JÓIAS DA COROA CEARENSE
JÓIAS DA COROA CEARENSE



Canoa Quebrada e Jericoacoara
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Jóia Cearense
As jóias da coroa lembram-me tempos e práticas detestáveis em que havia Cortes e Jóias. Coroas, infelizmente, ainda existem. Cortes e Jóias também, travestidas das mais diversas indumentárias, uma herança difícil de descartar.

As jóias da coroa de hoje são bem diferentes daquelas que se encontram junto à Torre de Londres mas não menos sanguinárias.

Cada país tem as suas jóias para moldar as mentes e alterar a semântica a ponto de, hoje, se utilizar o termo para designar algo valorado forçadamente.

Uma jóia é sempre uma jóia dirão alguns... e todos desejam tê-la.
Não vou esmiuçar aqui os erros de programação mental que levam a isso. Não tenho tempo nem espaço para minudências.

Apenas direi que se aplica aquela lei que os programadores de computadores acabaram por descobrir como inevitável e que é válida para o cérebro humano, a máquina que criou aquelas "à sua imagem e semelhança" :"garbage in, garbage out", ou seja... se entra lixo, sai lixo!... com uma excepção!. Há cérebros que resistem a esta lei... mas poucos.

Só digo que uma jóia é algo raro, que não se come, não se bebe, não se veste e não serve para mais nada senão para alimentar o pior que a personalidade humana alberga: a vaidade!.
Porque é rara só os herdeiros do "roubo ancestral" e os novos ladrões a podem possuir!... é esse o seu valor: a escassez inútil!...

Vem isto a propósito das Jóias da Coroa Cearenses. Há lugares, no mundo, que pela sua configuração geomorfológica, micro clima e micro cultura atraem os "garimpeiros" das viagens. Estes são seres raros de sensibilidade particular que apreciam mais o prazer da descoberta do que a posse da jóia lapidada. Os naturais, sem saber porquê não sabem viver fora dali; os "garimpeiros" voltam, voltam sempre até os especuladores descobrirem o filão.
Estes últimos lapidam a jóia, especulam com ela a ponto de torná-la completamente inútil e inacessível mas, nesta altura, os "garimpeiros" já não estão lá... estão noutra!...
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Canoa Quebrada
Canoa Quebrada foi uma destas jóias. Descoberta por "garimpeiros" da aventura, era um lugar tranquilo e convidativo. Não a conheci nessa época. Os especuladores da lapidação chegaram primeiro. Quando a conheci estava no auge do desgaste que o uso intensivo causa após a lapidação.
A especulação, a agitação gratuita e a insegurança já tinham tomado posse do lugar! É então que os utilizadores do caro inútil aparecem em massa e que o desgaste se dá. É o flagelo moderno duma indústria com impactos negativos incalculáveis: o turismo de massas!

Nesta altura os garimpeiros já estavam a extrair da areia uma outra jóia... mais a norte! Conheci essa jóia ainda na fase inicial da sua limpesa. A (de)lapidação ainda não tinha começado. Cheguei, à noite, a Jijoca a cidade municipal da região. Numa praça ou, melhor, um largo não urbanizado, onde burros pastavam e alguns exibiam os seus dotes fálicos sem pudor!..., com grande alarido dos visitantes, pegamos um "pau-de-arara".
Logo à saída da cidade entrámos numa zona de dunas, noite fechada, aos solavancos, o que para turista de massas seria falta de conforto, hilariantes pelo prazer da descoberta, da sensação de algo novo e diferente. No dia seguinte de manhã descobrimos um povoado rural, perdido junto a uma baía, virada a oeste na costa leste do país!...

Três ruas paralelas desciam das encostas da montanha do serrote, assim chamada por a sua silhueta assim parecer vista do mar. Aliás, isolada da terra por um deserto dunar, tudo aqui parece ser visto do mar. O próprio nome, segundo, nos contam ali, provém da língua indígena Tupi-Guarani, Jericoacoara=jacaré-visto-do-mar!...
Nas ruas largas, em leito de rio seco, bordejadas de algumas árvores nas margens junto à habitações, pastavam rebanhos de cabras nos tufos dispersos de ervas ali existentes sobretudo junto aos caules das árvores. O clima era rural e bucólico. Toda a gente parecia conhecer-se e os visitantes não passavam despercebidos e todos sabiam, grosso modo, quem eram.
Não existiam pavimentos de qualquer espécie e as casas abriam directamente para a areia que envolvia tudo a partir das paredes...

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Acesso a Jeri
E isso, que em muitos outros lugares, poderia ser tomado como subdesenvolvimento e abandono pelos poderes centrais, constituía aqui o orgulho e a originalidade dos seus habitantes!...
A segurança era única no Brasil... mas tinha um preço.
Como todos se conheciam havia regras de não concorrência (ou domínio mafioso?). Fui até ali para realizar um sonho concebido anos antes: fazer a orla até aos Lençóis Maranhenses. Contactei um jeep, caro!, e pouco depois descobri que havia quem fizesse o mesmo percurso por quase metade mas... quando este "operador" soube que tinha negociações com outro recusou terminantemente fazer o serviço!.

Voltei a Jeri (como é carinhosamente chamada pelos seus fans) alguns anos depois. Mantinha o seu encanto. Área de protecção ambiental, esperava em breve a aprovação de Parque Nacional... e os (de)lapidadores e ladrões de jóias aguçavam os dentes. As ruas estreitavam assustadoramente como se a natureza tivesse entrado em recessão celular!... os espaços públicos conquistados, com aquele jeitinho brasileiro, em frente das habitações, agora estabelecimentos, era feito sem pudor nem escrúpulos...
A representante Federal do urbanismo tinha a sua casa à venda. Ia embora sob efeito das ameaças de morte no desempenho da sua função!.


Revisitei, em 2014, as duas Jóias da Coroa Cearense. Canoa tinha voltado à tranquilidade mas agora sem a virtude de antes. Fez-me lembrar aquelas virgens, de outros tempos, que após uma juventude impulsiva e degradante, voltam à dignidade anterior mas agora sem a inocência antiga.
Aquelas ruas de bares, restaurantes, lugares de boémia, agitação e reboliço, estavam agora desertas ao cair noite que começa cedo.

Gostei de Canoa assim, sem a virtude falsa da virgem e com a dignidade da mulher madura sem ilusões!

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Uma das Minhas Jóias
Jeri!... estava no auge da frivolidade!...
As ruas estreitaram tanto que em alguns lugares dois carros não se podem cruzar... o que levou à proibição de estacionamento e circulação, esta só permitida para "pegar e largar" turistas.
Jeri não tem tempo para dormir. As ruas rivalizam com as da Lapa no Rio de Janeiro. Vive-se e bebe-se a toda a hora!...
O estatuto de Área Protegida desprotegeu-a por completo. Vive o seu momento de glória!... mas os garimpeiros de jóias já se movimentam noutra direcção. Jóias raras não aparecem onde há muita gente!... aí só há consolo para frustrados!...
As antenas dos descobridores viram-se agora mais para norte, no Maranhão, para uma outra jóia adormecida. Já estive perto mas nunca lá fui.

Quero ir antes que seja (de)lapidada!


Lisboa, 21 de Fevereiro de 2015






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