MAMIRAUÁ
MAMIRAUÁ



As Amazonas do Séc. XXI!...
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Perdi o contacto com os cavacos podres, os coelhos das várias ninhadas, virei as costas aos costas largas, troquei as portas fechadas por portas abertas e dei azo ás minhas necessidades de aventura!
Ignorei e depois esqueci tudo e todos e durante mais de um mês vivi o "aqui e agora" de uma experiência maravilhosa!...



As Amazonas do Séc XXI

O velho Nélio Correia partia às seis horas da tarde...
... partia!... mas esse "partia" aqui é apenas um factor indicador duma possibilidade remota! O tempo aqui, felizmente, ainda tem uma segunda dimensão!
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Nélio Correia

Para europeu programado a ser, cada vez, mais eficaz ao serviço de amos desconhecidos isto pode ser uma contrariedade!... mas aqui os elementos ainda se movimentam noutras dimensões. Ainda há resquícios do ritmo da vida. Ainda há resquícios de humanidade com as suas virtudes e defeitos. A gente vê a cara do algoz! A gente vê a mão que usa o chicote que é a mesma que dá o pão!
Vivi, cresci, desenvolvi a minha personalidade numa sociedade assim, embora com outro ramo de actividade.
Herdei desse mundo a franqueza de assumir o bom e o mau ambos ao serviço duma causa maior. O meu mundo há muito que sumiu, submerso numa hipocrisia cruel e generalizada do politicamente correcto onde até a língua perdeu o sentido pois hoje as palavras servem sobretudo para enganar, dissimular, mentir, e justificar tudo isso em nome desse mesmo interesse maior.
A cabeça de um jovem nascido e formado neste caos não pode passar de uma amálgama confusa de preconceitos e conceitos errados, superficiais, fúteis e esvaziados de sentido se não tiver a sorte de ter uns pais inteligentes, bem formados que o ajudem a encontrar um sentido em toda esta confusão generalizada.
Os países, ditos desenvolvidos, desenvolveram a psicopatia generalizada, a ausência de valores, a robotização mental ao serviço dum velho ideal de dominação, roubo, saque, violação e morte... há muito inscrito no código genético duma espécie que cava a sua própria sepultura.

No velho Nélio Correia, o Osias é isso mesmo: o homem do pão e do chicote. É o dono e trabalha e viaja aqui vigiando a sua seara como recomenda na sua fábula o Padre António Vieira dentro daquele princípio de que "quem o seu não vê... o diabo o leva!..."

Como europeus alienados, chegámos cedo, eu e o VP. não queríamos perder o barco que só dentro de uns vinte ou mais dias voltaria a partir dali.

Já tinha viajado no Nélio Correia. Era então o melhor barco no percurso Belém-Manaus mas esqueci, ou pior, desqualifiquei a minha experiência anterior quando o Nélio Correia depois de ter zarpado voltou ao porto, do meio do rio, para "pegar", como dizem ali, um passageiro atrasado!...

As seis horas passaram... e os "caminhões" descarregavam sacos e sacos de batatas, cebolas, caixas de tomate, frutas diversas a perder de vista!...
Eu intrigava-me... o primeiro 'deck', que então era de passageiros já estava cheio de pilhas de sacos de batata e cebola onde só se passava por um corredor estreito para ter acesso aos 'decks' superiores. Para onde ia tudo aquilo?...
Será que o velho Nélio suporta toda esta carga sem se afundar?...
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Nélio Correia

A resposta à minha interrogação era dada pela inclinação do barco, agora todo a descair para estibordo!... as horas passavam... e quando eu imaginava que aquele "caminhão" enorme carregado de sacos e caixas diversas era o último e se retirava, outro fazia manobra para a descarga... uma descarga ao ritmo biológico da vida, sem gruas, sem máquinas, sem "palletes", saco a saco, caixa a caixa, manuseados por mãos ágeis que os faziam deslizar, inteligentemente, numa prancha estreita da qual não caíam, até serem recolhidos por mãos ágeis no outro extremo e serem acomodados no local exacto. Trabalho duro?.. sem dúvida!... trabalho limpo também... aquela gente faz aquilo com gosto, com sentido de vida, com os olhos em quem manda, com quem convive, com quem forma uma família. A distância que separa uma sociedade ignóbil de exploradores psicopatas sem rosto e as suas vítimas, ainda não chegou aqui, felizmente!

