4x4 NO TECTO DO MUNDO!...
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O reino do Flamingo!...

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Duas horas da manhã!... aeroporto de Santa Cruz de la Sierra!.. sem dinheiro!.. sem hotel... aventura pura!...

Depois de cinco horas de autocarro, quatro descolagens e aterragens e 14 horas de viagem!...

Logística:
dinheiro!... há ATM?... funciona com cartão internacional e a esta hora?... e quais os seus caprichos?... sim porque estas máquinas,consoante o país, têm caprichos... é preciso descobri-los!...

Taxi:
"..hotel Lido..."
"si sinhor..."
"...no tiene taxímetro?.."
"no sinhor..."
"... quanto?"
"cinquenta sinhor..."
".. cinquenta quê?... dollars ou bolivianos?"
"bolivianos sinhor"
"... es muy caro!..."
"es la tarifa sinhor..." vai respondendo o motorista de cara arrendondada e olhos amendoados de mestiço índio submisso!...

A avenida recta e longa estende-se monotonamente à nossa frente só perturbada pelos buracos da via e o chocalhar do carro que parece desintegrar-se a todo momento semeando peças por todo o lado!...

"... calle 21 de Mayo...." informo mostrando-me senhor da situação!... "si sinhor"
...
...
"...ahora um momentito que voy a ver se tiengo habitación..." digo no meu portugnol...
Nunca jogo as cartas todas de uma só vez. Só agora, à porta do hotel, ele sabe que não tenho destino certo!.. rsrs mas entretanto já ganhei a confiança para ir dominando a situação.
"... si sinhor..." responde como sempre.

Tinha descoberto este nome na net na véspera: Hotel Lido, ****, US$ 35,00.. e era verdade!... um 4 estrelas por cerca de € 25,00!... que se fosse numa ex-colónia inglesa se poderia dizer vitoriano, "old fashion" ou "démodé" mas requintado.

Santa Cruz, diz- se, é a porta de entrada internacional da Bolívia dado que nem todas as companhias de aviação são, segundo o "Lonely Planet", "brave enough" para voar para La Paz a mais de 3600 metros de altitude!... rodeada de picos que vão aos mais de 6000!...

Contudo isso parece não perturbar muito o seu ar pacato e provinciano, sem aquelas ordas de forasteiros que descaracterizam o ambiente. Um pouco dollarizada... mas bem sul americana. Não há gringos, um casal europeu, alguns brasileiros e é tudo!...

25 de Janeiro. Vota-se uma nova constituição. Não conheço a antiga nem a moderna!.. mas Santa Cruz é contra!... está por todo o lado o convite ao "NO".
O Ivan, jovem simpático e atencioso, director da "Asociación Armonia", uma instituição sem fins lucrativos que se ocupa da conservação de espécies ameaçadas, tinha-me prevenido. A cidade estaria completamente parada. Tudo fechado, carros e pessoas na rua só acidentalmente!... não há bulício mas sente-se um certo clima de tensão como naquelas tardes de verão que chocam uma tempestade tropical!... Na rua, um cavalheiro que saía de bicicleta, insistia para a criança que queria vê-lo partir...:"cierra la puerta!!!... cierra la puerta!!!..."

No hotel arranjam-me comida por deferência porque até o cozinheiro faltou!... e o convencional "Club 24 de Setiembre" onde almoçava completo por Bls 30,00, cerca de €3,00!... que era contra!..., estava "cerrado".

Pelo fim da tarde começam a chegar os resultados... a nova constituição leva vantagem... há uns problemas em Tarija que também é contra!... mas nada de grave!... e Santa Cruz permanece calma. Ainda há poucos meses a agitação política nesta cidade tinha sido assunto sério!...


O "bus" segue uma manhã inteira por uma planície interminável a caminho do noroeste. Sabe-se que ali para a esquerda fica a cordilheira oriental dos Andes mas ainda não se avista. Pelo meio da manhã, pelas clareiras da floresta, começa a divisar-se um contorno vago azul-cinzento longínquo... que aos poucos vai marcando mais a sua evidência...

É a vertente leste da cadeia de montanhas que desce milhares de metros até à planície que para sul é o Chaco e para norte a Amazónia. Estamos na zona de transição e a esta zona de transição da montanha recortada de picos e coberta por floresta luxuriante chama-se "Os Yungas", onde as aves são deslumbrantes e algumas endémicas!...
É também aqui que cresce a planta polémica tão amada e tão odiada ao mesmo tempo!... a coca. Paramos num restaurante de estrada para almoçar!... numa zona onde a miséria parece a mais extrema e come-se alguma coisa porque tem que ser!... porque tudo está abaixo do mínimo aceitável. Até arrepia pôr os pés no chão!...

À vista disto, embora não se aceite, entende-se que à produção legal, para consumo doméstico como estimulante para combater o mal de altitude e regularizar problemas de estômago, se acrescente uma fatia não autorizada!... mas os pobres moradores desta região para além dos magros bolivianos (ou dollars!) que recebem por essa produção clandestina ainda fazem como animais de carga montanha acima, de noite, com fardos de pasta para entregar no destino.

