CUBA
CUBA



Paraíso Perdido?!...
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Nove horas e meia dentro duma lata, depois de mais uma antes para chegar a Madrid, levam-me a realizar um sonho antigo.
Cansado, a precisar de descanso avisto, finalmente, o pequeno aeroporto de Havana. Tínhamos sido avisados para separar medicamentos e comidas da bagagem comum para agilizar os procedimentos de alfândega.
Mas, para surpresa minha, antes de pegar a bagagem de porão, onde viajavam esses itens, fui confrontado com um controlo rx de bagagem de mão semelhante ao de entrada nos aeroportos da era pós-bushiana!
Chamado a explicar o conteúdo da minha bagagem, composta de duas máquinas fotográficas, algumas objectivas e vários acessórios, andei de mão em mão de funcionária a funcionária, dando explicações e tudo parecia confuso, ninguém sabia o que fazer.
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Relíquia

A funcionária, jovem, bonita foi sempre simpática e tranquilizante. Levantei a bagagem de porão, onde havia mais material, fui conduzido a uma mesa onde foi feito o escrutínio da cada peça e sua utilização. Fez-me muitas perguntas o que fazia, a que organizações pertencia ao que repliquei no meu portuñol:" no tiengo dios, iglésia ni club de fútbol!". Falei que era fotógrafo por conta própria que ia visitar parques naturais para fotografar pássaros, e quiseram saber o nome do meu "site". No final, a minha arrumação estava uma bagunça mas sempre com a mesma simpatia e gentileza que contrastava com aquelas atitudes arrogantes dos funcionários do capitalismo.
"Bien venido a Cuba!"



Cuba é um país único!... em vias de desaparecimento, como tudo nesta civilização em passo acelerado para a auto- extinção!
Já tinha tido esta sensação, num país que, como tal, já desapareceu: Líbia!
Um povo simples, simpático, com auto-estima, sem servilismos. Cuba é um país pobre mas não envergonhado. Só tem vergonha de ser pobre um capitalista falhado! ╔ um país pobre mas com menos miséria que os países ricos. Em Havana só encontrei um indivíduo a pedir uma moeda e não se vêem aqueles espectáculos deprimentes dos sem abrigo arrastando andrajos junto à casa ou à porta dos supermercados dos ricos.
Não será nenhum modelo de perfeição! e as diferenças sociais já começam a dar nas vistas. Os carros antigos dos anos cinquenta, são agora relíquias para turista se passearem julgando-se uma estrela decadente de Hollywood ou, os modelos mais modestos, são "máquinas" isto é táxis colectivos onde se pagam 10 pesos cubanos pelo percurso.
Uma tarde regressava ao hotel, chovia copiosamente, e o velho táxi, roncava debaixo da chuva galgando rios de águas que cobriam as rodas. Lá dentro 3 jovens que não sabiam para onde iam, uma negra que sabia mal pois não se via nada para fora com o embaciado das janelas. Para fechá-la a mulher teve que pedir a manivela que era guardada pelo motorista. Não porque pudesse ser roubada, para não perder-se. Em Cuba não há roubo violento e o pequeno furto é marginal. Pela junta da porta da frente caía um rio de água mas o moço que ia ali não se queixava. Parecia normal.
No parque automóvel, embora modesto, já aparecem modelos de luxo e muitos carros de gama e idade médias.
Gosto de viajar autónomo para conhecer melhor e contactar com as populações mas os cubanos, atenciosos, delicados não são muito expansivos. Só ao fim de várias entrevistas consegui, da funcionária da agência de viagens a quem comprei um pacote de "birdwatching", algumas confidências. Castro e seus pares conseguiram um milagre em Cuba. Sobreviver à agressão do Golias seu vizinho que tem cometido o crime abjecto de querer sufocar uma nação inteira que baseia a sua existência naquilo que esse Golias também precisaria para sobreviver mais tarde ou mais cedo: solidariedade. Se Cuba é hoje um milagre de sobrevivência e dignidade, sê-lo ia também economicamente sem o boicote. A culpa de um jovem ganhar hoje, em Cuba, o equivalente a 40/50 euros por mês não é de Fidel, cuja vida tem sido um modelo de probidade, é do vizinho agressor que se permite isolar um vizinho não submisso na sua própria casa!
Mas esses jóvens, a esta distância das misérias dos tempos de Fulgêncio Batista, não entendem ou não querem entender que Cuba seja um modelo e começam a deixar-se seduzir pelos "gadgets". Isso e a próxima abertura ao turismo norte americano é o maior perigo para Cuba. Dentro de pouco tempo pode voltar a ser o bordel dos devassos yankis, como era no tempo de Batista.
╔ toda uma experiência que se esvai, todo um sacrifício perdido para um povo e a oportunidade de um modelo sustentável para a humanidade.
Cuba, apesar dos preconceitos das organizações capitalistas é hoje reconhecida como o país com o desenvolvimento mais sustentável do mundo... e sabem porquê?.. porque o mundo dito desenvolvido consome e desperdiça demais!... tudo só para gerar mais lucros para uns (muito) poucos! Os atentados contra a natureza, já exausta, são mais que muitos desde as grandes empresas transnacionais que se permitem mandar e demandar estados, aos exploradores sem escrúpulos de todo o género. Menos na ribalta mas igualmente perniciosas são as explorações mineiras a funcionar e outras a instalar-se na américa latina com destruição de "habitats" humanos, levados a cabo por governos corruptos a soldo dessas empresas e a que as populações locais, mais lúcidas que a, pretensa, elite se opõem em rebeliões com mortos e feridos no Peru e na Colômbia e que passam ao lado da imprensa capitalista muito centrada no dito desenvolvimento da meia dúzia de apátridas!