No entanto, por uma distorção cultural.. eles admiram essa sociedade... não sei se a desejam. Contudo, a miragem das suas maravilhas ilusórias não deixará de os fascinar.

Quando tudo parecia terminar... eis que os "caminhões" agora chegavam aos pares!.. e aquela azáfama que parecia interminável continuava ao ritmo dos gritos de ordem, dos compassos de espera para acomodar mais uns sacos, de todo um "não sei quê" de imprevistos... e eu pensei... não!... senti... fundi-me com aquele ritmo do qual tinha perdido o contacto há muito tempo!... "o que são mais ou menos cinco horas de atraso numa partida de uma viagem que dura cinco dias?!... e deixei-me levar.



A Baía do Guarajá é um dos braços do delta do Amazonas e banha Belém a quem oferece uma orla de rara beleza ao entardecer. Desde o espaço bem cuidado das antigas Docas e hoje lugar de atracção da média alta às palafitas da cidade velha instala-se um mundo de lazer interessante com as delícias de um clima tropical.
O cais de onde parte o Nélio fica a oeste dessa zona e, à medida que nos afastamos da linha de terra, essa miragem acompanha-nos, noite adentro e se fecha quando da travessia dos pequenos canais que ligam ao curso principal do Amazonas.

Foi aqui, na travessia destes pequenos canais, que aprendi um novo conceito: "farolar".
Na minha formação de navegador de recreio nunca ouvi falar dele. Aprendi muitas coisas acerca de navegação fluvial mas nunca a "farolar"... rsrsrs

Naquela navegação fluvial nocturna os barcos usam um holofote gigantesco, rectangular (coisa estranha!... estamos acostumados a um feixe circular!) para iluminar a margem e determinar a posição e ponto de passagem.
A determinada altura o VP diz-me que o barco estava a "farolar". Não sei se foi invenção sua se ouviu o conceito de alguém... mas achei engraçado e expressivo.
Um farol é um elemento passivo, cujo conhecimento faz parte da formação de qualquer marinheiro, está ali para ser lido e indicar uma posição fixa em terra. "Farolar" é um verbo e indica uma acção!... o barco transformava-se assim num farol móvel que para além de indicar a sua posição dinâmica detectava os obstáculos que se opusessem à sua passagem!...
A partir dali o conceito aplicou-se até à actividade turística de selva, chamada de "focagem nocturna". Mais tarde, em Mimarauá, os guias "farolavam" nas digressões nocturnas... rsrs

A noite passou-se, com pouco sono, entre a excitação de algo diferente, a mudança de ambiente e o conforto exíguo dum camarote pequeno e pouco confortável... mas um luxo naquele meio. O povo viaja na rede, num dos 'decks' abertos, com tudo à mistura!
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Balsas Rebocadas
É um espectáculo para a vista aquele colorido de redes diferentes suspensas, às vezes, umas sobre as outras, coisa natural neste ambiente onde a privacidade não é a maior das preocupações. Dezenas, centenas de barcos, o meio de transporte comum da Amazónia, são assim. Muitos deles, nas rotas mais pequenas entre pequenas cidades, nem dispõem de camarotes.

E até se viaja assim: foto ao lado... num lugar onde o tempo está ainda fora do constrangimento esclavagista americano "time is money".

Pela manhã estamos numa zona conhecida como o estreito de Breves, uma cidadezinha a que aportaremos mais tarde. Aqui, as casinhas palafitas incrustadas na floresta são uma atracção sempre renovada cada uma com a sua beleza natural selvagem e fascinante!



Diz-se que quando os primeiros espanhóis desciam o Amazonas para explorar o que era seu, não por descoberta mas pelo tratado de Tordesilhas, se defrontaram com uma ameaça até então desconhecida nestas paragens...

Na descida do rio foram atacados por tribos de mulheres aguerridas que acabaram por invalidar a ocupação do território. É uma lenda. Não está documentada historicamente. A vergonha talvez tenha a sua cota-parte nessa omissão. A verdade é que a lenda, à semelhança doutra mais antiga, duma virgem grávida!, prevaleceu sobre a história e hoje toda a zona banhada pelo grande rio, o maior do mundo, é conhecida pelo nome dessas guerreiras: Amazónia.

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Amazona Linda!
As amazonas de hoje são pequeninas, lindas mas, como as suas antecessoras, intrépidas!... O mundo mudou muito mas não ficou menos cruel... as amazonas antigas defendiam com garra o que era seu; estas pequeninas pedem com garra aquilo que é seu e lhes foi roubado ao longo dos séculos!