O lucro começa a partir dali e vai parar às mãos de outros que não eles!... É negócio de milhões, longe das suas possibilidades!... como longe estão os químicos necessários a essa transformação!... A subida da montanha é um espectáculo de beleza natural, sem par, para os olhos do viajante, desde que os feche às casinhas de miséria em que vivem os naturais dentro dum verdadeiro paraíso!... Passamos os naturais "check points" da polícia para prevenir a circulação de químicos suspeitos e, em poucos quilómetros de extensão horizontal, subimos dos 400 aos quase 4.000 metros!...

A paisagem aqui já é outra e Cochabamba fica lá em baixo, no meio duma caldeira, a 2600 metros de altitude!... É ali que vou fazer a adaptação para voos mais altos!...



A viagem para Oruro é feita na cota dos 4000 metros serpenteando os cumes duma paisagem surreal!... As aldeias são pequenas, pobres, dispersas e coloridas!...

Oruro é a depressão!... Negra, monótona, estampada nas faldas duma colina árida!... é arrepiante! O objectivo é Uyuni e a visita às raridades naturais desta região ignota. O "trem" é, enquanto meio de transporte mais confortável, uma atracção turística e uma reminiscência daquilo que foi outrora a rede ferroviária boliviana.

Nível de conforto aceitável, a passagem pelo meio do lago logo à saída da cidade, com imensas aves aquáticas e bandos de flamingos voando, é o atractivo maior duma viagem de sete horas que acaba por tornar-se monótona sobretudo depois do cair da noite.



As lentes escuras não conseguem ofuscar o fulgor da brancura que se estende a nossa frente e se perde lá longe numas montanhas cinzento-azuladas que parecem flutuar no espaço ou à superfície dum lago de cristal sem vestígios de ondulação..., tudo isto encimado por um céu de um azul marinho claro que espreita por entre os castelões formados por cúmulos caprichosos de nuvens dum branco flamejante!... É o maior deserto de sal do mundo!... o Salar de Uyuni a 3600 metros de altitude

Os olhos experimentados do motorista perscrutam o horizonte em busca dos pontos de referência porque, quem se perder ou avariar aqui tem poucas hipóteses de auxílio fora das rotas batidas sem GPS nem rádio. E isso já aconteceu antes num local cuja inospitabilidade rivaliza com a beleza e onde a sobrevivência é difícil.

Num deserto de sal, tudo é de sal!... e o hotel que encontramos no caminho é todo feito de blocos de sal!... paredes, mobiliário, objectos decorativos, dando ao conjunto um ar exótico e de raridade exclusiva!... Desactivado por motivos ecológicos hoje é atracção turística de inegável valor patrimonial.

E mais adiante, a ilha do pescado, assim chamada por se assemelhar, vista de longe, a um peixe estendido no sal. O seu verdadeiro nome em língua indígena é "Isla Incahuari" ou lugar de refúgio dos nativos que ali, dada a sua inacessibilidade, se refugiavam das razias dos conquistadores em busca de escravos!...

É outro lugar fantástico e único no mundo!... uma ilha castanha no meio dum mar sólido e branco, com cactos gigantescos que crescem à média de um centímetro por ano, atingindo alguns deles milhares de anos!...

Subir ao alto da ilha com oxigénio rarefeito é tarefa árdua para qualquer idade!... mas o espectáculo que dali se divisa em 360º em redor é inexplicável!...



Nunca tive atracção pela necrologia, nem mesmo como curiosidade histórica ou antropológica. Mas a necrópole de San Juan del Rosário é, no mínimo curiosa!...
As chulpas dos dignitários aymaras, civilização anterior à conquista inca, esculpidas em rocha vulcânica, de tipo piroclástico, assemelham-se a cabanas cónico-parabólicas dando ao conjunto um ar mais de acampamento do que de cemitério!...

Estamos já a sul do salar... o mundo daquele branco fascinante fica para trás... agora os picos nevados e os vulcões activos espreitam-nos entrecortados de desertos de areia e lagunas coloridas de várias cores. E assim passamos pela "Laguna Cañapa" onde avistamos os primeiros flamingos, a Lagoa Hedionda, assim chamada devido às suas águas sulfurosas, o que não impede uma colónia de flamingos e outras espécies de habitarem ali.
Depois o deserto de Silol não faltando mesmo um mini Akakus com rochas esculpidas pela erosão de que a famosa "arbol de piedra" é o "ex-libris".

A Lagoa "Colorada", a maior e, talvez, a mais famosa desta região, recebe este nome devido às várias colorações que assume ao longo do dia produzidas pela incidência e inclinação dos raios solares nos micro-organismos existentes nas suas águas. Alberga uma colónia com muitos milhares de flamingos que dão um espectáculo de coreografia teatral impressionante nas suas famosas paradas nupciais!...

Os geysers "sol de la mañana" vistos na penumbra da madrugada são um espectáculo surreal e fantasmagórico e mais adiante as as piscinas naturais de águas termais, à luz da manhã, dão fotos de uma beleza estranha!...

