NORDESTE
NORDESTE



De Fortaleza a Caraíva!...pela orla de buggy!...

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CLICK PARA AMPLIAR O amarelinho atrai as atenções de toda a gente!... Com grande surpresa já que há tantos buggys por ali...
Mas, de facto, o seu aspecto de bem conservado contrasta com os chassos com que nos cruzamos!...

Saída de Fortaleza... cidade grande, em parte desconhecida!... confusão dos subúrbios, sem GPS... a aproximação à orla acontece na Prainha. Para trás fica o Porto das Dunas, ali nas imediações...
mas dados os atrasos burocráticos de dez dias na cidade, há que ganhar tempo rumo ao objectivo: FAZER O NORDESTE DE BUGGY PELA ORLA, sempre que possível pela praia.
É o baptismo de areia num carro de tracção comum sem bloqueios. A sensação de vaguear livremente entre a água e a orla terrestre, o vento a bater na cara atenuando as inclemências do sol abrasador em Dezembro!... é algo que não se descreve, não se explica... sente-se!...
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CLICK PARA AMPLIAR Negociam-se travessias de barras em balsas mais ou menos improvisadas, algumas de tracção manual... e o prazer da descoberta começa...

Orientação mental. O Mapa 4 Rodas, com muitas imprecisões e povoações com a ordem de aparecimento trocada, dá uma ideia aproximada do local... uma pergunta a um pescador, aqui, a um banhista, além, lá se vai testando a posição, sabendo que além não há balsa ou que o balseiro já foi
embora e é preciso ir procurá-lo!...
Outras vezes é a maré que não consente a passagem naquela fase de enchimento... e as povoações ignotas desfilam à direita separadas por troços mais ou menos longos onde parece nunca ter passado ninguém!...

As famosas fazem-se notar pela quantidade de gente e, sobretudo pela usura intensiva da areia provocada pelos bugueiros locais nos circuitos periféricos: Caponga... Morro Branco.... Canoa Quebrada...
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CLICK PARA AMPLIAR Nesta última, com a ajuda dum guia local, o circuito das dunas oferece a descida mais espectacular alguma vez experimentada!... mais de cem metros de altura para mais de 70º. de inclinação!...
E a saga continua: Majorlândia... Quixaba... zonas desérticas e a vertigem do isolamento... o mar, a areia e uma orla inóspita... onde parece não haver nada... excepto o risco sempre presente!... uma avaria aqui, sem saída para terra e a maré subindo!... sem vivalma à vista... depois... ao longe... no desenrolar duma
enseada... junto duma ponta... qualquer coisa diferente... uma povoação?!... não!... apenas umas rochas ou manchas diferentes no terreno ou vegetação!...
Aqui e ali, a costa arenosa acompanhada duma duna mais ou menos elevada, torna-se falésia. Há locais onde é preciso deixar a praia e subir a encosta arenosa e.... atascar!... ou então, negociar muito bem a passagem pela estreita faixa pedregosa entre a falésia e a água!...

