VIAGENS NA MINHA TERRA
VIAGENS NA MINHA TERRA



Costa Vicentina
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Pôr-do-sol
Costa Vicentina é uma palavra que evoca juventude, prazer, leveza, superficialidade, boémia e ausência de sentido das responsabilidades. Tornou-se símbolo de festivais consumistas de álcool, sexo e droga, promovidos pelas televisões que recebem dinheiro dos fabricantes de bebidas para os promoverem, onde o desregramento é a norma, a superficialidade da visão do mundo se acentua nas projecções que se fazem na vida ainda mais desregrada dos animadores, cantadores de "meia tigela" sem génio nem dignidade, que modelam as ilusões duma juventude que tem um mundo cada vez mais complicado onde viver e cada vez se prepara menos para o fazer.

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Cabo de S Vicente


Vem isto a propósito de como o nome dum mártir do cristianismo deu lugar a uma terra de devassidão!... de que a igreja de então morreria de vergonha!.. ironias da história (recente!)...
A Costa Vicentina estende-se a norte do Cabo de São Vicente, lugar onde, supostamente foi encontrado o corpo dum mártir cristão, diácono de Saragossa, torturado em Valência, no século IV e lançado ao mar. Cientificamente é duvidoso que o corpo encontrado no Algarve fosse o do mártir de Valência mas a fé (de quem acredita!) faz milagres, senão materiais, pelo menos mentais.
Festivais àparte, fomos em busca de lugares bonitos, remotos por caminhos não batidos pelos viajantes de fim de semana. Começámos com um belo e repetido almoço de sopa de peixe, um espectáculo da culinária portuguesa sem pretensões, na Praia do Carvalhal.
E, primeira surpresa desagradável... a estrada de terra que ali conduz, atravessando a várzea da Herdade da Comporta, estava fechada com um sistema electrico. Como é possível?... interroguei-me então.
Para evitar a contestação, os locais dispõem dum comando (até quando?) mas não passa de um roubo de espaço público de qualquer jeito.
Então, em Junho deste ano, ainda não se sabia da extensão dos roubos que os seus proprietários faziam a quase toda a gente com o beneplácito dos poderes públicos. Hoje aquela atitude abusiva nem já me surpreende. Roubaram-me muito mais do que o direito a transitar num lugar público.

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Costa Vicentina


Já tínhamos feito esta parte da costa sudoeste várias vezes e por várias pistas em todo-o-terreno, por isso avançámos sem nos determos muito nas suas belezas até Sines.
A estrada de costa até Porto Covo, já muito batida, continua com o seu encanto... mas é a partir daqui que o fascínio verdadeiramente começa.
As alternativas de pistas com mais ou menos dificuldade mas de vistas soberbas sobre o mar e uma paisagem de geomorfologia e flora variadas que fazem o encanto do amador (e não só) da modalidade, são várias...

O objectivo de estar com a natureza, com o que ainda resta dela, e dormir à beira do Mira do lado oposto a Mil Fontes revelou-se com um certo sabor a subúrbio!... fomos em frente à procura dum lugar natural. Depois de algumas tentativas encontrámo-lo: uma clareira na vegetação rasteira que caracteriza esta zona costeira à beira mar. Um oásis de tranquilidade; longe de tudo; longe de todos e não muito distante do essencial.. pensávamos nós!.. rsrs
Avançava o serão quando ouvimos o som dum motor que se encaminhava na nossa direcção!...

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Costa Vicentina
Psicologicamente existe uma teoria de "experiência do já visto" que pode corresponder a algo nunca visto!... mas esta eu já tinha visto!
Viajávamos a corta-mato, no nordeste da Líbia, próximo à fronteira com a Tunísia, uma zona onde pululam as ordes de contrabandistas de toda a espécie (e eventualmente outro tipo de banditismo - durante o dia tínhamos visto alguns deslocando em pic-ups a velocidade vertiginosa e fazendo arruaça!). À noite, escolhido o lugar recatado para petiscar e dormir, descobrimos que algumas luzes se aproximavam: apagámos todas as luzes e mantivemos o silêncio... mas elas aproximavam-se e não erraram o alvo.
Felizmente era uma brigada militar que nos tinha visto passar e ia fazer a nossa segurança!... ufff....... que alívio!