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Fortaleza
Havana é uma cidade como todas as outras. As atracções principais estão no centro histórico. Mas diferente de todas as que conheço pois nesse centro que é o centro de tudo é-o também da insegurança. Em Havana respira-se tranquilidade! Não há um mínimo de risco andar com uma máquina cara na mão em qualquer lugar, beco ou rua menos movimentada, num país onde possuir essas coisas é impensável. Isso poderia ser devido a presença de polícia musculada!... mas não!... quase não se vê polícia. Por outro lado, para além de muitas visitas serem livres, não há interdições a fotografar. Na Fortaleza, monumento impressionante com recheio valioso e metais preciosos, ainda em bruto, para minha surpresa, para além da entrada livre, podia-se fotografar tudo..., o que é estranho! Não fotografei nada, por respeito, porque sei que divulgar fotos deste teor tem o seu risco mesmo que este não esteja previsto por quem de direito.
Também não senti nenhuma pressão ou interdição, de qualquer natureza acerca de lugares a visitar ou fotografar, ao contrário da citada Líbia, onde a pressão social era bem musculada e sem discrição ou na esmagadora Roménia de Ceausescu!
Senti-me em casa!

Há muito que tencionava ir a Cuba. Fui agora por pressão de eventual abertura aos EUA e queria saber como era a Cuba de antes! Agradável surpresa. Não que Cuba não tenha problemas. Quem os não tem? Tem pobreza... mas não vi sem abrigo a dormir na rua.
Por outro lado, esta já não será a Cuba que eu gostava de ter visto!... Havana é, ainda, um gigantesco museu. A sua arquitectura, não tocada pela degenerescência e falta de génio estético da segunda metade do século XX, é um repositório permanente de obras de arte... infelizmente a maioria a precisar de recuperação urgente... o que transforma Havana, a mesmo tempo, num grande estaleiro de recuperações!
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El Sancho de Habana
Também aqui, Cuba parece imitar Quixote numa luta inglória contra gigantes. Está fora das possibilidades dum pequeno país, estrangulado pela opressão ignominiosa dum grande vizinho, fazer esta recuperação sozinho!. Havana é património da humanidade, a humanidade tem o dever de recuperá-la porque, devido às circunstâncias da sua história recente, é o único lugar no mundo onde uma cidade mantém o seu carácter arquitectural de séculos.
Que saiba resistir à substituição destas jóias gastas pelo tempo, por caixotes incaracterísticos na cegueira duma pseudo modernidade!... são os meus votos.
Por outro lado, a velha Havana parece estar a transfigurar-se! Parece uma noiva a preparar-se para o casamento. Oxalá seja feliz sabendo-se como se sabe o carácter do noivo e não se transforme, de novo, no escritório das suas máfias e na sede dos seus prostíbulos, com o foi nos tempos de Fulgêncio Batista.



