AO SUL DO ATLAS!
AO SUL DO ATLAS!






SOUTH OF ATLAS !



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AO SUL DO ATLAS !

Através da vidraça do ferry brilham, na noite, espelhando-se na água as luzes de Ceuta. Dentro de momentos estamos em Africa.

Após uma tirada directa até Algeciras, Ceuta é um ponto de passagem, já visto, e destituído de qualquer interesse para esta expedição. Reúne o que a Europa e a áfrica têm de pior: a impunidade da primeira; a iniquidade da segunda. Os vestígios da presença portuguesa estendem-se do Castelo na montanha à Rua de Camões passando pelas muralhas da cidade junto às quais o Hotel Muralha, que embora de qualidade, é caro relativamente às prestações.

Na fronteira, de manhã, para formalidades, deparamo-nos com o que, para muitos, é o flagelo de Marrocos: os prestadores de serviços não solicitados a troco duma "propina". Este termo irá perseguir o Valter até à paranoia de querer reeducar os marroquinos. Empreendimento difícil!...

Tetouan fica-nos ao lado. As montanhas do Riff, a nascente, apresentam uma perspectiva fabulosa de conto de fadas mergulhadas na neblina matinal de sol brilhante ascendente! O nosso objectivo é o Sul do Atlas, aproveitando para algumas visitas intercalares na planície.

Um desvio, não programado, a Chefchaouen, que o Valter queria visitar, não trouxe valor acrescentado ao percurso. é mais bonita vista de longe encrustrada na encosta da montanha. O atraso introduzido iria repercutir-se em Meknès sem grandes consequências tratando-se de uma revisita.

Ao fim da tarde, depois de um almoço ligeiro e uns bons quilómetros devorados, após uma curva da estrada, uma manada de vacas pasta na berma e campo contíguo. Afrouxamento, aproximação cuidada e...no último instante...uma delas resolve atravessar a estrada...travagem a fundo...bate...não bate...passou...não sei como....pancada violenta...onde estava a outra vaca que não a vi?!...

Não foi uma vaca!... foi um gajo que se espetou aí atrás!...
exclamou o Valter. Olhei sobre o meu ombro esquerdo e lá estava ele. Um Mercedes com muitas cabeças assustadas lá dentro, atravessado na outra faixa, de frente para mim, com a dianteira completamente desfeita. A chapa do capot recuara e elevara-se até ao párabrizas, a roda dianteira direita, o radiador entornando e o motor recuaram até quase ao habitáculo. Não havia feridos!...que sorte!...a confusão veio depois.

As pessoas juntavam-se, comentando, dando opiniões, fazendo sugestões, oferecendo serviços...tentando meter o nariz dentro do carro...(os feixos centralizados são uma grande invenção!...)

O condutor do táxi não queria trocar elementos de identificação para participação ao seguro. Queria a polícia. Os números de telefone, na rede móvel, da polícia e dos bombeiros não entravam. Os recados que mandávmos por quem passava não surtiam efeito. A noite caía. Era Ramadão e com o cair da noite os marroquinos desaparecem por uma hora ou duas para satisfazer as suas necessidades interditas durante o dia. E a confusão, o desespero da espera aumentavam.

Que noite de Natal!...

Com o aparecimento da polícia, a multidão cresceu de novo e as opiniões e tomadas de posição também. A polícia parecia-me demasiado permissiva às pressões que alguns individuos faziam para que perdoasse ao taxista. Para eles o JEEP não tinha danos enquanto o táxi estava desfeito. Oiça lá...isto é blindado ou quê?!... observou um deles. Entretanto alguém fez saber que tínhamos tirado fotografias e filmado o acidente e um dos polícias chamou-me malandro. A situação era preocupante...

Declaração amigável preenchida por ordem e com directrizes da polícia...com avanços...recuos...interrupções...pressões e finalmente um croquis, por mim elaborado, na falta de aptidão de qualquer deles para o fazer, o que mereceu o elogio você é engenheiro ou quê?!.. ao que eu respondi: "à peau près..."e finalmente respirei fundo. Tinha resolvido o problema.

Não. A declaração tinha o químico ao contrário e não imprimira a outra cópia. Não havia outra em francês pelo que tínhamos de copiar tudo para o outro exemplar com as consequentes hesitações, avanços e recuos...de repente tudo se alterou...vamos para o posto..., disse o polícia que dirigia as operações...e as minhas preocupações aumentaram.

