BOM TEMPO NO CANAL
BOM TEMPO NO CANAL



Pico e Faial
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Pico Flirtando
O táxi rolava junto a orla a caminho da cidade. Do outro lado do canal, sem mau tempo, o pico jogava às escondidas como criança inocente num jogo de "cucaaaaaaaa!"..ou, quem sabe!... como bailarina turca desvelando sensualmente apenas o necessário para inflamar a imaginação.

Este é, aliás, o segredo da sedução. Sugerir, mostrar, esconder e deixar imaginar!... tão esquecido nos dias que correm pela devassidão pseudo-igualitária entre sexos.

Foi assim o tempo todo. A sedução funcionou em pleno... e neste caso a natureza teria muito a ensinar às novas gerações, sem pudor, em termos de encanto e subtileza. Fiquei com vontade de voltar para ver o prometido e não desvelado!...

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Porto da Madalena
O cais de embarque dava-se ares de gare aérea, desproporcionado para a função, numa manifesta manifestação de novo rico que gosta de mostrar ostentação sem pudor.
A passagem do canal calma para quem não gosta de enfrentar água fora da banheira!..
Do outro lado, a gare provisória em nada se assemelha à anterior. A nova, em construção, sofre da mesma hipertrofia e descaracteriza por completo a orla da cidade ( mas serve directamente um hotel 5 estrelas) num completo desprezo pelo ordenamento harmonioso da paisagem e pelo pequeno comércio local. Uma monstruosidade!.

É ainda assim que se gerem os interesses públicos a favor de uns poucos de privados, em prejuízo dos muitos públicos que votaram convencidos de estar a exercer algum poder. Não!.. cumpriram um dever como agora despudoradamente se afirma!.. votar é um dever não um direito e muito menos um poder. Um dever de sancionar as arbitrariedades dos poderosos que assim se sentem legitimados a defender os seus interesses e os dos seus mentores instalados ao longo da cadeia do poder até ao Sumo Pontífice... e que já não reside em Roma mas em Washinghton.
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Ilhéus de Pé e Deitado
Em Roma agora senta-se um homem bom, honesto, decente mas equivocado... acredita... numa época em que nada nem ninguém merece confiança. Votar nos actuais sistemas é uma confissão de impotência em que se abdica do poder natural que se tem para depositá-lo nas mãos de um mentecapto, na melhor das circunstâncias, ou nas de um psicopata. Quem não respeita o direito natural das pessoas a uma vida condigna ou o viola ostensivamente, em nome de quaisquer lógicas gananciosas, é psicopata, sofreu um desvio no desenvolvimento natural da sua personalidade e pôs-se a agir contra a natureza!

Ali ao lado, no parque, espera-nos o nosso carro. é só abrir a porta, a chave está lá dentro, como combinado. Felizmente nem tudo é mau!... ainda há disto à superfície da terra... mas por pouco tempo.


Conhecia duas ilhas dos Açores. Esta é a terceira, não de nome mas de ordem cronológica.A Terceira foi a primeira. O Pico, antigo vulcão extinto continua "flirtando" connosco. Vela, desvela para continuar a velar partes da sua sensualidade natural que aguça a imaginação.
Na ilha, e não só, (quando se chega ao Faial a visão mais fascinante é o pico do outro lado do canal) tudo gira à volta desta montanha sobranceira que desafia a imaginação ao esconder-se dos olhos insaciáveis!

Desembarcámos em Madalena, uma cidade de pouca graça, e dirigimo-nos para S. Roque onde nos esperava a vivenda superdimensionada para dois ocupantes.
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Lagoa do Capitão


Esta necessidade vital moderna, chamada internet, não há. O operador de banda larga, no meu caso chamado de Vodafone, chega de rastos, consome megabytes... e megabytes de descargas e não dá nada em troca.

Como vou eu viver sem "net" num lugar destes!?... eu que vivi toda a minha infância e juventude sem electricidade, rádio, a televisão veio depois mas não para mim, o telefone era um mito longínquo... sobrevivi, cresci, desenvolvi-me, fiz-me dotado de alguma cultura e agora não sei viver sem "net"!...


Não sou "facebookista"... fui, por pouco tempo, mas desisti. Era demasiado ofensivo para a minha dignidade e necessidades de privacidade. Alguém que eu nunca vi poder andar a fazer perguntas, a outros que eu nem conheço, se eu gostava, ou não, de levar em qualquer um dos meus esfincteres, é algo que não entendo como gente, que se julga digna, acha normal ou até chic!...