Depois o deserto de Dali, assim chamado, devido à coloração das suas montanhas e disposição das suas rochas lembrando pinturas surrealistas daquele artista!...

Espectáculo de rara beleza é dado pela "natureza morta" da não menos famosa Lagoa Verde!... O arsénico dissolvido nas suas águas é em tal quantidade que não permite qualquer forma de vida e dá a estas um tom verde esmeralda baço... fascinante!...

Situada nas faldas do famoso Licancabur, alto de mais de 5900 metros já em solo chileno, fica no extremo sudoeste da Bolívia. É o fim do périplo, entre 3600 e 5000 metros de altitude, a uma região que é, a todos os títulos, um lugar pouco conhecido mas a não perder pelo caçador de raridades naturais cada mais mais ameaçadas pela insensatez humana.



180 km de TT num "bus" é o preço a pagar por quem vai a Uyuni e não quer regressar de novo de "trem"!... De noite, oxigénio rarefeito, com uma nuvem de pó que se adivinha no ar, a respiração torna-se complicada!... e estes 180 km são apenas a primeira fatia duma viagem de dez horas até La Paz.

A capital da Bolívia é uma cidade impressionante!... Quem chega pelo altiplano, um subúrbio extenso, e se aproxima da falésia e vê aquele apinhado da casas comprimidas dentro dum vale estreito e profundo raramente contem um ahhh!!!... de exclamação!... Depois... é o seu trânsito caótico, o seu centro apinhado de gente num extenso mercado a céu aberto com zonas labirínticas a fazer corar de inveja a medina de Marrakech!... e o bulício duma metrópole, onde, como em todas as metrópoles, a vida é difícil para muita gente!...
Não me atraiem as grandes cidades onde as poucas coisas belas existentes são artificiais!... e aqui nem há nada de pasmar!...

O meu objectivo é fazer a estrada de Coroico, uma cidadezinha de vilegiatura numa zona mais baixa, mais quente e mais verde dos Yungas a cerca de 90km daqui.
Esta, foi considerada, e ainda assim é chamada por motivos turísticos, a ESTRADA MAIS PERIGOSA DO MUNDO!...

De facto o seu traçado por escarpas, ravinas e desfiladeiros, estreita, à beira de precipícios de milhares de metros, sujeita a deslizamentos frequentes de terras que a tornam intransitável por períodos mais ou menos prolongados, a densidade e tonelagem do tráfego e a imprudência dos condutores, tudo concorria para essa justa fama!...

Mas não o é mais!... hoje existe para turista ver!... uma nova via asfaltada foi inaugurada há cerca de um ano, panorâmica, acompanhando em grande parte do percurso os picos dos Yungas, descendo à planície onde dá ligação a Coroico sem os riscos da antiga estrada estreita, linda, e insuficiente!...

O troço ainda aberto a turistas estava, como é natural aqui, interrompido por diversos deslizamentos de terras e tive que voltar atrás para atingir Coroico pela estrada nova!... mas deu para imaginar o que teria acontecido se tivesse chegado um ano mais cedo!...



O avião, ao descolar de La Paz, descreve um círculo completo sobre o altiplano antes de rumar a Santa Cruz... e interrogo-me: "porquê isto?!..."

Mas quando chego acima da camada de nuvens encontro a resposta à minha pergunta. Estamos rodeados de picos nevados, entre eles o Illimani a mais de 6000 metros de altitude!... Estamos no altiplano e é preciso ganhar altitude antes de atravessar a cordilheira ocidental e, mesmo assim, aproveitando um vale que se estende a sul deste pico, majestoso, acima das nuvens com as suas três cabeças nevadas!...

Visto desta perspectiva em contraste com os vales vizinhos, mergulhados num infinito de penumbra, é um espectáculo esmagador!...

..."mas, eis senão quando" me vejo a atravessar uma zona extensa de picos nevados ali mesmo ao alcance da mão que parece que se pudesse pô-la de fora os tocaria!... e não posso deixar de sentir uma sensação de calafrio!... Não pela neve de que estão cobertos mas pela lembrança de que, por estas paragens há muitos anos já, um piloto calculou mal a altura e tocou um deles, despenhou-se e... foi a história que todos conhecemos. Até foi contada em filme!...

Depois vem a vertente oriental com vales profundos, picos agudos, lombadas afiadas, ribeiros que formam rios resultantes das escorrências glaciares, povoações e uma geomorfologia caprichosa e complexa como que desenhada por mão de artista gigante com gosto para os "quebra-cabeças".

A cobertura de floresta começa a adensar-se, o clima volta a ser quente, adivinha-se, e estamos nos Yungas agora vistos de cima.

Embora se prolongue até ao Brasil, para esta crónica de sensações, a Bolívia termina aqui!... Surpresa agradável de humildade digna e decência dum povo que ocupa um dos lugares mais bonitos do mundo!...

Algures sobrevoando os Andes a 7 de Fevereiro de 2009




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