Foram dez quilómetros de ansiedade não porque representavam vinte de recuo no itinerário mas porque não sabia o motivo daquela mudança de atitude nem o que me esperava no posto.

Fomos recebidos pelo comandante, com chá, muita cordialidade, boas vindas, relações de amizade Portugal/Marrocos e conversa, conversa e mais conversa...enquanto a cópia da participação era elaborada e fotocópias das apólices de seguro trocadas. Despedida cordial e acompanhamento por um graduado ao hotel local modesto mas "potable" como eles o definiram.

Que se passou para uma mudança tão radical na situação? Não sei.

Enquanto esperava largas horas pela polícia, telefonei ao ACP a relatar a situação. Deram-me o número do correspondente em Marrocos mas também não consegui ligar-lhes. No meio da confusão de preenchimento da declaração, na estrada, o meu telefone tocou dentro do carro mas quando atendi já tinham desligado. Era uma chamada de Marrocos.

Penso que aquela chamada era daquela entidade e que ao não conseguir contactar-me terá ligado para a polícia a fim de informar-se da situação... penso...porque qualquer coisa se passou para alterar a situação...e se relato tudo isto é para outros interessados saberem com o que podem e devem contar!...

Cedo pela manhã, endireitar um pouco a chapa para proteger um canto solto do óculo trazeiro, um saco de plástico a proteger as lâmpadas do bloco de luzes traseiras que continuavam funcionais e rumo a Meknès com bom atraso no programa. Volubilis, as ruinas romanas mais importantes de Marrocos, e porventura do norte de áfrica, e Molay Idriss berço do pai de Marrocos, Idriss I terão de esperar por outra oportunidade.

Rumo ao Sul, Atlas no horizonte. Azrou, na subida para o pré-Atlas, nascida da fixação de transumantes e nómadas merece uma vista de olhos. Dali em diante estende-se a floresta de cedros do Atlas de madeira muito apreciada na construção e artesanato, tida como imputrescível e aroma inconfundível. Os seus melhores exemplares que chegam a atingir os 60 metros de altura, 2 de diâmetro e mais de 200 anos de vida desenvolvem-se entre os 1pic e os 2000 metros de altitude. A delapidação deste património levou à sua protecção, medida que lá como cá parece não surtir efeitos. A partir daqui a paisagem é de sonho!...

O planalto do Médio Atlas oferece-nos perspectivas abertas sobre o Alto Atlas, a sul, e as cordilheiras do Médio, a norte, numa sucessão incessante de miragens!...

Um pequeno lago, num desvio da estrada, pouco antes de Aguelmane de Sidi Ali, com águas de um negro cristalino espelhando os montes vizinhos, onde nadam bandos de patos selvagens e abundam várias espécies de peixes é de uma beleza rara.

Uma paragem na povoação e rumo a Midelt. A tarde caía e impunha-se arranjar hotel. A oferta abunda, o preço é discutível...mas nem sempre!...é preciso uma certa perspicácia para descobrir, à primeira vista, onde se discute ou não...e nem sempre se acerta. A maioria dos marroquinos sempre muito solícitos (e quantas vezes intrusivos) para dar informações nunca o fazem sem querer alguma coisa em troca. Chegam mesmo a impor-nos o consumo dum serviço que não pedimos e depois reclamam um preço não discutido nem acordado. No entanto tratam-nos sempre com respeito e cordialidade...até o perderem. Discute um preço numa unidade hoteleira de qualidade (qualidade marroquina - nem sempre europeia) ou hesita numa decisão por causa de uns tostões e eis o respeito perdido, a cordialidade transformada em desprezo.

No entanto o que caracteriza Marrocos é o seu sistema negocial. Eles parecem tirar mais prazer da discussão de um negócio do que do dinheiro ganho nele. Para eles negociar é quase tão vital como respirar e isso explica, um pouco, a atitude quase intrusiva com que nos abordam mal chegamos a um sítio qualquer.

