AO SUL DO ATLAS II
AO SUL DO ATLAS II



Nas Faldas da Civilização!....

CLICK PARA AMPLIAR Uma estrada asfaltada liga Rissani a Merzuga acabando com o encanto dum lugar simultaneamente remoto e acessível ao não iniciado no turismo alternativo. O Erg Shebi era o santuário onde se realizava o baptismo de qualquer iniciado no deserto. Visitei este lugar ainda no tempo em que trilhar as pistas que ali conduziam era uma experiência gratificante!... Hoje é um lugar já sem encanto, acessível ao turismo parolo, a que depreciativamente já chamei de rebanho, e a que o capitalismo concentracionista chama de massas.

Contudo, a poucas centenas de metros dali, o velho encanto reaparece e começa a sentir-se nas ventas o frenesim que a genética berbere deixou nas paragens ibéricas!... agora num mini regresso a casa!...
CLICK PARA AMPLIAR A pista ziguezagueando por entre uma tempestade de areia, não trava o ímpeto da expedição por longos quilómetros duma paisagem dura, agreste e fascinante, que fustiga com violentas rajadas que reduzem o horizonte à distância dum salto de camelo.
O objectivo é fazer as pistas do sudeste marroquino, junto às fronteiras da Argélia e Mauritânia até Foum Zguid, cuja morfologia geopolítica é, por vezes incerta.
Nem sempre sabemos de que lado da fronteira estamos já que a própria cartografia básica do GPS é imprecisa quanto a essa exactidão!... Os locais que encontramos, a largos espaços, quando a comunicação é possível, dizem-nos estarmos em Marrocos.
CLICK PARA AMPLIAR Com poucos e curtos intervalos de bonança a tempestade fustiga impetuosamente!... Uma corrente permanente de areia e pó avermelhado sopra de sudoeste mergulha-nos num ambiente baço e sufocante!... Temos areia por todo o lado!... não apenas dentro dos carros mas também dentro dos corpos desde as partes mais expostas às mais íntimas... nos ouvidos, nariz a sangrar, nos olhos, entre os dentes!...

Com o aproximar da noite, a detecção da pista, já de si problemática em condições normais, vai-se tornando mais difícil...
Depois de muitas horas cheias de nada que não fora montanhas esquálidas vomitando toneladas de terra dum fascínio mórbido, tanático... uma forma mais regular destaca-se daquelas sinuosidades ondulantes que são os contornos da montanha modelados pelas vagas de areia..., à direita, sobre um morro impreciso, periclitante nos vapores dum inferno térreo!... é um albergue, um pouco de terra amassada e disposta por mão humana de forma a servir de abrigo isolado neste fim do mundo!...

CLICK PARA AMPLIAR O espírito de aventura quase nem dá pela sua presença mas quando o avanço se torna impossível e a noite ameaça a tornar mais impenetrável o espaço visível à nossa frente crivando-nos a pele com miríades de pequenos dardos de silício acutilantes!... é que nos apercebemos da sua presença... já fora do alcance visual!...
Sem palmeiras, sem nascentes, no cimo de uma pequena e seca colina... é, ainda assim!... um oásis!... um refúgio no meio daquela desolação!...

O gerente julga-nos loucos por viajarmos debaixo desta tempestade que... até eles!... que as conhecem, temem!... mas mais estupefacto fica quando sabe que parte da caravana acampa a alguns quilómetros daqui!...

CLICK PARA AMPLIAR Manhã. Sol radioso!... A tempestade passou!... Dura, geralmente, quatro a cinco dias e acontece quando chove a norte do Atlas. A sudeste a longa falésia, de recorte irregular, fronteira com a Argélia; a noroeste a cadeia montanhosa longínqua mergulhada num halo azulado numa miragem de conto de fadas... adivinhando-se como fundo deste gigantesco quadro sem moldura as montanhas do Atlas, nevadas, que lhe dão esta profundidade indizível!... Com azimute às sete horas navegamos numa rota irregular que serpenteia dentro dum vale delimitado por estas duas cadeias estendendo-se de nordeste a sudoeste por recantos de inegável beleza agreste a que não faltam as famosas miragens de lagos efémeros que enchem e esvaziam numa fracção de segundo ao sabor das refracções que produzem este fenómeno!...

CLICK PARA AMPLIAR À nossa frente desenha-se agora uma planície vasta. As montanhas recuaram abruptamente para distâncias respeitáveis deixando lugar para o espectáculo majestoso duma imaginária galeria cercada por esculturas futuristas produzidas por gigantes antigos!... no vasto pavimento com inflexões luminosas produzidas pelas miragens, recortam-se as silhuetas dos actores e figurantes duma representação produzida em lugar e tempo reais!... Vêm de vários quadrantes, convergem para pontos distintos formando pequenas rosáceas sem se aglomerarem. Uma feira?!... uma festa?!... sabe-se lá!...
Passamos de fugida... “passa depressa... cobre-os de pó... assusta-os senão caiem-te em cima como moscas...”. Que perda!... para quem aprecia o convívio com as populações!...

