LÍBIA 2007
LÍBIA 2007



A Epedição que não o foi!... apenas um equívoco!...

LOCALIZAR CLICK PARA AMPLIAR "No princípio era o Caos.. e do Caos nasceu a Ordem!..." diziam os filósofos gregos. Os cristãos plagiaram-nos dizendo: "No princípio eram as trevas.. e das trevas se fez a luz!..."

Esta expedição nasceu no Caos e permaneceu nas trevas... nunca se fez Ordem nem apareceu a Luz!...

No princípio era uma grande expedição descendo a Tunísia, Líbia, Níger (com passagem pelo mítico Ténéré), Agadez Niamey, e... a partir daqui nunca ficou bem claro o que seria... já então se desenhavam tendências individualistas, egocêntricas e possessivas de quem queria trazer toda a áfrica para casa numas poucas de semanas!... CLICK PARA AMPLIAR

Depois... bastante depois... já quase no começo da viagem, alguns problemas com os tuaregs, no Níger, levaram os assustadiços a circunscrever a viagem à Líbia. De Níger 2007 passou a Líbia 2007.

Éramos, a princípio quatro carros e uma ? (interrogação)... que, por princípios de ética, pudor e respeito por mim próprio!... designarei por equipas independentemente de serem mono ou bi-pessoais, para evitar nomes. Temos pois 5 equipas A, B, C, D e E. Então já era conhecido que a equipa "E" iria de mota com apoio da equipa "B". Até aqui tudo bem... CLICK PARA AMPLIAR
Mais tarde a equipa "A", que tem por alguém um fascínio semelhante à do pinto acabado de nascer que segue um cartão colorido como se fosse a mãe!.., convida esse alguém para integrar a expedição, e, com espanto da equipa "D" (eu), que conhecia a sua relutância em sujeitar-se aos condicionalismos líbios, aceita... com uma condição. Iria de moto quatro em completa autonomia!... o que mais me espanta ainda!... é a equipa "F".

Correndo atrás do cartão colorido!.. a equipa "A" compra moto quatro nova e informa que vai também em completa autonomia!... e o espanto não pára de crescer à medida que as condições acordadas inicialmente vão deslizando com o aproximar da partida!... CLICK PARA AMPLIAR
Depois... a equipa "F" já não vai em completa autonomia pois precisa que lhe levem uns jerrycans de combustível!... não se sabe bem quem… mas a coisa fica no ar como facto consumado... estávamos nitidamente perante aquilo a que se chama um contrato deslizante!... em que uma das partes vai alterando, aos poucos, as condições para atingir os seus objectivos sem causar rotura!... depois a equipa "A" descobre que também precisa de apoio...
A equipa "D" (eu) sempre deixou bem claro não estar disponível para negociar apoios, já que todos tinham carro e era opção sua, para seu prazer, ir daquele modo.

CLICK PARA AMPLIAR A poucos dias da partida a equipa "C" desiste… o que altera, por completo, toda a situação... estavam dois carros para três motas e descobrira-se, exageradamente, que eram precisos duzentos litros de combustível, por veículo, para fazer as duas travessias mais extensas... e a anunciada autonomia das moto quatro estava agora completamente posta de lado...
Feitas as contas, a equipa "D" que não estava disponível, a princípio, para negociar apoios descobriu que teria que levar 13 jerrycans de combustível para as autonomias (sua e dos outros)... e descobre, sem pensar no peso!.. que só tinha lugar para seis dentro do carro...

CLICK PARA AMPLIAR Surgiu então a ideia das motos contratarem para estas partes do percurso, uma pickup local, ideia que sempre foi aceite com relutância pela equipa "D" sabendo como estas coisas, contratadas à distância e com gente de hábitos e culturas diferentes podem ser fonte de desentendimento e deslizar para fora de controlo… mas pensava, mal!..., que esse não era problema seu!... foi mesmo!...
O grande desejo de fazer esta expedição e alguns problemas familiares graves, então surgidos, cegaram o racionalismo que sempre me caracteriza... porque esta viagem devia terminar aqui...
CLICK PARA AMPLIAR A altura da partida aproximava-se mas o dia continuava por definir... e as últimas reuniões inconclusivas e com muitas ausências inexplicáveis eram um prenúncio, ignorado, do que seria esta expedição. Até que uns diziam que se devia partir no dia "X" e outros nem "X" nem "Y"...

Finalmente o dia "X" chegou e ninguém partiu porque de alguns participantes nem se sabia deles!... e às duas da manhã do dia seguinte à partida, recebo um SMS da equipa "A" informando que ainda não tinha seguro!... rsrsrsrssssss que partíssemos que ele partiria mais tarde e nos apanhava no caminho!... só que, como levava o seu carro até Marselha com atrelado para a moto quatro e transportaria a equipa "E" (moto), não estava presente para cumprir esse compromisso, para além de estar já em falta com todos!... CLICK PARA AMPLIAR
Perante o facto consumado... e sem apoios negociados vejo-me na necessidade de alterar a minha configuração de equipamento para transportar este elemento até Marselha...já que era completamente impossível ir no outro carro já com um atrelado e 4 pessoas da equipa "B" e "F". A viagem ainda nem começara e esta era já a concepção de autonomia dos meus companheiros de viagem!...

Os problemas de organização deficiente começaram logo a surgir em Marselha no parque de campismo onde ficariam os atrelados. Começaram pelas cargas para telemóveis e máquinas fotográficas e CLICK PARA AMPLIAR computadores... e ninguém tinha nada!... ou se tinham alguma coisa era inutilizável em movimento, o que vem a dar no mesmo e o meu carro começa a albergar toda a espécie de parafernália desde carregadores pendurados nas minhas soluções de 12 e 220 vóltios, pneus de motas… a malas de computadores que se revelaram maiores que a minha mochila de objectos pessoais!...
A autonomia dos meus companheiros de viagem aumentava!... a minha diminuía!... o meu carro ia agora cheio até ao tecto onde era difícil encontrar alguma coisa e muito menos retirá-la de lá!...