A areia da praia sofre variações consideráveis de
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CLICK PARA AMPLIAR consistência passando duma sensação de quase grude, ao asfalto e à terra completamente solta onde só resta planar!... uma paragem ou mudança brusca de direcção e é o fim!... atascanço garantido... umas vezes mais, outras menos difíceis... lá se vão vencendo!...
Andar de buggy na areia só com duas rodas motrizes e sem bloqueios é uma obra de arte!... quanto mais se aprende menos se sabe!... é trabalho criativo de inventiva permanente... mas, como em todas as artes, há aptidões que ajudam no acto criativo. Para tirar
partido dum buggy é preciso saber dançar!... buggar é dançar com um buggy... o condutor é o homem que conduz mas... como bom dançarino tem que saber ir com o par quando este se perde e trazê-lo ao ritmo sem pisadelas nem tropeções!... dando a tudo um ar natural!... e um buggy dança!.... dança!... dança!... sacode o traseiro que nem sambadeira no carnaval do Rio!... e, às vezes, excita-se e dá passos em falso!... e é aí que o discernimento, o reflexo rápido e a doçura têm de combinar-se num acto único de firmeza gentil para CLICK PARA AMPLIAR
CLICK PARA AMPLIAR evitar o trambolhão!... Passado Tibau... o Ceará e as suas extensões de praia contínua ficam para trás. Entra-se no Rio Grande do Norte. E os primeiros afastamentos da orla começam.
Em Grossos, logo ali... como frequentemente nos informam, passa-se a balsa para a Areia Branca, onde o retorno à orla se torna problemático para, logo depois, em Ponta do Mangue nos termos que afastar para franquear o Rio Assu e a sua extensa zona alagada, pelo interior.
Atravessam-se centenas de quilómetros duma paisagem desoladora de catinga debaixo dum sol abrasador por estradas cuja área ocupada pelos buracos corresponde a mais de 2/3 do total...
O regresso à orla, sem GPS, é aqui ainda mais difícil sem ninguém a quem perguntar... até que, depois de muitas horas atravessar uma fábrica de sal, uma fazenda e muita pista (trilha como aqui se diz!...) aparece um corte na duma imensa que dá acesso à orla alguns quilómetros a noroeste de Caiçara do Norte.
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CLICK PARA AMPLIAR Daqui a Natal a orla é navegável com as zonas desérticas mais extensas do percurso. Largas extensões sem povoações!... só a orla no seu continuo serpentear de um igual sempre diferente e a curiosidade plantada sobre o horizonte: o que será ali!?.. ... e mais além?!... Reduto... S. Miguel do Gostoso... e uma série de prainhas menores mas encantadoras distribuem-se ao longo deste largo quarto de círculos que a costa descreve de leste para sul.
A navegação agora faz-se na direcção sul numa zona com mais densidade populacional à medida que nos aproximamos da capital do estado... mas sempre a mesma amabilidade e gentileza dos naturais quando é pedida uma informação... até que numa povoação interessante, com uma duna iminente a sul, com umas tendas no dorso, que perecia barrar a passagem estreita, com algas em torno de uma ponta... notei alguma hostilidade.
...gostava de subir àquela duna ... penso.
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CLICK PARA AMPLIAR Nem paro... e faço bem... venho a saber no regresso!...
Os bugueiros, aqui, organizaram-se para obter do governo estadual legislação que lhes dá o monopólio com exclusividade de conduzir na orla, dunas e lagoas adjacentes... privilégio que eles defendem a ferro e fogo com esbirros colocados nos acessos à povoação impedindo o acesso de buggys mesmo no asfalto... uma máfia!.. dizem-me... e testo a teoria: na praia, a pé, abordo um deles pedindo-lhe informações acerca de como passear ali com o meu
buggy e a resposta é:
não podes...
... porquê?... pergunto fazendo-me de inocente.
é perigoso!... só buggueiros autorizados podem fazê-lo...
...mas eu tenho experiência de buggy... já fiz mais quilómetros de buggy que qualquer um de vocês... já atravessei o Sahará em condução todo o terreno com muita areia...
...não interessa... não podes porque não estás
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CLICK PARA AMPLIAR credenciado!......
... bom... vou pensar como devo fazer!... adianto à laia de desabafo.
... vai para lá... e verás o que te acontece!...
Está tudo dito. Vou consultar a polícia. O único funcionário está batendo a soneca e, após o chamamento duma mulher ali à porta, lá aparece... é verdade... eles conseguiram isso do governo estadual... e só nos resta cumprir...
Desabafo com ele que, sem saber já tinha passado ali
na descida... e... com grande surpresa pergunta-me:
quando?.
Respondo que há cerca de um mês atrás e ele mais surpreendido ainda pergunta:
...vinha donde?... ...... do norte!... respondo
... você passou numa zona proibida onde nem eles têm autorização para transitar porque é em frente às casas do pessoal do governo!... que, ao que parece, não receia invasões vindas do norte!!!... rsrsrsrs
Saio dali o mais depressa que posso!... A praia de
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CLICK PARA AMPLIAR Genipabu é famosa nos anais do turismo bacoco. A revista Viagem dá-lhe um destaque de primeira categoria em beleza... um pouco exagerado... e esquece que ali, o governo estadual dá cobertura a uma prática organizada que é delito em qualquer país civilizado e por isso, creio, que no próprio Brasil dado que nega os direitos de liberdade no usufruto dum bem público que foi apropriado por um bando organizado!...

Aqui não faz sentido comprar um buggy, ferindo a
economia nessa prática e nem o argumento da preservação da natureza pega. A própria polícia reconhece que o uso intensivo dos ecossistemas frágeis é feito pelos buggueiros e não por um passeante ocasional que se vê privado de utilizar o equipamento que comprou com o seu dinheiro, em benefício duma casta!...
Aceita-se, porém, que lhes reservassem o direito de só eles venderem passeios de buggy... mas privar um particular de movimentar-se livremente é algo que só por uma concepção muito distorcida entre o certo e o
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CLICK PARA AMPLIAR errado... pode justificar-se!...

Em Redinha, ... logo ali!... a balsa larga-nos no porto de Natal. A cidade pouco interessante e sem monumentos de relevo não tem sequer uma orla animada como todas as nordestinas!... Até o atendimento no hotel é rude!...Na manhã seguinte.. rumo a sul.
A navegabilidade a sul da cidade torna-se ainda mais episódica já que a costa é ou acidentada, alagada ou
ocupada pela urbanização que chegou à praia e, em certos locais ocupou-a mesmo!...


A BR 101 é uma extensa artéria com milhares de quilómetros que serve todo o nordeste até ao Rio de Janeiro, ora afastando-se ora aproximando-se da orla numa amplitude de 20, como aqui, a mais de 100 quilómetros como em Salvador para contornar a extensa Baía de Todos-os-Santos. Para contornar algumas das obstruções da orla há que vir à BR101, e
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CLICK PARA AMPLIAR voltar à costa, o que daqui para diante é recorrente com o consequente aumento dos riscos e o encurtamento da distância linear percorrida, medida na orla!...

Pipa, a famosa!... fica logo ali!... expressão característica, sem precisão, que se recebe naturalmente em resposta a uma pergunta. Mas antes de Pipa, Tibau do Sul bem como a orla de areia que a liga àquela estância, uma vila de pescadores, é bem
mais interessante que ela!... a paisagem, ao fundo duma falésia em arco desenhando a baía que termina apertada e suja em Pipa é que é duma beleza verdadeiramente rara!... Pipa, alcandorada sobre a falésia que cai a pique sobre o mar com uma orla estreita, de pedras, só acessível por extensas escadas precárias, na maré baixa, caracteriza-se por um naco de areia com toda a degradação da ocupação intensiva onde se acotovela uma multidão de gringos com ar devasso e auto-suficiente a beber cerveja, a apanhar insolações e a CLICK PARA AMPLIAR
CLICK PARA AMPLIAR olhar languidamente uns para os outros com ar enfadado ou a tirar a foto bacoca de quem acha que está a gozar muito!... é o exemplo daquilo de que foge quem faz uma expedição deste calibre!...

