CRISTALINO JUNGLE LODGE
CRISTALINO JUNGLE LODGE



Brasil - Alta Floresta
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Cristalino

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Entrada
Cristalino é nome de algo límpido como um cristal. Mas até os cristais tem algumas impurezas... e aquele não estava isento disso! Era um cristal de floresta pristina da Amazónia!. Algo que regala a vista e o espírito quando se sabe que aquele ecosistema está sob fogo cerrado provindo de várias frentes.
O Lodge com um mínimo de impacto ambiental muito bem instalado na margem do rio Cristalino, um rio que não se vê no Google largo como a Av. da Liberdade em Lisboa, ele próprio afluente doutro rio desconhecido, o Teles Pires, era aconchegante.
Chega-se ali a partir de Alta Floresta, uma cidade no norte do Mato Grosso, assim chamada porque os bandeirantes ao chegar ali ficaram espantados com a altura das árvores. Na verdade esta é uma das zonas de floresta mais alta de toda a Amazónia, onde as árvores chegam a razar os 50mts de altura e com uma densidade de vegetação que ao meio dia parece sol posto em alguns trilhos. Mas esta floresta alta já está longe de Alta Floresta.
A primeira mancha deste cristal puro mas não límpido vê-se logo em Alta Floresta. Todo o serviço é impecável desde os transferes à alimentação. Trato norte-americano!...
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Área Social do Lodge


Recepção no pequeno aeroporto local e "check in" no Hotel Amazonas base de apoio ao Lodge. Atendimento em inglês. O "public relations" tem dificuldade (ou relutância?!) em falar brasilês. Sou o único a falar português naquele lugar remoto do Brasil e mais pareço uma extravagância do que um cliente comum. Comigo desde o aeroporto viajam dois norte americanos e o seu guia brasileiro que só fala inglês com sotaque bem acentuado. A sua arrogância e indiferença relativamente a tudo o que não consideram seu, é absoluta. E seu é toda a Amazónia a sua fauna e flora mas não as pessoas.

Há alguns bons anos percorria eu uma rua de Santarém, no Pará, quando faço uma pergunta qualquer a um jovem local que transitava no mesmo sentido. Não sei bem porquê, apesar da diferença de idades, a empatia foi imediata. Conversámos, enquanto caminhávamos, e ele confessou-me que ia alistar-se no exército para defender a Amazónia da cobiça dos americanos.
Admirei aquela dedicação à sua terra mas não me surpreendeu a sua revelação. Conversámos... e a dada altura ele forneceu-me elementos que consultei mais tarde onde na América se ensinava às crianças na escola primária que a Amazónia era um território americano rodeado de bárbaros que não sabiam administrá-la. Vi esses documentos na internet. Verdadeiros ou forjados, estavam lá.
Mas não me custa acreditar que dado o comportamento hegemónico, agressivo, e dominador daquele país, que estivesse a preparar as novas gerações para aceitarem uma ocupação daquele território num futuro mais ou menos próximo.
As coisas mudaram, desde então, e hoje não creio que uma tal aventura tivesse possibilidades de êxito... mas a Amazónia, pelas suas potencialidades será o palco onde se desenrolará o último episódio da saga humana.

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Rio Cristalino
A Amazónia é, de qualquer jeito, americana. Se não por ocupação militar, por ocupação civil. O meu guia, um jovem simpático canadiano, entendia pouco de português. Fui integrado nos primeiros dias num grupo de língua inglesa. No último num de língua francesa. Português, neste pedaço de Brasil, é estrangeiro!... A proprietária do empreendimento, simpática e atenciosa, sempre procura dialogar com os hóspedes e posta perante esta situação do apoio em português foi explícita: os meus hóspedes são ou americanos ou do norte da Europa.