Em pequenas canoas escavadas num tronco de árvore enfrentam o rio, sozinhas, ou em grupo de duas ou três, para abordar os barcos onde pedem uns presentes ou o "assaltam" para venderem produtos locais.
É, ao mesmo tempo fascinante e penoso, para um ocidental este espectáculo de coragem e tenacidade em entes tão pequeninos e tão endurecidos pela vida. Enfrentar um rio destes, cheio de perigos, para aproximar um barco grande em andamento, com três ou cinco anos de idade para receber um presente insignificante, é uma proeza que não cabe na cabeça dum
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Descida na Noite
citadino... mas abordar, de noite, em completa escuridão, um navio em pleno andamento, acoplar-se a ele, subir a bordo galgando balaustradas e tentar vender alguns produtos regionais em troca de uns poucos de reais, com cinco anos de idade!... é algo que me põe lágrimas nos olhos ainda hoje ao escrever isto!... e depois, abandonar o barco na mesma escuridão nocturna e encontrar a casa no meio daquela mesma escuridão é algo que desafia a sensibilidade mais grosseira!

Já tinha falado destas crianças na minha primeira abordagem de há uns anos!... crianças que hoje já o não são!... estas são os seus filhos e nada parece ter mudado por aqui. Então interroguei-me: será que estas crianças são menos felizes que as crianças citadinas, criadas em "aviário" nas grandes cidades como carne para canhão das multinacionais num regime de exploração cada vez mais desumano e cruel onde cumprem um ciclo acéfalo de escravidão moderna sem saber o papel que desempenham na engrenagem mundial dos psicopatas que comandam isto?

A minha resposta continua a mesma: estas são mais felizes... só que não o sabem!... a distorção sócio-cultural dos valores leva os escravos a terem orgulho da sua condição!... e quem não o é a invejá-los! (um jogador de futebol pode ser vendido, como escravo de luxo, por milhões sem pudor, ou vergonha, de "SER VENDIDO").

Estas crianças gozam de uma liberdade de que poucos seres humanos hoje se podem orgulhar!...

Liberdade!... o que é isso?... até essa condição natural que é a de alguém poder movimentar-se sem constrangimentos, foi adulterada por uma sociedade errada.
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Casa Palafita
Neste mundo lindo mas dominado por uma espécie em que muitos dos seus exemplares é ignóbil, a liberdade é esses ignóbeis fazerem o que bem lhes dá na gana, declará-lo como "o certo" e decretá-lo como legal.

Gosto destas crianças... não pela dureza dos seus sacrifícios mas porque encarnam a verdadeira condição humana de retirar da natureza aquilo que as sustenta, sem amanhã, numa aventura eterna!...

Gostarei delas até ao fim dos meus dias!... até porque são as guardiãs dum tesouro inestimável que representa o maior perigo para a sua existência: elas lutam por uma vida pobre e simples sobre a maior riqueza do planeta... a maior reserva de água potável que vai ser a disputa final desta civilização degenerada!... que a saibam defender, como as suas ancestrais, é a minha esperança.







O Amazonas

O Amazonas é uma massa de água colossal. É também a coluna dorsal duma vasta região maior que um continente. Numa área de milhares de quilómetros irrigados por uma teia complexa de canais e numa zona que imerge, em grande parte da sua superfície, vários meses por ano, as estradas são escassas e nenhuma a corta de leste a oeste. Esse papel cabe ao rio que na sua corrente abundante e suave é uma estrada doce e líquida pela qual a vida flue em várias camadas.
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Tempestade
Representa, em grande, aquilo que os oásis, no deserto, representam em pequeno. Ali exploram-se as hortícolas ao nível do solo, as frutícolas na camada intermédia e o palmeiral em altura; aqui a vida subaquática é das mais ricas do mundo e alimenta uma miríade de espécies que compõem a vasta cadeia alimentar e a superfície serve as populações locais, em pequenas canoas, tão prodigamente como os grandes transportes interestaduais dos navios, como o Nélio Correia, aos rebocadores de "balsas" inimagináveis, gigantescas que chegam a deslocar dezenas de camiões. A floresta faz o resto.
A tranquilidade das suas águas, que mesmo subindo uns doze metros na época das chuvas, a isso se presta devido ao pequeno desnível de menos duma centena de metros em mais de 1600 quilómetros.