Fui a Cuba para ver o que restava da velha Cuba resistente, sofredora mas orgulhosa da sua independência! Convivi com o seu povo, falei, ouvi, amei e senti um país a que gostaria de chamar meu!
Os anos sessenta do século passado produziram o fenómeno social mais surpreendente da história da humanidade!... Tenho orgulho de pertencer a essa geração que estava na força da sua juventude e acreditava e queria uma sociedade decente. ╔ramos poucos!... muito poucos!... os outros, os que fingiam ser modernos e alinhavam connosco, eram oportunistas que apenas queriam os lugares ocupados pela nomenclatura de então!
No dia 26 de Abril de 1974 já estávamos em lugares opostos... mas mesmo muitos de nós , na embriaguez do momento, nem todos nos apercebemos disso. Foi o que aconteceu aos capitães de Abril que em Novembro de 1975 "entregaram o oiro ao bandido" sem o saber!... e agora choram, os que restam, como Madalenas arrependidas incapazes de reverter o processo!
Para isso contribuiu o erro colossal do PCP que, em vez de fazer a revolução enquanto teve tempo, preferiu agir como os oportunistas e apenas ocupar os lugares. Saiu-lhe o tiro pela culatra!...
Anos antes já Fidel tinha percebido este problema. Mas a contra-informação do império, lançada com a "caça à bruxas" de McCarthy Carter produziu os seus efeitos nas colónias a tal ponto que até os contra, para além dos ingénuos, ficaram confundidos. Era a época do "sonho americano", de todos serem ricos!... que ainda não desapareceu da cabeça de muitos sonhadores pobres!
Sabendo que o PC Cubano estava isolado, Fidel usou o Partido Ortodoxo para obter o apoio da população para a sua revolução, apoio, sem o qual, nenhuma revolução triunfará.
Mais tarde, sob pressão americana e abandono pela comunidade internacional, lacaia da américa, Cuba teve que meter-se debaixo do chapéu soviético para sobreviver. A crise dos mísseis representou o momento mais dramático para toda a humanidade nesta luta de degenerados contra a decência de que Cuba é um legítimo representante. Estive no quartel general de Che Guevara, neste momento difícil, em La Guira, e nada me foi proibido ou interdito, vi e fotografei o que quis. O vigilante, um velho licenciado em história, zela aquilo como uma relíquia sagrada sua. Ali percebi bem aquilo que, até mesmo eu, não tinha ainda entendido! Só voltando, talvez aos tempos de Viriato ou "Pelayo" se encontre uma réplica deste sentimento.
A pressão hídrica de um antigo lago forjou uma passagem por erosão subterrânea por baixo de uma maciço rochoso e abriu cavernas laterais de certa complexidade. Nestas cavernas húmidas, insalubres, infestadas de parasitas instalou Che Guevara o seu quartel General do exército de defesa do Oeste de Cuba. Ali estão os seus "aposentos?": uma cama rústica e uma mesa improvisada na rocha local, muita humidade para um asmático... e muita "força de dignidade!".
└quilo!... nem um monge cristão ou budista se sujeitaria!
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Cama de Che na Gruta de La Güira

Com a queda, inevitável, de um monstro, também errado, União Soviética, Cuba deu a sua segunda prova de resistência. Esta menos visível externamente, mas não menos dramática internamente, a tal ponto que os seus efeitos ainda hoje perduram. Cuba teve que sobreviver sozinha. E não é apenas a falta de dinheiro para comprar os equipamentos que necessita. Está como Portugal esteve no tempo do nazismo: mesmo com dinheiro não ter onde comprar!.
O embargo americano tem sido como uma corda à volta do pescoço dum enforcado que luta por abrandar o sufoco. Qualquer produto, mesmo terceiro, que incorpore componente americano, não pode ser vendido a Cuba!
LACAIOS... só lacaios aceitam isto!... mas de lacaios são feitas as pátrias que albergam capitalistas!.. porque eles não têm pátria... têm paraísos fiscais!