Passada a cidade e a sua única rua acanhada, a orla é generosa até à Barra de Camaratuba.
Uma vinda à BR com o seu piso degradado ou mesmo intransitável em largos troços e o seu trânsito caótico, é sempre uma dor de cabeça.
A busca da orla resulta frequentemente no regresso pelo mesmo caminho, sem continuidade ou avanço real costeiro... Também aparecem, agora, as primeiras interdições explícitas à circulação de veículos na orla, como em Lucena. De Costinha a balsa larga-nos em Cabedelo situado na ponta da península onde se localiza a encantadora cidade de João Pessoa na barra sul do Rio Paraíba. A orla é animada e a cidade tem alguns monumentos interessantes.


Os brasileiros têm uma panóplia de anedotas (eles
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CLICK PARA AMPLIAR dizem piadas...depreciativas... claro!...) sobre os portugueses... mas o brasileiro comum parece de discernimento embotado com dificuldade de digerir informação complexa ou inusitada!... raros foram os casos de pedido de informações em que, para além da prestabilidade inquestionável, não fosse bafejado por uma surpresa de quem não tinha entendido nada como se tivesse falado em língua estrangeira!...
Repetido o pedido, com frequência, oiço:
é bem aí!... tudo recto!... ainda que venha a constatar que faço vários quilómetros e bastantes mudanças de direcção até encontrar o meu objectivo. Perguntar se a Ponta do Seixas é o ponto mais oriental ou mais a leste da América do Sul... resulta num perfeito embaraço!...

A sul de João Pessoa a navegação pela orla é ainda mais precária dada a geomorfologia da zona, tendo que fazer incursões pontuais nesta e regressar à BR com todos os
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CLICK PARA AMPLIAR inconvenientes de tempo, distância e risco. Conduzir na BR é um exercício de trapézio sem rede!... não apenas pelo trânsito caótico, o mau estado do piso ou o desenho incongruente dos acessos... mas também pelos assaltos, frequentes durante a noite em certos troços, particularmente, nas imediações do Recife e Aracajú. Os pontos mais interessantes deste percurso até ao Recife são a sul de Pitimbu e a ilha de Itamaracá onde as praias selvagens de um verde esmeralda líquido são de um fascínio gritante!...
O Recife foi o meu primeiro contacto com o Brasil, há anos. Tem um inegável interesse histórico e cultural na saga da colonização... mas o seu centro histórico tem um ar abandonado, sujo, degradado... deprimente!...
Mesmo a zona moderna, elegante, a sul, a Praia da Boa Viagem tem, como quase todas as cidades brasileiras, uma vala de esgoto a correr a céu aberto, a que eufemisticamente, chamam vala, rio ou canal!...

Já Olinda, apesar de muito turisticada continua com
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CLICK PARA AMPLIAR um encanto difícil de quebrar!...


A ocupação da orla, o recorte e o desconhecimento dos acessos tornam este trajecto fora do alcance... até Porto Galinhas.
Daqui fujo, como o diabo da cruz!... já que não oferece nada diferente daquilo que evito na europa: confusão, trânsito caótico, gente aos montes a olharem uns para os outros como se de uma visão rara se tratasse!... não é isto que procuro!... uns quilómetros mais abaixo!...
já é toda minha e, com mais ou menos afastamentos, é possível fazer bons bocados de orla passando por praias desconhecidas e lindas!... A-Ver-O-Mar... Gamela... Guadalupe!.... e outros locais remotos que nunca tinham visto um buggy que teve de saltar por cima dos troncos dos coqueiros tombados, para seguir na sua saga!...
...e mais a sul Maragogi e as suas esplêndidas vizinhanças!... S. José da Coroa Grande... Peroba... Japaratinga... até aos subúrbios de Maceió.
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CLICK PARA AMPLIAR O interesse destas cidades costeiras está nisso mesmo: a sua orla... e, da qualidade desta e da sua animação, resulta o seu clima.
Monumentos dignos de nota, aqui, não há!... mas a orla e o lindo mar que a banha são um espectáculo de variações sobre o mesmo tema mas de um encanto sempre repetido!...
Nas imediações, o circuito das suas lagoas merece um programa à parte, não enquadrável num projecto desta natureza!...
Da Praia do Francês (famosa por aqui!...) à Barra de S. Miguel vai um pedaço de areia navegável... e nesta última, quando procedo a uma manobra apertada numa praia cheia de gente!... solta-se o cabo na embraiagem mesmo dentro da rebentação. Em primeira consigo sair para zona segura... mas aqui não há perigo... Isto era o que temia acontecesse antes, noutros lugares desertos e sem escapatória...Mas esta quebra de cabo acaba por transformar-se no episódio mais complicado desta CLICK PARA AMPLIAR
CLICK PARA AMPLIAR expedição.
Na reparação verifica-se que é a própria embraiagem, já estafada e muito dura, que está em causa. Recomendam-me uma oficina em S. Miguel dos Campos.
A oficina do Roberto, que me recomendaram, não é do Roberto, porque o Elo, na oficina em frente onde me dirijo, por engano, me diz ser cunhado do Roberto e deduzo que aquela é do Roberto...
Feita a reparação por um preço acima do razoável..
mas que diabo é domingo à noite!... e dormida num antro insustentável... lá me meto a caminho... passo a primeira rotunda... e aproximo-me da segunda... tudo bem, sem trânsito... avanço e... de repente!... um buzinão e um monstro que se aproxima a velocidade vertiginosa... sem dar tempo para nada!...passa... colhe a dianteira do buggy... sem travar... e só pára a uns quinhentos metros dali!... é que esta rotunda é atravessada por uma via rápida, a BR 101, com prioridade!...CLICK PARA AMPLIAR
CLICK PARA AMPLIAR A policia federal só tem um homem no posto e manda que nos desloquemos lá mas o motorista não quer sair dali sem chegar alguém da Rodoviária Itamirim... que demora horas a chegar!... e mobiliza os passageiros para me impedirem a saída para ir à polícia!... que, na sua ignorância, julgam ganhar algum tempo com a minha presença, quando se trata apenas de um desrespeito da transportadora por eles com o ónibus de substituição que não aparece!...
Mas isto é apenas o começo duma semana de
martírio!... nesta terra de tipo marroquino entregue à extorsão despudorada de quem sabe que não tenho condições para sair daqui... Há que reparar o buggy e o conserto de mil reais iniciais... vai subindo.. subindo.. que ponho a hipótese de vendê-lo... mas dos seis mil reais que vale inicialmente vai baixando... baixando... a ponto de só valer três!... isto durante dois dias de negociações... avanços e recuos mais ou menos gangsterizados... que só terminam quando os convenço (agora já são três!...que me acompanham sempre, embora não entenda qual o CLICK PARA AMPLIAR
CLICK PARA AMPLIAR papel dos outros dois!..) que não tenho mais dinheiro nem maneira de arranjá-lo aqui...
Ajustado o arranjo pela quantia de R$1800,00, mais do que o razoável, há que correr o risco de deixá-lo, sem nenhuma garantia... entregue a pessoas suspeitas, pois a espera de uma semana aqui é impensável... mas a nova exigência agora é deixar, para além dos documentos, dinheiro para o conserto!... não cedo...
Ao fim de oito dias não encontro buggy nem Elo e na

