DECLARAÇÃO
DECLARAÇÃO

PRINCÍPIOS
PROJECTOS... SONHOS... DEVANEIOS!...
VIAJAR EM TEMPO DE CRISE!...

PRINCÍPIOS
O meu objectivo não é fazer história...
...nem um roteiro ou literatura de viagens!...
Meu objectivo é, tão só, descrever o belo, o diferente, o bizarro ou o único!... tal como aparece a meus olhos!... com as limitações que tenho para fazê-lo.

PROJECTOS... SONHOS... DEVANEIOS!...
Projectos tenho muitos!...
Este não é o mundo, social, em que gostaria de viver!... Mas é o único que tenho. Por isso viajo... viajo o mais que posso em busca de coisas belas!...
Gostaria de ver todos os lugares bonitos, exóticos ou estranhos que ainda existem antes que a insensatez e a ganância dos homens acabe com eles!...
Sonhos?!...
É proibido sonhar!... Neste mundo paranóico em marcha acelerada para a esquizofrenia!... onde fica o lugar dos sonhos?!...
Só nos restam os devaneios... que é meio caminho andado para a loucura!...

Novembro de 1999

VIAJAR EM TEMPO DE CRISE!...
Fiz hoje 68 anos dentro dum avião, aliás, à semelhança do ano passado!...

Para mim, como para os países que visito, não há crise!... por sermos ricos?!... não!... por sermos pobres!...

Como reconhece uma crise quem nunca saiu dela?!...

Crise é problema de ricos.. e sabem porquê?... por causa da ganância!...

Isso é o que ninguém nos diz entre as vozes autorizadas a fazedoras de opinião... e sabem porquê?!... porque quem está dentro da floresta só vê as árvores... para ver a floresta é preciso estar fora!... e eles estão todos dentro (do sistema), uns contra os outros, debatem-se todos com as mesmas limitações...

Há muito que sei que este sistema não tem futuro, só não sabia, nem queria, que acabasse tão cedo!... E sabia como?.. se todos os iluminados, autorizados, licenciados, adulados e reconhecidos... ninguém sabia nada?!...

Simplesmente porque não têm tempo nem neurónios para pensar!...

O raciocínio assenta numa lógica muito simples mas muito estrita:"...como é que num mundo de recursos limitados uma civilização estrutura a sua existência baseada numa prática de crescimento infinito?!..."

O padrão de desenvolvimento desta civilização, cujas raízes já vêm de longe, assenta no crescimento quantitativo e não qualitativo... e a mais elementar lógica aristotélica diz-nos que o modelo um dia se esgota.

Querem inventar uma lógica nova?... a aristotélica é velha, está ultrapassada?... sim... já foram feitas tentativas nessas e noutras áreas... mas desde a invenção da numeração (dita árabe) que apesar da tentativa de reformar as matemáticas, 2 + 2 sempre foram 4!... e antes também já era assim mesmo sem se saber!...

Portanto... esta não é mais uma crise!... é o começo do fim!... mas para entendermos isso temos que ir um pouco mais fundo. Os problemas de esgotamento de recursos e de empolamento do sistema são recentes. Nasceram no século passado mas foram chocados muito antes!... e durante um longo período de incubação que remonta ao fim da Idade Média com o desenvolvimento do comércio mundial e o aparecimento do capitalismo!...

Mas foi depois da guerra de 39/45 que a sua evolução entrou em espiral com o aparecimento dum novo império, ocupando o espaço vazio deixado pelo antigo Império Romano desaparecido há séculos!....

O antigo império conquistava, saqueava e explorava baseado na ocupação física do território com custos operacionais elevados, demasiado tempo entre a rapina e o consumo (tudo era ainda feito ao ritmo biológico) e difícil controlo dos comandos à distância!... e numa área limitada do universo!...

O novo, escapado à devastação organizativa que uma ocupação ou bombardeamentos sempre acarreta, estava administrativamente incólume para dar as cartas e ficar com os trunfos!... e as instituições, saídas dos acordos forjados ainda durante o "stress" da guerra, implantadas pós-guerra, não passaram todas de tentáculos seus para conquistar e explorar, agora o mundo inteiro a um ritmo alucinante!....

O resto do mundo agradecido e venerando transformou-se numa espécie de satrapias(*) obedientes com a ilusão de poder e independência com que votavam nestas organizações obedecendo, sem saber, à voz do dono que ditara as regras...

