PARAÍSO DO BIRDWATCHER
PARAÍSO DO BIRDWATCHER



Pantanal!...

LOCALIZAR

Dos mais de 40000 pés de altitude a paisagem, lá em baixo, em tons de cinza, castanho, creme ou negro mais parece um puzzle de mosaico abstracto do que um lugar onde a vida possa ter lugar!... O sol brilhante e o ar límpido e transparente dão ao conjunto uma aura de irrealidade!... mas... neste cenário de planeta de outra galáxia!... como é imaginável a possibilidades de vida ali??!!!...

No entanto, desafiando todas as expectativas, lá aparece uma cidadezinha plantada naquele nada que se adivinha de pedras e terra pobre. É o planalto central no qual um visionário pensou um dia criar uma cidade a partir do nada e dela fazer a capital de um grande país!...

De Brasília para Cuiabá, o ar límpido comeša a ser entrecortado por nuvens dispersas, em formašões de c˙mulos, que tanto embelezam a paisagem sem lhe retirar a limpidez!... mas, à medida que nos aproximamos do Mato Grosso, uma névoa comeša a desenhar-se no horizonte... a ficar-nos por baixo, na altitude dos 4000 metros e a obstruir a paisagem até aqui incólume. Depois estratifica-se formando uma espécie de calote ou c˙pula transl˙cida suportada por colunas verticais que nascem do solo e parecem suportar toda aquela estrutura dantesca!... são as queimadas, prática comum, no Mato Grosso que as autoridades têm dificuldade em controlar!...

Cuiabá, sob esta arquitectura de estufa e ao abrigo da barreira natural formada pela Chapada dos Guimarães, brinda-me com os seus mais de 40║ centígrados e uma humidade de menos de 15%, quando os valores normais ao bom funcionamento metabólico dos seres vivos ronda os 60%!... Já aqui tinha estado. Chegara à meia-noite com 45║!... não foi surpresa.

Cem quilómetros a sul daqui, nas proximidades de Poconé, a paisagem plana, levemente ondulada, da bacia do Paraná, com uma vegetašão mista de floresta, pastagens e terras de cultivo, apresenta algumas formašões estranhas de terra remexida, como se de grandes formigueiros alongados, feitos por uma espécie gigante de formigas, se tratasse. Na verdade resultam dum trabalho tão laborioso como o das formigas por estas formašões, do tamanho de bairros de casas de 3 ou 4 andares, serem feitas sem o auxilio de máquinas, laboriosamente construídas pela remošão manual da terra em busca de ouro!... é o garimpo ilegal, clandestino que mais uma vez as autoridades se mostram incapazes de controlar!... encerram uns... aparecem outros... lanšando na corrente do rio Cuiabá quantidades de metais nocivos que põem em risco um dos ecossistemas mais raros e importantes do planeta: o Pantanal.

Estendendo-se por uma imensa planície ondulada e de vazante reduzida, que se prolonga pela Bolívia, Paraguai e Argentina, se encharca na época das chuvas e onde permanecem os charcos até à época seca, este ecossistema é ˙nico e abriga a maior quantidade e variedade de espécies animais, algumas endémicas, por metro quadrado!...

O espectáculo da natureza mostra-se aqui em todo o seu esplendor!... Na época seca é impressionante a quantidade de vida que se acumula à beira dum charco de dimensões reduzidas!... que ao secar vai tornando cada vez mais acessível o seu recheio na cadeia alimentar sequente!... depois de seco e extinto o seu recheio de animais aquáticos, os terrestres migram para o mais próximo e assim sucessivamente até aos rios, altura em que as chuvas voltam, a planície encharca e reabastece todos os reservatórios de vida e alimento para uma das comunidades naturais mais complexas, ricas e interessantes!...

Entrar no Pantanal é, para mim, um acto tão solene como imagino o será para um crente entrar num templo muito venerado!...

O arco que anuncia o início da transpantaneira é o pórtico da minha catedral!... a partir dali o êxtase comeša e a minha capacidade de adorašão não tem limites!... Sei que nem toda a gente pensa ou sente assim!.. e este santuário, como qualquer outro, tem os seus vândalos... mas este é ˙nico, frágil e irreproduzível!... não foi feito pelo homem, este não deveria ter o direito de o destruir!... mas, infelizmente, como tudo neste mundo está condenado!...