Na Tunísia... verifica-se que o carro da equipa "B" perde água e a tentativa de encontrar solução logo em Tunis foi a amostra do tipo de dor de cabeça que esta viagem ia ser!.. As moto quatro, CLICK PARA AMPLIAR agora a rodar, mais lentas, iam por estrada enquanto os carros e a moto ficavam em busca de solução e depois avançavam mais rápido... mas, em vez de solução, isto era o começo duma série de problemas que nunca mais iriam acabar!... o elemento da equipa "A" queria tudo pegava-se a tudo como uma criança numa feira de brinquedos sem noção do que cada coisa custa!.. nestes países tudo tem um preço nem que seja uma informação!... foi difícil despegá-lo duns vígaros que lhe queriam arranjar o termóstato quando se tratava duma rotura e perda de líquido refrigerador...

A caminho na auto-estrada para sul o meu carro começa com problemas de potência... eu sabia, era o tubo do turbo solto à entrada do intercooler!... tentámos fixá-lo numa área de CLICK PARA AMPLIAR serviço mas ao arrancar ainda estava pior... mas já não vi os meus companheiros… num segundo, sôfregos por agarrar tudo!.. já tinham partido... rádio???!!!.. nem pensar!.. bem chamei… chamei… mas nada!.. não estavam lá...

O sol baixava no horizonte!... chuviscava... páro à beira da auto-estrada numa outra tentativa de fixar o tubo... mas impossível... meto um dedo na ventoinha a trabalhar numa dessas tentativas que quase fico sem ele!... e não vejo maneira de chegar a lado nenhum com o carro com o motor a bater e cada vez a andar menos!... até que, umas duas horas depois, vendo que eu não chegava, me CLICK PARA AMPLIAR telefonam informando que tinham saído da auto-estrada na porta 10 para Kairouan, nosso destino próximo... estou desesperado.. sozinho dentro dum carro que não anda e a noite a aproximar-se numa auto-estrada da Tunísia! Este não era o tipo de companheiros com quem gostaria de viajar!...

Fixado o tubo com uma nova braçadeira, o rendimento do carro continua a ser insatisfatório...não anda, não tem potência, desenvolve mal!...

Em Kairouan encontramos os homens das moto quatro. Jantamos e eles seguem um bocado de noite para ganhar um pouco mais de terreno. Nós ficamos, ambos, em busca de soluções mecânicas, no dia seguinte!.. mas se busca de restaurante já foi um martírio, por ruas estreitas duma medina atravancada, a busca do hotel foi outra dor de cabeça!... CLICK PARA AMPLIAR

Os ingleses têm um termo de que não conheço equivalente em português: "tout". Um "tout" é um daqueles indivíduos que abordam as pessoas oferecendo, abusivamente, serviços não solicitados para depois arranjarem justificação para cobrar esses serviços como se fossem um contrato legítimo, ainda com o inconveniente de recomendarem serviços onde recebem comissões reduzindo-nos, por outro lado, a capacidade de negociação de preços, já que o prestador tem de pagar-lhes comissão!...

O equipa "B" atraía "touts"!.. perece que tinha uma estrelinha na testa a dizer: "estou aqui!.. venham!..." e não só não sabia como desfazer-se deles como parecia gostar deles, da atenção de que se julgava alvo!... um pesadelo!... seguindo religiosamente o guia turístico na escolha de restaurante ou hotel, o "tout" era a sua salvação!... e o resultado era uma espelunca!... CLICK PARA AMPLIAR
Nunca tive muito dinheiro!... mas sempre soube viver com o que tinha!.. nunca vou para uma coisa destas a contar tostões!... e detesto que façam isso comigo!... se não posso não vou!... se vou, enfrento as consequências sem nunca referir orçamento!... situação condicionante e confrangedora para os outros!...

Na manhã seguinte a busca de oficina é feita com o "tout"... resultado... uma conta superior ao que teria pago noutras circunstâncias!... eu procuro a minha... mas aqui outra Odisseia se desenha!... para nos reencontrarmos... Para além do rádio deficiente e só ligado quando precisa, ele tal como o "E" não sabem utilizar um GPS!... daí que mesmo dando o ponto não conseguem encontrar-me nem dizer-me onde estão!... CLICK PARA AMPLIAR

O diagnóstico do meu problema fora que estava a consumir petróleo em vez de gasóleo. Desmontado o depósito e esvaziado, 40 dinares pagos, e aqui vou eu!... mas por pouco tempo!... o carro continua a não responder e não posso ir com ele assim para a areia!.. penso nem sequer entrar com ele na Líbia e voltar para trás antes da fronteira... No entanto, uma chamada para o mecânico do equipa "B" com explicação dos sintomas e!... metade da primeira de duas sugestões resolve o problema!... sugeriu que seria a válvula IGR, uma espécie de apêndice que, como nos humanos, não serve para nada mas pode causar muitos problemas!... Eliminá-la e tapar o buraco com uma chapa, seria impraticável, na estrada, em plena noite. Desligado o tubo de vácuo e fechado com um parafuso fixado com um bocado de fita… opera milagres!... tenho o meu carro de volta!... só não CLICK PARA AMPLIAR tenho de volta o meu depósito de gasóleo que ficou na oficina, nem mais uns dez dinares que paguei em Gabés noutra oficina a que voltei a recorrer e me disseram que era um outro tubo do turbo solto e que nunca tivera fora do lugar!... mas essa é outra história!... com alguns aspectos interessantes!...

Nunca tive muitas afinidades com polícias, embora no início da minha actividade profissional tenha desempenhado funções de investigação criminal por algum tempo!... Mas aqui na Tunísia, os polícias parecem-me uma casta especial... será que é um processo cuidado de selecção?!!!... A verdade é que são duma simpatia, educação e delicadeza surpreendentes... ao contrário de Portugal onde só parecem escolher broncos!...
CLICK PARA AMPLIAR Nessa tarde, num dos momentos em que viajava sozinho fui mandado parar por uma patrulha de estrada. Era um jovem de pouco mais de 20 anos. Bom aspecto, simpático, aproxima-se, tranquiliza-me, cumprimenta e começa a disparar perguntas amigáveis "o que faz aqui?", "para onde vai?", "de onde é?..." com tanta familiaridade que me sinto imediatamente em casa e a conversa flúi naturalmente... até que no momento da despedida, por cultura, educação e, talvez, olhando os meus cabelos brancos se despede de mim com um beijo, como faria com o pai ou com o avô!...