Agora os fluxos materiais fluíam incessantemente já não de toda a bacia mediterrânica para Roma... mas de quase todo o mundo para a nova capital do outro lado do Atlântico...

...mas a ganância da nova aristocracia não conhece limites!... num desses acordos o império tinha imposto a sua egemonia ao estabelecer que o comercio mundial e o câmbio das suas moedas ficasse indexado ao dollar... que por sua vez teria a sua cobertura salvaguardada por um montante determinado em ouro depositado na reserva federal... e isto estava a causar embaraços. Era preciso arranjar ouro primeiro para poder imprimir papel para enviar em troca das coisas de valor dos incautos de todo o mundo!...

... então!.. um dos seus imperadores, acusado de corrupção na eleição e impedido de terminar o mandato, ainda teve tempo para anular unilateralmente esta cláusula.

A partir de agora o dollar não estava mais sujeito à taxa de cobertura em ouro!... e o império podia dar largas à sua sede de rapina!... os produtos e matérias primas de todo o mundo podiam agora ser trazidos em troca de meia dúzia de árvores esmagadas, comprimidas e impressas como se de coisa valiosa se tratasse!... sem referência a qualquer mecanismo de conversão!...
Qual a diferença entre isto e os primeiros descobridores a trocarem ouro por espelhos com os indígenas que encontravam nas suas deambulações?!... só uma: os espelhos eram tecnologicamente mais avançados do que o papel sem cobertura assim obtido!...

Era o "american way of life!...". Enriquecer depressa era a ideia exportada para todo o mundo como mais um absurdo viável!... e o mais surpreendente é que os milhões de explorados por esta prática acreditavam nisso!... e as satrapias mais próximas do centro do império até tinham alguns ganhos... mas na periferia é que os problemas se agudizavam todos os dias!...

Num sistema fechado de vasos comunicantes, o que está a mais num lado falta, necessariamente, no outro!... mas ninguém via!... acreditava-se (e quem não acredita ainda?!...) no crescimento infinito... ignorando Lavoisier!...

Os despojados revoltavam-se por aqui e por ali mas, com grandes ganhos em economias de escala (assim se chamava ao usurpação de pequenas quantidades em muitas operações!...), o império de agora já não precisava de ocupação física permanente das suas possessões. Quando os seus tentáculos ou os sátrapas obedientes e venerandos não resolviam o problema... bastava enviar em expedição punitiva uma unidade bem treinada para "repor a ordem". Nem sempre as coisas correram bem mas quando não conseguiram impor a sua ordem, conseguiram impor a desordem que também servia os seus intentos!...

Só faltava resolver uma pequena pedra no sapato do império para que a sua glória fosse suprema e a sua egemonia mundial. A queda do Muro de Berlim!... Foi o triunfalismo, o apogeu, o sonho tornado realidade!... mas tal como no teatro, que imita a vida real, o clímax representa o começo do fim do drama, também nos impérios ao apogeu segue-se a decadência!...

E os recursos fluíam apesar dos desaires!...(**) a sua moeda fabricada em grandes quantidades continuava a ser padrão para tudo... dando a ilusão de enriquecimento ilimitado!... agora já nem precisavam de imprimir papel, as próprias árvores começavam a escassear mas isso não era impedimento. Exportavam pequenas cargas elétricas armazenadas na memória de uns "chips" sob os mais diversos invólucros, acções, obrigações, fundos, índices, "warrants"... e mais uma caterva de nomes vazios sob a designação genérica de derivados... através dum sistema de casino electrónico chamado mercado financeiro com que enganaram todo o mundo. Como em todos os casinos, quem ganha é o dono. Se a sorte lhe é adversa estão previstos mecanismos para inverter a situação. Assim acontecia nesse casino. Violavam, sem pudor, as regras que eles próprios tinham estabelecido e as chamadas entidades de supervisão não entendiam (ou não queriam entender com medo do dono) quando alguém se queixava. Isto foi particularmente evidente com os chamados "warrants".(Ironia do destino!... no exacto momento da queda das torres do World Trade Center um dos seus bancos estava a arrecadar milhões com a violação das regras nas bolsas mundiais!...).

Mas é, apesar do zelo posto a combater os desalinhados (agora marcados com o ferrete perigoso de terroristas), no seio das satrapias mais fiéis, sem que ninguém o quisesse, que o maior inimigo do "american way of life" se desenvolve, subrepticiamente, como uma criação inocente.

