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FERNANDO DE NORONHA
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Mosteiro de S Bento
A frustração é um estado emocional que resulta mais da expectativa do que da qualidade de estímulo.
Quando o estímulo, ainda que positivo, fica aquém da expectativa surge a frustração mas, neste caso, com um valor ambivalente... isto é: a sensação é positiva mas não tanto quanto o esperado.
Mesmo não crentes, temos todos uma imagem idealizada do que deve ser um paraíso, vaga, difusa, imprecisa, programada culturalmente, qualquer que seja a configuração psicológica do agente.
É mais um contentor, uma estrutura ou receptáculo pronto a receber o belo, o agradável, o sublime do que uma organização estruturada e finalizada dum lugar ideal desconhecido.

Há lugares na terra que por razões diversas recebem o nome de paraísos!... seja pela sua beleza, clima ou pela conjugação de alguns destes factores. Para não falar das pessoas sensitivas que acham que as coisas têm energias positivas ou negativas... rsrs

Como céptico racionalista, a minha imagem de paraíso corresponde à versão cinematográfica de "Shangri-lá" aquele lugar imaginário de perfeição natural e humana , perdido algures no meio de montanhas desconhecidas, onde tudo vive em harmonia e donde o sofrimento, a doença e o envelhecimento estão excluídos!... com um preço que eu não seria capaz de pagar... a clausura!... Nem na imaginação cinematográfica o paraíso é perfeito!...
Assim sendo, os meus paraísos só existem na minha imaginação e antes de visitá-los!... mas têm a vantagem de não me amarrarem e deixar-me visitar vários, infelizmente à custa da eterna juventude!...

Mas o preço dos paraísos não é apenas este!... numa análise muito mais prosaica, são caros mesmo em termos dessa coisa vil chamada dinheiro!... mas como os únicos paraísos possíveis valem a pena!...
Foi assim com Galápagos, foi assim com Fernando de Noronha. No entanto Abrolhos, muito menos badalado, ultrapassou a expectativa e o Pantanal e a Amazónia continuam a fascinar-me.




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Vista do Morro do Carmo
Depois de uns dias em Pernambuco com decepção pelo ultraje que tem sido feito ao morro do Carmo em Olinda, descaracterizado, degradado e entregue a um comércio de abarracamentos imundos!... o avião larga-nos naquilo que é pomposamente chamado o aeroporto de Fernando de Noronha.
Embora viajemos dentro do Brasil é mais complicado do que um voo internacional. Os controlos e taxas pesadas só têm paralelo com o aeroporto de Galápagos, aliás muito semelhante em tudo, no Ecuador.

Depois vem a pergunta mental não verbalizada: "então o famoso paraíso é isto?".

Não se sabe por que razão nem quando passou a chamar-se Fernando de Noronha já que para além das dúvidas acerca do seu descobrimento, foi atribuída por D. Manuel a Fernão de Loronha mas a sua história conta com abandono, ocupações estrangeiras, recuperações até se tornar colónia penal política administrada pelo exército. Esta última situação deixou as suas marcas na ilha com vantagens e inconvenientes. Poupou-a à usura moderna da industrialização e urbanização, o que lhe confere o actual estatuto de paraíso, mas destruiu-lhe por completo a flora nativa.

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Praia do Boldró
Contudo, nada nem ninguém poderá salvá-la da terceira causa de degradação: o turismo. Apesar de controlado não deixa de imprimir as suas marcas. O controlo é apenas um processo mais lento de degradação num certo sentido mas mais acentuado noutro. Para lugar paradisíaco controlado tem "buggyes" a mais, provavelmente todos!... as limitações de acesso e a distância relativamente aos bens de primeira necessidade torna-a acessível só a camadas com puder de compra e isso é um factor de estímulo à estrutura dos preços elevados à estratosfera dos milhões!.