Confesso que nunca antes tinha sido beijado por um polícia!... mas nestas circunstâncias até que não foi desagradável!... rsrsrssssssss CLICK PARA AMPLIAR

Nessa mesma tarde, em Gabés, para evitar os "touts" páro junto duma patrulha e peço informação acerca de oficina para ver o carro. Simpáticos ambos, mas o mais novo, menos graduado, parecia irmão do colega anterior... chama o mecânico e enquanto esperamos, conversamos... e, é aqui que a classe se mostra!... de repente vejo-me com um copo de plástico descartável de café na mão oferecido por ele!... Sem entender muito bem o que se passava já que o colega dele falava com alguém num carro que acabava de chegar, começo a beber o café... e vou bebendo!... há momentos em que tenho alguma falta de bom senso e crio situações embaraçosas... assumo-as, no entanto, e apresento sempre as minhas desculpas!... CLICK PARA AMPLIAR

Estava eu já quase sem café quando ele me pergunta: "e o nosso café?"... De repente, um flash passa pela minha mente!... "um indivíduo tinha acabado de chegar com um café, talvez encomendado por eles, entregara-lho e eles por delicadeza deram-me a mim primeiro para beber!... na minha cultura de europeu que não aprova que duas ou mais pessoas bebam pelo mesmo copo, acho que eles não vão beber aquilo a que eu chamaria resto, e que para eles nem sequer tem esse sentido!... o café era para nós três!... e por um erro de cultura estraguei uma confraternização... Tínhamos justamente acabado de falar das diferenças e das muitas coisas comuns entre europeus e africanos mediterrânicos... e aproveito para fazer o enquadramento deste facto nestas diferenças!... e a delicadeza e cordialidade continuam como sem uma beliscadura!...
A decência é como a qualidade... a gente pode não saber o que isso é!.. mas quando a encontra reconhece-a!... CLICK PARA AMPLIAR

Chegada a Ben Gardane, já noite. Pelo telefone dão-nos o ponto GPS do restaurante à beira mar e qual não é o nosso espanto quando não encontramos ali o "E" que a pretexto de não andar de noite de mota se tinha separado dos carros... mas, só então, percebo que o tinha feito sem GPS nem contacto telefónico já que havia um problema qualquer mal explicado com o seu cartão. Ninguém sabe dele!... no fundo da Tunísia sozinho sem contacto... Mais tarde o "A" informa que já encontrara a mota estacionada à porta dum hotel onde já devia dormir repousadamente... sem se ralar com os outros que, talvez, tivessem obrigação, no seu entender de procurá-lo e tomar conta dele!... CLICK PARA AMPLIAR

Na fronteira, quando tudo parecia resolvido do lado tunisino, um oficial aproxima-se da caravana para saber que dinheiro da Tunísia levamos para a Líbia... pede o dinheiro, conta-o e retira uma percentagem arbitrária!... não me fica com nada!.. só lhe mostro, o que parece não lhe interessar!... estupefactos, ficamos sem saber bem o que se passou!... um saque?!!!...

As formalidades do lado Líbio, a cargo da agência, são praticamente transparentes para nós e relativamente rápidas!...mas aqui, um outro problema se levanta: o segurança. Temos que ser acompanhados por um oficial do estado, todo o tempo que permanecermos no país para garantir a nossa segurança, dizem eles... CLICK PARA AMPLIAR

Dadas as indefinições de todo este processo, embora os negociadores, para poupar custos tenham assumido que viajaria connosco, a verdade é que nunca ficara definido com quem viajaria. Descubro aqui que era suposto viajar comigo, por viajar sozinho, mesmo sem nunca ter assumido esse compromisso!...

O "B" que nunca tinha assumido uma posição clara em coisa nenhuma, limitando-se sempre a ver para que lado as coisas caíam e depois resistir escorregadiamente até caírem para o seu lado, assume aqui a primeira, e única atitude frontal, no momento e pelo motivo errado: "eu não o levo". CLICK PARA AMPLIAR

Para desbloquear a situação, dou mais um encosto na bagagem e material de navegação que acaba por partir a ficha de S-Vídeo com sinal para o monitor... e lá transporto o segurança, pessoa, aparentemente cordata, simples e que nos deixa à vontade para fazermos o que quisermos...

Como o "F" tem tanto horror ao alcatrão como o diabo tem à cruz!... metemos logo por uma pista encostada à fronteira, sem grande interesse e fora das rotas dos TTistas que fazem esta parte por alcatrão até Ghadâms, num dia!... CLICK PARA AMPLIAR

À noite ponho o problema do segurança e, com surpresa de todos, incluindo minha, toda a gente tinha assumido que, já que eu viajava sozinho, era o transporte lógico para ele!...
O que ninguém tinha assumido é que eu viajava sozinho mas pagava sozinho!... e quem viajava acompanhado partilhava as despesas, logo, essa lógica era sofismada. É então que recebo algumas lições de teoria de grupos daquela que se vende nos seminários de 2 dias numas transparências com frases feitas para parolo, que se ingurgitam e regurgitam inteiras , sem ser digeridas, fora de contexto e de propósito!... segundo eles, em nome da sagrada teoria dos grupos que conheciam, devia partilhar todos os recursos independentemente dos custos!... que eu suportava em dobro para meu conforto e que assim passava para eles!...
CLICK PARA AMPLIAR Bem me fizeram sentir a minha crueldade!.. coitadinho do "B" carregadinho já com duas pessoas e bagagem das motos, rapaz simpático e elegante, tipo galã de cinema que parece estar sempre a dizer: "estou aqui!.. olhem para mim!..." com um potente Land Cruiser!...
Bem argumento que estou com o grupo a 100% em questões de segurança, acidentes ou outras dificuldades imprevistas mas que não estou ali para suprir falhas de preparação ou organização de ninguém. Pago o meu conforto, quero o meu conforto. São opções de vida!...