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Entardecer
Até há bem pouco tempo todas as comunicações passavam por aqui. A chegada do barco, de longo curso, a um porto era um acontecimento. Eram as mercadorias, eram as novidades, eram as notícias através do correio, era a quebra do isolamento. De certo modo, esse isoladamento ainda mantém os seus resquícios. A televisão, o telefone portátil, e os custos descendentes dos aviões "low cost" têm contribuído para a quebra duma certa nostalgia que a chegada do barco representava.
Nos últimos 13 anos que medeiam as minhas viagens no Nélio Correia notei uma grande diferença. Então a vida a bordo tinha uma vivacidade que hoje se perdeu. Mais gente, gente mais variada. O "deck" de superfície, antes repleto de redes estava agora ocupado com pilhas de sacos de mercadorias e os camarotes, antes a prémio, eram agora ocupados pela tripulação excepto o nosso.

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Almeirim
O "deck" superior era a área social, com o bar, muita música, e uma larga área de convívio com recantos de alguma privacidade. Hoje está em parte ocupado por redes que transitaram do primeiro "deck" perdendo encanto.
Menos passageiros!... dizem-me... os voos baratos estão a matar esta actividade!
Mesmo assim, cinco dias a bordo, subindo um rio bordejado por uma floresta exuberante, única no mundo, ver passar o tempo,adormecer, acordar no meio daquela natureza é uma experiência vivencial, com gente simples (e não só) nos seus hábitos do dia-a-dia, é uma experiência que continua única. Nenhum avião, nenhum cruzeiro de luxo nos oferece isto.

Parámos em Breves, uma paragem breve!... em Almeirim... Prainha, Monte Alegre... cada uma com as suas especificidades de cidade ribeirinha.
Pelo caminho a paisagem mudava de tons dentro da sua continuidade luxuriante. Aqui no estreito de Breves, no canal que separa a ilha de Marajó, maior que Portugal, na foz do Amazonas, abunda o palmeiral das mais variadas espécies com predominância da palmeira que produz o famoso açaí.

Depois de Almeirim a paisagem começa a mudar com a floresta apresentado mais variedade botânica de grande porte com árvores carregadas de epífitas, ou simples parasitas, que as engrinaldam de cores maravilhosas.
Ao terceiro dia ressuscitámos em Santarém... para pôr pé em terra, almoçar fora da cozinha do barco e ir até Alter do Chão. Já mencionei, noutros textos, que tenho (tinha!...rsrs) horror ao "déjà vu".
Ir a Alter do Chão é um ritual para quem faz esta viagem. Eu já tinha cumprido esse ritual, mas... como todo o bom cristão que não se cansa de fazer aquela cena masoquista de pecado e expiação, mesmo sem saber se é de facto pecador!... eu voltei a Alter e gostei.
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Alter do Chão
Não vi o famoso cavalo lusitano de que tanto se orgulham os torturadores de animais*... mas esta Alter é talvez a transposição duma saudade alentejana para este território à beira do Tapajós plantado. É mais bonita, mais agradável do que a sua sósia portuguesa. A sua praia fluvial com acesso a vau caminhante é um dos seus encantos e atracções fazendo dela uma pérola amazónica.

A partir de Santarém, a gente sente como que a "nostalgia do entardecer". Ainda faltam dois dias mas neste tipo de viagem é como a descida dum avião. Começamos a apertar o cinto e tudo deixa de ter a perspectiva vista do alto. Não é por acaso que muitos dos passageiros saem aqui. Todos os arrivistas, gentes de hábitos duvidosos saem aqui..
Não sei porquê. Não sei o que os assusta no resto da viagem ou se está aqui o seu objectivo. Sei que foi assim da primeira vez; foi assim da segunda.
Até a própria floresta contribui para este sentimento. Vastas zonas pecuárias nas margens do rio dando o espectáculo de paisagem degradada sem aquela exuberância anterior, destacando a silhueta isolado do majestoso castanheiro do Pará que para além da excelência do seu fruto é um espectáculo de beleza estética e uma maravilha da natureza.

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Juruti
A maioria das pessoas que conheço a quem falo da Amazónia (mesmo brasileiras) fazem um esgar de fascínio e medo numa só expressão! As piranhas, as cobras (Sucuri/Anaconda), as onças parecem espreitá-las por todos os lados, atrás de cada árvore ou recanto de rio imaginado!... rsrs
Essas pessoas nem sequer sabem que é nas suas casas que está o lugar mais perigoso do mundo!...