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Alegria dum país pobre
Fiquei uma semana em Havana a sentir a cidade. Depois, na Havanatur, negociei um pacote de "bridwatching", motivo da minha viagem, para vários lugares previamente escolhidos.
Fiz milhares de quilómetros, de táxi, com o René (que aproveitou a oportunidade e deu um presente à esposa!).
Viñales, a oeste de Havana, não foi muito produtivo na observação de aves. O circuito famoso de "Maravilhas de Viñales" não oferecia grandes oportunidades em dia chuvoso, fora de época e com um guia que não era muito dotado.
O hotel, Los Jazmines, apesar da falta de água no primeiro dia, era um espectáculo de beleza natural. Os quartos com varanda para um vale jurássico, com formações rochosas coniformes, semelhantes a paisagens Tailandesas ou à Baía da Halong no Vietname, era de uma beleza estonteante.
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Viñales

Após a manhã, mal sucedida, de "birdwatching" ou "Observación de Aves", disse ao René: "leve-me a um bom restaurante". Estava a precisar de um "mojito".
O René levou-me por aquele vale jurássico de montanhas esculpidas pela erosão milenar, nas vertentes das quais se desenha uma miríade de cavernas e caverninhas num rendilhado inebriante e depositou-me num restaurantezinho simples, bonito, num largo no meio daquelas montanhas, como se fosse o famoso "Xangri-lá" onde refiz a minha frustração da manhã com um saboroso "mojito" e uma refeição de "pescado" a preço europeu de classe média baixa.
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San Vicente

Para minha surpresa, aquele vale escondia mais surpresas!... um passeio pós-prandial mostrou-me a "Caverna do ═ndio", um lago subterrâneo por baixo da montanha, e uma zona ecológica surpreendente. Nas redondezas, árvores gigantescas com dezenas de variedades de epífitas formavam, cada uma delas um eco-sistema completo! O melhor do meu "birdwatching" aconteceu aqui espontaneamente!
Mas as surpresas ainda não tinham acabado! Quando passei a vedação para o outro lado atrás de uns "carpinteros" (pica-paus) deparei-me com umas galinhas!...
"Olá!... estas não são aves selvagens!"
Disfarçadas, ou engolidas pela exuberância da paisagem, havia habitações escondidas naquela natureza envolvente que nada deixava transparecer! Nem na Amazónia tinha visto coisa assim!... e, no meio do espanto, da inveja!.... rsrsrs, surgiu o medo. Será que isto vai sobreviver à ganância da liberalização inevitável?
Os madeireiros são uma classe tão gananciosa e menos esclarecida ainda que os petroleiros. No meu país, árvores milenares, de que nem se sabia (nem ninguém queria saber-respeitava-se!) a idade, desapareceram durante a minha geração.



La Guira, o meu segundo santuário de "birdwatching" situa-se nas imediações de San Diego. O guia, um profissional culto, sabia do seu ofício. Tinha um "voucher" para uma manhã de trabalho mas ele planeou-o para todo o dia.
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Tocóróró
Aqui, sim, algumas aves endémicas das quais o famoso "Tocóróró", nome derivado do seu canto cacofónico semelhante, ave nacional de Cuba, uma ave linda com as cores da bandeira cubana, da família dos trogons, deixou-se fotografar numa mata exuberante nas imediações de La Guira. Almoço no Parque de La Guira, objectivo para este dia, e mais aves com várias espécies a mostrar-se, incluindo o não menos famoso "Cartacuba", uma ave minúscula mas a rivalizar em beleza com o "Tocóróró".
Extra programa, a dupla( era tripla pois a esposa do René também ia) René/César (guia) levou-me a a uma zona de lazer com camping, onde se situa a "Cueva de los Portales", ex-quartel genereal de Che, já descrito, onde habitam várias espécies de andorinhas e morcegos e, na mata adjacente habita um endémico que muitos "birdwatchers" vão de propósito para ver. Nem me lembro do nome!... vi-o, mas era tão irrequieto e insociável que nunca saiu do meio da folhagem para fotografá-lo!
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Cueva de los Portales

O vigilante, que me fizera a descrição exaustiva da vida de Che na passagem pela gruta, estava de atalaia na volta pois eu era o único visitante naquele momento. Queria conversar, saber coisas do mundo. Tinha as suas ideias, convicções e crenças e queria pô-las à prova.
Foi uma longa e interessante conversa com um homem inteligente, cordato, sem ideias feitas, e aberto à informação.
Falamos do mundo e da natureza humana que ele achava que tinha como natural a ganância e a cobiça que tinham forjado o mundo capitalista e que ali estava apenas sufocada. Parecia recear pelo futuro e nisso não o tranquilizei. Eu também receio pelo futuro de Cuba.
Mas esclareci: "sim, os seres humanos são, essencialmente máquinas programáveis, e têm essas possibilidades todas mas também as de generosidade, solidariedade, amor ao próximo e decência. Tudo depende da programação que recebem, no meio cultural em que vivem e a quais dessas estruturas mentais é fornecida informação e o tipo de informação. O resto é cálculo e lógica de acordo com a capacidade de processamento da cada uma, que é diferente.
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Che sabia isso!