Não costumo esbanjar argumentos inutilmente!... encerro a questão ali mesmo dizendo que só voltarei a pegar-lhe no segundo dia a seguir. CLICK PARA AMPLIAR

No dia seguinte, o segurança embarca no "B" e alguma bagagem é retirada do meu carro, como resposta indirecta às minhas objecções!... posso bem com isso!...

O projecto era fazer tudo pista até Ghadâms sem passar por Nalut mas o sagrado guia turístico do "B" diz que é pecado não ir a Nalut!... agora com o beneplácito dos outros de que o carro está muito carregado com 3 pessoas, o mesmo que já transportara 4 mais um atrelado com duas motos até Marselha, não pode fazer pista. A isto chama-se chantagem… mas ninguém vê isso!... e acabamos por ir para Nalut, uma decepção!... de nada no meio do nada!.. e seguimos por alcatrão para Ghadâms, estranhamente sem o conhecido horror do "F"!... CLICK PARA AMPLIAR Quando vi o golpe bem me ofereci para transportar o seu companheiro no meu carro, mas não o segurança por questão de princípio!.. mas a oferta foi recusada!... desmontava-lhe o jogo e isso ele não queria!... O grupo agora está na sua mão!... faz só aquilo que ele quiser!... por omissão de decisão. Por tudo e por nada se faz uma reunião longa, com muitos argumentos, hipóteses e alternativas mas não se decide nada!... o que muito impressiona o segurança que me confessa, várias vezes, não entender este grupo!... "moi aussi!"… respondo eu!...
Cada um tem um projecto ou opinião diferente acerca da solução presente e ninguém sai da sua posição. Julgam-se democratas mas são unanimistas!... por falta de acordo acaba sempre por fazer-se aquilo que quem resiste mais quer fazer!... e é sempre o mesmo. A isto chama-se liderança!... uma liderança usurpada, escorregadia, não assumida… mas liderança. Lidera um grupo aquele que o leva a fazer aquilo que ele quer!.. não importa o método!... CLICK PARA AMPLIAR

Chegada a Ghadâms!... o mesmo filme em reprise... reprise!.. reprise!... longas horas de discussão acerca dos hotéis e visitas do sagrado guia!... cansado de tudo isto, vou à procura de hotel mas as opções são poucas, o único hotel decente está cheio e acabo encontrando-os de novo, discutindo ainda, naquele meio pequeno.

Uma das sete cidades santas do islão, Ghadâms, à letra "il faul conduire bien les chameaux" era, pelo nome, ponto de encontro de caravanas vindas dos vários pontos do deserto que aqui faziam as trocas destinadas aos vários mercados. A sua fama suplanta o seu interesse actual que, não tanto como Nalut, desaponta um pouco. A cidade antiga, agora relíquia, é interessante pela sua concepção quase subterrânea… mas a cidade moderna é praticamente insignificante!... CLICK PARA AMPLIAR

A saída de Ghadâms, agora com apoio da pickup, é outra etapa de negociações e preparação infinitas!... Vou para a bomba de combustível cansado de esperar, encho o depósito e oito jerrycans, meto seis dentro do carro e dois em cima, sozinho, amarro tudo e espero… espero... até que me convenço que há alguma confusão!... talvez haja outra bomba e eu tenha vindo para a bomba errada!... inicio a marcha de busca quando eles aparecem ainda para reabastecer e demorar infinitamente!...

Saímos quase à noite!... é o começo daquilo que é considerado a parte significativa da Líbia e aonde todos se dirigem directamente da fronteira em apenas um dia. O nosso segurança está atónito!... nunca levara 3 dias para chegar a Ghadâms!!!... CLICK PARA AMPLIAR

Os itinerários consagrados situam-se uns cem km a leste mas o horror ao asfalto, renascido de novo, leva a aceitar, desta vez sem discussão a liderança da pickup que nos conduz por um percurso de pouco interesse e que sempre dissemos não querer fazer. A pista junto à fronteira!... mas eles nem dão por isso, nem sabem por onde vão!... vão!!!... isso é que é importante!...
O "F" viaja de tampões nas orelhas, sem rádio e com o GPS repleto de tracks mas sem mapas detalhados, fora do seu track nem sabe onde está e com as orelhas tapadas!.. rádio?!... nem usa!.. é um guru do TT!.. esse estatuto permite-lhe tudo!... os outros que o sigam se quiserem!... mas desta vez é ele quem segue sem saber para onde!...
CLICK PARA AMPLIAR O "A" tem rádio mas não funciona em simultâneo com o intercomunicador de capacete, logo, só fala quando pára, o que quer dizer quando precisa!... mas é suposto que exista alguém sempre ligado senão fala sozinho!... e o "B" cujo rádio, para além de pouco alcance e muito ruído, ou não tem bateria ou outra coisa qualquer também só fala quando precisa mas é suposto que haja alguém para o escutar!... quem?!!!!... adivinhem!... mas esse outro quando precisa e quer chamar.. quem o escuta?... desnecessário!... ele é o super-homem!

No segundo dia depois de algumas insistências minhas a pickup lá desvia um pouco para leste e vamos dormir à entrada do primeiro cordão de dunas num recanto que anunciava a verdadeira beleza do deserto no Erg Awbari.
CLICK PARA AMPLIAR No dia seguinte atravessamos uns 3 cordões de dunas e paramos numa clareira para almoçar!... a moto quatro do "F", a melhor e a mais rápida do mercado!... enjoou da areia e desatou a aquecer sem explicações!... alivia-se-lhe a carga mas ela decididamente é fina demais para andar em areia!... É a melhor do mercado enquanto o meu motor VM continuava a ser o pior mesmo comendo areia. è que uma senhora é sempre uma senhora mesmo que faça uma asneira; uma rameira é sempre uma rameira mesmo que o seu comportamento seja irrepreensível!... transportando o segundo elemento da "senhora"!...