Se isso era demais, o demais parece começar a ficar sem limites... o Facebook responde na perfeição àquele apelo que um individuo intuitivo, mas faccioso, imaginou nos anos 40... que colocou, então, nos anos longínquos de oitenta e quatro e a que chamou de "Big Brother". Até um individuo complexado pode ter uma réstia de génio. Para ele, inglês súbdito lacaio fiel da inversão de poder imperial entre Império e Colónia, o "Big Brother" era a então União Soviética, um regime que invocava erradamente uma ideia social generosa e que nada ainda provou que estivesse errada. Quem estava errado eram os homens que se diziam mandatários daquela doutrina.
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Lagoa do Capitão


Se eu acreditassem em almas que sobrevivem aos corpos, aquela devia viver uma vida de além muito torturada. O "Big Brother surgiu e cresceu exactamente na sua colónia e é suportado com reverência pelos súbditos magestáticos da potência antiga, como valor seu, exactamente na sua terra... aquela que ele julgava estar a libertar desse flagelo ao escrever tal enormidade!... diz-se que as pessoas têm a memória curta!.. a minha experiência tem-me mostrado outra coisa. As pessoas têm inteligência, dignidade e honestidade muito curtas!...

Como vou eu sobreviver aqui sem "net". é o meu problema a resolver imediatamente. Está em causa a minha sobrevivência psico-emotico-amico-facetwitoselfista da personalidade sem a qual eu já só sobrevivo senão como um aglomerado de poucos músculos, ainda alguns ossos muito rendilhados e nenhum charme musculado para impressionar caçadores de momentos fúteis e vazios em que coleccionam frustrações confundidas de vivências ricas e fugazes, fracassos transfigurados que é a vida comum dos "socialites". Mas o que me põe mesmo fora do momento mais chiquérrimo é não ter como mostrar "on line" (eu gostaria mais "on time" - mas é assim que diz no jargão da moda!) as minhas "selfies" a forma suprema da idiotice fútil, esse momento de verdade em que não escondemos nada das nossas debilidades e todos sabem aquilo que valemos... ou deveriam saber se tivessem inteligência para descodificar a mensagem!...

(Um aviso aos selfistas: se querem satisfazer o Narciso que há em vocês façam-no com uma câmara dedicada e mostrem às pessoas de vossa confiança, se as tiverem. As selfies feitas em equipamentos "on line" que usam mas desconhecem e não dominam, enviam as vossas imagens para sistemas mundiais de reconhecimento visual, à vossa custa, para serem usadas para controlar os vossos movimentos.
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Ilhéu das Furnas
Depois não se espantem se chegarem a um local do outro lado do mundo e uma máquina vos cumprimentar pelo nome, oferecendo-vos a primeira bugiganga que tenha para vender. E isso é o menos mau que pode acontecer!)


Sobrevivi. Sou um sobrevivente, pobre consolo para quem vive numa sociedade de vencedores! Mas, de certo modo, também sou um vencedor!... não venci nenhuma batalha como Napoleão ou Hitler... mas venci os meus medos de viver num mundo sem internet. Só que não venci ninguém. E vencer, nesta cultura bárbara que nunca superou o prazer do esmagamento do outro, vencer é vencer alguém... ser mais importante, maior, mais rico ou mais qualquer coisa que ele...
O prazer de partilhar uma qualidade, um bem, um momento, uma aventura... o prazer da dádiva de se sentir o mesmo que outro!... esse está uma etapa acima das cabeças actuais!... se essa etapa vai ou não ser vencida por esta espécie com tantas possibilidades e tantas limitações... é o único medo que me resta!

O Pico... nem sei porque fui ao Pico. Talvez porque o Vitor, um amigo com quem partilho algumas destas deambulações, queria ir ao Pico. Porque não?!... Na verdade não fomos ao Pico. é ele que dá nome à ilha mas ao contrário dos "Champs Ellisées" onde toda a gente vai e ninguém mora, aqui ninguém mora e pouca gente vai.
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Pico
O acesso é difícil, o clima instável... mas é um fascínio!... passámos uma semana a namorar aquela montanha e ela, tal concubina pseudo-pudica mostrando o joelho e escondendo a face ou mostrando a face e escondendo o joelho... mas nunca tudo ao mesmo tempo para manter a sedução.

Diz-se que esta ilha albergou o primeiro Robinson Crosué da história mas que nunca fez história. O nome dele permanece na sombra do esquecimento porque nunca tivemos o poder de imortalizá-lo. Este não tinha a presença dum "Friday" nem rituais macabros de indígenas para quebrar o seu isolamento. Parece que ficou completamente só... por uns sete anos. Apenas algum gado ali lançado antes, com vista a uma futura colonização.
Não sei se consigo imaginar os estragos que um mutismo de sete anos causa numa personalidade... mas sei que merecia ser mais conhecido que uma Robinson... mas os impérios vencem sempre... até caírem!...