O primeiro individuo que se encontra, em qualquer lado, está apto a vender de tudo: hotel, restaurante, produtos artesanais dos tapetes aos fósseis, coiros, cobres e quejandos, serviços de guia na cidade e arredores tudo com percursos muito complicados e difíceis para não dispensarmos o seu serviço e ainda com alguns perigos (imaginários, ou não!) cuja segurança depende dele, do nosso interlocutor, que não conhecemos mas que é o benfeitor que nos dá a segurança que precisamos... tudo por um preço discutível até um terço do valor pedido ou apenas uma "propina".

Com preço discutível ou não, a "propina" é uma instituição e, algumas vezes, esquecê-la é um insulto. Negociar com eles é um verdadeiro desafio à teoria da relatividade.

...há sempre mais qualquer... ou ...a gente só sabe depois... eram as expressões preferidas do Valter que não desistia de reeducá-los e acumulava frustrações.Na verdade, o resultado material dum negócio nunca é o produto em objectos ou serviços que corresponda ao significado literal das palavras usadas. Há sempre mais qualquer coisa a pagar que não foi explicitado ou menos qualquer coisa a receber. Penso que foi ali que as companhias de seguros portuguesas se inspiraram para elaborar as suas apólices!... e tratar as liquidações!...

Gostam tanto de negociar que o fazem mesmo sem dinheiro. O seu sistema alternativo de trocas, particularmente com os estrangeiros, leva-os a propor-nos a aquisição do que quer que seja em troca de objectos pessoais novos ou usados mesmo carecendo de lavandaria! E isto não apenas nos vendedores de rua! recebem-se propostas destas, após uma compra regular com dinheiro, em estabelecimentos respeitáveis.

Nos arredores de Midelt situa-se o Circo de Jaffar com vista sobre o Alto Atlas. Acede-se por pistas sem placas de sinalização e só uma boa capacidade de orientação consegue descobri-lo, sem guia, já que não existem mapas detalhados do percurso. No entanto, as vistas que se desfrutam do planalto, a descida ao desfiladeiro, a sua travessia ao longa de vários quilómetros de pista no leito do rio cheia de pedras soltas de todos os tamanhos, curvas e gargantas apertadas onde o carro mal cabia sob pedregulhos em estado de aderência duvidosa à falésia, é verdadeiramente excitante.
Depois é a vista do El Ayachi, bonita com os seus cumes de neve e, em primeiro plano, alguns exemplares de cedros do Atlas de pequeno porte a uma altitude em que era suposto não existirem.
A caminho do vale do Zizz a paisagem misto de deserto e montanha desenrola-se de fascínio em fascínio para os nossos olhos. As cores, as sombras e o recorte das montanhas, as aldeias ora fundindo-se ora destacando-se na paisagem, as mudanças de tonalidade e variações da luz (a luz!...ai... a luz de Marrocos que dá aos objectos uma beleza local que perdem quando chegam a nossa casa! - a mesma luz que faz da Jemaa el Fna um local de fascínio mundial e secularmente conhecido!) com contrastes simultaneamente fortes e suaves de transições matizadas sem recorte visível entre a amplitude dos extremos!.

As gargantas do Zizz merecem uma vista de olhos. à saída de um túnel deparei com outra moeda de troca dos marroquinos do Sul do Atlas: a boleia. Aqui pagam-se serviços com boleia ou pura e simplesmente pede-se boleia não importando para onde. Um militar a quem pedi uma informação reclamou-me o seu pagamento com uma boleia.

...é pena mas só tenho dois lugares...

...não faz mal!... respirei fundo pensando: este foi fácil. Que bom argumento!...eu vou mesmo lá atrás acocorado!... respondeu-me.

é que os marroquinos viajam de qualquer maneira e em qualquer número dentro de um único automóvel ou, às dezenas, no tejadilho de grandes carrinhas de caixa fechada!

...bom...lá atrás tenho objectos que não podem ser amachucados.. fui argumentando enquanto deslizava sem esperar novo argumento. Mais tarde, após várias outras situações semelhantes, nas Gargantas do Todra, resolvi pedir a informação a um empregado de restaurante que punha as mesas na esplanada para o almoço, pensando: ...este está a trabalhar não me vai pedir boleia!... Erro meu!... após a informação perguntou-me se o levava até à cidade. Pelo que parece estava disposta a não servir os clientes só para viajar!...