Apesar de ser o coração, e a floresta o pulmão, da Amazónia, do rio não se avista grande quantidade de vida selvagem, apenas aquela que já está acostumada à presença humana: uns biguás, iguatingas, andorinhas de várias espécies, garças e, mais raramente, uns gaviões e, o omnipresente "trinta-réis" nos seus mergulhos acrobáticos. O famoso "boto", golfinho rosa, uma pérola amazónica em perigo, nem sempre se deixa ver numa viagem desta extensão.

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Entardecer
Ainda fizemos escala em Juruti, Parintins, famosa pela sua festa anual que rivaliza, internamente, com o Carnaval do Rio, de "Bumba Meu Boi", Itacoatiara... e... eis que ao anoitecer se avistam, no horizonte as luzes!... Manaus. Imagino, pelas minhas sensações, o que estas luzes representavam, noutros tempos, para quem chegava de uma viagem mais demorada!...
Passámos a separação das águas às escuras. Uma perda considerável para quem viaja pela primeira vez. Já vi este espectáculo três vezes e confesso que me impressionou de cada uma delas apesar da sua explicação simples!

A chegada ao porto de Manaus é como a aterragem dum avião multiplicada por 100. A gente anseia por ver aquilo parar e aquilo arrasta-se penosamente minutos, aqui horas, sem fim...

Chegámos... arrastar as malas para fora da plataforma flutuante é um exercício penoso até pegar uma táxi que nos conduza ao hotel...

Manaus... sonho ou pesadelo?... porque não o céu?!... veremos...







Manaus

Manaus vive em pequeno aquilo que Stratford-upon-Avon ou Barcelona vivem em grande!... Ali, vive-se, respira-se, fala-se, mostra-se, e exagera-se a exploração macabra de um defunto para sobrevivência dos vivos: Shakespeare versus Gaudi.
Aqui vive-se da recordação da borracha, das glórias dos privilegiados, dos palácios, moradas de luxo e vida palaciana, imitação em pequeno da Europa burguesa do séc XVIII que tem no belíssimo teatro Amazonas, réplica local das Óperas europeias, o seu máximo expoente.
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Teatro Amazonas
Lá como cá ignora-se quem fez essas coisas, suou, sofreu, morreu incógnito para amplificar a fama daqueles que sempre foram os maus da fita. Não fora Ferreira de Castro, emigrante, seringueiro e homem de génio... e hoje saberíamos pouco do que ficava por detrás daquele esplendor!

Manaus, tal como Belém, mil e seiscentos quilómetros a leste, foram vítimas da mesma perfídia. A indústria automóvel, a mesma que agora engana os controlos de poluição!...
Então, a borracha para pneus de automóveis só era obtida a partir da seiva duma planta local. Era um monopólio... que fez a prosperidade de uma classe exploradora, nesta região do mundo, residente fora mas sediada nestas duas cidades com predominância de Manaus.
A indústria automóvel, se bem que inventada na Europa, desenvolveu-se nos EUA..., uma colónia do desaparecido, mas nunca assumido Império Britânico, roubado aos primeiros descobridores ultramarinos: os portugueses. Descobridores?... eufemismo!... os primeiros usurpadores de povos humildes que não sabiam defender-se. Mas o comportamento dos europeus, do centro, nesta fase da evolução da humanidade, excepto os espanhóis que também investiram na descoberta, não passou de um oportunismo rapace!...

A então ex-colónia britânica, colónia penal de delinquentes perigosos, formada a partir duma população de marginais, condenados judiciais e criminosos de toda a espécie, tornada independente com ajuda da França, só podia fazer aquilo que sempre fez: viver do crime... mas agora com a possibilidade de fazer leis... tornar essas práticas legais.

A América nunca mais viveu de outra coisa... mas temos que reconhecer que soube juntar a isso uma inventiva única! Ali se fizeram algumas das descobertas mais maravilhosas desta civilização, com consequências desastrosas para a humanidade mas a culpa não é da física nem da química... é dos descendentes daqueles marginais, programados para repetir os mesmos padrões comportamentais, que se assenhorearam do poder.
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Mercado Municipal Adolfo Lisboa


Manaus foi vítima, e ainda hoje não o sabe porque continua a idolatrar a América!..., dessa perfídia. O roubo de umas sementes de seringueira reproduzidas no oriente foi o começo do descalabro; a borracha sintética produzida a partir de derivados de petróleo... fez o resto.