Naquele tempo a Líbia era, no dizer do império e seus satélites, um país sem liberdade... mas podia andar-se lá em segurança; hoje, e em consequência dos seus actos, a Líbia é um país livre aonde não se pode ir!

Como aqui não havia brigadas militares para fazer segurança!... fiquei apreensivo. Também aqui quem vinha sabia bem que estávamos ali e não errou um trilho, no emaranhado existente, para chegar até nós! Era uma patrulha da Guarda Republicana. Como sabiam que estávamos ali?... não nos explicaram.
Mas isto não é tudo!... mais tarde... pela noite dentro repete-se esta maldita sensação "do já visto"... expressão idiomática em quase todas as línguas do mundo como "dèjá vu".
O que será agora?... intranquilidade!... a GNR já sabe que estamos aqui. Quem mais nos visita?
Era a GNR... rsrs outra patrulha!...

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Minúscula Flor Selvagem


Magicámos!... e chegámos à brilhante conclusão que aquele devia ser um lugar de eleição para descargas clandestinas de produtos clandestinos provindos clandestinamente por mar.

Dali ao Cabo Sardão encontra-se uma zona interessante de desafio ao amador 4x4 com passagens onde a Iveco teve que dar o seu melhor para nos tirar de lá!
E do Cabo Sardão para Zambujeira do Mar encontra-se um dos mais lindos (senão o mais lindo!) trechos da costa portuguesa. Uma pista panorâmica bordejando a falésia, com certo sabor a Sahará Ocidental, para melhor!...
Elegemos um espaço para ficar o resto da tarde e a noite. Desta vez, apesar de mais perto da pista, não recebemos visitas. As vistas sobre as falésias com o passar das horas e as mudanças de luz são um espectáculo sempre renovado.

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Fóssil

Ali, num recorte de uma dessas falésias fiz uma descoberta inesperada. No recorte da falésia, exposta pela erosão estava uma espécie de formação cónica que não fazia parte daquela formação rochosa de tipo vulcânico. Parecia ser uma formação anterior ao arrastamento de lava que a trouxera até ali, formando-se as camadas consolidadas em seu redor como que formando um invólucro. Ali estava, e estará até que a erosão lhe leve o suporte e se precipite no mar!...
Passa facilmente despercebida e, ao que parece, nenhum caçador de raridades fósseis deu por ela... mas desafia a curiosidade do leigo. Deveria despertar também a do especialista atento. Espero que sim!...

A manhã seguinte foi dedicada à caça de outras raridades. Umas florinhas minúsculas de tom rosa e pétalas consistentes banhadas pela luz rasante da manhã davam um espectáculo de outro mundo à escala macroscópica!...

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Acrobacia

Mas na tarde desse dia esperavam-nos os maiores desafios da nossa aventura fora de estrada. Perto da Carvoeira entramos numa pista de "areia cega" onde tivemos de cortar ramos de pinheiro para passar os 3 metros de Caravana... mas o pior foi mesmo junto à Praia da Bordeira ao lado do rio que a separa da Carrapateira: uma lomba extensa de areia solta e profunda onde só a sua altura ao solo e os dois bloqueios permitiram sair dali sem ajuda exterior. Íamos a solo!... Passámos a noite numa plataforma panorâmica sobranceira ao mar, agora sem natureza pristina e já com civilização à vista.
A partir daqui, ainda pegámos uns bocados de pista ao largo de Vila do Bispo até ao Cabo que dá nome a este pedaço ainda relativamente preservado de costa, mas que viu a sua fama usurpada por um outro mais mediático: Sagres.