oficina que julgava ser dele ou do cunhado Roberto está um indivíduo, que nunca vira antes, que diz ser o proprietário e... só então reparo na oficina do Roberto, do outro lado da rua que estava fechada na semana anterior...

Após algumas diligências... lá aparece o Elo mas o buggy não está pronto... precisa de dinheiro para acabá-lo... e descubro agora que é um biscateiro que trabalha ali no passeio sem instalações próprias...
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CLICK PARA AMPLIAR No dia seguinte o buggy lá está, teoricamente, pronto... a fibra aceitável... mas a mecânica... bem!... um horror!... e o Elo chorando que tinha feito um mau negócio quer mais dinheiro... leva mais R$50,00 para me ver livre dele!... e deslocar-me para Aracajú onde por uns reais resolvo, numa oficina decente, as mazelas de empenamento da suspensão e alinhamentos...

A orla de Barra de S. Miguel para Aracajú está por
fazer mas a falta de confiança no buggy logo aos primeiros quilómetros leva a que uma linda zona que começa na Praia do Gunga, seja vista apenas de longe e de cima já que a paisagem assim o permite.... depois... uma zona de povoações mergulhadas numa floresta lindíssima e a coragem para uma incursão curta no areal na Praia do Peba e mais estrada até à foz do rio S. Francisco... onde alguns quilómetros acima a balsa, em Penedo, conduz à outra margem...CLICK PARA AMPLIAR
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O buggy decididamente não oferece confiança... a direcção dança muito mais que o habitual... e foge que nem enguia viva na mão...é mais de meio da tarde e Aracajú fica ainda a duzentos e tal quilómetros daqui.
Informações recolhidas localmente dão com não existente qualquer acesso à orla, nem sequer estrada próxima... há que andar já que povoação onde ficar também não existe neste espaço.
A BR 101 é sempre um percurso difícil dada a
natureza caótica do trânsito... a quantidade de camiões... mas aqui nas imediações desta cidade é tudo menos uma estrada (felizmente em obras!) com o piso completamente revolto como se de um mar instantaneamente solidificado se tratasse e os camiões muitos e muito grandes a abrir por cima daquilo!...é verdadeiramente de loucos!... O sol põe-se. O crepúsculo aproxima-se com o seu manto cinzento. Entro em Aracajú já de noite ( a única vez em todo o percurso!...) mas como aqui estivera quase uma semana esperando o conserto... CLICK PARA AMPLIAR
CLICK PARA AMPLIAR não é difícil encontrar a Atalaia onde vou ficar.
Embora longe do centro da cidade a Atalaia é a orla de Aracajú... o local animado e onde acontece tudo de significativo em termos de animação... a cidade ao fim da tarde, quando terminam as actividades económicas, fecha e não acontece mais nada...

A sul de Aracajú passa-se a Baía do Vaza Barris, santuário de preservação do Peixe Boi, um monstro marinho inofensivo em vias de extinção!... e, a sul, na
extensa península desenhada entre o mar e o Rio Fundo, uma zona quase inexplorada, dado o seu isolamento, no fundo da qual, mesmo na ponta da barra se situa a que começa a ser famosa, por isso mesmo, onde o gringo ainda não chegou!... Praia do Saco. Do outro lado, a poucos minutos de barco fica a mais famosa e muito gringada praia de Mangue Seco, berço da famosa personagem de Jorge Amado, Tieta... mas para chegar lá de buggy!... é uma história mais longa!...
Longa de centenas de quilómetros para contornar a
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CLICK PARA AMPLIAR extensa zona alagada que se estende paralela ao mar de sul a norte... pegar a malfadada BR 101, apanhar a Linha Verde que aqui substitui a BR que se afasta para o interior para contornar a gigantesca Baía de Todos os Santos que dá nome ao próprio estado. Na Linha Verde o primeiro acesso à orla é pela Praia Azul e daqui existe uma pista difícil para Mangue Seco. Fácil.... fácil é pela praia... lisa, plana... sem ratoeiras que se faz a toda a velocidade do buggy... mas antes... a maré está ainda alta... e posso apanhar uma entrada
a doze quilómetros daqui... ganhando algum tempo... só que a entrada fica para trás sem ser vista... entro na pista que cada vez se afasta mais da orla... sem hipótese de fazer a travessia.... vou andando... os rodados afundando devido à passagem de tractores... alguns troços já só se fazem planando... se paro!... fico!... até que... fico mesmo!... o buggy assente em baixo com areia solta profunda debaixo das rodas... não sai de maneira nenhuma!... horas de esforço debaixo dum sol escaldante entrecortado por chuvadas intermitentes!... vergada a manivela doCLICK PARA AMPLIAR
CLICK PARA AMPLIAR macaco para elevá-lo e meter coisas debaixo das rodas para movimentar-se cinco centímetros e atolar outra vez!...
Mochila às costas... o buggy lá fica abandonado no mato com o resto da bagagem dentro... e ao fim duma longa caminhada avisto uma pick-up que acaba de chegar a uma casa... a aproximação com risco de ser devorado pelos cães... não é propriamente festejada. Os participantes descarregam qualquer coisa e assim continuam enquanto falo... sem obter resposta...
Espero... e algum tempo depois, acabada a descarga lá pergunta um deles: onde é que está o buggy?... pega numa corda com laçadas e ... entre aí...