O garimpo, resultante da miséria, mas também do trašo cultural que faz de todo o brasileiro um candidato a milionário, não é a ˙nica ameaša!... outras com origem mais remota se fazem sentir resultantes do aparecimento à superfície da terra, há milhões de anos, duma espécie em que a natureza cometeu vários erros!... Não lhe deu período de cio e deu-lhe um cérebro desmesurado que mais de 90% não sabe utilizar adequadamente!...

A transpantaneira estende-se por cerca de mais cem quilómetros até Porto Jofre e, a dois teršos desta distância atravessa o rio Pixaim. O passeio de barco neste rio é a melhor oportunidade para ver a maior quantidade de animais e de mais perto. Por qualquer razão não têm, do barco, o mesmo medo que apresentam quando marchamos na trilha adjacente ao rio... acontece até, em determinada volta do rio, o barqueiro chamar o Tafarel e aparecer um majestoso tuiui˙ como que posando para a foto!... em troca da piranha que este "pega" fresquinha do rio e com ela o brinda!.. claro!... bicho não trabalha de borla!... rsrs

Mais adiante é o "alemão", um gavião que, rápido como um raio, mergulha do seu poleiro no alto da árvore e apanha, ainda no ar!.., a piranha que lhe é oferecida!...

O resto é uma miríade de aves de todos os tamanhos e cores... com nomes locais difíceis de identificar na a classificašão científica... mas, mesmo assim, um paraíso para o "birdwatcher"...

Galeria de Fotos


Chapada dos GuimarÔes


Quarenta quilómetros a nordeste de Cuiabá, na estrada para Campo Verde, comeša a avistar-se à esquerda uma formašão geomorfológica curiosa. Uma grande extensão da crosta terrestre parece ter-se afundado deixando, à vista, uma falésia, aqui chamada "paredão", que se recorta no horizonte com os caprichos dum bordado artesanal feito por artista titânico sem preocupašões de simetria!...

À medida que nos aproximamos, as formas talhadas, na rocha, pela erosão de superfície, mostram-nos um mundo fantasmagórico de figuras caprichosas que desafiam a imaginašão onomástica!... sendo a mais sugestiva a chamada "Cidade de Pedra".
Deslocamo-nos na parte baixa, aquela que a erosão subterrânea (ou submarina!) terá feito afundar há milhões de anos, onde aparecem, junto aos cursos de água, as matas ciliares logo transformadas em cerradão que se estende até à base do "paredão". Depois é a falésia com as suas esculturas abstractas a sobressair da vegetašão que, com a temperatura e inclinašão da luz criam cenários irreais e nos mostram mundos de outro mundo!...
No alto, o cerrado é do tipo savana. Mas o que mais impressiona, neste cenário, é um elemento muito condenado pela cultura moderna e que parece fazer parte integrante deste ecossistema: as queimadas!...

Ao caminhar numa trilha ao aproximar da primavera é fascinante o espectáculo entre opostos, entre vida e morte!... dos caules negros, torcidos e ressequidos das pequenas árvores queimadas, brotam fulgorosamente botões de rebentos a explodir de fulgor!... muitas das flores já estão em plena pujanša e até alguns frutos silvestres produzidos por pequenos arbustos são de uma beleza e sabor inimaginados!...

A estrada agora, a seguir à Salgadeira, sobe, grašas às camadas sedimentares que a erosão depositou nesta zona, permitindo a transposišão do "paredão". Transitamos na zona de fractura entre a parte alta e baixa desta geomorfologia onde alguns acidentes geográficos são locais de relevo do cardápio turístico: o Portão do Inferno e a cachoeira do Véu da Noiva, infelizmente encerrados devido a acidente recente.

Agora no alto são as esculturas abstractas que nos acompanham, à esquerda, num jogo de escondidas entre as árvores e o horizonte próximo!...