A civilização, dita pós-industrial, está moribunda, esgotou os recursos da terra e, ao que parece, os da inteligência humana. Parece até que esses limites de inteligência estavam ligados aos recursos naturais dos quais perderam contacto há algum tempo! Manaus, Belém... mas também tantos outros lugares no mundo, lutam pelo impossível. É como num campeonato de futebol, réplica triste do drama humano, todos jogam, todos acreditam, todos têm esperanças... mas só os mesmos ganham num jogo de regras feitas só para eles ganharem!.

Desde então Manaus cresceu!... cresceu em miséria, como todo o mundo, nesta civilização distorcida. Demoram-se horas, de 'ónibus' para percorer Manaus de ponta-a-ponta... mas o que vemos desse crescimento, padrão um pouco comum a todo o Brasil, é um crescimento em extensão dos bairros periféricos sem as condições mínimas de existência (favelas) e um crescimento central em altitude... as torres, uma silhueta comum que começa a desfigurar as antigas cidades, fazem o seu aparecimento em novos bairros 'chic', começando a descaracterizar o próprio centro.

Esperemos que os brasileiros de Manaus tenham mais bom senso que os parisienses que deixaram destruir "Les Halles" uma obra prima de Eiffel e cujo desenho permanece, AINDA, aqui no mercado Adolfo Lisboa.
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Mercado Municipal Adolfo Lisboa


Mas Manaus, uma cidade de interior, é uma cidade cheia de vida!... Não uma vida de salões, aristocracia e grandeza como sugerem os cartazes turísticos a olhar para o passado... mas vida dura do dia-a-dia pela conquista de uns poucos de reais que "façam o dia". O pequeno comércio informal semi-tolerado, uma imagem muito comum fora dos países altamente controlados pelo capitalismo dominante, chamados desenvolvidos, é dominante dando uma imagem de colorido e vivacidade que se perdeu no chamado "velho (é mesmo velho!...rsrsrs) mundo.

Manaus não era o objectivo desta viagem. Era ponto de passagem mas vivi aqui a experiência mais maravilhosa da minha existência. Manaus, e Belém depois, ficarão para sempre comigo!...

Era aqui que íamos "pegar", como se diz em "brasilês" transporte para Tefé, uma cidadezinha à beira do Solimões de onde há acesso à Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá.





Mamirauá

Desembarcámos no pequeno aeroporto de Tefé. O ambiente já me era familiar. Um ano antes fizera o mesmo no de Alta Floresta. Ambiente informal e familiar, a bagagem é entregue na mão... e logo nos espera, com ar sorridente, um pouco forçado, uma cara de índio autêntico, inteligentemente seleccionado para este efeito.
Não espere ver mais índios como este na reserva. Aproveite agora para satisfazer a sua curiosidade se veio para isso. Nós viemos por outro motivo.
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Cigana


Mas ficará apenas com a visão de um índio europeizado!... os outros, com uma civilização diferente a que chamam, depreciativamente, de selvagens, já quase náo existem. A chamada globalização, que não começou agora, como erradamente se diz na televisão, tem acantonado estes povos que fogem do contacto com "os brancos" como o diabo da cruz!...
Infelizmente, esta, mal designada civilização ocidental, mata tudo, destrói tudo em nome dos seus supostos valores superiores... e estes povos quase já não têm para onde fugir!
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Pousada Uacari


Cerca de duas horas de lancha nos separam do nosso destino através do lago Tefé, um troço do Rio Solimões e depois o rio Japurá até à pousada Uacari, flutuando ao sabor da altura da água dependendo da época do ano! Uma miragem!

É também formal, um "cliché" diria, fazer uma apresentação do estabelecimento e do pessoal aos novos hospedes. Imagino este ritual chato repetido a cada três ou quatro dias pelo pessoal de apoio!... coitados bem podiam ficar isentos desta simulação de acolhimento. Esse sente-se no convívio diáario e é bem real.