Andamos quilómetros de paisagem incaracterística conduzidos pelos caminhos que mais convinham ao condutor da pickup, com as dunas á vista mas nas clareiras longe delas!...
Dormimos por ali e no dia seguinte a "senhora", sem dunas é outra vez uma "senhora" mas ameaçando sempre!.. nada de areia!... interferia com o "Bucheron" da sua "maquillage"!... CLICK PARA AMPLIAR A tarde desse dia é uma tarde louca!... Como não há rádios nem GPS nem qualquer tipo de organização... a regra praticada é "follow the leader!.." embora a confessada seja não perder de vista o que vem atrás!... e foi assim que me vi sozinho no meio duma planura a perder de vista sem avistar o de trás por ser difícil manter uma visão constante para trás em curvas e acidentes de terreno com espelhos sujos e uma nuvem de pó do tamanho duma montanha!... enquanto à frente, o "B" que continua a querer tudo e a não se preocupar com ninguém, dispara na planura sem regras nem preocupações seguido pela pickup que acabo por perder de vista à espera daqueles que não chegam... mas quando se perde!... lá está o miraculoso rádio para dar informações!.. este é exactamente o tipo de pessoa que se acha com direito a receber tudo e a não dar nada em troca... CLICK PARA AMPLIAR

Em Serdelles tenciono definir a minha própria regra, colar-me à pickup e nunca mais a largar!... mas os problemas da "senhora" são mais prementes e procuro não complicar mais a situação. A partir daqui temos o Akakus e o Murzuk, a parte mais temível do percurso e a "senhora" não está disponível!... aliás, nestas coisas de senhoras, a imitação que é segunda forma mais básica de comportamento a seguir ao fascínio, tem um papel poderoso!... outra "senhora" se perfila na "passerelle" e também não gosta de areia!... essa porque se enterra até aos tornozelos!.. e faz-lhe cócegas!... para o Murzuk!... nem pensar!...

O líder, "full of ideas", agora mais pró-activo como se diz nos seminários de "pop psychology" de fim de semana, menos escorregadio!.., ah!.. defensivo!... é assim que se diz nos mesmos meios!... assume agora o seu papel de fazedor de ideias... ele quer tudo, não quer perder nada... e soluções???!!!... é uma fábrica de ideias pré-fabricadas e aceites docilmente e com reverência!... CLICK PARA AMPLIAR

As "senhoras"!... ficam ali no albergue, bem como a maior parte da bagagem e seguiremos com o mínimo necessário para aqueles dias levando a pickup o combustível dos carros em troca da carga das motos que não avançam!...

Em contrapartida o carro do "B" que lá em cima não podia com três pessoas!... agora leva quatro num percurso mais exigente... e eu levo o tripulante da outra senhora, a que aliás já estava acostumado no percurso para Marselha.

O Akakus é uma zona curiosa com formações rochosas erosivas semeadas no meio dum mar de areia com formas caprichosas de inegável beleza natural, e arte rupestre. Estamos no começo do Akakus mas o fascínio é já inegável. Com o aproximar da dormida, a pickup que eu CLICK PARA AMPLIAR não largara, sobe a uma duna encostada na montanha que forma uma concha natural com uma perspectiva deslumbrante!... Subida exigente e quando termino, ao lado da pickup vejo a preocupação estampada no rosto dos seus ocupantes olhando para o meu carro!...
Mal refeito do prazer de chegar ali, saio a ver o que se passa!... verte água por detrás do pàra-choques!... tinha controlado a temperatura até bem há pouco antes e nada de anormal acontecera... mas, em poucos segundos tudo tinha mudado. A água ferve lá dentro e assim fica por um tempo!... cai junto do filtro do óleo mas é difícil ver exactamente de onde. De cima não se vê nada e meter a cara debaixo de água a ferver não é coisa de fazer!... mas tudo indica que é a bomba de água que falhou!... pois há bastante líquido dentro do reservatório!... CLICK PARA AMPLIAR

Volto a Serdelles, 50km de areia e pista de pedras e pó, para buscar uma bomba que tinha deixado com a bagagem menos necessária mas alguém aconselha a trazer também um mecânico, já que nenhum de nós o é.

Serdelles é um pequeno povoado perdido no meio de dois desertos e o albergue Alfawe é o centro nervoso do turismo de aventura que demanda aquelas paragens. Desempenha hoje um papel semelhante a Ghadâms no tempo das caravanas!... tudo o que se precisar passa por ali mas tem um preço!...
É dirigido por uma plêiade de indivíduos em que é difícil descobrir quem é o cérebro. Aquele que dá a cara parece obedecer, bem como todos os outros, a um CLICK PARA AMPLIAR indivíduo enigmático, pequenino, de cara redonda e olhos vivos, sempre na sua djellaba e turbante brancos, que se mostra pouco. Mas nas questões controversas e, às vezes, não só... o OK final vem sempre dele, às vezes, com um simples pestanejar!... Não está presente nas negociações do meu mecânico.
No começo não há mecânico disponível para tornar o produto difícil!...
Depois começa por me custar 180 dinares com carro para ir montar a bomba... mas descubro ao discutir o preço que este cai apenas para 175 mas agora sem carro. O carro é negociado à parte!... mas estas negociações em árabe com muitos indivíduos à mistura, muitos momentos de pausa em que ficavam a olhar uns para os outros e não me diziam nada!.. eram penosas!... e o meu segurança que até ali fora sempre impecável... não ajudava nada. Parecia depender, ter interesses ou medo deles!.. nunca cheguei a saber bem!... quando lhe perguntava o que se estava a passar... mandava-me negociar com eles!... em árabe?!... eles só me falavam em francês quando queriam!... CLICK PARA AMPLIAR

Acantonado, tive que aceder aos 175 dinares!...mas agora faltava o carro. "Não quero carro, ele volta na pickup", argumentei... mas aqui, o meu impecável segurança pôs as unhas de fora e disse: "não.., a pickup não foi alugada para isso!...", negócio que não tinha sido feito com ele e era suposto nem interferir. Peguei no único argumento indestrutível que tinha: "trago-o eu no meu carro!..."

Quando me preparava para combinar detalhes com o mecânico, este inesperadamente, levanta-se e vai-se embora!... sem explicações!...
À minha pergunta surpresa recebo como resposta: "este estava a ser muito exigente!.. já vem aí outro"... agora já havia vários!...