CLICK PARA AMPLIAR Ao almoço, uma família de pastores nómadas acocorada observa-nos, com atitude de quem contempla animais exóticos ou marcianos, sem nos perturbar. Damos-lhe comida e roupa, esta convenientemente arrumada no pó à sua frente!... penso que ainda hoje devem estar a interrogar-se por que motivo lhes recusamos o lixo, à partida, única coisa que nos pedem!...

Por uma paisagem de beleza rude onde é evidente a passagem de enxurradas que arrastam consigo toda a camada de solo livre deixando extensas zonas de laje à vista, atingimos Mhamid.
À noite, o convívio com os nossos anfitriões, no albergue, é momento estimulante desde a negociação do preço ao cumprimento das condições com momentos verdadeiramente hilariantes onde os acepipes mais temperados são respeitantes ao álcool e às “gazelas” estas sempre presentes no discurso e ausentes na prática!...

CLICK PARA AMPLIAR De Mhamid a Foum Zguid a paisagem mais variada alarga-se a sul para dar lugar ao lago mais caprichoso alguma vez visto. O lago Iriki, cheio de água à distância, esvazia à medida que nos aproximamos dando lugar, à nossa passagem, a um verdadeiro prado verde de vegetação herbácea algo exuberante!... mais uma vez as famosas miragens fazem o milagre de no pequeno intervalo de alguns minutos termos a ilusão dum lago que enxuga e onde cresce repentinamente uma vasta camada de vegetação!... como que a lembrar-nos da nossa falta de humildade tantas vezes apoiada nas certezas que temos no testemunho dos sentidos!...

Após este paraíso no meio do nada voltamos àquela paisagem de fim do mundo aqui eivada de calhaus, onde nem um espinho cresce, a perder de vista até às montanhas longínquas. À beira da pista desenha-se a silhueta dum ser humano numa miragem agora real de quase cadafalso.
CLICK PARA AMPLIAR Está andrajosamente fardado, diz pertencer ao exército marroquino e pede boleia. Faz-se acompanhar por um civil, informa que a motoreta em que se deslocavam furou. Não há motoreta à vista e com um pouco de boa vontade lá se consegue imaginar numa quebrada daquela paisagem de calhaus onde até um camelo teria dificuldade em deslocar-se!... Ponderada a situação de segurança, nesta terra de ninguém que tanto pode ser Marrocos, Argélia ou Mauritânia, aceitam-se os argumentos de credibilidade duvidosa!...

Foum Zguid desenha-se no horizonte numa fractura da cordilheira que nos acompanha, como uma sombra, a nordeste, e na qual a luz do sol desenha, guiada pelos acidentes naturais do terreno, miríades de arabescos de formas inimagináveis!...

CLICK PARA AMPLIAR Na colina sobranceira à cidade anichada num local estratégico de primeira grandeza, situa-se o posto de controlo militar que nos acolhe calorosamente ao ver um dos seus sair da viatura. Não somos estranhos!... elementos duvidosos a controlar. Somos amigos acabados de chegar!... até o pedido para não fotografar o posto, é isso mesmo... um pedido delicado e não uma ordem.

O posto, um pequeno tugúrio de lama seca, mal acolhe a comitiva e o chá, ritual de aceitação e acolhimento islâmico, feito no pequeno bule de duas doses, tem de ser várias vezes repetido. Apesar de ser uma repartição pública, tudo ali é escasso (um único copo para todos!...) e abaixo do conceito do rudimentar europeu mas aqueles homens dão as últimas gotas do nada que têm pelo reconhecimento dum gesto!...

CLICK PARA AMPLIAR À noite no albergue o nosso anfitrião dá-nos duas pernas de frango para quatro pessoas. À nossa surpresa responde com desfaçatez:”partilhem-nas!...” Embora violando o contrato, não reclamámos muito mas mesmo assim lá apareceu o resto do frango... mas fiquei com um certo desconforto de ter comido, sem grande necessidade, aquilo que poderia ter sido um banquete para eles!...

Ao serão, num misto de sedução pelo pecado e zelo religioso, quase se deixa tentar pelo Vodka mas os vapores fortes do álcool fazem-no hesitar dizendo que queima. Inebriado pelos mesmos vapores cometo a imprudência de parodiar: “é o fogo do inferno!...” O terror estampado no seu rosto faz-me arrepender mil vezes num segundo de ter dito aquilo!... embora não prejudique em nada o humor em que a sessão continua a desenrolar-se mas já sem hipótese alguma de levá-lo a provar algo espirituoso mesmo mais leve.

