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OLH'Ò BALÃO !...
OLH'Ò BALÃO !...
Acontece-me com frequência sonhar que estou a levitar. Elevo-me
acima do chão lenta e suavemente pairando acima da cabeça
das pessoas e raramente atinjo as copas das árvores. Essa proeza
é conseguida à custa de um grande esforço mental,
semelhante à contenção da respiração
em estado de vigília, mas exigindo um esforço ainda mais intenso.
À mais pequena relaxação desse esforço perco
logo altitude a um ritmo bastante superior àquele que consigo na
subida e cuja recuperação se torna mais difícil ainda.
Frequentemente é para fugir a um perigo iminente, mas já
o tenho feito por puro deleite. Termina invariavelmente pela incapacidade
de manter o esforço por mais tempo e com o fim do sonho. É
uma experiência maravilhosa que só me acontecia a sonhar ! | | Unfortunately I can't afford the time nor the knowledge to make a full English version of my site. This is about a balloon expedition in Alentejo |
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Até ontem !.....pela manhã de um radiante sol nascente
na planura alentejana dei comigo, um tanto inesperadamente, a elevar-me
do solo, por puro deleite, lenta, leve e suavemente ao ponto de não
me ter apercebido de quando começara a levitar. Não era eu
que subia, o solo é que se afastava de mim a pontos de meter uns
150 metros entre nós. Mas desta vez eu estava acordado e com os
olhos bem abertos. Não fugia de nada nem de ninguém incluindo
de mim próprio. Era puro deleite. |
O enorme balão subia, deslizava suavemente com a brisa e rolava
sobre si mesmo deixando-nos uma perspectiva aberta sobre o horizonte
de 360 graus em redor. As formas, em baixo, aparentavam-se, cada vez mais,
a uma imagem plana, impressa, de contornos
indefinidos à medida que tocava o horizonte. As coisas mais comuns
adquiriam formas bizarras, estranhas ou curiosas semelhantes a mensagens
ou símbolos que alguém tivesse escrito no solo para serem
lidas do além. Um escritor de literatura de mistificação,
sensacionalismo ou oportunismo teria aqui um manacial de inspiração
para dar largas à sua criatividade. |
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Entretanto, Manuel, o piloto, abrandando a pressão sobre o queimador
deixava o balão perder altitude, lenta e suavemente, na mais confortável
das suspensões de que qualquer veículo se possa ufanar. As
árvores, o relevo, as construções, os acidentes do
terreno, as rochas, os riachos, os cômoros e vales adquiriam as suas
formas e significados triviais, não mais se confundindo com
sinais para o além. Eis-nos perto da acanhada e terráquia
visão humana onde ainda é possível à Susana
confundir as vacas com ovelhas! O Rui (companheiro da Susana ) tirava fotografias;
eu tinha gasto o rolo todo só nos preparativos do balão.
Que frustração! A partir dali tinha de viver na Lei Seca
fotográfica. |
À medida que descíamos, nos intervalos do barulho dos
queimadores (que pena não ser silencioso a tempo inteiro !) podíamos
ouvir o ruído da vida em terra e o Manuel dizia que poderíamos
ver coelhos ou lebres. Aproximámo-nos da copas das árvores:
sobreiros e azinheiras e o Luís Cardim estranhava que já
não tivessem azeitonas! Para dar à experiência o seu
sabor RADICAL
o Manuel deixou a barquinha arrastar mesmo pela copa das árvores
o que introduziu alguma agitação, em sentido físico,
na experiência, embora a Susana tenha segregado a sua primeira adrenalina,
mas a monobra não envolvia qualquer risco. entretanto...olha!...
olha!... um coelho !...onde?!..ali...que giro!.. |
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A partir dali a atração eram os coelhos a saltitar, correr,
brincar para além das alvas garças boeiras e de uma ou outra
pega: um aqui dois além...entretanto já eram muitos. Da perspectiva
em que nos encontrávamos, acima das copas das árvores vislumbravamos
numa clareira rodeada de árvores e mato algumas dezenas deles nas
suas atitudes normais na ausência de inimigos, experiência
raramente ao alcance dos humanos.
