileiras da miséria, enquanto ali parecia um indivíduo de sucesso, dando como aval que tinha alguma instrução!... e tinha razão!... fazendo na Europa o que parecia fazer ali..., teria sucesso com certeza!... mas engrossaria as fileiras, já bem providas, do delito!...
Seguimos a rota dos escravos ao longo do rio Senegal já bem no coração de África. O deserto já fica longe mas as pistas continuam a esticar para além do tempo, e o piso e o pó continuam os mesmos!... O atravessar das aldeias é sempre a mesma festa com o locais, e sobretudo as crianças, a aplaudirem a caravana com uma alegria tão sincera e simples que contrasta, a um tempo, com a atenção interesseira das cidades ou a indiferença europeia!... como é bonita a natureza humana quando ainda não perdeu a candura!... Estamos em plena savana e o terreno, em vastas extensões, queimado oferece um espectáculo desolador bem longe daquela imagem idílica de floresta verde tropical!...
Os mercados de "Mahina" e mais tarde "Kedougou" são formidáveis aglomerações humanas coloridas e animadas sem os defeitos das cidades nem a candura das aldeias. Abundam os produtos agrícolas e têxteis com ausência absoluta de produtos industriais mesmo os mais elementares. Estamos no ponto mais meridional do percurso, no Senegal, a poucos quilómetros da Guiné-Bissau e à latitude da Gâmbia.
O programa, aqui, concede-nos a tarde para visita do Parque Natural de "Niokkolo Kobba", tido como uma das atracções do percurso. À saída de "Kedougou" seguimos uma estrada em construção que progressivamente se foi transformando numa pista para, ao fim de muitas horas e obstáculos, se transformar num caminho de difícil transposição. Com o carro a bater, vejo o da frente desaparecer, quando há muito descolei do de trás!... as horas passam e o GPS diz-me que estou fora da rota!... como?!... se não encontrei nenhuma derivação de pistas?!... contrariamente ao habitual, esta é única até aqui!... onde é que me perdi?!... voltar atrás?!... a tarde cai... e só chegarei ao ponto de partida de noite!... e nem sequer sei onde me perdi!...
Sem comunicações, só, e a noite a aproximar-se começa a levantar-se alguma ansiedade à medida que me afasto cada vez mais do destino por zonas que, raramente, ou nunca tinham visto uma viatura!...
Algum tempo depois de muito deambular, algures junto à fronteira da "Gâmbia", avisto algumas das viaturas que me precediam... Uf!... Que alívio!...
Tinham descoberto que estavam perdidos também!... Tinham seguido o guia que se tinha afastado e estava agora fora do alcance rádio... e discutiam o que fazer!... entretanto os retardatários vão chegando!... afinal estamos todos perdidos!...
Decide-se a aproximação ao parque pelo sul. As veredas intransitáveis com inclinações superiores a 45º, terminando em V invertido, no vértice do qual só se vê céu!..., do qual se cai, abruptamente, do outro lado num piso invisível e cheio de rasgões profundos sem possibilidade de desvio, são um desafio novo e desgastante num raid já cheio de peripécias!...Chega-se ao parque à hora do fecho e não é permitida a travessia nocturna. Não há caminho alternativo. O guia já passou. Negociações delicadas e demoradas desbloqueiam a situação com o pagamento duma propina (termo que em África significa uma gorjeta) e a entrada do parque. Noite fechada!... Atravessamos um parque natural sem o ver!... percorremos florestas onde residem animais apenas imaginados, lagos sobre flutuadores de troncos dispostos longitudinalmente com ar algo desconjuntado, à luz de faróis cheios de pó, as pistas transitáveis mas com muitos entroncamentos que o pó, a pressa e o cansaço tornam difíceis de identificar... lembram os dias em que pensava que aqueles eram os piores para constatar agora que todos apresentavam dificuldades diferentes e sempre maiores!... que não acabariam ali!... Num posto de controlo... novas dificuldades... mais negociações tempo e propinas para podermos continuar!... A saída ainda fica a algumas dezenas de quilómetros e dalii ao hotel são só mais uns cento e oitenta!... percurso feito em estrada em tal estado que um pneu de um participante se desfaz nos primeiros vinte quilómetros!...