CLICK PARA AMPLIAR A pista para Ouarzazate já foi!... Agora é uma estrada asfaltada não respondendo ao objectivo de todo-terreno. Zagora é a opção natural. Por um vale estreito entre duas cordilheiras, marcado o ponto no GPS a cem quilómetros de distância, é seguir o azimute!...

Mais que a paisagem, sempre deslumbrante, é agora o ziguezaguear pela planura que faz as delícias do momento: “pista à direita!... pista à esquerda... em frente... segunda à esquerda...” e as máquinas deslizando como pontos móveis numa paisagem gigantesca ora crepitando nos ressaltos ora rodopiando nas curvas dos trilhos profundos, o entusiasmo é regado com níveis altos de energia positiva!...

CLICK PARA AMPLIAR O vale, primeiro em cotovelo, começa a abrir suavemente, em ângulo agudo. No ponto onde a bissectriz deste ângulo imaginário tocaria a hipotenusa surge destacando-se acima do horizonte um vulto que cresce à medida que nos aproximamos, qual icebergue de gelo escuro num mar de neblina barrenta!... Ao seu lado flutuam formas mais pequenas que a pouco e pouco se destacam para formar um conjunto chamado Zagora.
Na cidade a única coisa verdadeiramente interessante é a famosa placa que indica o caminho para Tombuctu, relembrando os tempos em que era aqui o fim do mundo onde começava o caminho das caravanas.

CLICK PARA AMPLIAR É também o fim do vale do Draa, um oásis que se estende por muitos quilómetros entre montanhas inóspitas, que aqui se começa a espalhar nas areias do deserto até nelas se extinguir na zona do Lago Iriki.

À beleza deste vale sobrepõem-se, não pela verdura mas pela rudeza da paisagem, as escarpas da montanha, o alcantilado das aldeias, o vale a norte de Ait Benadou recortado no coração do Alto Atlas. Um fascínio de vertigem apodera-se de nós ao contemplar de ângulos incríveis uma pista serpenteando, ora à beira do ribeiro atravessando-o, ora nas escarpas da montanha, rasgada na falésia sobre uma parede precária do lado da escarpa ameaçando ruir, até aos cumes de panorâmicas colossais de cortar a respiração!...

CLICK PARA AMPLIAR O vale parece acabar já ali... a montanha é intransponível!... mas chegado ali... outro meandro se descobre mais abrupto, mais fechado, mais fascinante. As aldeias perigosamente construídas de terra, abrigam-se atrás de falésias rochosas cujos cumes, algumas centenas de metros acima apresentam uma coroa de rochas gigantes soltas que ameaçam desmoronar-se a todo o instante!... Uma só delas, acelerada pela gravidade, passaria pela aldeia como um meteorito não deixando nada de pé!... a mais leve tremura do solo seria uma hecatombe... e, esta gente, aparentemente, consegue dormir nestas casas!... é o que surpreende.

CLICK PARA AMPLIAR De surpresa em surpresa, o vale penetra o íntimo da montanha e agora as casas já são escavadas na rocha cortada a pique debruçada sobre o ribeiro, vistas cá de cima da pista que aos poucos se vai afastando do fundo do vale. O espaço útil diminui a olhos vistos!... já estamos a altura considerável com uma montanha que parece sem saída!... até que finalmente se perde o vale de vista... lá fica mergulhado na sua beleza rude de pétrea constituição, perdendo aos poucos o seu isolamento.

É mais um recanto que começa a ser descaracterizado pelo turismo de massas, esses rebanhos necessários à economia dos países, que degrada e encarece a vida das populações que raramente ganham alguma coisa com isso!...


Apostilha


CLICK PARA AMPLIAR Os países mais pobres não têm chances nenhumas de desenvolvimento na actual ordem sócio-economico-financeira global. Os ricos usurpam-lhes os recursos, vão lá comer por uns tostões aquilo em que muitos naturais não conseguem tocar e depositam lá os seus dejectos com os quais já têm dificuldades em conviver em casa.

O seu aparente desenvolvimento, quando o há, não passa da acumulação desses dejectos sob a forma de material usado ou obsoleto com o qual ainda vão arrancar-lhes mais uns tostões em vez de pagarem para se verem livres dele, assemelhando-se este processo a uma gigantesca maratona na qual os atletas de trás ganham terreno relativamente ao ponto de partida (ilusão de progresso) mas perdem cada vez mais relativamente aos primeiros.

CLICK PARA AMPLIAR O seu progresso mede-se pelos ganhos relativamente ao ponto de partida ou pelo atraso relativamente à chegada?!...

Essa é a questão!...


Lisboa, Maio de 2004




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