O Manuel tentava comunicar com a Ana (o nosso apoio em terra) que nos
seguia com o Jeep para passar-lhe a localização. Ela tinha
perdido o contacto visual e rádio pois o balão que iniciara
uma tragetória Oeste começara a abater para Sul ao sabor
das correntes do vento e a Ana ia a caminho de Montemor. Parecia-nos que
nos dirigiamos para as Alcáçovas mas não tinhamos
a certeza. |
Próximo da povoação as vacas admiravam o balão
enquanto os cães na sua missão de guardas lhe começaram
a ladrar. Estava na hora de procurar o local de aterragem e, por, ali os
que se mostravam adequados caíam fora da nossa rota. Era necessário
que não fosse um local muito escondido para a Ana poder descobrir-nos.
As pessoas vinham à rua para ver o balão e numa estrada
estreita, de terra batida, dois automóveis quase chocavam de frente
com os condutores a olhar o balão, enquanto um rafeiro, sentado
sobre o trazeiro, ao contrário dos seus parceiros anteriores parecia
dizer olhando extasiado: que raio de coisa é aquela que eu nunca
vi. Perguntámos o nome da aldeia...MITRA...responderam-nos. |
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Era
bonita, vista de cima. Tinha um aqueduto; uma construção
do tipo senhorial; um tanque circular de arquitectura tipo barroco; o edifício
principal tinha um claustro e uma capela e ao lado havia um terreiro largo
o suficiente para aterrar. Local ideal...só que a nossa vertical
caiu sobre o vértice Suoeste. A seguir o terreno era um pouco acidentado e com muitas árvores.
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Encaminhámo-nos para um vale pouco profundo levados pelos ventos
convergentes que ganhavam alguma aceleração. Passámos
por um pinhal onde acampavam uns escuteiros descrevendo uma curva para
a direita. O ribeiro desembocava num lago, talvez uma albufeira de barragem
que exalava uma neblina matinal que emprestava ao lugar um ar de mistério.
Ao lado um terreno aberto em ligeiro declive ascendente.
O Manuel deu as suas instruções. |
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Com a aproximação do solo a
percepção da velocidade horizontal aumentava e era razoável...primeiro
um toque no chão, inclinação da barquinha e salto
de ricochete e primeira sacudidela nos participantes...o balão parecia
querer tomar do freio e zarpar de novo para os céus...mais uns metros
novo embate, novo salto agora mais pequeno... novo contacto... arrastamento... barquinha
tombada uns em cima dos outros... tira a perna... olha o meu pé!... cuidado!... agora...
O Manuel, que ficara por cima saiu... o Luís Cardim... o Rui... eu
e a Susana que ficámos em baixo levámos com os outros em
cima. |
Quando saí o balão jazia já flácido completamente
vazio ao longo da linha do vento. A impetuosidade dos seus cerca de 900
metros cúbicos de ar quente que elevavam mais de uma tonelada de
peso não passava agora de um grande pedaço de pano colorido
espalhado no chão impotente...eu pensei: que coisa inútil
vista assim. Não foi aquele pano, estes queimadores ou esta barquinha
que me permitiram realizar o meu sonho! São coisas inertes! O que
me fez realiuzar o meu sonho foi o génio humano. |
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E cada vez me interrogo mais. Como é que este mesmo génio
(ou pessoas que deveriam possuí-lo) faz tantas coisas que chegam
a causar-me vergonha de pertencer a tal espécie?! Se ainda me mantenho
solidário com ela é pelo fascínio deste génio...
Após o aperitivo, os parabéns à Susana que fazia
anos e manteve o facto escondido até ao fim, o Manuel queria "feed-back".
O Rui, depois de pensar um bocado, exclamou: "Soube-me a pouco!..."
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É isso. Soube-me a pouco, acrescentei.
Lisboa, 28 de Novembro de 1999 |
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Agradecimento:
A maioria das fotos foi gentilmente cedida pelo Rui
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