Nada justifica, excepto o menos razoável dos argumentos económicos, a escassez, os preços praticados na ilha. No paraíso, as coisas não deviam valer mais do que o seu valor incorporado de matéria prima e labor humano necessários à sua produção e não esse absurdo económico das leis do mercado baseadas na oferta e na procura cujo fiel da balança é a escassez. Sabe-se hoje que a escassez se fabrica pela sonegação dos bens para oferta... mas essa é uma das doenças do capitalismo glutão que contribuirão para sua auto-destruição.

Fernando de Noronha é um destino caro e, talvez isso, mais do que a sua ausência de urbanização pesada, as suas praias de águas límpidas, desertas com areias limpas tão diferentes das dos continentes onde alguém com um pouco de pudor já tem nojo de pisar!, o andar na rua descansado, um direito de todo o ser humano, negado pela perda de contacto com os reais valores da humanidade, talvez seja isso que lhe confere essa auréola de estrela preferida por gente do tipo revista CARAS.

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Forte N S dos Remédios
É inegavelmente um lugar encantador mas os verdadeiros paraísos só estão ao alcance de uns poucos de afortunados e em vias de desaparecimento também. Os verdadeiros paraísos são aqueles lugares que uns poucos de aventureiros descobrem antes do comércio, a gula e a exploração os terem sinalizado. Onde não há quase nada a não ser natureza e vida local não contaminada por influências estranhas!...
Fernando de Noronha e outros paraísos das estrelas foram isso talvez há umas décadas... hoje são lugares elitistas que ainda não perderam todo o seu encanto!... Do paraíso nenhum eleito é expulso, se não pecar!... Neste paraíso a permanência é condicional e condicionada. O maior pecado aqui é não ter dinheiro e poucos têm o suficiente para ficar eternamente.

Uma casa pode custar milhões, uma carcaça de buggy velho 60 ou 70 mil... e uma autorização de residência não tem preço oficial!... Depois... é o ritual do costume. A excursão organizada às praias de uma qualidade inegável ainda preservadas como em poucos lugares. Diz-se que algumas das melhores praias do Brasil se situam aqui em prejuízo do continente descaracterizado pelo desenvolvimento desenfreado.

Diz-se que dentro de poucos anos estarão todas aqui... Diz-se... porque há lugares no continente mais preservados que Fernando de Noronha. Se as praias estão preservadas a terra nem tanto que em pouco espaço tem motores de explosão a mais, no meu entendimento... todos!... Ainda há pouco tempo no sul da Bahia descobri um lugar quase intocado onde não há automóveis e o táxi é uma romântica e trivial carroça puxada por um velho burro!... em ecológicas ruas de areia.

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Atobá-de-patas-vermelhas
E ali perto, embora acessíveis por carro, há umas poucas de praias ainda dignas desse nome.

Esperava de Fernando de Noronha um paraíso de vida selvagem. Pelo contrário. Quase nada se vê. A sua fama parece estar no mar mas o passeio de barco, no dia seguinte, revelou-se de uma banalidade alucinante!... nem o cartão postal de FN nos contemplou com a sua presença!... Na Baía dos golfinhos nem um para animar a festa.

Finalmente a muito controlada praia da Atalaia, apesar da sua pequenez, possui o seu encanto: um micro ecossistema delicado onde se tem que fazer "snorkel" para admirar as suas raridades e é proibido ficar de pé apesar da pouca profundidade da água, para não danificar os corais. Um guarda procede ao computo das infracções e à terceira o prevaricador é convidado a sair... imagine-se que um em cada dez prevarica... e a degradação é, em qualquer caso, inevitável...

Fernando de Noronha estava na minha lista dos lugares a visitar. A sensação de um sonho realizado é sempre agradável... é esse sentimento que quero guardar dum lugar que promete mais do que dá... mas que é, sem dúvida, um lugar agradável, onde a qualidade sem sofisticação só peca por excesso de custos... as pessoas são agradáveis e hospitaleiras, respira-se tranquilidade, qualidade hoje rara em qualquer parte do mundo e é agradável deambular por ali!...

Lisboa, 16 de Julho de 2010




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