Passados quilómetros, sem buggy à vista, pergunta: ... você fez isto tudo a pé?... em tom incrédulo... e continua: teve muita sorte!... passei aqui por acaso e ia-me já embora... ia levar muito tempo a sair daqui...
Volto à Praia Azul e sou recebido por uns buggueiros que me convidam a ir com eles a Mangue Seco....
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CLICK PARA AMPLIAR para fazer lá as dunas...
Saem primeiro com clientes que têm ali... eu irei lá ter depois de almoçar... são 25 quilómetros de praia de areia plana, lisinha, sem ratoeiras... e o buggy voga no seu limite de 80km/h entre coqueiros e ondas... sem vivalma à vista!... e a sensação de liberdade acompanhada do prazer de ter vencido a dificuldade da manhã... é inebriante!... até que.... passados uns 20km... o meu mapa e única fonte de orientação na falta do GPS... não está onde devia
(junto aos pés do banco direito)... e se não está... ficou na barraca do almoço!... e se ficou o mapa também ficou o saco dos equipamentos!... e o entusiasmo vira calafrio!....
Meia volta... 80km/h para trás numa ansiedade enorme...
Está lá o mapa guardado bem como a bolsa cujo conteúdo me pedem que confira... o que, por delicadeza não faço porque se quisessem roubar-me bastava dizerem que não tinha ficado ali nada!....
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CLICK PARA AMPLIAR Não sou supersticioso... não acredito em nada por mais estranho que pareça que não seja explicável por leis naturais... mas penso: ...Mangue Seco resiste à minha presença duas vezes no mesmo dia!... não vou desafiar a sorte!...

Rumo à Linha Verde. A orla não tem saída para sul... daqui até Salvador existem alguns dos mais lindos locais da costa brasileira e algumas das suas maiores aberrações como a chamada Costa do Sauípe
onde se tem que pagar a um condomínio ali instalado o acesso à praia... e à minha pergunta de se a praia é privada respondem que não... mas como o acesso é deles... a praia é, teoricamente, pública mas só para quem lá não vai!...
Logo ao lado o ainda inexplorado povoado de Diogo é um verdadeiro paraíso!... e mais adiante a desenvolvida mas não descaracterizada Imbassaí é o exemplo de como estas duas coisas podem coexistir!...
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CLICK PARA AMPLIAR Salvador!... Salvador é axé... é capoeira... é yemanjá... é...

Costuma pensar-se o Brasil como um país pobre!... pobres são os países da África Sahariana onde os camiões me fazem lembrar a minha já distante infância quer pela marca, modelo ou raridade!... e onde em cada três... dois estão avariados...

É rico um país que tem um povo com tal alegria de viver!... mas é também rico um país com tal
actividade económica. O que o Brasil tem é demasiados pobres devido à mais distorcida e injusta distribuição da riqueza ( da renda - como eles dizem), onde os altos funcionários da máquina administrativa (com ordenados superiores aos da europa), os políticos, os fazendeiros e os industriais sugam toda a riqueza que falta aos outros milhões da população...
Os brasileiros, acreditando mais no futuro do que nos políticos, pensam que melhores dias virão!.... e é essa
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CLICK PARA AMPLIAR doce ilusão que alimenta tão grande alegria de viver.. com tão pouco!.... o que eles ignoram é que estão já mais desenvolvidos que os países da europa e américa do norte... que os fascinam!...
O Brasil ultrapassou, sem a executar a fase intermédia do desenvolvimento capitalista na qual a europa e a américa deu a uma classe média de trabalhadores umas décadas de bem-estar... que agora, caído o muro de Berlim e a ameaça que ele representava, retira num movimento de esmagamento sem precedentes na
história da humanidade!...
O Brasil já está na fase última do capitalismo para a qual todos os outros povos do planeta caminham em movimento acelerado!... excepto!!!... excepto aqueles que nunca saíram do subdesenvolvimento absoluto... e do qual nunca sairão....


A economia e as finanças mundiais são duas massas giratórias que gravitam à volta dum grande buraco negro que é a américa que tudo sorve num movimento
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CLICK PARA AMPLIAR alucinado!...
Na periferia destas massas desenvolvem-se gravitações menores com movimento giratório próprio mas que não passam de espúrias desta gravitação maior na qual acabam, fatalmente, por precipitar-se.
Um dia este movimento vai acabar mas, quando isso acontecer, vai ser muito difícil para todos, dadas as forças em movimento... mas nenhuma lógica permite outra conclusão!... e, se permitisse, o resultado seria

ainda pior!... com um único rico em Nova York e um mundo repleto de pobres famintos!...

