TERRAS DO LIDADOR
TERRAS DO LIDADOR



CLICK PARA AMPLIAR Aqueles que viram o velho guerreiro cavalgando por horizontes infinitos combatendo, batalhando, escorraçando mouros sempre um pouco mais para sul , ampliando as fronteiras do reino palmo a palmo, cada um deles à custa de muitas espadeiradas empurrando-os para além do Guadiana... ficariam espantados com a nova guerra que as suas terras, laboriosamente conquistadas, hoje albergam, desta vez não contra mouros ocupantes (coitados, agora, na situação inversa e com pressões de extinção ou descaracterização impostos por uma cultura dita respeitadora dos direitos humanos - desde sejam os seus!...) mas por tribos trogloditas de novos conquistadores: conservadores, progressistas, ecologistas, arrivistas, fantasistas... e toda uma corja de interessados e interesseiros que ali vêem mais uma forma directa ou indirecta de domínio e de fazer dinheiro, ganhar prestígio ou protagonismo.

CLICK PARA AMPLIAR Os verdadeiros prejudicados, os desalojados (e são muitos e de muitas espécies), ficam sem espaço sequer para servir os novos senhores!...

A Batalha de Alqueva assim se pode chamar a nova peleja!... e os contendores são muitos não apenas em número mas também em seitas!...

De qualquer forma parece irreversível a destruição, ainda que temporária (mesmo que dure séculos!...), de uma herança geomorfológica de raro recorte e beleza selvagem, um habitat, uma paisagem e talvez uma forma de economia e modelo social...

O que se segue ninguém o sabe ao certo, embora haja muita gente com muitas certezas!... tudo depende de muitas variáveis que ninguém controla como por exemplo a quantidade e qualidade da água que, por sua vez, estão dependentes de muitas outras como o clima, o desenvolvimento urbano a montante, as mudanças de política de espanha relativamente à água quando esta se tornar um bem muito mais escasso e tantas outras que ninguém ousa sequer adivinhar e muito menos formular!...

CLICK PARA AMPLIAR Do ponto de vista paisagístico, no que concerne ao puro deleite..., as perdas, ainda que significativas, ficam amenizadas, temporariamente, com o espectáculo maravilhoso e único que constitui o período de enchimento. A subida das águas oferece cada dia uma paisagem diferente à medida que as pequenas depressões vão desenhando os seus rendilhados aquosos numa paisagem agreste... qual réptil protossáurico em gestação à vista dos nossos olhos!... é um espectáculo gigantesco, raro e fascinante. O que era ontem já não é hoje. As águas engolem, milímetro a milímetro, mas inexoravelmente, aquilo que, porventura, nunca mais será visto!... : um recorte geográfico esculpido na pedra, árdua e laboriosamente, pela natureza ao longo dos milénios; vestígios arqueológicos, desprezados desde sempre, que, repentinamente, adquiriram uma importância desmesurada na iminência da sua perda, de que o Castelo da Lousa é talvez o mais badalado; montados de sobro e azinheira, olival e uma infinidade de espécies mediterrânicas raras ou únicas... (quem ousa afirmar que tudo já foi catalogado?!...) ; animais, dos microscópicos aos macroscópicos, que ali tinham o seu habitat numa cadeia alimentar não reprodutível a outra cota; uma aldeia e a sua planta única, (não reproduzida na sua réplica) com rotura das suas relações de contiguidade e, por conseguinte, socio-afectiva e cultural com possíveis dramas pessoais indizíveis!... tudo em nome do progresso... (do progresso dos seus promotores que o querem fazer passar pelo de todos!...), um progresso que pode vir a resumir-se a um pântano de água podre e infecta e que atingirá sempre menos os seus beneficiários do que as suas vítimas!.. Não se negam as vantagens do progresso. Sem ele não se estaria aqui. Mas, hoje, as pessoas de consciência mais bem formada, já sabem claramente a diferença entre os seus custos calculados e os seus custos reais!... e há que prossegui-lo com ética, o que, raramente, é o caso.

CLICK PARA AMPLIAR De qualquer forma, vai ser aliciante assistir a um espectáculo gigantesco de transformação duma região, acto que há apenas alguns séculos só estaria, imaginariamente, ao alcance dos deuses!... Vai ser fascinante ver crescer aquela massa de água, que novos contornos e horizontes desenha, que alterações climatéricas ou paisagísticas se processam, como vão reagir os seres vivos a esta nova realidade!...

CLICK PARA AMPLIAR Comportas fechadas em Janeiro de 2002, em Março já eram visíveis os seus efeitos até ao Castelo da Lousa; em Junho já enchiam o leito acima de Monsaraz e Mourão.
Com os trilhos ribeirinhos milenares já inundados, o acompanhamento da orla da albufeira é acidentado e por vezes inacessível, revelando-nos, de quando em quando, perspectivas caprichosas. A paisagem agreste, seca e ainda não alterada pelo clima contrasta com aquela massa de água que a invade e assume uma expressão visual estranha, irreal, qual miragem fantástica de um deserto peculiar!...

CLICK PARA AMPLIAR A jusante da barragem o velho Guadiana assume a sua face ancestral numa luta desigual entre o velho e o novo!... Miríades de oásis junto dos velhos moinhos de corrente, orlados de frondosos salgueiros de um verde viçoso e fresco contrastando com o crestado das encostas, fazem destes pontos lugares raros de quietude e beleza rústica!... Felicitemo-nos enquanto um novo especulador não achar uma forma de a sacrificar por uns tostões!...

