MARROCOS !
MARROCOS !



Dois em um!...

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Não acredito em nada nem em ninguém porque a minha já longa experiência me ensinou que nada é definitivo, nada pode ser dado como adquirido.

Contudo, uma certa constância tendo por eixo central alguns princípios imutáveis é necessária a uma saudável existência psicológica.

Quando tudo muda sem referências, numa confusão de valores e princípios, sem distinção entre bem e mal, certo ou errado, é o temido CAOS para o qual parecemos encaminhar-nos sem apelo nem agravo!...

A perda de noção da diferença entre BEM/MAL, CERTO/ERRADO que parece ter-se instalado consubstanciada na afirmação, tantas vezes proferida, "têm de aceitar-me como eu sou" veiculada por certa "pop psychology" pseudo-terapeutica parece enviar para o lado, ironicamente, errado quem não aceita os comportamentos aberrantes que hoje abundam na sociedade!.

Vivemos uma época em que todos os valores se afundaram e o que conta é o efeito imediato, seja na intimidade, na economia, na ciência, na política ou no consultóro.

As contradições com o passado ou as consequências no futuro não preocupam ninguém, ainda que os seus custos sejam incalculáveis. O resultado de tudo isto é um aumento incontrolado da riqueza nas mãos de cada vez menos e, concomitantemente, da pobreza, nas mãos de cada vez mais..., um discurso confuso de igualdade que a realidade nega a cada momento, gerando uma dissonância cognitiva que produz, por um lado, nos espoliados com princípios, uma propensão para a patalogia e, naqueles sem princípios, uma predisposição para o crime e a violência.

Nesta confusão generalizada toda a gente se julga, não igual mas, superior a toda a gente numa escalada que termina na vitória do mais dissoluto, arrastando todos para um nivelamento por baixo num movimento de que as televisões são o vector principal.

A decência, a honestidade, o conhecimento, a solidariedade, a entre-ajuda e o respeito são hoje considerados ingenuidades e explorados sem pudor por uma parcela da população. Isto é o resultado da psicologia do "politicamente correcto" ou psicologia do voto como prefiro chamar-lhe, já que votar, para justificar os actos dos dominadores/exploradores, é a única igualdade que esta sociedade consente.

Contra esta psicologia do voto em que todos são, teoricamente, iguais defendo a teoria, sempre confirmada nas minhas experiências, da desigualdade absoluta com as pessoas arrumadas em duas grandes categorias: 90% de indivíduos medíocres com fraco discernimento em situações ou operações complexas e 10% de inteligentes. Destes, 5%, embora com uma inteligência que lhes permite movimentar-se em situações complexas, são deficientes em consciência ética. São os indivíduos de sucesso, os que enriquecem facilmente e que manipulam e exploram todos as outros da política ao capital.

Os restantes 5% são os falhados!... Falham relativamente ao sucesso neste tipo de sociedade mas são aqueles a quem a humanidade deve o facto de ainda existir, ter saído da barbárie e aqueles a quem se recorre nos momentos de crise para não mergulhar no CAOS, no NADA, no desaparecimento inglório. Geralmente matam-nos em vida e usam-nos como modelo depois de mortos!... matando-lhes também as ideias que distorcem a seu favor.

Porquê a maioria se deixa explorar e manipular tão descaradamente por uma minoria?... é que também ela se divide em dois outros grupos: um maior, o dos desonestos, mal aculturados que admiram e invejam os inteligentes e sonham e acreditam, na sua ilusão de igualdade, em ser um dia como eles!...; e um menor, o dos ignorantes comuns que acham que a vida é mesmo assim, ..."não há nada a fazer!"...

Sabendo embora que mais de 50% me pode trair, por princípio, dou sempre a primeira oportunidade a uma pessoa que não conheça e a minha confiança mantém-se até prova em contrário... Não quereria cometer o erro de tomar a parte pelo todo e privar-me da convivência com algum desses seres extraordinários da minha espécie, confundido, na brutalizada imensidão humana, e perder a oportunidade duma experiência maravilhosa!...



O "Cirque de Jaffar" estava nos meus planos há anos mas nunca passara por ali... As referências que tinha eram dum lugar fantástico, de rara beleza e dificuldades de passagem ainda maiores!...
A paisagem é de facto de grande beleza embora abaixo da expectativa criada, bem como as dificuldades de passagem no local...

Ultrapassado um cume na quebrada da montanha avista-se um vale aberto em anfiteatro tendo como cenário o El Yachi com uma floresta de cedros coroada pelos cumes rochosos cobertos de gelo... é efectivamente um quadro operático, ao vivo, gigantesco e real... A iluminação natural proporcionada pelo dia ensolarado completa a magia da miragem...