Não sei se Marx teve plena consciência das consequências da sua afirmação de que o capitalismo continha em si próprio e gérmen da sua destruição... o que os comunistas atávicos interpretaram, ligeiramente, como uma transição natural do poder produzida automaticamente pela dialéctica da história...
Aquela afirmação é uma afirmação visionária e, como
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Mas há uma área em que o Brasil cumpriu todas as etapas do desenvolvido: a música. O Brasil é um país musical... com uma tal profusão de géneros, muitos só para consumo interno, mas de qualidade, muito centrados na terra, na cultura local...quase
desconhecidos, com uma saudável utilização do jocoso e do brejeiro e, às vezes, algum exagero do erótico!... que deixam a perder de vista aquela meia dúzia de músicos de exportação tipo fast food internacional!....

É claro que o piroso (pimba) também faz as suas investidas, mascarado de regional, sobretudo nas bandas falsamente ditas de forró que devido a uma moda corrente... crescem como cogumelos após uma chuvada de verão!... mas, vários meses de estadia por
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CLICK PARA AMPLIAR mais de sete estados balneares, só uma vez ouvi fast food musical num restaurante!...

Salvador não escapa à regra e o axé desempenha aqui um papel tão importante como a religião interlaçando-se nas manifestações festivas do yemanjá como as duas faces de uma mesma moeda...

Salvador cativa e assusta... tem um clima a que é difícil resistir ou não se sentir enlaçado nele....um
não sei quê contraditório que nos leva a sentirmo-nos em casa como que matando saudades de algo nunca visto!... Mais uma vez as memórias ancestrais se mesclam ao real para torná-lo sublime!...
Cada recanto se afirma por si só... mas o centro histórico é o ponto de confluência de todas as atenções com as suas fachadas coloniais e as suas igrejas de que a fachada da Ordem Terceira de São Francisco, de um rocócó exuberante e patinado, causa uma impressão profunda... o cair da tarde, à beira mar com a sua sucessão de cores!....
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CLICK PARA AMPLIAR é algo para recordar por muito tempo!....

O cata que da uma hora e quarenta do horário... só leva três!... longas horas!... conduz-nos à Ilha de Tinharé... mas curiosamente... ninguém vai a Tinharé!... Toda a gente vai ao Morro de S. Paulo!... tomando a parte pelo todo!.... mas o Morro de S. Paulo é a Pipa lá do sítio!... e a ilha de Tinharé tem coisas bem mais interessantes!....
Não vejo toda a ilha mas Gambôa a poucos quilómetros daqui, bem como a costa que separa as duas povoações valem bem mais que o Morro e estão entre as coisas mais belas do litoral brasileiro!... Acessível a pé (na ilha não há estradas) apenas na maré baixa ou de barco, Gamboa é um oásis de tranquilidade difícil de imaginar nos tempos modernos... bordejada por um mar tranquilo que a banha até cerca de meio a um metro de altura na maré alta... a vida social, à noite, localiza-se na rua longitudinal paralela ao mar e separada deste por uma orla de casas,CLICK PARA AMPLIAR
CLICK PARA AMPLIAR a maioria restaurantes ou pousadas, com frente para os dois lados...
Mas no bocado de costa que a separa do Morro com praia, falésia e floresta situa-se aquilo que pode ser descrito como o paraíso na terra... e, como lugar de mistério que é!.... no mistério fica!....

Curto-circuitando a Baía de Todos-os-Santos que bordeja a mais histórica zona do país, o
Recôncavo, que alberga, entre outras preciosidades, as cidades históricas de Cachoeira e S. Félix, o ferry liga Salvador a Itaparica, ilha com ligação por ponte ao continente.
O reino do buggy há muito que fica para trás e, por aqui, numa zona muito recortada, alagada e com as maiores manchas de Mata Atlântica do país, a navegação pela orla está fora de questão... ilhas, canais, rios, lagoas e riachos com extensas zonas alagadas e manguesal e uma floresta luxuriante, habitat de uma série de espécies em vias
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CLICK PARA AMPLIAR de extinção que dela dependem... estendem-se por uma zona em que as povoações se perdem no meio da verdura...
O Morro de S. Paulo fica ali ao lado, a leste de Valença, depois Taperoá, Nilo Peçanha, Ituberá e a noite aproxima-se em Camamu... à beira dum largo rendilhado de zonas submersas. Daqui à barra Grande, de barco, é um salto; por estrada, fazendo toda a península de Maraú, são centenas de quilómetros!...
A estrada mais directa para Maraú é de terra mas apresenta-se larga e com piso aceitável... é manhã. A paisagem desenrola-se luxuriante com miragens de rendilhados de água que aparecem e desaparecem por entra a verdura!... sobe... desce... e deteriora-se... Agora há que decidir: direita ou esquerda?!... não há placas indicativas. Sem GPS, o sentido de orientação aconselha a esquerda... depois já não é tão evidente... em ângulo agudo parecem ir ambas na mesma direcção!.... caras-ou-coroas?!... CLICK PARA AMPLIAR
CLICK PARA AMPLIAR à medida que se subdivide vai perdendo exactidão até se tornar numa trilha de traçado impreciso perdido na erva...
como é que isto é possível?... uma estrada que aos poucos morre sem se dar por isso!....
... ...ah!... uma povoação!...
...umas poucas de casas perdidas no meio da floresta... e sigo.. agora por caminhos degradados estreitos que duvido tenham saída. Não há sinais de alguma vez por aqui ter passado em veículo!... apenas charcos...
.
lameiros...e um caminho sem fim....as horas?!... nem sei.... mas vão passando...
Numa outra povoação de meia dúzia de casas as minhas suspeitas confirmam-se!.... acaba aqui!.... e agora?!... todos estes quilómetros para trás!... e até onde?!... será que consigo fazer o mesmo caminho de volta?!... quando vejo alguém que faz sinais apontando para um casebre ao lado direito... não posso acreditar!... confirmo. É mesmo por ali!... só há erva mas acredito que seja mesmo a estrada!.... bom... aos charcos e lameiros acrescentam-se
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CLICK PARA AMPLIAR agora as pedras os buracos e rasgões profundos das chuvas, as pontes com uns paus longitudinais com intervalos entre si... outras de tábuas soltas e pilares arruinados... a montanha e a inquietação...
...se caio num buraco destes nunca mais saio daqui!... com um carro que não foi concebido para estas andanças!...
Cinco horas depois.. encontro uma estrada semelhante àquela em que iniciei este trajecto!.... de Ubaitaba
para Maraú.... mau piso mas já com trânsito... uuufhhh!!!...