Era para se chamar ECU mas por conotações pejorativas em algumas línguas sátrapas (rsrsrsrs) rebaptizaram-no de EURO.

O imperador reinante ao tempo, que não tinha inteligência suficiente para isso, deve ter sido alertado do perigo e correu a tentar abortar esta gestação largando bombas radioactivas no seio das próprias sataprias fiéis, conhecedor dos seus desacordos, para envolvê-las em luta entre si e gerarem um nado morto (bombardeamentos na ex-Jugoslávia). Apesar dos desacordos o novo rebento veio à luz e, mais uma vez ultrapassando as expectativas, com tal vitalidade que o velho padrão, sem cobertura e muito ódio à mistura, nunca mais foi o mesmo!... e começou a regressar a casa cansado e desgastado... em quantidades que mesmo assim desvalorizado daria para comprar vários impérios!...(***) e só havia um!...

Ao mesmo tempo a contestação na periferia do império subia de tom... agora já eram antigas satrapias fiéis que eram alvo do ferrete que as marcava para o abate!... e quando uma delas se preparava para converter toda a sua dívida (dívida?.. sim a sujeição sempre se fez mantendo o escravo devendo alguma coisa ao dono!...) e as transacções de petróleo em EUROS!... a campainha do alarme vermelho soou nos aposentos do imperador!...

Outros se lhe seguiriam. Era o fim do império!... era preciso tomar medidas imediatas e essas passavam por enganar os sátrapas que tal como Spartacus, que tinha em mãos um exército vencedor mas não sabia que podia governar Roma!..., mais uma vez vergaram a cerviz, desmobilizaram o seu exército e foram com o dono combater-se a si próprios!... "...ele tinha armas de destruição maciça!... e toda a humanidade estava em perigo!..."

Será por acaso que o único sátrapa que não tinha aderido ao EURO foi o mais fiel e incondicional entre eles?!... rsrs

Agora já não era o "american way of life" que estava em jogo. Era a sobrevivência do império ameaçada!... império que cada vez era mais de menos!...

Desde há muito que patrícios, curadores, senadores, generais e cônsules levavam a sério essa ideia do enriquecimento infinito... um pequeno "shift" na interpretação do "awol"...

Já não era enriquecimento para todos mas, em teoria, todos podiam enriquecer infinitamente!... mas só os melhor posicionados na grelha de partida tinham hipóteses!... mas isso ficava no registo escondido da mensagem.

Livres do "papão" soviético, administrando empresas gigantescas (acreditava-se que o crescimento era isso mesmo - quanto maior, melhor) com orçamentos superiores à maioria das suas satrapias, espremendo os salários e reduzindo os empregos, faziam lucros colossais que se auto atribuíam como remuneração e bónus dos bons serviços prestados deixando as empresas sempre à beira da insolvência... e este jogo repetia-se ano-após-ano toda a gente achando natural!... afinal eles eram mesmo bons, mereciam!...

(O novo imperador chamou a isto uma vergonha... eu não tenho palavras para designar tais actos... acho-me impotente!... a linguagem não comporta expressão para tal horror de comportamento humano!...)

Que importava mais uns milhões cada ano com fome!... o empobrecimento contínuo dos países explorados!?... a degradação acelerada do ambiente pondo em perigo a sobrevivência da própria espécie?!...

O que era isso comparado com a ameaça de Saddan?!!!... o importante era combater Saddan... não por ser Saddan, um ser desprezível e insignificante!... mas pelo perigo que ele representava para os interesses desta casta!...

Aos muitos milhões com fome somavam-se todos anos uns tantos e esses cediam o lugar aos que caíam abaixo do limiar de pobreza!.. e, (não esqueçamos nunca que estamos num sistema de vasos comunicantes!) assim, num movimento de deslizamento social geral, camadas intermédias iam descendo na escala social, subrepticiamente, sem ninguém se aperceber, todos tentado manter as aparências!...

Até que... numa conjugação de acasos resultante por uma lado da especulação imobiliária, que há décadas é uma realidade em todo o mundo dito desenvolvido, a gula dos bancos nas taxas de juro e comissões, o deslizamento social e a descapitalização atrás referidos, uma camada suficientemente alargada da população empobrecida sem saber, entrou em incumprimento.