De "Tambacounda" a Dakar. Ligação por estrada. Dia tranquilo, finalmente!... atravessamos povoações de certa grandeza diferentes das encontradas até então!... De certo modo parecemos voltados à civilização!... não fora a estrada oferecer mais perigo que as pistas. Naquelas andávamos sós... aqui temos os locais para quem não há regras!... entram, saem, param e avariam em qualquer lugar e de qualquer maneira, sem olhar ou se olham não vêem, ou se vêem não ligam!...A estrada, cheia de buracos profundos e vastas zonas degradadas, que já na noite anterior havia feito a sua cobrança sobre um pneu da caravana, é um perigo constante a requerer toda a atenção para evitar os buracos cumulados com toda a espécie de obstáculos móveis ou estáticos. Passar uma zona degrada cruzando ou ultrapassando um veículo local é risco semelhante a fazer trapézio sem rede e pouca prática, porque ele pode fazer toda e qualquer manobra inimaginável!... e isso explica o facto de dois em cada três, geralmente modelos dos anos cinquenta do século passado, encontrados estar avariado... parado no sítio onde avariou, nem que seja atravessado, protegido por pedras, ramos de árvore ou palmeira como triangulo de sinalização e guardado por um dos ocupantes enquanto ou outro palmilha em busca de ajuda. Mas o verdadeiro caos do caos está aqui. Em Dakar!... imagine-se uma avenida (?) com mais duma dezena de quilómetros sem qualquer delimitação ou sinalização visível pejada de latas velhas amachucadas, ameaçando ruína iminente!..., movimentando-se compactamente em todas as direcções... aproveitando, ao milímetro, o espaço disponível na direcção que lhe interessa!... e fazer tudo isto, ora parado ora rodando à velocidade do conjunto, para não ficar bloqueado... sem dar nem receber um toque... sem carta de condução!... uf!... é de perder o fôlego!... A quem achar o trânsito marroquino caótico recomenda-se uma cura de Dakar!... e mais uma vez as horas passam... a tarde envelhece e a noite desponta no meio dum vespeiro de pôr os cabelos em pé!...
Dakar!... dia de folga!... finalmente!... Na baía, a ilha de "Gorée" é a opção natural. Local aprazível, e também estratégico, tem sido densamente ocupado ao longo dos tempos. Desde os vários colonizadores, dentre os quais subsiste ainda numa falésia um forte português, encontra-se hoje ocupada por uma espécie que, impensavelmente, constitui já um desequilíbrio ecológico. É o sítio do mundo com a maior densidade de artistas por metro quadrado!... pondo em risco não apenas as outras espécies mas também ela própria!... Local privilegiado tem atraído o interesse de diversos povos e grupos tendo sido palco de rodagem de alguns filmes, o mais famoso, talvez, "Os Canhões de Navarone", de que restam ainda os ninhos de metralhadoras nas falésias e o maior canhão do mundo no topo da montanha.
Regresso. A sensação de alívio de voltar a casa. O Lago Rosa espelha-nos as suas águas cintilando ao sol levantino!... ao lado a aldeia de casinhas de colmo tipicamente africana!... mais à frente, debaixo da grande árvore, o largo alberga quase toda a aldeia vizinha numa visão ancestral de calma e placidez que nos fazem recuar algumas décadas na Europa!... apesar da modéstia evidente estas aldeias, ao contrário das cidades muito degradadas, apresentam uma dignidade, um colorido e uma alegria de viver que nós há muito perdemos!... negando assim a relação suposta entre modéstia e infelicidade!... Apesar da sedução pelos bens da civilização conservam uma candura e vivacidade que os europeus desconhecem na proporção do enriquecimento..., parecendo confirmar o dito de que o dinheiro não dá felicidade!... O paradoxo é que sem ele ainda se é mais infeliz nos países desenvolvidos!... donde se pode inferir o postulado: " o nível geral de felicidade está na razão inversa do nível de desenvolvimento, sendo a riqueza relativa o factor diferenciador do grau de infelicidade!..."