O meu receio relativamente a Cuba é que essa programação social, causa da actual qualidade de vida cubana, mude com a abertura e aquelas estruturas comecem e receber informação errada.
Depois falamos de coisas mais concretas, de lideres mundiais, Venezuela, Bolívia, Brasil e a conversa acabou com Angola. Ele tinha estado em Angola.
Tinha dúvidas acerca de Lula e mais ainda acerca de Dilma mas não as manifestou, apenas perguntou. Quando lhe falei que Lula tinha sido a maior desilusão da minha juventude, ficou de olhos arregalados! De facto Lula era um modelo para a juventude de sessenta! Operário, activo, enfrentava a ditadura militar, era um modelo à altura de Fidel, pensávamos nós. Chegado ao poder Lula foi um fiasco. Fez o mesmo que fazem todos os oportunistas. Pegou nas estruturas e usou-as em seu proveito. Dilma segue-lhe os passos mas com menos prestígio.
Finalmente Angola. O homem pensava que Santos era aquilo que o seu nome diz no plural!...
Quando lhe falei da fortuna da filha, dos escândalos associados aos seus pares na nomenclatura e na família o homem ficou como um crente que tivesse orado ao demónio sem o saber!...
Para tranquilizá-lo falei-lhe de Savimbi, um facínora, troglodita, cruel que até era apoiado por certa nomenclatura portuguesa e que às vezes a única opção que se tem é escolher entre dois males o menor... o homem encolheu os ombros conformado... mas não satisfeito!






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Uma máquina!
Mais de 700km nos separam do paraíso!
Curiosamente!.. só agora reparo nisso!... chama-se "La Belén"!...
La Belén é um pequeno povoado, de gente simples mas simpática situado a sudeste de Camagüey, cidade interessante do leste cubano. Este povoado não seria conhecido se ali não tivesse sido construída uma fazenda, nos contrafortes da "Sierra del Chorrillo", uns montes que não ultrapassarão os 300mts, mas que são uma serra em toda esta planura que é a ilha de Cuba, por um arquitecto peruano durante a segunda guerra mundial.
A vegetação luxuriante, de árvores de grande porte e palmeiras reais, contrasta com a quase ausência de árvores em toda a planura cubana. Calor, muita humidade, árvores, flores e animais... que falta para ser um paraíso?
Não falta nada!... tem demais: mosquitos!... rsrsrs
Não sei se no paraíso imaginado pelos autores em quem os bíblicos se inspiraram havia mosquitos. Mas acho que sim, só não falaram nisso!
Para mim, isto mesmo com mosquitos é um paraíso!
As instalações são improvisadas a partir duma fazenda rústica. Com gosto mas com algumas deficiências, o que é natural.
No meu quarto faltou a água. Tinha-se esgotado o depósito. Ligaram o motor e o problema ficou resolvido. Ficou? Não. Havia água na torneira mas o autoclismo não metia água! Abri aquilo que eu julgava ser a torneira do autoclismo e fiz uma inundação!...
Mudei de quarto... tudo bem... até que... pela noite fora o ar condicionado não quis trabalhar mais!... raramente uso porque não gosto e faz-me mal à garganta... mas fui devorado pelos mosquitos.
O guia, o Camilo, um tipo de ar rústico, a condizer com o ambiente, delicado, atencioso, sem muita instrução foi uma surpresa. Fazia mesmo parte daquilo, da natureza, estava fundido e sintonizado com ela.
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La Belén
Caminhávamos pela "trilha" e ele parecia nem estar ali.
Absorto olhava para o chão e andava lentamente calado. "Mas que raio vim aqui fazer com este gajo?!"... pensava.
De repente parava. Olhava... e dizia: "acolá!"... "é um "toti" endémico... blah...blahhh..." e eu olhava e lá descobria, às vezes com dificuldade em distinguir aquela preciosidade da folhagem ou dos ramos... mas estava lá!.
"Esta não é época de observação de aves... os migrantes estão todos ausentes, quando me falaram de alguém para observar aves nesta altura nem acreditei... blahhh... blahhh... a melhor época é de Novembro a Março com os melhores meses em Fevereiro e Março... blahhh... blahhh..."
Cerca de dois km de trilha, por dentro de charcos, erva molhada, lama e alguma chuva em cerca de 2 horas... sempre assim, calado, a olhar para o chão e, de quando em vez, lá puxava dos seus binóculos "swarovski", um "regallo" dum cliente, quando não encontrava à primeira o que tinha visto no seu mundo se silêncio!...
... mas eu tinha acertado numa coisa!.. este era o mês das mariposas... mais de 60 espécies!.. e, na verdade, embora não tenha visto as sessenta, vi muitas que não consegui fotografar devido à sua irrequietude.
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Mariposa