CLICK PARA AMPLIAR O outro chega, pega na bomba e vai-se embora. Eu que pensava que ia discutir o preço com um mecânico menos exigente!... não.. o preço já estava fixado!... foram buscar um menos exigente para eles!... Na manhã seguinte o mecânico, que não era mecânico!.., para tirar a correia da ventoinha e tambor da bomba, em vez de flectir o braço do tensor, deslocou-o no eixo com um "pé-de-cabra" partindo-o e não foi capaz de montar a bomba nem voltar a pôr o tensor no lugar!... horas perdidas porque ele não desistia nem reconhecia a sua incapacidade!... começando por argumentar que o tensor já estava avariado e fora a causa do problema!... para receber o dinheiro.

CLICK PARA AMPLIAR Regresso a Serdelles para buscar reboque para o carro agora impossibilitado de trabalhar, O reboque custa-me 30 euros. Contra vontade do meu segurança decido agir por conta própria e perante a minha perspectiva de sucesso já se arranjava reboque mais barato.

Para encurtar uma longa história... às 3 horas da manhã estava outra vez junto do carro com dois indivíduos que não falavam uma única palavra de francês ou inglês, uma carrinha velha que fazia ruídos de fim de vida para rebocar o carro. Eram, dizia o meu segurança, bastante conhecedores da região e eu não precisava de ir com eles para encontrarem o carro e trazê-lo. Se não fosse o meu GPS portátil, ainda hoje andariam à procura dele dado o lugar escondido onde se encontrava!... e no regresso, naquele emaranhado de pistas em todas as direcções, de noite, já iam em direcção contrária pelo que tive de corrigir-lhes a rota...
CLICK PARA AMPLIAR ... e às cinco da manhã estava em Serdelles, de novo, depois de conduzir, por mais de 50km, um carro rebocado por uma cinta a poucos metros do da frente debaixo duma nuvem de pó numa paisagem de dunas, pedras e muita poeira!... com o cuidado de não bater no nele, sem servo-freio nem direcção assistida!...

Na oficina do Sr. Ali Salah, ali em frente, este comprometeu-se a arranjar o tensor, por €50 de modo a que quando chegasse a Portugal pudesse trocá-lo por um novo sem problemas. Quanto à fuga de água causadora de toda esta confusão era, segundo ele, um tubo mal apertado que estava já resolvido!...

CLICK PARA AMPLIAR Entretanto a pickup também arranjara um problema de diferencial, reparado no Sr. Ali, e recusava-se agora a transportar a carga que antes acordara!... os meus quatro jerrycans em troca dum passageiro eram agora recusados como não fazendo parte do seu contrato e ao meu argumento de que não tínhamos alugado uma pickup para se passear connosco fui severamente repreendido pelo segurança que não era mais aquele individuo cordato, "lessez faire", do início. Tinha posto as unhas de fora e assumia agora como suas as dores da carrinha que não faziam parte das suas atribuições!...

Sempre tivera reservas acerca desta solução e o resultado estava agora à vista!... alugar outra pickup ali revelava-se complicado para quem conta tostões... mas era o que teria feito se o negócio CLICK PARA AMPLIAR fosse meu porque não aceito incumprimentos por muito que isso me custe!... mas após longas e dolorosas negociações o grupo, reduzido, já que o "A" ficara junto da bagagem no Akakus e não atendia o telefone, resolveu-se ceder à chantagem do motorista e reduzir ainda mais a bagagem.

De novo a caminho do Akakus mas, no caminho, a minha luz de baixo nível de liquido de refrigeração acende!... o carro não aquece mas algo não está ainda bem!... chegado ao alto da duna verifico que continua a perder água!... e a temperatura, embora não excessiva, está acima do normal!... é o desespero!...

Quando viajo estou a 100% com os meus companheiros de viagem, mesmo ocasionais ou sem afinidades!... é CLICK PARA AMPLIAR um princípio ético que está acima dos meus interesses pessoais e a que não posso desobedecer!... Não largo um deles em dificuldades nem no fundo do Alentejo, muito menos no fundo da Líbia!... mas não gosto de incomodar ou ser embaraço para ninguém!...

Enquanto mastigava qualquer coisa e imaginava uma solução para o meu problema, foi-me feita uma proposta chocante. O "A" propunha-me que regressasse imediatamente a Serdelles a fim de chegar a tempo de lhes telefonar para ficarem de consciência tranquila!...
Era só isto: propunha a um indivíduo que pouco tinha dormido e comido nos últimos dias que regressasse do meio dum deserto de areia e pedras no fundo da Líbia, de noite, com um carro avariado, com 230 litros de gasóleo e bagagem, com as rodas baixas para areia, por caminhos de pedras, sem compressor CLICK PARA AMPLIAR para eles não perderem mais tempo!... e ainda por cima com obrigação de telefonar para descargo das suas consciências!...

O gasóleo que a pickup me levava com o meu carro bom tinha agora que transportá-lo com o carro avariado porque o "B" que não queria perder nada... levava agora cinco pessoas num carro que dias antes não podia com 3 em percurso com menos dificuldade!... e o meu compressor ardera a trabalhar para todos porque o "B", só com uma ficha de isqueiro normal queimara-a a tentar usar um dos seus!... tinha dois e cedeu-me um que era a maneira de também ter para si.. mas agora que me vinha embora ele ficava com dois e eu sem nenhum!...

Já pensava regressar a Serdelles no dia seguinte… mas esta proposta foi a última gota!... Tinha que ser hoje para não perderem tempo!...
CLICK PARA AMPLIAR "Vocês não prestam!..." foi a resposta. "Eu vou para Serdelles amanhã e não telefono coisa nenhuma!... esqueçam que eu existo que eu vou fazer o mesmo acerca de vocês...".. " a partir deste momento a única coisa que temos em comum é partilhar um espaço contíguo... mais nada!..."

"o que é que queria que a gente fizesse?!!!.." pergunta ainda estupidamente... "eu não quero nada!... nunca quero nada que as pessoas não tenham para me dar!... e isso é uma dádiva, uma atitude espontânea e generosa de que só alguns são capazes… e só assim tem valor!... mas vocês nem sequer têm entendimento para perceber isso na vossa baixeza egocêntrica, possessiva e desumana.. para mim deixaram de existir..."