Mas, um pouco teatralizados, ficamos a saber que este é um lugar diferente do comum. Podíamos recolher essa informação de outra maneira mais directa e menos 'comercial' nos contactos pessoais que aqui são completamente informais. Há anos que estava na minha agenda a visita a esta reserva. Já por ali passara, perto, no Solimões, numa descida do Perú.
Mas não sabia que esta, ao contrário de outras reservas, tem um carácter único e inovador... ou, se quisermos, de regresso às origens.
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Gavião Belo
Apesar de remota, nos confins da Amazónia, esta região estava em perigo há anos com quase esgotamento dos recursos piscatórios e florestais por parte dos potentados, que nem vão, mandam lacaios acéfalos e subservientes fazer o trabalho sujo. Era entãe;o terra de ninguém já que as populações locais, mestiços de europeu com autótones, agrupados em aldeias primárias na margem dos rios, aliás como ainda hoje, não tinham poder para enfrentar esses potentados que vinham usurpar os recursos de que necessitavam para sobreviver.
Foi a partir dos trabalhos do primatólogo José Márcio Ayres que nasceu este projecto de salvar esta região. Uma região que verdadeiramente só existe vários messes por ano, ficando submersa o resto do tempo.
O Instituo de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá. Um palavrão!... ou melhor uma frase sonante semelhante a tantas outras vazias de sentido pois apenas cobrem intenções escondidas. Mas aqui não, pelo menos por enquanto. A reserva é propriedade legal do Instituto mas a sua posse é das comunidades locais que se revezam na defesa do património e na exploração da única fonte de receita externa: a pousada e a venda de artesanato aos visitantes, estes em número limitado em observância ao princípio de "sustentável".
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Pica Pau
O Instituto mantém aqui apenas o pessoal minimamente indispensável de apoio logístico mas tem como objectivo transferir a gestão absoluta aos locais...

Os resultados estão à vista. As populações de peixe pirarucú, uma bizarma que chega a atingir mais de duzentos quilos, bem como o Tambaqui e outras espécies menores estão hoje numa população que já permite uma coisa que repudio por questão de princípio: a pesca desportiva... que consiste em pescar os peixes e devolvê-los ao rio... mas que não deixa de ser molesto de animais para gáudio humano.

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Martim Pescador
Este projecto está longe de estar concluído e não se sabe que problemas gerará no futuro na, eventual, luta entre comunidades na disputa do poder. Tal como existe, é um modelo que poderia enformar e responder aos problemas maiores da actual sociedade decrépita, corrupta e moribunda!... e tudo isto acontece no Brasil, um imenso e fascinante país, que acumula em si só todos os males maiores desta civilização!... Não vim a Mamirauá para fazer política... sou um adorador da natureza o mais intacta possível, um adorador dum deus impossível pois já não há disso!
Dentre os seus seres, as aves adultas, os bebés dos mamíferos e as flores são o que mais me fascina. Mamirauá, uma vasta zona de várzea (terra submersa temporariamente) tem as suas limitações de espécies mas viajar por ali de canoa, nos canais, no silêncio absoluto de
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Andorinhas do Rio
ruído não natural, é uma experiência única. Fazê-lo à noite, em completa escuridão só cortada de tempos a tempos para orientação do caminho, nem uma tempestade tropical de chuva intensa e vento que nos deixa encharcados até à medula, lhe consegue retirar o encanto!

Ou então as longas caminhadas por troços de floresta densa em que o dia parece noite... fazer parte daquele ecosistema admirando aves raras, plantas exóticas e... encanto dos encantos, no chão, junto ao tronco duma árvore um ser encantador, com uma expressão dolorida tão humana, que nunca tinha visto de tão perto!... é verdadeiramente enternecedor... parecia suplicar: não me façam mal por favor!
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Preguiça
Tem um nome depreciativo. Inventado talvez por esclavagistas que endeusaram o trabalho como uma virtude quando ele não passa duma necessidade... e uma necessidade cada vez menos necessária, mas cada vez mais explorada.

Mamirauá lá ficou. Convidam-nos a voltar na época das chuvas, da enchente, quando se fazem as trilhas de canoa à altura das copas das árvores convivendo mais de perto com os animais. O pessoal, simpático e acolhedor, com os seus traços dos ancestrais, que não gosta de ser chamado de "nativo" ignorando que todos somos nativos mas o termo está associado a conotações com aquele animalzinho encantador que descrevi:a preguiça!.. . rsrs
E eles não querem ser preguiçosos!...

O mundo é pequeno para a população que alberga!... mas ainda grande de mais para mim. Gostava de voltar mas o tamanho do mundo e o tempo que me resta não sei se se conciliam...

Que sobreviva mesmo que não vire modelo social... são os meus votos...



Epílogo

Belém

Nome bíblico, uma freguesia de Lisboa, transposto para nome de acampamento estabelecido em 1616 naquilo que é hoje o Forte do Presépio, por um tal Pedro Teixeira, nas margens dum braço do delta do Amazonas, uma paisagem em semi-círculo de uma beleza ainda hoje fascinante.