└ tarde fomos visitar a floresta petrificada, uns restos de troncos de árvores petrificados que, diz-se, têm mais de 3 milhões de anos!..., eram de facto, mesmo só uns restos. Diz-se que a segunda floresta petrificada a 6 km dali, é muito melhor, mas o caminho não dá para chegar lá com o táxi. O vizinho, ali, que veio logo ao encontro dos forasteiros, é categórico..."tenho um tractor e não vou lá com ele neste tempo!"...
Na volta, o René que não queria perder nada, sugeriu passar pelo povoado La Belén que dista 1km a pé da "Hacienda". Um povoado pequeno com casinhas de madeira mas bem conservadas, um grupo de foliões que tinha bebido para animar, simpatia, e a curiosidade natural por um forasteiro de Portugal.
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La Belén

Pergunta sacramental: Cristiano Ronaldo. Resposta decepcionante. "NO ME GUSTA!"... rsrs Expliquei-lhes, como pude no meu "portuñol" que não aceito uma sociedade onde um rapaz desmiolado, orgulhoso e arrogante, que não sabe fazer nada na vida, ganha numa hora mais do que eles todos ali juntos em toda a vida, a dar pontapés numa bola, uma actividade completamente inútil que não produz nada. Encolheram os ombros. Não sei se entenderam. Mais adiante perguntam-me quem é melhor, Ronaldo ou Messi?.
Resposta: "USTED", recebida com hilaridade!
Uma tempestade tropical ameaçava o horizonte, desde há um tempo sobre a "Hacienda". Regressámos mesmo a tempo de não ficar presos na lama do caminho. Ali a chuva não ameaça. Quando cai é como se se abrisse um chuveiro gigantesco em toda a sua intensidade. Em poucos minutos temos vários centímetros de água mesmo em superfícies planas elevadas!
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La Belén

A hora de jantar já ia avançada e não conseguia sair do "aposento" e atravessar o espaço descoberto que o separava do restaurante. Arrisquei, de havaianas, calça arregaçada e corta-ventos vestido!... O corta-ventos só corta mesmo (se cortar!) o vento porque a chuva passou toda! Encharcado!...
jantei e senti-me feliz. Desde o ambiente rústico, mas de bom gosto, à hospitalidade das pessoas tudo era diferente, para melhor, daquilo a que estamos acostumados nesta nossa sociedade de "iphodes" desumanizada!
└ noite, um grupo de jovens bebia e falava alto junto à piscina ali perto. Cansado do dia não conseguia conciliar o sono com aquele alarido. └ meia noite, esperando ser "chingado" como aconteceria aqui nesta terra de tantas liberdades como falta de respeito por direitos alheios, seria insultado mesmo, se não fosse pior!
Pedi para fazerem silêncio que não conseguia dormir. Sem uma palavra, sem um ruído, sem um murmúrio, sem um sorriso de escárnio ou qualquer outra manifestação do mesmo calibre, para minha grande surpresa e admiração, fez-se silêncio absoluto!
E isto demonstra aquilo que falara, dias antes, com o vigilante da "Cueva de los Portales". As pessoas são aquilo para que forem programadas. Estas foram-no para ser educadas e respeitadoras. As sociedades auto proclamadas de liberais estão a fazer a programação errada e a desenvolver novas formas de opressão privada, sem o saber!
Até fiquei incomodado! No dia seguinte perguntei se estavam zangados comigo... sorriram e disseram: "até achamos graça!". Isto é que é civismo!
O paraíso devia ser assim!... imaginei... antes da invenção do roubo ancestral que levou à escravidão e a todos os males de que sofre uma sociedade ignóbil que construímos em busca duma coisa de que cada vez afastamos mais de nós: a felicidade!...