CLICK PARA AMPLIAR A generosidade, a dedicação aos outros, a solidariedade não são obrigações!... são dádivas e só assim, quando espontâneas, naturais e genuínas, têm valor!... aqueles indivíduos na sua sofreguidão cega não têm acessos aos mais belos dos sentimentos humanos: a comunhão com o outro, ter prazer com o prazer dele, com a sua satisfação ou tranquilidade!... é uma qualidade, um estádio de desenvolvimento que só uns poucos atingem...

Enfio-me na tenda, durmo o que posso em cima da areia sem compressor para encher o colchão e o murmúrio dura noite dentro. De vez em quando oiço o meu nome no meio dos sussurros. O seu problema e o que no seu débil entendimento está errado ali é a minha recusa em telefonar-lhes!... imagine-se!... enquanto eu enfrento um regresso solitário a casa a mais de 3500 km de distância do meio dum deserto com um carro avariado, o problema daqueles indivíduos é um telefonema! CLICK PARA AMPLIAR

Naquelas cabeças nem cabia a ideia simples de que uma expedição pode ser talhada à medida dos acontecimentos em sã camaradagem sem individualismos egoístas!... ajustar o itinerário ao tempo disponível e aos acontecimentos estava fora de questão para mim!... porque já tinha sido feito para as "senhoras"!... Até aqui tinha sido quase perdido; a partir daqui era sagrado e tinha de ser ritualisado nem que fosse à custa de sacrifícios humanos, como ancestralmente se fazia nestas paragens para aplacar os deuses!...

Na manhã seguinte, quando me preparo para fazer uma coisa tão difícil como arrancar um membro a frio, deitar quatro jerrycans de gasóleo fora naquela natureza virgem!... sou informado, a meio do CLICK PARA AMPLIAR primeiro, que o segurança me ia levar a Serdelles e a pickup podia levar os jerrys. Aceito por amor à natureza!... afinal o líbio tinha-se revelado mais sensato que eles e não tinha permitido que eu voltasse sozinho, mesmo de dia, daquele local.

Sexta feira é feriado para os líbios e o Sr. Ali não estava mas chamado acedeu a vir reparar o carro. Afinal era uma fuga no circuito de refrigeração na base do filtro de óleo. Eliminado esse circuito tudo ficaria bem, segundo ele... mas a experiência revelou que não era assim e o carro continuava a pingar água!... Uma longa espera de várias horas para a "prière" e lá volta o Sr. Ali ao fim da tarde. CLICK PARA AMPLIAR Afinal não era aquela a fuga mas um tubo escondido por detrás da bomba de água, difícil de detectar!.. foi preciso desmontar uma quantidade de peças fixas na zona da bomba e filtro do óleo para reparar a fuga!.. e o Sr. Ali para compensar Alá pelo pecado cometido de trabalhar em dia feriado não se coíbe de me exigir mais €100,00

Entretanto chegara ao albergue um grupo de espanhóis em 3 carros um deles também com um problema que o Sr. Ali ia resolver pela módica quantia de €1500,00!... Confraternizam enquanto esperam pelo companheiro em apuros numa saudável camaradagem de fazer inveja a qualquer pessoa bem formada!... como eu gostaria de viajar assim!.. pensei.

CLICK PARA AMPLIAR Vendo-me sozinho oferecem-me os seus préstimos para o que precisar, incluindo dinheiro... Que atitude linda!... Poderia fazer o resto da viagem com eles. Mas sou um homem de paixões!.. e esta está morta!... e, numa paixão morta nada pode ser feito para ressuscitá-la. O encanto quebra-se!... A gente já não está nela nem disponível para outra. Há um período de nojo!.. eu estou no meu nojo!...

Com o aproximar da noite e a próxima cidade, Awbari, a duzentos e cinquenta km daqui, resolvo partir só na manhã seguinte para o meu regresso solitário. É directo, por estrada, sem quaisquer CLICK PARA AMPLIAR concessões!... quero sair depressa da Líbia. Leptis Magna, um sonho cultural dos tempos de faculdade lá fica por ver. Não estou disponível para ela!...

A estrada de Serdelles para Awbari é uma extensa planície de rectas a perder de vista numa extensão de mais de 260km, ladeada a sul por uma cadeia de montanhas mergulhadas na bruma do sol da manhã e a norte por uma extensão desértica a perder de vista apenas desfigurando a paisagem agreste uma cadeia de postes de alta tensão seguindo a estrada com a mesma fidelidade com que o pinto segue a galinha.
Estou completamente só!... navego para leste ao contrário do destino para casa a uns milhares de km daqui. Tenho que contornar o mítico Erg Awbari que a cartografia do Google me diz ficar mais a norte fora do alcance da vista.

E na minha solidão acabo por encontrar um certo prazer de estar aqui sozinho sem a presença de pessoas instáveis, indecisas, medrosas, inseguras e egocêntricas que querem sempre tudo e não decidem nada... cujo primeiro objectivo parece ser querer levar a Líbia toda para casa só para si... e que afinal não levam mais que o imenso vazio das suas pequenas cabeças!...

CLICK PARA AMPLIAR A partir de Awbari as dunas abraçam a montanha e do calor desse abraço resulta uma extensa faixa verdejante que abriga muita vida. Os povoados são seguidos e a marcha já não rende tanto. Há algum tempo que venho debaixo duma tempestade de areia que mergulha tudo numa bruma avermelhada... por detrás desta cadeia de montanhas, a sul, estende-se o Murzuk, objectivo desta expedição falhada... lá fica... talvez para nunca mais....

Na estrada sem delimitações, separada por uma faixa central de areia, transitam quantas filas de trânsito quisermos em todos os sentidos e direcções... e eles uns andam demasiado lentos enquanto outros excessivamente depressa!...

O meu carro está agora no seu melhor!... carregado com oito jerrys cheios, contra um vento acutilante, CLICK PARA AMPLIAR controlo-lhe a temperatura com o pé!... mais umas horas de espera!... e esta expedição, não deixaria de ser um equivoco!... mas não teria sido um desperdício!...

A partir de Sebah navego para norte!... já não me afasto de casa mas a estrada atravessa um extenso deserto de planura de areia e depois uma paisagem incaracterística de nada com estradas a perder de vista muito semelhantes a certas imagens de filmes do oeste americano.