Começámos pelas lagoas no dorso central a sul da montanha maestra!... Era suposto haver por ali uma vasta variedade de aves para fotografar... mas o clima pardo, ventoso e gelado fazia daquilo um lugar inóspito onde pinguins do ártico se sentiriam incomodados!...

Contudo a paisagem torturada dos arbustos e árvores raquíticas era de uma raridade inesperada. Parecia que um cataclismo nuclear tinha passado por ali e só umas espécies mais resistentes tinham sobrevivido retorcidas pelas inclemências.
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Zona da Lagoa do Capitão


Dividimos o percurso pela orla marítima em várias etapas com algumas pausas para o Vitor pescar. Sou um adorador da natureza e respeito-a e a todos os seus seres com veneração. Não caço, não pesco, não colho flores nem ramos silvestres, detesto flores degoladas a apodrecer numa jarra para gaúdio de humanos com sensibilidade distorcida!... mas adoro todos esses seres no seu habitat natural vivendo em liberdade... a qual eu procuro perturbar o menos possível com a minha existência. Não estou livre de contradições. Apesar disso como carne, peixe e vegetais, uma herança da minha espécie que sozinho não consegui ultrapassar. Por isso também tolero que se pesque ou cace respeitando os limites de conservação das espécies... o que, infelizmente, se pratica cada vez menos.
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Cratera na Encosta do Pico


A característica mais evidente da ilha é a sua origem vulcânica. Aconteceu ali aquilo a que eu chamaria, um fenómeno não catalogado em vulcanologia, um sistema vulcânico em Delta. Há o Pico ou braço vulcânico principal e uma miríade de pequenas e minúsculas crateras por toda a ilha.
Da encosta do Pico devisa-se uma pequena cratera sobranceira a Madalena com o panorama do canal e a Ilha do Faial em fundo, num espectáculo natural de rara beleza.

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Casas de Blocos de Lava
De resto, toda a matéria rochosa é preta, as casas feitas de adobe dessa matéria, as antigas e as modernas não pretenciosas, são pretas dando às aldeias um aspecto característico, personalizado que as engrandece.

Com tanta rocha e montanha, os terrenos aráveis são escassos, não passam de pequenos quintais... mas na região da Madalena encontrámos um fenómeno agrário incomum. Na falta de terreno arável as vinhas foram plantadas em terrenos rochosos nas falhas entre as placas quase sem espaço para o engrossamento dos caules. Isto mostra quão dura pode ser a luta pela sobrevivência. Hoje parece-me mais um lugar para turista ver mas não nasceu por si só... e esse esforço está ali bem patente com mais um louvor: mantém-se cuidado de fazer inveja a muitas explorações de agricultura de subsistência do continente, abandonadas à décadas, na euforia da ilusão de riqueza generalizada.
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Paisagem da Cultura da Vinha


Contudo, de um modo geral a ilha parece pertencer ainda ao terceiro mundo, excepto na qualidade das construções. Já tinha visto este fenómeno em Guadalupe, nas Caraíbas, anos atrás. Território francês de estatuto; colónia no desenvolvimento e qualidade de vida.

É difícil encontrar um restaurante de qualidade e fuma-se em espaços de todo o tamanho como se as leis da república ali não se aplicassem. Dedicámos um dia ao Faial. O vulcão dos Capelinhos era o objectivo principal. Visitar uma cratera nascida nos nossos dias satisfaz necessidades escondidas ligadas às nossas memórias ancestrais acerca dum fenómeno que é de todos os tempos. E que os homens ainda não dominam.

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Capelinhos
Apesar de pequenas proporções o rasto das matérias de erupção é de uma dimensão assustadora, de uma destruição aterradora!... imagino os habitantes de Herculano e Pompeia aquando da erupção do Vesúvio, no passado. Vi as figuras carbonizadas de Pompeia nos seus gestos mais banais sem tempo para os emendarem; vi Herculano sepultada debaixo de uma cidade nova e esquecida do passado... mas não tinha visto o rosto austero dos despojos dum vulcão antes que a natureza se encarregasse de apagar os seus vestígios.
Vê-se isso ainda aqui nos Capelinhos.

A subida à Caldeira, no centro da ilha, revelou-se uma decepção. Turisticada e já longe da rudeza que outrora trouxe à região. Para mais, totalmente nublada nem para apreciar a paisagem deu.

Merece uma referência o almoço no Peter's que não desapontou. Geralmente estes lugares famosos acabam por defraudar o consumidor não comum que vai menos pelo estatuto que pelo conteúdo. Valeu a pena e o lugar tem até um certo clima, aquele "não sei quê" que se sente em certos lugares e que não sabemos explicar racionalmente porque entra pelos sentidos.

Esperava um lugar com mais carisma na arquitectura e localização mas apesar da fachada comum, inserida numa banda comum de casas comuns, o interior não desiludiu!...

Lxª 20/07/2014

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