Estamos no extremo leste deste périplo. No regresso a Havana ainda falta o santuário do "birdwatching" cubano: a "Ciénega de Zapata".
Nesta extensa zona húmida situa-se a famosa Baía dos Porcos (Baía de Cochinos) onde desembarcaram os renegados cubanos exilados nos EUA aquando da revolução e que engajados pela CIA numa operação suicida, aqui foram dizimados pelas forças de Fidel.
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Zapata

Numerosos placards ainda atestam este facto que deve ter custado a vida ao presidente dos EUA John Kennedy. Esta invasão clandestina preparada pela CIA tinha o aval do anterior presidente mas com o compromisso de não intervenção militar oficial dos EUA. A CIA, que sempre joga em dois tabuleiros, esperava, perante o facto consumado, envolver uma operação militar americana em Cuba.
John Kennedy, então presidente, ao que parece teria entendimentos secretos com Khrushchev, por causa da crise dos mísseis, não podia intervir e, os "mercenários", como são conhecidos em Cuba, desorganizados, sem apoio militar foram dizimados, numa vergonhosa derrota para a CIA, nestas paragens.
A CIA, essa organização tenebrosa, a que o próprio estado americano já não consegue por limites, não perdoa. John Kennedy pagou a factura e levou consigo alguma da sua família, aos poucos...

O "birdwatching" aqui foi generoso também com alguns endémicos entre eles o famoso "zunzuncito" um colibri minúsculo de cerca de 4cm, a ave mais pequena do mundo e que só aqui pode ser observada.
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Zapata
No regresso, com tempo suficiente para apanhar o avião, o René levou-me a exploar os arredores a leste da baía de Havana que ainda não conhecia.
Aqui se situa a casa de Hemingway, rodeada dum frondoso jardim e cujo recheio, para além de livros, fotografias, algumas delas com Fidel, outras de touradas, se compunha de imensos troféus de caça. Confesso que não conheço bem a obra de Hemingway. Pode ser uma falha grave da minha cultura mas a vida não nos dá tempo para conhecer tudo!
Fotografias com Fidel!... deveriam ter algo em comum. Eu apenas descobri o que temos de não comum!. Repugna-me o sacrifício ou maltrato de animais para gáudio humano!
Já basta ter de conformar-se com o seu sacrifício para alimentação humana, uma imposição da natureza que não posso contrariar!
Mais abaixo, na pequena baía de Cojimar no bar La Terraza de Cojimar que ele frequentava a "sua mesa" continua posta e reservada como se ele estivesse para chegar. Confesso que este culto da personalidade foi, de tudo, o que menos apreciei em Cuba!




Cuba foi a única revolução vencedora dos ideais de sessenta!... todas as outras falharam. Custou a vida de muitos milhares de combatentes e de um presidente americano e parte da sua família. Se pudesse entrevistar Fidel só teria uma pergunta a fazer-lhe: "como conseguiu sobreviver, num pequeno país estrangulado por um vizinho poderoso que nem o seu presidente poupou?!"
Fiz esta pergunta a um seu próximo que contactei, por acaso, e ele respondeu-me:"por ser um grande revolucionário". A resposta é verdadeira... mas para outro tipo de pergunta. Não responde àquela que eu fiz!
A revolução cubana está prestes a ser engolida. Também esta vai ceder a uma pressão recente, subtil, para a qual ninguém está preparado.
Se queres conquistar um povo, conquista-lhe a cultura. A cultura, superficial do consumismo está a fazer o seu trabalho de sapa.
E ela traz consigo um perigo terrível... o da superficialização das consciências...
...hoje já ninguém está disposto a morrer violentamente por um valor, um princípio ou um ideal; preferem apodrecer lentamente até à extinção total mas com a esperança de ainda ser rico!...
esperança que se alimenta da idolatria... seja dum qualquer Ronaldo, Messi ou qualquer outro inútil promovido a estrela com pés de barro!
... e este prodígio da natureza, o ser humano, perder-se-á naquilo que tem de pior!... por ter perdido o caminho das suas virtualidades para ser eterno!



Cerca de 24 horas depois cheguei a casa. Sozinho, solitário!... tive saudades de Cuba!... daquilo que ainda resta dela e das esperanças que representou!

Lisboa, 22 de Junho de 2015






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