Põe-se o sol em Shwayrif... e, em cima dos 800km já feitos!..., o próximo hotel, informa-me um senhor que saboreava o novo prazer líbio, telefonar do carro demoradamente, está a 260km daqui!... mas posso ficar em sua casa!... Tem aspecto de pessoa decente, talvez até abastada, e a casa mais parece um palácio que uma habitação!.. mas mesmo assim, sozinho... não arrisco. Mesmo com os meus 800 e tal km já feitos continuo. CLICK PARA AMPLIAR

Chego a Mizda já tarde e o carro carregado com toda a bagagem e mais de 200 litros de gasóleo começa a dar sinais de fraqueza. Um ruído estranho parece sair da transmissão ou da suspensão… vou amanhã ver o que se passa!... faltam-me cerca de 300km para a fronteira... na Tunísia já não estou incomunicável... a minha debilidade aqui é ficar avariado na estrada sem comunicações a centenas de quilómetros do povoado mais próximo!... o meu Vodafone não entra na rede líbia...

Domingo, 18 de Novembro, é um dia para esquecer!... Tinha só uns 300 e poucos km para fazer até à fronteira mas acordei preso!... O hotel era só para mim. Fiquei sozinho e o vigilante porteiro-recepcionista resolveu sair antes de mim e deixar-me fechado à chave com todas a portas e janelas gradeadas... foi a primeira vez que tive a sensação desagradável da clausura!... CLICK PARA AMPLIAR

Agora chego à fronteira e chamo o agente de viagens para as respectivas formalidades. Espero várias horas à beira da estrada porque embora tenha avisado ontem que estaria aqui hoje no começo da tarde, o seu guia para a região assegurou-lhe que era impossível chegar aqui em dois dias!... Agora tenho que esperar que venha de Tripoli até aqui, perdendo o tempo que me levaria, ainda hoje até meio da Tunísia!...


Fora da Líbia respiro fundo!... estou agora menos isolado sabendo que tenho um telemóvel para pedir ajuda em caso de necessidade.

CLICK PARA AMPLIAR E venho eu paulatinamente subindo a Tunísia quando sou mandado parar por uma patrulha de estrada à entrada de Gabés. Encosto e procuro lugar segura fora da via mas ele manda-me parar logo ali!... só então reconheço a cara sorridente e simpática do polícia a quem, na viagem para baixo, tinha bebido o café!... Reconheceu-me e quis falar comigo, desejar-me boa viagem e outras amabilidades que põem um conforto extraordinário numa alma solitária!... e fico a pensar na quantidade de felicidade que um simples desconhecido bem formado nos pode proporcionar!... e não posso deixar de pensar na diferença que faz dos meus ex-companheiros de viagem!... ainda haverá quem pense que somos todos iguais???!!!...

CLICK PARA AMPLIAR Embora de nojo não posso evitar o famoso Coliseu Romano de El Djem. A poucos metros da estrada é impossível ignorá-lo. É o segundo maior, depois do de Roma, e o mais bem conservado do que resta destes símbolos duma face negra do Império. Ali se debatiam até à morte, para divertimento humano, homens com homens ou homens com animais numa das mais degradantes facetas da nossa história, reminiscência bárbara e cruel das touradas e dos chamados desportos de luta dos dias de hoje!...

Uma tarde de espera pelo barco em Tunis é preenchida com uma visita a outro lugar maior da cultura ocidental: Cartago!... da Cartago púnica, aquela que fez tremer o império romano e que se tem vencido a terceira guerra púnica a civilização ocidental não seria seguramente o que é hoje, dessa Cartago não resta quase nada. Os vencedores tiveram o cuidado de apagar as suas marcas mas não conseguiram apagar a sua memória!... e mesmo os vestígios romanos são uma decepção!... apenas as Termas Antoninas dão mostras do que terá sido a sua imponência!...




Apostilha 1


Num quarto de hotel em Soldeu, Andorra, termino esta reflexão ainda não refeito do dissabor que julgava já não estar guardado para passar!... Conhecia os meus companheiros de viagem de CLICK PARA AMPLIAR outro contexto, que não este. E, embora, desde há muito tenha descoberto que mais de 90% das pessoas são problemáticas, gosto sempre de dar a primeira oportunidade para saber quem cai dentro dos outros 10% que me interessam como companhia. Estes caíram todos fora. No entanto há dois acompanhantes que noutro contexto até poderiam eventualmente ser bons companheiros de viagem mas na situação de dependência em que se encontravam não tinham liberdade de expressão nem de movimentos para agir de outra maneira. A esses dou o benefício da dúvida!...
Fica de tudo isto um sentimento contraditório de desapontamento e satisfação!... provei, mais uma vez, com desapontamento, que a minha teoria que sempre desejei estivesse errada, está, infelizmente, certa: "mais de 90% das pessoas não prestam!..."




Apostilha 2


Navegar com um minúsculo GPS bluetooth, um computador portátil montado num braço articulado RAM MOUNT e com o QV... é um "must"!... Apesar de alguns " quirks" que afectam a sua imagem profissional o QV é um grande e versátil programa. Com uma boa colecção de mapas em CLICK PARA AMPLIAR várias escalas fazer zoom, mudar de mapa e executar a maioria das operações de comando do programa com um simples click dum botão num controlo remoto facilita muito a vida ao navegador solitário. Se a isto juntarmos o detalhe dos mapas Google e planearmos bem a rota previamente, a vida, dentro das cidades desconhecidas e caóticas como muitas das cidades africanas, mas não só..., fica bastante facilitada!

No entanto a instalação do sistema operativo e QV em drive USB revelou-se instável. Todo o tráfego de sistema e aplicações pela porta USB confundia as operações do rato e o sistema congelava de quando em vez. Com a normal drive interna no meu Fujitsu-Siemens Amilo funcionou quase sem falhas e, surpreendentemente, contrariamente aos meus receios, suportou todas as atribulações de navegação TT, chapa ondulada, pancadas, saltos de dunas e as inevitáveis montanhas de pó!...


Soldeu, 23 de Novembro de 2007






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