Entramos por um bastidor, atravessamos o palco por uma pista cavada na base deste cenário tridimensional onde alguns calhaus enormes e deslizamentos causados pelas chuvas levantam algumas dificuldades, e saímos pelo outro acompanhando este cenário colossal que se estende a vários outros palcos paralelos que atravessamos sempre com esta orla gigantesca à nossa esquerda...
Os actores, algumas tribos nómadas com suas tendas coloridas; nós somos os figurantes!... Aparecemos e desaparecemos num ápice... a récita é deles... nós vamos para outras récitas por bastidores espectaculares de uma floresta de cedros ancestrais, alguns dos quais não resistiram ao peso dos anos ou a doença desconhecida e permanecem de pé numa afirmação de beleza e robustez que nada fica a dever aos seus congéneres vivos!...

Até que acabamos mesmo por sair deste cenário numa das suas fracturas a caminho de outras sensações..

Na vertente oposta do Atlas as atracções são diferentes mas não menos espectaculares. Aqui a pedra embelezada pela verdura da vegetação ou a alvura da neve; ali a pedra embelezada pela pedra esculpida pela natureza nas suas múltiplas formas e tamanhos com recortes de tal forma caprichosos que fascinam mesmo os espíritos mais rudes!...

Já conhecia aquilo a que chamo a catedral nas Gargantas do Todra, vindo de sul... mas nunca tinha feito a abordagem pelo norte... e o espectáculo de algumas dezenas de quilómetros de rocha recortada pelos elementos ao longo dos milénios...faz-nos sentir pequenos!.. pequeninos!... no tamanho e no tempo!... depois... é a emoção sempre sentida pela grandeza e verticalidade das paredes da parte mais conhecida do último troço das gargantas, onde o curso atravessa a parte mais elevada do bordo daquilo que foi outrora um lago gigantesco antes de ter cavado o seu caminho na montanha para pouco depois se ir perder, ingloriamente, nas areias do deserto.

Caprichos da natureza. A força das águas que talha uma montanha rochosa é vencida por minúsculos grânulos de silício e pó!...

O "track" virtual, desenhado "à priori", que nos conduz a Agdz revela-se de uma precisão quase milimétrica. O sinal de GPS, apesar das circunvoluções da pista, raramente se afasta uns milímetros do traçado no mapa. É uma pista comum que sobe um vale, passa por povoados para depois, em zig-zag, subir à montanha.
Como em quase todo o Marrocos as crianças assomam à estrada para ver passar os carros e pedir "cadeaux".

Nos lugares mais batidos, primeiro pelo turismo alternativo, depois de massas, essa curiosidade, virou hábito, tornou-se vício e gerou comportamentos abusivos e agressivos, num contra-efeito da atitude generosa que os originou.
Há lugares em Marrocos onde as crianças ainda olham à distância os seres extraordinários que os visitam!... guardando assim uma reserva de dignidade que as outras parecem nunca ter tido...

Aqui estão a meia distância entre estes dois extremos...
A pista segue em zig-zag para vencer o desnível do terreno e eles encurtam esta distância subindo a direito... São ângulos e mais ângulos a subir e, a cada passagem pela sua linha de subida, eles lá estão, os mesmos de lá atrás!...
No alto, o meu companheiro de viatura acha que merecem o prémio de tamanha persistência!..

A panorâmica sobre o vale é deslumbrante... com as suas casinhas, manchas de vegetação e a pista desenhando os seus caprichos aritméticos em perspectiva geral vista de cima.
Para a frente a paisagem é bárbara, exótica e extra-terrestre!.. parece que navegamos na cratera dum antiquíssimo vulcão tal é a geomorfologia, natureza, cor e disposição das suas rochas...

São quilómetros duma paisagem estranha com formações rochosas enegrecidas e algo deprimentes na sua beleza irreal!...

Estamos no coração do Jbel Sahro ao sul do Atlas... Zona inóspita, não se vê gente e os rebanhos são raros... Voa aqui uma especie de pássaro de um amarelo triste a condizer com a paisagem que fascina pela estranheza. Sobretudo na descida, onde encontramos um hotel confundido com uma paisagem rochosa estratificada que muito teria a ensinar aos “experts” de preservação ambiental do lado de cá!...
Mais abaixo o recorte desenha uma floresta de verdadeiras estalactites a céu aberto de cor escura acastanhada bem digna de figurar no cenário de um filme galáctico!

Apesar de todas as precauções não deixamos de bater com a parte inferior de carro numa pedra mais saliente no piso, sem consequências para a mecânica mas que arregaçou a chapa de protecção do cárter que teve que ser removida... e, qual não é o nosso espanto quando avistamos uma turma de dois cavalos e meharis a descer com uma ligeireza e facilidade, como que flutuando num voo rasante!.., naquilo que era uma zona de preocupação para jipes...

Depois entramos na zona a que poderíamos chamar o nível zero. Avista-se um horizonte longínquo com montanhas à nossa volta mas os acidentes mais próximos são em baixo-relevo, em -1!... Os cursos de água recortam o seu leito num planalto extenso e correm apertados em vales que se vão alargando à medida que avançamos para jusante. É a zona de subsistência. São verdes, bonitos e remotos... Como será viver aqui?.. interrogo-me!...