A pequena cidade de Chapada dos Guimarães é um lugar pacato, tranquilo e acolhedor!... Nada a ver com a fama de inseguranša de que o Brasil é bafejado. Apesar dessa fama, há outros lugares assim neste enorme e fascinante país!... e Chapada, até em campanha eleitoral, é acolhedora!... nada daqueles exageros, de manipulašão das consciências e vontades, das campanhas, ditas democráticas, modernas como presenciara, por exemplo, dias antes, numa cidade do nordeste!... os trios eléctricos (camiões articulados - tipo TIR europeu) carregados de poderosos altifalantes, usados nos concertos ao ar livre, que fazem tremer tudo à sua volta quando vomitam o seu ruído ensurdecedor, espašados de uns cem metros uns dos outros regurgitando cada um sua sentenša absurda acerca dos dotes do seu candidato, intercalados por carros mais pequenos de modo a preencher todo o espašo físico e sonoro, transformavam a paisagem urbana do litoral num verdadeiro inferno de agressão sonora extrema!...

Não sou democrata. Nem desta nem de outra qualquer democracia existente, porque não são democracias e nem tenho a certeza de que esta seja a forma de gestão, da "polis", mais adequada... o que sei é que sempre que foi tentada!.. falhou!... estrondosamente nos lugares mais conhecidos da história: na Grécia Antiga e Roma.

Ainda há pouco tempo alguém escreveu algures que a sociedade moderna corria o risco de cair nas mãos das máfias. O problema dos visionários é que, para o serem, ficam fora do tempo e nunca localizam bem as visões que têm. Aconteceu assim com Orwell, aconteceu assim com outros mais antigos caídos nas malhas das superstišões. O mundo, há muito que está nas mãos das máfias e esta civilizašão desliza, à semelhanša duma bola de neve rolando encosta abaixo em movimento uniformemente acelerado e já nada nem ninguém a pode deter!...

Kennedy, que nem era comunista!, foi esmagado, o resta da sua família também... Allende, eleito democraticamente, não agradou às democracias externas que arranjaram um esbirro interno para o derrubar!... todas as ideias generosas, como aquelas que uns poucos cultivávamos, nos anos 60, foram cruelmente enterradas em nome desta abjecta democracia do dinheiro pelo dinheiro!...

Na Chapada, o espašo televisivo dedicado à campanha não tinha conte˙do dos candidatos. Era preenchido com os "sketchs" da autoridade eleitoral, cheios de humor e inteligência, apontando para uma realidade dramática: passar quatro anos com o representante errado!... "...quatro anos!... é muito tempo!..." diziam os protagonistas debatendo-se com um problema insol˙vel!...

Mas não dava sugestões (nem podia sob pena de heresia políca!) acerca de como votar no candidato certo. O problema é de sistema e não de candidatos e é assim em todo o mundo, dito democrático. As democracias modernas estão viradas ao contrário funcionando como um funil que pretende encher a vasilha pelo lado estreito.

Baseadas em partidos políticos que não são democráticos como podem praticar a democracia?!!!... e é aí que está o "busílis". Estes são dominados por foršas ocultas e ordens secretas (algumas com tanto à-vontade que o seu secretismo já é pouco secreto!) nunca permitirão que a democracia funcione!... pois defendem apenas os interesses dos seus membros e não os da humanidade, em geral!.

A tão reclamada estabilidade política e governativa que todos reclamam, ao pedir maiorias aos espoliados, como necessária ao bom funcionamento da gestão da "res publica" sem solušões de continuidade, não existe exactamente por sua causa e, insensíveis à contradišão que sabem a maioria não entender, continuam jogando sempre a mesma cartada e ganhando sempre!...

Acabem com os partidos políticos e organizem a gestão da "res publica" de baixo para cima, isto é: da parte mais larga para a mais estreita do funil!.., de modo a que a c˙pula seja simultaneamente permanente e amovível pela rotašão sequenciada dos seus membros... e a humanidade terá dado mais um passo no sentido da sua evolušão!... ultrapassando milénios de estagnašão mental...

Mas isso, os opressores de agora, herdeiros dos de sempre, não querem!... e já muitos foram esmagados por coisas menores!...