O curso do rio recorta-se por entre montanhas áridas com alguns oásis no fundo enquanto a estrada espreita, cá de cima, uma paisagem menos interessante que a anterior até que após uma curva se abre uma panorâmica larga sobre a planície pré-desértica perdendo-se, ao longe, no horizonte que nos mostra os primeiros sinais do crepúsculo a sueste. Em baixo, Er Rachidia, mais além Erfoud e depois, indistinto, o deserto...

Er Rachidia, uma cidade castanha avermelhada, numa paisagem castanha avermelhada, envolta em poeira castanha avermelhada com algum fumo e sinais de crepúsculo à mistura não seduz. Atravessá-la àquela hora no Ramadão, em que todos correm para casa para satisfazer as necessidades interditas durante o dia, depois de muitas horas de condução, é um verdadeiro acto de aventura! Pessoas a pé, saindo de fábricas, de bicicleta, de motoreta, automóveis, camiões, rebanhos, poeira, alguma escuridão tudo misturado e movimentando-se, travando, acelerando em todas as direcções é o mínimo que se pode dizer de tal situação...
Má sinalização, má visibilidade, alguma escuridão... pára... arranca... trava... bate... não bate... ai!...foi quase!...passou!...olha aquele!...tou a ver!... lá saimos.

Esta é a parte mais interessante do vale do Zizz, feita de noite, aguardará outra visita.

Entramos em Erfoud sem dar por ela e, mal tínhamos parado, já um embuçado de motoreta nos mostrava do lado de fora um livro tipo roteiro tentando vender-nos alguma coisa. Ignorá-lo não resultou porque era do género persistente. Não compramos o livro nem sequer sei se pretendia vendê-lo mas acabou por nos conduzir ao Hotel Zizz, onde, segundo ele, era relações públicas (leia-se angariador) mas também nos arranjava restaurante melhor e mais barato que no hotel (que também tinha restaurante!), artesanato do melhor, conserto para o carro e só nos largou convencido que, na manhã seguinte, nos guiaria ao deserto no Jeep. Nessa manhã vi-o ao volante dum Jeep de uma caravana que levava um grupo de turistas do hotel. Parecia que nunca me vira antes e livrou-me da maçada de me desembaraçar dele.
De um cerro elevado, à saída de Erfoud, o Borj Est, avista-se uma panorâmica formidável sobre a cidade, os palmeirais e o deserto. Este, mergulhado na neblina da manhã, a nascente, proporciona uma miragem de verdadeira fantasia!

Mais adiante, após a zona das rochas fósseis, as pistas da zona pré-desértica serpenteam, cruzam-se, atravessam uma paisagem de cascalho preto, miudinho com um piso, às vezes, em dente de serra ou trilhos em "slalon", avistando-se, a distâncias diversas, as núvens de pó daqueles que também por ali transitam... e após uma ondulação do terreno...lá está!...a primeira das dunas de Erg Chebi com mais de cem metros de altura!... Aproximamo-nos e a cordilheira de dunas começa e emergir do horizonte...primeiro os cumes...depois mais e mais extensão de areia...as kasbahs...os dromedários... a luz... as tonalidades (e que tonalidades a areia apresenta à medida que deslizamos!... - acabo de tomar contacto com a terceira maravilha da natureza! - depois do MAR e da MONTANHA... o DESERTO!)...e estamos no deserto!...Será sonho ou realidade?!...

E verdade que o verdadeiro deserto começa aqui...mas também é verdade que aqui ainda há civilização. Este local não é o deserto, que desconheço, mas também não é a civilização que conheço. é um misto das duas. De civilização, o que existe é a nível muito reduzido, de uma pobreza extrema...mas eu sinto-me fascinado.Toda a minha ancestralidade gravada no meu património genético, onde existem, provavelmente, registos provindos destas paragens, está sofrendo uma primeira actualização. Sinto-me como civilizado actual, de algum modo, ancestralmente, em casa. Avançar por esse deserto dentro, no dorso de um camelo (ou porque não um camelo moderno - Jeep) fascina-me e desafia a minha sede de segurança de individuo urbano... Até breve!...

O Valter que veio para Marrocos com os centros urbanos do litoral, em mentte, anda como "cão por corda" e sonha com ver-se daqui para fora. Há que gerir a sua descompensação....de verdadeiro deserto, por agora, só o cheiro!...