Não nos apercebemos do alargamento do vale. As montanhas é que parecem ter adoçado os contornos ásperos e recortados a pique e recuado no horizonte a tal ponto que próximo da confluência com Draa terminam em cordilheiras perpendiculares ao vale, quais restos de fortalezas gigantescas ou moinhos de vento que nos espreitam à distância num cenário de inspiração quixotesca!...

De Agdz a Tata é estrada, estradão e pista sem grande história. A velocidade num estradão de pedra solta rebentou com um pedaço no centro do rasto do pneu duma viatura, fenómeno estranho porque, raramente um pneu rebenta por ali!...
Mais estranho ainda quando esse acontecimento levou a uma série de reacções em cadeia que acabou com a expedição!...

O objectivo era fazer uma pequena incursão no Sahará Ocidental por Assa e Smara com regresso à costa por Laayoune.

Reparar aquele dano num pneu em Tata revelou-se uma verdadeira Odisseia!... de lugar em lugar e ninguém fazia milagres!...

Confiava nos meus companheiros de viagem, como sempre faço até prova em contrário... e estes, pelo menos um deles já tinha dado várias provas de confiança... embora tivesse plena consciência das suas debilidades.

Mas o ser humano é como um baralho de cartas num jogo de batota do qual se pode tirar sempre um trunfo inesperado!

Não escolho as pessoas pelo seu nível intelectual, cultural, social ou económico. Tudo isso é fácil de adquirir!...
Uma pessoa vale o que valer a justeza e solidez dos seus princípios e valores que não se compram, não se vendem, tem-se os que se tem e que nem uma plástica pode alterara como a cor da pele, a cor dos olhos ou dos cabelos!...

Mas pessoas de escassa cultura intelectual, fracos interesses culturais ou naturais, têm pouca sensibilidade às profundas diferenças culturais entre europeus cristianizados e marroquinos arabizados... Quando estas deficiências e algumas frustrações e carências se regam com álcool, estamos perante uma mistura altamente explosiva...
"In vino veritas!"... continua verdadeiro milénios depois!.. uma pessoa de bom carácter fica dócil, amável e até excessivamente simpática ou humilde; o contrário também é verdadeiro...
Os meus companheiros de viagem não resistiram aos vapores do álcool e involveram-se numa série de comportamentos sórdidos cuja história me dispenso de detalhar!.. e.. abandonaram a prova. Fazem hoje parte daquela massa indefinida que se situa no extremo mais baixo da natureza humana.

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ALENTEJO
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Os manuais de estratégia aconselham sempre a existência dum plano B.

Esse plano fora equacionado quando poucos dias antes da partida algumas viaturas desistiram.

Naquelas condições não era sensato terminar o plano A, sendo activado o plano B.

Regresso a Portugal com paragens em Essaouira e Moulay Bousselham em espírito desportivo relaxado!... Tinha sido bom enquanto durou!...

O plano B consistia em fazer de jeep aquilo que um grupo de motas fizera antes: Portugal de ponta-a-ponta fora de estrada.

Viajávamos ao invés daquele grupo, de sul para norte, por caminhos trilhados por motas o que representava um novo desafio já que as dificuldades são diferentes quer de inclinações de percurso quer de largura de pistas e travessia de obstáculos.

E os primeiros surgiram logo no primeiro dia: atravessar uma parede de pedra no alto da serra algarvia e sair duma pista obstruída pelo entulho dumas obras numa localidade serrana.

Conhecíamos a serra algarvia, conhecíamos relativamente bem o país mas não deixou de ser uma verdadeira surpresa esses mesmos lugares vistos deste ângulo. Por estrada, mesmo tradicional, perde-se muito da verdadeira beleza natural que ainda sobra da rapina ou da gula dos interesses económicos cegos e destruidores.

Subimos montes, descemos vales atravessámos rios e ribeiros, vimos fontes que imaginávamos desaparecidas e, ainda e felizmente, uma enorme variedade de flora e de fauna, sobretudo aves, umas desconhecidas, outras que julgávamos extintas!...
Aves espetaculares!... mas eram, sobretudo, as conhecidas perdizes que mais nos divertiam. À nossa frente na pista resistiam o mais que podiam sem levantar voo para desta maneira nos afastar da prole que ficava mimetizada na vegetação!...

Comíamos a boa comida tradicional, dormíamos confortavelmente e regressávamos ao “track” pela manhã para mais um dia de maravilhas em turismo rural “cá dentro” à nosssa maneira!... juntando assim numa única expedição, o melhor de dos dois mundos!

Ao cenário algarvio seguiu-se a planura baixo alentejana que foi cedendo lugar a uma paisagem mais variada que termina junto de Montemor com um cenário natural de rara beleza: um montado de sobreiros antiquíssimos com seus troncos e ramos retorcidos de um castanho carregado suportando ramadas de um verde viçoso difundiam uma luz coada sobre o verde do terreno em dia ensolarado... numa miragem de verdadeira irrealidade!

O resto do percurso ficou agendado “sine die” para realizar em percurso autónomo e já não como plano B!... o desempenho até aqui justifica essa promoção!...

Aracajú aos 24 de Julho de 2009




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