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Nenúfar
Actualmente é conhecida como a cidade das mangueiras... e confesso que a primeira vez que a vi fiquei impressionado pela beleza que emprestam à cidade. Árvores vetustas, solenes, enormes carregadas de epífitas que emprestam à cidade o seu carácter particular, sombra em clima tropical.. e fruto!.

Na minha última paragem ainda vi alguém colhendo frutos, deliciosos e abundantes como eles são!... mas receio que aqui se esteja a dar um fenómeno comum ao desenvolvimento capitalista: não parecer pobre!

Nos países, ditos desenvolvidos, onde a miséria, a fome e a pobreza crescem geometricamente relativamente ao crescimento de ricos, os recursos urbanos são desperdiçados pela vergonha de ser pobre!
Nestes os pombos, por exemplo, que há muito, no campo, são uma ave doméstica criada para consumo humano, são, nas cidades, uma praga que prejudica a qualidade de vida dos humanos!... mas ninguém os come!... respeito pela vida animal?... nada disso!... vergonha de ser pobre!... essas mesmas pessoas sacrificam um cãe;o, descendente genético dum animal selvagem de quem ainda conserva muitos genes, a uma vida de clausura esclavagista dentro dum pequeno apartamento exíguo só para se darem ares de gente afortunada que exibe na rua o seu escravo como no séc XVI os esclavagistas exibiam " pretos"!...
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Victoria Regia


Será que as mangas de Belém sofrem do mesmo estado psicótico generalizado que assola o mundo?!... Encontro-as no cháo, pisadas, ignoradas como coisa sem valor numa cidade que tem uma periferia de favelas, fome, miséria e necessidades como em todo o mundo!. Nada de confusões!... a miséria, a fome, a pobreza são mundiais... e não isentam os chamados países ricos...
Os chamados países ricos apenas têm ricos mais ricos que os ricos dos outros países... mas a fome é universal. Tem o mesmo sabor em qualquer parte do mundo!

O que muda é a cabeça dos pobres de países ricos. Esta peça do equipamento humano é um prodígio da natureza que tem tanto de prodigioso como de vulnerável.
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Victoria Regia
É uma máquina programável que pode ser colonizada por ideias de outrem que impedem o seu funcionamento normal de pensamento autónomo e criativo de soluções novas e adaptadas à realidade presente.

Estimo que mais de 80% dos seus exemplares esteja colonizado e sem acesso à sua verdadeira liberdade: a liberdade de pensamento autónomo.

E é assim que deixamos de ser felizes para obedecer ao estereotipo social do dever, do parecer, e deixamos de SER o que verdadeiramente ansiamos sem o saber... o que nos massacra nos pesadelos, nas depressões, e mais tarde nas roturas orgânicas resultantes destas insatisfações... a que chamamos acidentes, acasos, falta de sorte ou vontade de deuses!

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Nenúfar
Receio que o Brasil esteja a ficar contaminado por esta doença social de "vergonha de ser pobre" como em Lisboa, gente que mal ganha para comer, não come pombos mas passeia um cã a contaminar jardins, antes locais de lazer para crianças, só para se darem ares de rico imitando os esclavagistas do SecXVI. Aqui o excremento de cão é mais violento e mais perigoso, cuja diferença reside na velocidade a que pode matar! O pobre, até nisso imita o rico. Prefere roubar, violentamente, a comer mangas na rua! Não é exclusivo de Belém... é uma constante moderna que no Brasil tem o seu máximo expoente: a violência urbana. Os colonizados mentais dum sistema errado preferem matar, às vezes, pelo mesmo valor de umas mangas e com mais risco!

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Victoria Regia
Apesar de tudo... abstracção feita desta realidade de fundo é agradável fazer um jantar na antiga estação das docas e assistir, logo ali ao lado, a uma representação folclórica de carimbó com os seus trajes coloridos e dansas sensuais num clima tropical que convida ao devaneio!...

Ou fazer uma sessão de entardecer num bar rústico, virado ao rio, ver cair o pôr-de-sol e anoitecer num ambiente, se bem que controlado, deixa muito a desejar ao sabor mafioso, podre e repugnante das discotecas e bares europeus. Aqui as coisas têm um ar mais natural, mais espontâneo... logo mais humano do que a desconfiança e indiferença europeia de uns pelos outros... é outro mundo!

Com todos os teus problemas... "bem hajas Brasil"!...

Lisboa, Dezembro de 2015






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