Encolhi os ombros!... eu é que estava no lugar errado!... mas que fazer se tenho estes gostos?!... mas entristece-me que num pedaço dum país de língua portuguesa não se fale a sua língua materna... e que estrangeiros arrogantes sintam que estão na sua casa e nós somos os estranhos.
Apesar disso, o Cristalino Jungle Lodge é uma jóia preciosa, e fiz saber esse meu sentimento à proprietária. Num tempo em que a cobiça gananciosa de ignorantes continua a desbaratar a Amazónia, esta iniciativa é como gota de água preciosa num deserto tórrido. Preservar a floresta tornando-a rentável com um mínimo de impacto e de forma duradoura requer algum brilho de espírito num tempo em que ainda perduram as soluções acéfalas de maior ganho no menor período de tempo e sem perspectivas de futuro... com violência, crimes e morte... salvar o que se puder da Amazónia é algo que todos devemos apoiar!

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Papagaio Exótico
Recebo comunicações diárias de atentados contra a natureza em todo o mundo perpetrados pela cobiça americana. É a destruição de florestas na Indonésia para instalar fábricas de medicamentos para ricos destruindo a medicinas natural do autóctones, são as agressões da Shell no Alaska com risco de destruição do próprio planeta... e sobretudo os atentados na Amazónia, a jóia da coroa da natureza.
Aqui aos grandes interesses, centrados na maior reserva do recurso mais básico e fundamental da vida, a água, acrescentam-se interesses gananciosos mais mesquinhos. Entre o Cristalino Jungle Lodge e Alta Floresta situa-se uma área Amazónica sem floresta e os resultados duma deflorestação descontrolada já estão ali à vista. Mas a ganância e a ignorância não vêem nada!... Na ausência da sombra, da humidade produzida pela respiração das plantas, do húmus produzido pela queda das folhas e frutos, o solo empobrece começa a esboroar-se sob efeito da erosão pluvial e começam a aparecer clareiras sem qualquer vegetação, de areia avermelhada onde a erosão eólica vai fazer o resto do empobrecimento e transformá-lo num deserto!
E essa ganância tosca, praticada por fazendeiros, brasileiros ou não?!..., tem duas origens. Uma que até parece louvável é para arranjar solos de cultivo: soja e gado; a outra menos louvável é pura e simplesmente para exploração de madeira. Aquelas árvores são centenárias... nem daqui por cem anos voltaria a haver floresta para desbravar se os solos não se degradassem... Mas ainda se mata na Amazónia por causa disto... e essas mortes tem de pesar não apenas na consciência de brasileiros degenerados mas também daqueles que no exterior fecham os olhos à origem das coisas que compram barato: soja e madeira. Todos são culpados. O ricaço que exibe a sua bela casa mobilada com madeiras exóticas, em qualquer parte do mundo, pode ter as mãos sujas de sangue... sem querer saber!

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Cigarra
Se acabarem com a Amazónia, o mundo, tal como o conhecemos, acaba. Como pode um dia alguém passar pela experiência de viver uns dias no meio duma floresta virgem a ouvir a natureza no seu estado puro com sensações completamente fascinantes?!... O cantar, piar, murmurar das mais diversas aves, insectos, mamíferos e anfíbios... o mais estridente e estranho era produzido por uma espécie de cigarra que, embora de dimensões maiores que as europeias, não tinha volume donde esperar um tão grande ruído metálico. Nenhuma oficina de serralharia mecânica de um país industrializado, por maior que seja, faria um ruído metálico tão penetrante e ensurdecedor!...
Mas a Amazónia não é só isso. Mesmo para aquelas pessoas, entre as quais se encontram 90% dos brasileiros que "não gostam de mato" e vêm ou aspiram a vir para a Europa ou os EUA ver "shoppings" ainda podem fazer isso porque existe a Amazónia. A natureza não conhece, não respeita fronteiras políticas. Isso é obra duma evolução errada duma espécie que, depois de ter exterminado muitas outras, se prepara para a auto-exterminação! A natureza é una e a Amazónia é o único pulmão que lhe resta depois de extirpados todos os outros. A natureza é generosa. Este pulmão fê-lo para sobrevivência de algumas espécies que criou. Se uma espécie ingrata e arrogante o extirpar, ela continuará a existir... mas essa espécie, não!
É esta a opção dos humanos. Como diria Skakespeare noutro contexto: "To be or not to be"!...