Ladeamos as dunas durante alguns quilómetros até ao oásis de Merzuga. Aqui, o Albergue das Dunas de Ouro, faz-me notar que, embora as dunas todas apresentem uma riqueza de cambiantes de luz e cor inimagináveis antes da sua comtemplação, estas são, verdadeiramente, extraordinárias de um amarelo dourado com tonalidades fascinantes. Vistas através das árvores que rodeiam o albergue, e talvez por isso!, oferecem reflexos impensáveis numa superfície natural, não metálica. Um espanto!... Será da natureza da areia diferente da das dunas próximas e cujo contraste é visível a olho nú?!...ou dum conjunto de circuntâncias contíguas, nomeadamente a presença das árvores verdes que lhe confere aquela beleza?!...Os pintores experientes sabem que uma cor não é um valor absoluto definido em termos físicos de pigmentos ou comprimentos de onda!...uma cor é aquilo que as cores vizinhas fizerem dela e esse domínio releva mais da sensibilidade do que da ciências ou da sua compreensão racional... e aqui qualquer coisa de fanástico acontece naturalmente!...

Todo o sonho, mesmo acordado, tem o seu fim...regresso à realidade com Merzuga e as dunas a mergulharem no mesmo horizonte de que tinham emergido. Servem-nos, no entanto, de ponto de referência para procurar no emaranhado de pistas a direcção de Rissani mantendo-as a nordeste. Dezenas de quilómetros áridos, leitos de rios secos, oásis miseráveis, secos e poeirentos são hoje aquilo que outrora se chamou a mesopotâmia do norte de áfrica. Esta zona - bacia de dois rios Zizz e Rheris que aqui perdem por completo o seu caudal, foi outrora fértil e o berço de Marrocos. Local de fixação das tribus e caravanas que atravessavam o deserto vindas do oriente que aqui encontravam repouso, nela se instalaram, no século XIII, os Alouitas, descendentes do profeta. No século XVII um seu representante, Moulay Ali Cherif, cujo túmulo é ainda hoje lugar sagrado, junto a Rissani, desempenhou um papel importante na reorganização do caos deixado pelos saadianos e fundou as bases do actual reino de Marrocos ainda hoje governado pela mesma dinastia - está hoje em plena desertificação! Palmeiras raquíticas de um verde desbotado, raridade das chuvas, aldeias e terras ressequidas, sol escaldante, em Dezembro!, são evidências dessa situação!...

De Tinerhir a Ouarzazate, acompanhando, em grande parte o vale do Dadès, estende-se a Estrada das Kasbahs, assim chamada por nela existirem o maior e mais característico número destas construções. Antigos fortins senhoriais construidos de terra amassada estão, na sua maioria, em ruínas ou com funções bem mais triviais ocupadas pelas populações locais. Num ou noutro caso oferecem contudo uma boa silhueta recortando-se sobre as colinas longíquas encimadas pela presença constante das montanhas nevadas do Alto Atlas. El Kelaâ M'Gouna é a região das rosas. A famosa água de Rosas de que fazem largo consumo e toda uma indústria de cosméticos com base neste produto existe aqui.

A produção de tapetes berberes é talvez a expressão maior da produção de Tinerhir. Aqui encontramos os mais belos exemplares desta produção e aos melhores preços em lã ou seda natural. Aliás, parece haver uma zona específica para cada tipo de produção artesenal, fora da qual os exemplares semelhantes são de segunda qualidade e sobras de muita escolha a preços superiores. Foi assim com os fósseis no deserto a caminho de Merzuga; é assim com os tapetes em Tinerhir; irá ser assim com as pedras cristalizadas na vertente sul do Atlas para Marrakech; com os cobres trabalhados nesta última cidade; com as porcelanas na zona de Larache.

Um desvio à entrada da cidade leva-nos as Gargantas du Todra no vale do mesmo rio. Este afluente do Rheris teve de escavar a sua passagem, ao longo dos milénios num massiço rochoso de altura impressionante. A acústica reproduz os sons com uma amplificação e melodia subtil e sugestiva de uma riqueza mais que sinfónica. è uma sensação de verdadeiro esmagamento percorrer o desfiladeiro que é simultaneamente leito do rio, estrada, percurso de rebanhos, de caravanas, atração turística e ponto de partida para expedições de montanha. Mais uma vez fico à beira dum sonho interrompido!... o verdadeiro fascínio da montanha começa aqui. Daqui partem as expedições a pé, em BTT, ou em TT que atravessam a montanha para a vertente norte ou ligam estas Gargantas às do Dadès mais a sul com ligação a com Boumalne.