A península de Maraú que se estende por muitos quilómetros até à Barra Grande é um paraíso de vários pontos de vista e, ao que parece, o único local a sul onde se pode fazer orla... mas como é andar para trás e já tenho o meu dia!.... fica para outra ocasião. Esta zona dará, por si só um programa completo... dirijo-me à balsa para Itacaré... outra celebridade recente nas rotas
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CLICK PARA AMPLIAR balneares, para almoçar à beira da belíssima orla virada para o Rio das Contas.

As belíssimas praias a sul de Itacaré incrustadas em parques naturais são controladas e nem os carros comuns têm acesso... logo não há buggy para ninguém!.... e mais a sul depois da Ponta da Serra Grande, o areal de mais de trinta quilómetros até Ilhéus é sedutor!... mas como local de desova de tartarugas, a sanção por transitar ali pode ir até à
perda do veículo!... o que está correcto...

Ilhéus, cidade com um recorte geográfico bonito, vive de recordações!... do cacau e de Jorge Amado. Lá está o Bataclã exibindo o quarto da Maria Machadão e vendendo chocolates e licores e vez de meninas!...; o Vesúvio do Nacibe ainda com o ar solene da clientela distinta de coronéis que encomendava ao padre uma missa de três horas para entreter as mulheres enquanto que, por um túnel, se esgueiravam dali para o Bataclã, na ala oposta
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Da sua época áurea ainda ostenta um belíssimo teatro, o mais belo exemplar encontrado numa cidade não capital e só superado por Belém ou Manaus...

A paisagem a sul de Ilhéus é desinteressante... sem beleza.... quase deprimente... As passagens dos rios
Pardo e Jequitinhinha obrigam a um retorno de centenas de quilómetros à BR 101 e o regresso à orla por Itapebi e Barrolândia, no meio de dezenas de camiões e máquinas de construção viária, com muito chuva e, paradoxalmente pó!.., leva a uma zona de praias inexploradas e belas a norte do rio Sul que as separa de Santa Cruz de Cabrália.

A partir daqui tudo cheira a história!... e a orla de 36 quilómetros que a separa de Porto Seguro é das mais
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Depois duma semana de mar largo frente ao Monte Pascoal, primeira terra e ser avistada pelos descobridores, Cabral rumou a norte em busca de porto seguro que acabou por encontrar na foz do Rio Buranhém protegida por uma extensa barreira de coral, que na maré baixa separa nitidamente as duas águas com cores diferentes.
Local de turismo de massas, Porto Seguro, não sofre
dos estrangulamentos das suas congéneres mais a norte. Há lugar para todos e a concorrência na oferta de serviços faz dela o local mais barato de toda a orla desde Fortaleza. A cidade tem a sua animação e vida própria embora a zona balnear se situe na faixa a norte até Santa Cruz de Cabrália semeada de praias encantadoras onde a oferta para todos os gostos e bolsas é abundante.

No alto do morro a cidade histórica conserva o seu
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Mais acima, a meio caminho de Santa Cruz de Cabrália no local de Coroa Vermelha foi realizada a primeira missa cristã em território brasileiro por
frei Henrique Soares de Coimbra, local assinalado por uma grande cruz e objecto das comemorações dos 500 anos da descoberta, em 2000.

Mas a noite de Porto Seguro é no Arraial d'Ajuda. Situado no alto dum morro na margem direita do rio, sofre de todos os congestionamentos dos outros locais famosos e, talvez por isso, seja preferido por uma certa casta urbana de forasteiros que para ali transportam as suas necessidades promíscuas!...
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CLICK PARA AMPLIAR Poucos quilómetros mais a sul, Trancoso, com uma configuração semelhante, é um verdadeiro encanto!... O quadrado, nome que é dado à praça central, ladeado de casinhas coloniais mergulhadas na verdura que bordeja a praça, quando chega a noite e iluminado por velas... assume uma configuração irreal de um outro mundo... fora do tempo!...
As praias, lá em baixo, bordejadas de verdura, são de acesso pedonal... continua a não haver acesso para o buggy e mais a sul situam-se algumas das tidas como
mais belas do Brasil.... Mas como diz o ditado que não há bela sem senão!... estas belas, como a dos Espelhos, são públicas para quem vier do mar porque o acesso por terra é privado e obriga ao pagamento de estacionamento!... uma prática reiterada, com a complacência das autoridades, que mancha o encanto natural....

Sem contemporizações... rumo a Caraíva. Situada na barra do rio do mesmo nome, atinge-se de canoa... e,
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CLICK PARA AMPLIAR para variar!... o estacionamento , do lado de cá do rio, é pago!... Mas temos a opção entre o público e o privado... no público são cinco reais mas o nosso carro viaja na nossa ausência mesmo sem o nosso consentimento; no privado são cinco reais e garantem-nos que ele fica parado!... a escolha é óbvia!... mas o processo questionável!... mas por cinco reais!!!...