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Ave de Rapina


O Cabo de São Vicente viu o maior número de batalhas navais, travadas entre as maiores armadas nesta saga cega desta humanidade cega!...
Mas como tudo numa civilização errada... a fama, o mérito, e tudo o mais não se merece... conquista-se!...
Sagres, romanticamente representado pela imagem estereotipada dum infante de chapéu com "écharp" pendente, a olhar presumivelmente para o mar a ver se regressavam as naves enviadas para rapina e escravatura de povos indefesos... faz as delícias dos desmiolados!...

Do ponto de vista de recorte natural, ali mais adiante, a Ponta da Piedade continua ainda a ser um lugar de beleza rara!...
Foi recentemente declarada como uma das praias mais belas do mundo!... mas, mais uma vez, quando se entra no mediatismo, todas as aberrações são possíveis. Pura e simplesmente a Ponta da Piedade não é uma praia!... mas que é um dos lugares mais belos do mundo, não tenho dúvidas.
Visitei-a quando ainda era uma ilustre desconhecida. Não havia acesso a partir do farol, que a encima, porque a costa é uma falésia. Hoje uma escada descaracterizando o recorte natural, desce até aos barcos para passeio que antes vinham de Lagos.
Então, era possível conviver com uma paisagem marinha de outro mundo!... as cores, as tonalidades, os sons dentro daquelas cavernas e arcos recortados na rocha onde só se passava na maré baixa e no intervalo das ondas eram uma experiência rica de sensações agradáveis.
Hoje faz-me lembrar uma mulher que foi bonita carregada de cosméticos!... que pena!

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Ponta da Piedade


Ainda tentámos alguns pedaços fora de estrada... mas, na costa sul, isso é impossível. A partir daqui, os meus interesses conservacionistas só encontram eco em dois lugares, um deles muito ameaçado por esta acefalia desenvolvimentista, a Lagoa dos Salgados entre Armação de Pera e Albufeira e o Parque Natural da Ria Formosa em Olhão.

A Lagoa dos Salgados tem os dias contados, já muito poluída pelas descargas de esgoto clandestinas e pressionada pela urbanização onde acabam de ser feitas infraestruturas sanitárias indiciadoras das intenções relativamente a um local vital não apenas para a quantidade enorme de aves raras residentes mas, e sobretudo, para as aves migrantes que ali estacionam nas suas longas migrações.
Lugares como este desempenham para as aves o mesmo papel que as "caravanserrail" desempenhavam na Idade Média no espaço euroasiático como entrepostos para as caravanas, ou, mais tarde na expansão norte americana, as estalagens.
Se o seu desaparecimento para os humanos foi consequência da evolução tecnológica, as aves não dispõem desses recursos e o desaparecimento das suas estalagens naturais tem consequências desastrosas imprevisíveis, não apenas para elas, mas para toda a cadeia alimentar no topo da qual se encontram os humanos.

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Parque Nacional da Ria Formosa


No Parque Natural da Ria Formosa, entre o chalet João Lúcio e o mar, em Olhão, encontra-se um ou outro "caravanserrail" de interesse para estas aves migrantes, este menos ameaçado dado o estatuto da sua localização.
Mas, por razões que só as aves conhecem, a Lagoa dos Salgados alberga uma maior quantidade de espécies e de aves do que este último lugar!

Portugal está à venda!... e as jóias mais preciosas da coroa estão ao desbarato. O que esperar de coisas tão intangíveis como a cadeia alimentar, a sobrevivência da própria espécie quando a grosseria dos indivíduos viventes não vê mais que a sua sobrevivência individual?... e mesmo dessa cuida, muitas vezes, mal!
Os seres humanos, alguns deles, têm potencialidades de inteligência para ser melhor que isto... Impõe-se uma mudança de paradigma, de paradigma mental que ultrapasse o comportamento primitivo de ganância individual e se ponha ao serviço da espécie!...



Lisboa, 18 de Novembro de 2014






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