A vista do planalto sobre esta cidade é, talvez, uma das melhores panarâmicas urbanas de Marrocos. A vista sobre o "souk" com o vale, o rio, as colinas intermédias e a montanha nevada ao fundo oferece uma animação e encanto só ultrapassável pela Jemaa el Fna. Daqui se alcançam as Gargantas do Dadès, por estrada, menos impressionantes e espectaculares que as do Todra oferecem contudo a variedade de espreitarmos o desfiladeiro por cima atingindo o planalto por uma estrada verdadeiramente serpenteante e inclinada. A melodia da água cantando, em baixo, é digna de de registo.

Ouarzazate, cidade sem história, é a Casablanca do sul, mais pequena e, provavelmente, com menos problemas. Ponto de passagem obrigatório, é o local ideal para pernoitar para quem se dirija a Marrakech ou Zagora. Esta última é outra das portas do deserto. Atinge-se por um primeiro lanço de estrada de montanha estreita, com mau piso, bermas não protegidas e, nalguns pontos quebradas até dentro do que resta do alcatrão abertas sobre o desfiladeiro. Não raro um camião surge no meio da via sem se retirar ou numa curva completamente fora de mão onde as tangentes, e às vezes, mais que isso, são frequentes. Oferece, contudo, belos motivos de interesse como pequenos oásis nos vales e belíssimas panorâmicas nas vertentes e montes donde é possível devisar formações curiosas provocadas pela erosão nas camadas estratificadas formando desenhos que lembram os motivos abstractos com que os marroquinos embelezam o seu artesanato e arquitectura. Depois são as quedas de água do Drâa e os oásis do vale do mesmo rio, que não visitamos. O estado da pista para as quedas, o adiantado da hora, o atraso do programa e a disponibilidade do Valter tornaram-se todos mutuamente incompatíveis.

A travessia do Atlas para Marrakech não tem o mesmo encanto da travessia mais a norte entre Azrou e Er Rachidia. Só os olhos de encanto de duas crianças a quem dei uma esferográfica e a vertente virada a Marrakech oferece alguns motivos de interesse no vale de Ourika. A aproximação a Marrakech não faz justiça ao encanto desta cidade.

Descrever Marrakech é ousadia só ao alcance do génio de um artista inspirado em Marrakech. E mesmo assim como descrever o indiscritível?!...Marrakech não é o conjunto das suas construções iguais a tantas outras, a sua cor, a sua luz, o seu clima ou o conjunto dos seus habitantes! Marrakech não se descreve, não se escreve, não se pensa... sente-se!... Marrakech é um "feeling", um "mood", um clima, uma ambiência, uma harmonia em todas as línguas e para todas as raças seduzindo quem por aqui passa. Marrakech é a sua medina e a Jemaa el Fna. A Marrakech que eu sinto e me encanta não é uma coisa fixa que exista sempre. é ciclica. Começa ao princípio da tarde e pronlonga-se até ao fim da noite.

Se os minóicos inventaram o labirinto, os marrakechenhos ultrapassaram-nos na sua medina. A sucessão de ruelas, cantos, arcos e recantos, estreitos e cobertos, cruzando-se, sucedendo-se em curvas e contracurvas de lojinhas (souks) sucedendo-se sem distinção de fronteiras entre si, onde se vende de tudo e existem 10, 20 ou mais lojas por comprador e onde se passam dias e dias sem fazer um negócio, tornam este o local de concorrência mais aguerrida do mundo. Quando se entra sem guia, sair de lá é teste duro à capacidade de orientação!...

Mais adiante são so "souks" dos tintureiros, dos tanoeiros, dos ferreiros... trabalhando em condições subhumanas como há cinco ou dez séculos atrás! Uma verdadeira viagem no tempo a 2000 quilómetros de distância!...