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Tocano Empoleirado
Quem vai ao Cristalino são amantes da natureza, em geral, observadores de aves. A observação faz-se ao longo do rio ou em trilhos abertos na floresta virgem. No rio a fauna é variada. Vêem-se muitas aves mas também outros animais:lontras, antas, tratarugas, jacarés... e até gazelas!... mas curiosamente!... não vi capivaras.
As aves são abundantes mas algumas espécies são difíceis de encontrar. O Cristalino tem uma lista de aves mas não espere ver todas. Algumas até os guias ainda esperam ver a primeira. As mais raras emcontram-se ao longo dos trilhos e carecem de experiência e conhecimento do seu habitat para serem vistas. Em dois desses trilhos existem torres de observação que nos levam acima da canópia para observar a floresta de cima. É uma experiência empolgante.
Aquela extensão e variedade de troncos, ramos e copas a perder de vista, algumas ornamentadas com flores, onde se movimentam uma infinidade de formas de vida de que apenas nos apercebemos de algumas que voam acima em busca dum outro lugar... é algo de único e fascinante.
Fazia falta ali um "drone" para observar tudo aquilo mais de perto... mas seria um sacrilégio introduzir ali aquele ruído industrial que por sua vez alteraria o próprio comportamento dos animais. Espero que isso nunca seja admitido... mas a força dos interesses económicos forja até as mentalidades e o que é aceitável ou não, por programação cultural.

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Rápidos no Rio
Alguns percursos são longos, sobretudo o do Limoeiro, um lugar sem limões mas com caju e castanha do Pará. A meio do regresso, no rio, fez-se noite. O crepúsculo ali, nesta época do ano, quando o sol cai a pique no horizonte, é curto e o intervalo entre o dia e a noite é breve.
O rio tinha alguns rápidos, não muito acentuados mas onde era preciso manobrar para passar no lugar certo entra as pedras. Causa um certo calafrio, ao novato, ver fazer aquilo, quase completamente às escuras, pelos experimentados pilotos das pequenas canoas metálicas...

O Cristalino Jungle Lodge (o próprio nome em inglês diz tudo!...) não é lugar para português nem brasileiro, embora situado no Brasil. É colónia administrativa da América onde os próprios franceses, com quem acompanhei um dia, sentiram o efeito.
Numa conversa muito agradável, um dia ao jantar, abordámos esse assunto bem como os problemas da Amazónia e do mundo em geral. O meu guia canadiano, um jóvem de espírito aberto mas programado pelo sistema, mostrou uma abertura de espírito de quem consegue sair dos estereótipos culturais e ir mais longe. "Long Life Olivier!..."

O meu amigo Francês, com quem troquei contactos, andava desesperado com o resultado das suas fotos. Fotografar alvos instáveis, num meio de luz e contrastes instáveis com foco selectivo e pouca profundidade de campo no meio de múltiplos obstáculos não é tarefa fácil. Espero que tenha obtido bons resultados...

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Saída
A Amazónia ocupa um lugar equidistante entre os meus interesses e preocupações... e muito distante geograficamente!... Até breve........

Lisboa, 19 de Outubro de 2014




Apostilha

Ao escrever estas linhas lembro-me de "A Selva" de Fereira de Castro, lida há muitos anos com o fascínio da descoberta de algo fora do mundo conhecido, e apercebo-me da diferença entre duas observações feitas duma mesma perspectiva mas desfasadas pela alteração da realidade introduzida pelo tempo. No seu tempo a Amazónia era uma mulher virgem como eram as virgens desse tempo; hoje a Amazónia é apenas uma mulher!...






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