A passagem da caravana é motivo de festa!... as saudações são calorosas!.. agora junto à costa, com maré-alta o avanço torna-se difícil. Era suposto fazer-se com maré baixa para aproveitar o piso duro mas, mais um atraso imprevisto, põe-nos fora de fase e, lutar com as ondas de carro era a coisa menos esperada!... trazendo uma nova e imprevista dificuldade ao percurso. A areia solta e molhada na zona de rebentamento obriga a aproveitar os recuos das ondas para avançar, os desníveis deixados pelas escorrência no recuo das ondas, os lagos remanescentes e os rebentamentos não evitados a tempo nos quais se embate violentamente com perda total de visibilidade, direcção e controlo são um perigo permanente!...Agora a duna entra pela praia e o rebentamento faz-se acima do nível transitável!... aproveita-se o recuo da onda para tentar passar!... os sulcos dos que vão passando são cada vez mais profundos, o piso está cada vez mais amassado!... passa um... dois... três... o quarto fica. O desatascanço é feito debaixo de água com risco de arrastamento pela onda!... num percurso de mais de duas centenas de quilómetros!... em dois troços no Senegal e na Mauritânia... e muitas peripécias. Que mais faltaria acontecer?!... aparentemente nada. A noite apresentava-se serena no acampamento do "Parque National do Banc D'Arguin". No dia seguinte passaríamos a fronteira e encerraríamos o Raid no acampamento berbere em Ad'Dakhla. "Ainda Morfeu deambula pelo Ades quando Éolo liberta o Euro da sua clausura a oriente... primeiro suave, depois furioso arrasta Gea pela noite fora!... com ruído ensurdecedor derrubando tudo à sua passagem. Assustado Morfeu retrai-se, não aparece e os pobres mortais, fustigados por Gea, perdem a carícia do seu embalo reparador!..., quando Aurora acorda não deixa ver seus dedos róseos no meio de tanta confusão!... e o próprio Hélio não mostra o seu fulgor deixando Gea mergulhada nas sombras do imenso Estige para além do qual se situa o reino dos mortos!..." poderia ser a descrição épica da tempestade de areia que durante mais de dezoito horas e quatrocentos quilómetros nos fustiga na costa mauritana!... a chegada a "Ad'Dakhla" fica fora de questão e a noite é passada num acampamento improvisado junto à área de serviço remota do Sahará Ocidental... terminando, quase ingloriamente, um raid feito sempre no limite!... do tempo!... das máquinas!... e das pessoas!... tornando uma oferta de turismo alternativo, numa clara violação das expectativas, numa corrida sem prémio!... sem vencedor!... e com alguns perdedores!...
Os mil quilómetros que nos separam ainda do primeiro hotel são a última prova de esforço a fazer pois acampar sozinho no Sahará Ocidental é, no mínimo, pouco tranquilizante!...
No final fica o encanto de viajar por sítios até há pouco não imaginados, a recordação daquelas paisagens fantásticas, a candura daquelas pessoas, o fascínio dos grandes espaços, o convívio com a natureza, a experiência da solidariedade de alguns momentos!... desenhados sobre um quadro de alguma insatisfação!... que pena não dispor de um pouco mais de tempo!... teria sido perfeito!...
Lisboa, Abril de 2003
(*) Nota
'O termo é utilizado aqui com fidelidade semântica à história do Império Romano, sem qualquer conotação pejorativa!...'
|