Com o início da tarde a Jemaa el Fna vai-se transformando no caldeirão social mais incrível deste mundo! Ela é, talvez, o local turístico mais antigo da terra pois a sua fama e encanto advêem-lhe de um conjunto de factores relacionados com migrações, transumância e nómadas, características que ainda hoje mantém. Apesar de já muito virada para o turismo externo, conserva ainda, como atractivo aquilo que lhe dá o seu verdadeiro carácter: as migrações internas. Neste espaço, à mistura com autmóveis, bicicletas e motoretas deslocando-se em todas as direcções junta-se uma população heterogénea, em perfeita sintonia, de estrangeiros, nómadas, pastores, comerciantes de toda a espécie, trapezistas, bailarinos, encantadores de serpentes, cartomantes e vendedores de água. Vende-se e compra-se tudo o que imaginar se possa e ainda coisas inimagináveis tais como répteis e outros animais selvagens secos e em decomposição como medicinas tradicionais.
Todos oferecem, apregoam, gritam, chocalham, tocam, cantam, fazem piruetas numa profusão de ritmos e sons verdadeiramente alucinante!...
Os encantadores de serpentes, os acrobatas, os cartomantes os aedos (ao bom estilo grego antigo - nómadas com instrumento rudimentar de cordas declamando as suas odisseias) todos assentam banca sentados no chão rodeados pela multidão de curiosos, crentes ou desesperados numa cacofonia feita sinfonia por encanto natural.
O êxtase, esse estado de axaltação que nos transporta para além da matéria e que só atinjo, raramente, com música na sua expressão mais completa - a ópera-, que a experência religiosa chama de comunhão com o deus e eu de experiência do absoluto, é o que eu sinto aqui. Mais uma vez, as cordas etéreas da minha programação genética, afinadas ancestralmente para este comprimento de onda, vibram em resposta ao mais ténue dos estímulos...recuo no tempo e vejo, não longe daqui, exércitos de escravos acorrentados, alguns falando português, a sair de masmorras imundas, fétidas e insalubres destruindo palácios que outros, séculos antes, tinham construído... vejo exércios degladiando-se, pachás, sultões, príncipes e reis aliando-se, traindo-se, sucedendo-se usando ordas de gente lançadas contra as outras, mutilando-se, degolando-de estropiando-se e morrendo ingloriamente deixando como memória esta coisa vaga, difusa e imprecisa que se chama passado que se confude com o caos, lugar único onde o todo e o nada se confundem, de onde vimos e para onde caminhamos...

As noivas (de Fez, Ouarzazate, Tinerhir...) espreitam-nos do fundo dos seus nichos nos seus trajos de cerimónia. É um jantar real. Após as boas vindas com danças, cantares e flores, os hóspedes são conduzidos às tendas onde o repasto de "haerira", "mechoui" e "couscous"... é servido em ambiente feérico. Os grupos de cantos e danças tradicionais ("ahouach", "ahidous", "guedra"...) tocam, cantam, dançam e emitem sons estridentes de modulação rápida como que sinais de aviso ou perigo de épocas pré-verbais. São herança dos rituais sagrados da tradição que conduziam ao êxtase no clímax das suas realizações para invocar a ajuda, a justiça ou perdão dos deuses com fins catárticos em tempos de insegurança... o milénio dá os últimos suspiros... as professias... o bug... estão a ser exorcismados e em breve o resultado será posta à prova.

Do outro lado do planeta, que já vive noutro milénio, não há perturbações! ... mas podem ainda vir a ser afectados pelos problemas dos trogloditas deste lado que estão um milénio atrasados, provando-se assim a teoria de viajar no tempo. Ao fim e ao cabo, as professias são ocidentais... temos os direitos de autor e direito aos benefícios... se o mundo acabar tem de ser aqui primeiro!...