Os bancos têm mecanismos de segurança para o crédito mal parado, assim se chama esta prática, mas não têm mecanismos para prevenir a gula, a ganância e a insensatez!...

O sistema financeiro do império era (é) como uma daquelas diversões feitas com peças de dominó que ao desarmar uma os outros milhares delas em todas as ramificações, caiem em sequência!... partiu por ali, partiria por outro lado!... e apesar das tentativas para manter essa queda, nada nem ninguém vai poder salvá-lo!... e sabem porquê?!... sem entenderem ainda nada do que está a acontecer, os governos continuam a dar às pessoas mais do mesmo!...

Antes, os CEO's (assim se chamavam até nas satrapias, imitando o dono, os presidentes das grandes empresas) "envergonhavam-se"!.. rsrs (no dizer do novo imperador!...) nas empresas financiadas com o dinheiro dos pobres através dos seus fundos de pensões!... das quais eram reais donos mas sem poder de decisão!...

Agora, para esses senhores coitados não sentirem os horrores da crise "envergonham-los" directamente com o dinheiro dos impostos desses mesmos pobres!... que já estão acostumados à crise... já não estranham!...

E sabem o que eles vão fazer com esse dinheiro?!... já sabem?!!... eu também!...

O sistema atingiu um tal ponto de absurdo que a própria lógica do crescimento infinito foi violada em nome do mesmo princípio. A concentração excessiva de riqueza nas mãos de um só homem, que pode consumir por dez ou cem mas nunca por milhões, gera escassez na procura, no consumo, as empresas deixam de vender e de fazer os lucros que eles excessivamente rapinavam. Em termos técnicos diz-se que o sistema perde a entropia e morre!... em linguagem cultural dir-se-ia que nunca leram a fábula da "galinha dos ovos de oiro"!... e em linguagem popular, que "arranjaram lenha para se queimar!... "

É claro que eles são os últimos a arder!... mas, por este caminho, arderemos todos!...

Quando Marx disse que o capitalismo continha em si mesmo o germe da sua auto-destruição, talvez nem ele próprio tenha entendido todo o alcance desta sua intuição!... e nenhum dos seus seguidores teve sequer uma gota de génio para lhe dar continuidade!... mas foi uma intuição genial, talvez a coisa mais profunda e mais certa de toda a sua teoria... já que todas as soluções ensaiadas falharam perante um sistema errado mas eficaz até ao seu esgotamento!...

O capitalismo auto-destrói-se mas não deixa lugar ao socialismo... nem a nada nem a ninguém!... é o fim desta civilização!... uma civilização que cometeu o seu primeiro erro há milhares de anos atrás, construiu tudo sobre bases erradas e nunca teve o génio para corrigir essa situação!... e o que sobrar da humanidade vai mergulhar, não numa "longa noite de dez séculos" mas, numa longa noite de muitos milénios!... ensaiando a sobrevivência a partir de recordações cada vez mais vagas e estereotipadas pela transmissão oral, cometendo os mesmos ou esses e outros erros desconhecidos... dando consistência ao "Mito de Eterno Retorno"!...

Por isso eu viajo em tempo de crise!.. Estou a esgotar dois cálices ao mesmo tempo!... o de uma vida e o de uma civilização!...

Em termos históricos uma vida não é nada e esta civilização pode até ainda comportar, por milagre, ainda mais algumas vidas... mas está condenada a curto prazo e nada nem ninguém a pode salvar!...

Curiosamente a crise não se sente nos países que visito. Isso é problema de ricos!... mas o pior é que quando o fim chegar é para todos e eles nunca tiveram os benefícios do desenvolvimento!...

Quem disse que o mundo era justo?...

Os sistemas jurídicos, dentro da mesma lógica do sistema geral, existem para defender os que têm alguma coisa daqueles que nada têm!... Não existe uma lei que proíba alguém de ser pobre, de não ter comida ou casa para abrigar-se!... mas existem leis para defender aqueles que têm mais do que necessitam e várias casas para abrigar um só corpo!... num mundo que segundo a lógica mais elementar, sólida e básica, é de todos mas que só uns poucos, e cada vez menos, usufruem de pleno direito!...

Parafraseando alguém: "algo está podre no reino da Dinamarca!..."

Aeroporto de Salvador da Bahia aos 7 de Fevereiro de 2009



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