CLICK PARA AMPLIAR O Pulo do Lobo, local onde o caudal cavou o seu leito num fosso rochoso, é atracção local mas não o mais belo destes lugares... A sua fama encontra-se ligada a lendas que o associam a amores entre cristãos e princesas mouras que ali encontrariam o local possível, mas arriscado, para saltar para a outra margem!...

CLICK PARA AMPLIAR A importância e atracção milenar desta região encontra-se bem patente, um pouco mais abaixo, num promontório, formado pelo leito do rio e o duma ribeira, de estratégia defensiva bem evidente. Os achados arqueológicos e uma maior atenção prestada aos seus monumentos tem vindo a revelar a importância antiga, porventura ainda hoje subestimada, de Mértola. Nas faldas do seu castelo, a igreja que outrora foi mesquita é um dos mais belos exemplares da arte andaluz e é intrigante imaginar como foi possível ignorar a sua importância durante tanto tempo!... Hoje, Mértola já atrai atenções à altura do seu palmarés. Oxalá não se torne num daqueles lugares de peregrinação recentes onde hordas de parolos, chamados turistas, invadem tudo, degradam tudo, conspurcam tudo constituindo já uma forma de flagelo moderno.

CLICK PARA AMPLIAR Não muito longe dali, jazem as ruínas dum elefante (outrora) branco, hoje negro, símbolo dum passado penoso!...
As Minas de S. Domingos impressionam ainda pela grandeza de um estado dentro do estado reconhecido, querido e protegido pelo Estado (dito) Novo!... Qual Germinal de Emile Zola, S. Domingos tinha tudo isso e mais aquilo que Zola não conheceu... a PIDE. Propriedade de ingleses, exportava matéria-prima, sem qualquer valor acrescentado, extraída em condições de escravatura vigiada pela GNR e PIDE locais.

CLICK PARA AMPLIAR Abandonadas depois, com levantamento de todos os equipamentos, o que resta é um cenário apocalíptico de ficção de terror inimaginável!...: as águas férreas ou sulfurosas a céu aberto e sem qualquer protecção contaminando o ar e os lençóis freáticos, representando perigo permanente para pessoas e animais em cujo mergulho seria sempre impossível saber a causa de morte se por asfixia ou intoxicação!...; os terrenos degradados e contaminados irrecuperáveis durante décadas!...; a desolação das ruínas que sobram do que foram as instalações de apoio!...; e a impossibilidade legal!... pasme-se!... que impede a sua recuperação pois o respeito sagrado de propriedade de estrangeiros ausentes, negligentes e desinteressados resistiu à fúria cega do passado recente!... (o que faz o medo!... a cobardia ou a incongruência!...) mantendo ainda uma espécie de soberania fantasma contra todos os interesses da população e do país!... Como é isto possível?!... que mundo!...

CLICK PARA AMPLIAR Percorrer, em TT, o percurso do comboio, passando pelos túneis e pontes, em ruínas, até ao Pomarão, local de embarque do minério, em bruto, é uma sensação única de contacto com o passado recente, como que navegando pelas sequelas deixadas por um povo que trabalhou e ficou pobre para enriquecer outro longínquo e desconhecido com o beneplácito dos seus governantes!...


Apostilha

O enchimento do Guadiana, acima de Alqueva, independentemente das suas consequências ecológico-sócio-económicas, é uma oportunidade estética rara de contemplação de uma forma de arte espectacular, real e efémera!... cujo artista é a própria natureza!... (Haverá outro?!...).
Aproveitemo-lo... porque pode ser tudo o que tem para nos dar!...

Lisboa, Setembro de 2002



Apostilha 2
Abril de 2003

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O enchimento da Barragem de Alqueva continua a sua saga de criação de beleza efémera!... a cada metro de subida das águas uma nova paisagem aparece recheada de formas novas. Bordejada pelos encantos da primavera esta margem do Degebe revela-se um verdadeiro paraíso de tranquilidade, encanto e beleza!...

Do outro lado, o Guadiana continua a tecer a sua filigrana de baías, ilhas e penínsulas ao sabor da geomorfologia local à cota atingida, aparecendo e desaparecendo numa morfomutação de existência fugaz!...

CLICK PARA AMPLIAR A mais famosa vítima deste processo toda a gente conhece graças ao massacre tacanho da informação necrófaga que a tem devorado... passando-lhe completamente ao lado a vida que sempre renasce da morte e a ela sempre conduz, alimentando-a de carcaças!...

CLICK PARA AMPLIAR A Aldeia da Luz foi trucidada, desventrada, esfacelada, primeiro virtualmente pela televisão, depois pelo camartelo... sabe-se lá porquê?!... mas das suas cinzas nasceu uma pequena maravilha um pouco mais a jusante que à última visita me fez exclamar perante o espectáculo inusitado duma península que se desenha a cada gota acumulada, transformando um local remoto, perdido e ignorado... numa zona de verdadeiro encanto!...: "Estrela!... quem diria ainda há poucos anos... deste lugar perdido num canto esquecido do mundo... que o paraíso viria morar aqui!..."

Pena é que a especulação e consequente pressão demográfica já comece a mostrar os seus efeitos!...


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