Sem estradas, sem electricidade, o táxi é uma carroça,
debruçada sobre o rio ao entardecer!... é a última das experiências em rusticidade, em isolamento e tranquilidade!....

Os caminhos de areia entre quintais arborizados com casinhas rústicas no meio!... estendem-se de ponta a ponta e cruzam-se em ângulos rectos com uma fiada de árvores ao centro são um encanto de percorrer de dia e uma nova experiência à noite!... é ali que, por momentos, convida a esquecer todas as intrigas, velhacarias e
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CLICK PARA AMPLIAR perfídias que alimentam a ordem do mundo... mas também onde nos lembramos, com amargura, que esse mundo existe... e interrogarmo-nos como é possível nele existirem ainda locais assim?!...

Mais a sul o Parque Nacional do Monte Pascoal ao largo do qual Cabral fundeou pela primeira vez na sua descoberta. Procuro atingi-lo, não pelas excursões que daqui se fazem, mas por terra voltando à BR 101 para subir, se possível ao monte. Dezenas de quilómetros,
por estrada precária e uma confiança cada vez mais abalada na resistência do buggy sujeito a esforços e traumas para que não fora concebido...e mais uma vez a ausência do GPS a pesar no resultado...
Chegado ali a decepção é total. Ao contrário de Porto Seguro onde a memória está bem preservada, o Monte Pascoal é o abandono quase completo. Não há qualquer estrutura de apoio... restaurante lanchonete ou bar mesmo rudimentar. Na recepção estão duas adolescentes pouco qualificadas profissionalmente mas muito na arte
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CLICK PARA AMPLIAR de espoliar!... e a entrada custa cada vez mais à medida que encurta o percurso... porque novos encargos vão surgindo antes não explicitados!...

O adiantado da hora determina o regresso. O monte Pascoal lá fica... visto de longe tal como por Cabral...

O regresso a Fortaleza está eminente... de buggy é ainda uma tarefa árdua de cerca de dois mil
quilómetros!... aproveitado para algumas visitas no interior, entre elas, outro lugar histórico de primeira grandeza... caído no esquecimento!... Quilombo de Palmares!...

Situado no alto da Serra do Barriga, junto a União dos Palmares, onde quase ninguém sabe da sua existência e muito menos indicar o caminho para lá!...
O acesso é difícil com troços de estrada precária e quase a pique... e o buggy lá vai no seu esforço
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CLICK PARA AMPLIAR sobremecânico!!!... cumprir mais esta exigência do seu insaciável dono!... O local é, do ponto de vista estratégico, perfeito...na lombada da serra com vista sobre as imediações em todas as direcções e a distância considerável!... do ponto de vista panorâmico, um momento raro de contemplação!...
Do ponto de vista histórico... umas cabanas simbólicas, umas placas comemorativas de circunstância e o abandono total!... lembrar que este foi o maior quilombo da história da escravatura do
Brasil.. que, não fora a intriga, teria vencido a coroa portuguesa... é empolgante!... mas votado a este abandono... é confrangedor!...


Apostilha
Esta foi uma expedição extraordinária e algo que, ao que parece, ninguém tinha empreendido antes. Quando numa
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povoação pedia informações acerca dos acidentes da costa, as pessoas perguntavam invariavelmente a onde queria ir. Quando dizia para sul ficavam confusas porque para elas isso não fazia sentido. Ali, as pessoas sempre iam a algum lado e voltavam ao ponto de partida, particularmente os buggys que apenas faziam circuitos periféricos às povoações onde estavam sedeados... quando finalmente percebiam o que se passava ficavam admiradas, incrédulas ou estupefactas...
Em Pitimbu, um respeitável cavalheiro, de grupo etário mais baixo, insinuava mesmo que já tinha idade para ter juízo!...

A Revista Viagem dedicou dois números especiais exactamente a esta área coberta e, mesmo com a desproporção de meios, fê-lo pelo método clássico de ida e volta à orla e não com cobertura sistemática como neste caso. Também a TV Globo punha no ar ao mesmo tempo a sua abordagem a esta área que começa a ser vista
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CLICK PARA AMPLIAR com outros olhos pelos brasileiros... mas, como é evidente, com meios, abordagem e objectivos diferentes...
Esta expedição continua assim um acto único que mostra como com poucos meios se pode fazer algo mais sistemático e radical do que as reportagens seguras, ainda que em povoados pequenos, dos órgãos de comunicação...

É uma expedição de muitas emoções, muitas boas,
únicas e outras, como se viu, más... mas todas construtivas, todas resolvidas com custos muito abaixo dos riscos potenciais envolvidos... a expedição de um praticante, de recreio, de Todo-o-Terreno num veículo que não fora concebido para tal... mas que se saiu muito bem...

É uma daquelas coisas que nos leva a encontrar momentos de compensação, sempre buscada e raramente encontrada, para a vida... da qual desperdiçamos,
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CLICK PARA AMPLIAR infelizmente, nesta sociedade, a sua maior parte...
Só lamento que para os vindouros ainda tenha que ser pior!... pois há décadas, e pela primeira vez na história desta civilização, que andamos a consumir o futuro...

Até ao século XX, a natureza e, com ela, a humanidade sempre economizou para o futuro. Neste século com a perspectiva de esgotamento das energias fósseis e o aparecimento da energia nuclear, a humanidade começou, sem o saber, a comer o próprio futuro!...
e deu os primeiros passos no caminho da descida que vai fazer-se, ao contrário da lenta subida, em movimento uniformemente acelerado...


Lisboa, Julho de 2006
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