Entretanto... lá fora... na escuridão... gritos, tropear, sombras movediças... poeira nas zonas de luz... dizem-nos que algo se passa!...
Cavalos correndo sozinhos!... não!... há homens que surgem como que do nada sobre a sela a velocidades vertiginosas, montam, desmontam, fazem piruetas... não um mas dois sem nunca parar... um burro corre... mas se ele corre!... do seu ventre surge um homem que evolui numa sucessão de piruetas sobre o seu dorso até desaparecer na escuridão...sucedem-se os efeitos maravilhosos de repetição de gestos dos seus ancestrais da Asia Central em jogos de conquista ou de celebração da vitória para agradar aos deus, ao soberano, ou a si próprios! Correm, saltam, gritam, agitam espingardas e terminam com grande estrondo de tiros junto à tribuna.
Enquanto uma bailarina executa a dança do ventre, ao fundo, do lado oposto, qual miscelânea das Mil-e-uma-Noites em que o barco Simbad faz de tapete de Aladino, uma barca voa, recortando-se no escuro. Por baixo abre-se uma cachoeira de fogo de artifício que ao esgotar e seu caudal deixa ver iluminado: JOYEUX 2000 ... e não aconteceu nada!... tinha passado imperceptivelmente, sem um soluço... sem um achaque... sem um estremeção... um milénio (*) inteiro!...

Fantástico!...

Foi assim uma FANTASIA em Marrakech.

De volta à realidade, a algumas dezenas de quilómetros de distância, os campos floridos, como se estivessemos em plena primavera, são o consolo para a perda daquilo que já não é mais que um azimute. De Marrakech nem vista, só a lembrança. Quebrado o encantro, sobra a dura realidade. Trilhar o caminho de volta cobrindo o programa do Valter que sonhava com as cidades do litoral.

El Jadida com as suas muralhas portuguesas em franca degradação; azemour segue-lhe o exemplo se não quizermos acrescenter-lhe um pouco mais de lixo e imundície; Casablanca, cidade grande, àparte a sua descumunal mesquita, incaracterística com todos os defeitos das cidades grandes europeias e ainda também os marroquinos. Deparamos aqui com a primeira tentativa de roubo e tivemos conhecimento de outra em poucas horas, experiência que repetimos nessa mesma noite em Rabat.
No entanto, Rabat tem duas ou três coisas interessantes: a kasbah com as suas vistas sobre o rio que a separa de Salè, os seus jardins com a esplanada agradável onde se bebe um dos melhores chás de menta de Marrocos; a Torre Assan II; o mausoleu de Mahomé V; e as ruínas de Chelah.

Nesta zona as estradas têm troços com quatro faixas de traço descontínuo sem separador central. Uma ultrapassagem em terceira faixa e uma chamada à beira da estrada pela patrulha. Multa 338 Dirans.
Uma troca de impressões acerca de traços contínuos e descontínuos nos dois países e uma expressão de espanto pelo preço da multa...quanto custa uma multa destas em portugal?... não sei!... respondi e, perante o seu espanto, acrescentei: não costumo pagar multas... porquê? ...porque não cometo transgressões!... e se soubesse que isto aqui era proibido não teria cometido esta... um pouco mais de conversa ( os marroquinos gostam mesmo de conversar!) e ...bom... os estrangeiros são bem vindos... e nós temos boas relações com os portugueses... arranje-me uma lembrança... embaraçado com a proposta pensei em oferecer-lhe dinheiro mas tive medo de insultá-lo e foi ele quem desbloqueou a situação propondo: "un stilo!..."

Com três esferográficas uma despedida cordial resolvi o problema. Dois contactos com a polícia, um saldo franca mente positivo.

Larache, Asilah com muralhas portuguesas valem uma visita. A minha era a segunda; Tanger a evitar excepto as Grutas de Hércules, nos arredores e, no caminho para Ceuta, a belíssima vista da montanha da mulher deitada, nome popular por que é conhecida a Corniche Rifaine".

No ferry, um pôr de sol sobre o Atlântico, mesmo através da vidraça suja e molhada coroa de glória uma expedição com algum risco, êxtase e aventura.

Fez segregar alguma adrenalina e justifica a razão de estar vivo!

Ao Sul do Atlas!... Lugar de Retorno!... Até Sempre!...

Lisboa, Janeiro de 2000



Nota (*)
"É claro que alguns medrosos semi inteligentes inventaram ou adoptaram uma teoria que diz (reforçando a superstição!)que o milénio só termina no fim deste ano.
Transferiram, asssim, a angústia de ter de enfrentar-se com a morte (da qual já estariam libertos hoje!) para daqui a um ano prolongando o seu masoquismo.
Alguém disse que a loucura não é transmissível?!...

O génio humano é um espanto!..."


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This is about an offroad
expedition in Maroc


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