Assim, esta civilizašão caminha para a derrocada!.. Não sei quando, nem como, chegará lá!.. mas sei que chegará!... se até lá não aparecer o desenvolvimento mental generalizado (que até agora só uns poucos conseguiram!) que dê forša à inteligência, à decência, à abnegašão e solidariedade que permitam uma inversão do rumo para o crescimento infinito num mundo de recursos limitados!...

O encerramento do Parque Natural, devido a um acidente na Cachoeira do Véu da Noiva, limita bastante a explorašão da região, sendo de assinalar uma caminhada na "trilha" do Matão, 12 quilómetros numa temperatura de mais de 40║!... em completa solitude e comunhão absoluta com a natureza!... exuberante, viva, assustadora e fascinante!... cada ruído (uma onša??!!! nunca se sabe!) um sobressalto!... afinal são só uns macacos furtivos no alto das árvores enormes!... cada flor, cada caule, cada copa, o desenrolar dos ramos... tudo fascina!... e, de repente!... a mariposa maior e mais linda!... jamais vista!... curiosa, furtiva, irrequieta... não posa (pousa) para a foto!... que pena!...

Famosa e alvo de estudos geológicos, antropológicos e arqueológicos, a gruta Aroé Jari(morada das almas em língua indígena) atinge-se por uma trilha de uns 5 quilómetros através duma mata de cerrado verdadeiramente fascinante com alguns trechos de mata ciliar intercalados entre as extensões de cerrado sujo de caules retorcidos, queimados e raquíticos de cenário pós-catastrófico. Na mata são dignos de menšão os gigantescos Jatobás bem com o sabor inusitado dos seus frutos e as extensões de helicónia de uma beleza flamejante!... mas é nas abertas de cerrado que a sensibilidade urbana do visitante é mais solicitada!... a vida persiste em brotar sob a pele queimada daqueles mirrados ramos!... e as flores tão raras quanto belas fazem lembrar-nos que até nos ambientes mais inóspitos há lugar para a beleza!...

Estamos em mais uma zona de fractura da crosta já longe do "paredão", na zona pleonástica (30km a leste de Chapada) e na falésia que nos acompanha, à esquerda, com formašões rochosas de consistência arenitica e moldadas pela erosão, situam-se outras cavernas, das quais a segunda mais conhecida é a da Lagoa Azul com uma abertura lateral, pela qual pode ver-se, a meio da tarde, o sol reflectido na água entrando pela abertura principal. Um espectáculo agradável de luz, sombra e cor!...

O regresso, pelo mesmo caminho para poupar um quilómetro ao visitante comum, forša à sensašão do "déjà vue" onde o calor seco e sufocante, a falta do almošo e o fim das provisões de água causam dificuldades na ˙ltima subida!..., traz-nos, quase ao pôr-do-sol, à recepšão, ainda a tempo de ver a cachoeira, sem nome, nas imediašões!...

A reabertura do Parque Natural abre outras perspectivas ao visitante de Chapada, mas para uma visita personalizada é imprescindível a utilizašão de viatura 4x4 própria, já que os passeios organizados estão dependentes da existência de clientes que aqui não afluem como noutros lugares semelhantes tais como Bonito no Mato Grosso do Sul ou Lenšóis na Chapada Diamantina, para só falar do interior, e estão sujeitos aos constrangimentos comerciais.

Um pouco mais a norte, a transamazónica há muito que me faz sinal... e para leste, bem no centro do Brasil remoto, o Jalapão brilha nos centro dos meus desejos!... até breve!...

Lisboa, 5 de Outubro de 2008



Galeria de Fotos

Lugares a evitar:
  • Pousada do Sol - boa relašão custo qualidade!... mas infestada de parasitas.
  • Pousada do Penhasco - baixa relašão custo qualidade... e, se não for "snob" pode não gostar. O espašo privado está aberto ao p˙blico mediante cobranša de taxa mas só pode ser visitado por quem tenha carro. Visitantes a pé ou de bicicleta não são admitidos neste novo e estranho conceito de ecologia!...



Visitas totais Visitas nesta página