Selfies
Selfies







O ALIMENTO DOS POBRES

"Selfies" !... quem não faz uma "selfy" está desactualizado, fora de moda, é bota de elástico, ou ... (antigamente dizia-se "démodé" mas agora até o "démodé" está fora de moda!
Fazer uma "selfy" é chiquérrimo, facebooquérrimo, tecnoquérrimo, burrémimo... é a suprema forma de inteligência tecnoartistiquérrima!

Quem não faz uma "selfy" pode considerar-se na antecâmara da mumificação!...

Felizmente, apesar da minha vetusta idade, estou livre disso (até porque quero ser cremado - cuidado!... não cromado!... rsrs - para não poluir mais esta pobre e massacrada natureza!) porque já fiz uma "selfy"!

Estávamos nos bons e longínquos anos 92 do século passado quando um Galo da Campina poisa inesperadamente no meu ombro enquanto almoçava, para disputar comigo o meu repasto. Peguei na câmara, inverti a posição normal de uso e tentei filmar o Galo. Como não sou muito inventivo em neologismos esclavagistas só pensei em "pegar", como se diz por lá, o Galo e fazer uma imagem rara. Mas também fiquei, em parte, nela.

Não fora a colonização linguística, que se acentua a cada ano que passa, e eu nunca saberia que tinha antecipado outro neologismo colonizante que nem sequer ainda existe!... eu fiz uma "otherelfy" !

(Facebooquistas!... ponham no Face antes que eu registe a patente!)

O Galo da Campina era o objectivo fotográfico, e a isto antes da colonização massiva chamava-se fotografia (em vídeo-fotograma) mas agora com o refinamento da cultura de massas ficou mais sofisticado: são "selfies" a que eu acrescento o meu modesto contributo de "otherelfies" até que alguém venha reclamar o direito de autor do termo, coisa comum a que já me habituei e não vou pelejar por isso na justiça dos ricos.

As "selfies" são a "interface" (outra expressão de colonização linguística) da superficialização cultural que se opera nos tempos modernos. Não sei se tenho algum antepassado aristocrata, repudio os privilégios aristocratas... mas abomino a vulgaridade!

Sou um homem velho. Não vi nascer a electricidade, a rádio e o motor de explosão...mas, praticamente, cresceram comigo. Assisti à maior transformação material que esta civilização conheceu em tão pouco tempo!
Preparei-me para ajudar a arranjar um lugar melhor para todos nós à superfície dum planeta que nos gerou (assim penso até prova em contrário) mas não nos tornou a vida fácil... e saio dela derrotado pelos piores exemplares que essa mesma natureza (única coisa que adoro!) pôs no meu caminho!

Toda a história da humanidade (pelo menos desta civilização) é uma longa saga de barbarismo, atrocidades, massacres, roubos, saques, extorsões, violações contadas com orgulho, crueldade e petulância... transformada em valores supremos (heroísmo) programados nas mentes dos mais débeis (a maioria) para reproduzir-se "add eternum".

Mesmo assim, no meio desta crueldade implícita nos valores, germinaram ideias generosas de desejos de uma vida melhor para a humanidade. Apesar de superficiais, as elites dos últimos séculos, desenvolveram preceitos de convivência social, em grande parte estereotipados, mas que melhoravam a qualidade de vida entre "iguais".
Com o desenvolvimento material esperava-se (eu esperava!) que essa qualidade de vida, estirpada dos seus elementos estereotipados, se comunicasse às classes que a ela não tiveram acesso através dos novos meios postos ao seu alcance: a rádio e, mais tarde, a televisão.

Ilusão!... desilusão... não só esses meios reforçaram a exploração das pessoas como estão arrastado para a base social largas camadas da população operando um nivelamento por baixo com aproveitamento e promoção das coisas mais sórdidas da cultura popular e urbana.

É claro que isso acontece porque continua a interessar a alguém. Como no tempo de Roma, os privilegiados, os extorsionários do momento acreditam que o povo precisa é de circo e chicote, mas para eles reservam as orgias privadas fora do seu alcance económico. Para isso o escravizam com salários baixos, impostos altos e muito trabalho para não terem tempo nem disponibilidade mental para pensar em sair da servidão. Em troca têm futebol, o ópio do momento, onde os alienados do sistema se embriagam legalmente sonhando fantasias fora do seu alcance praticadas por gladiadores pagos a peso de ouro.

Nos intervalos, o Imperador, vem a terreiro fazer umas "selfies" para reforçar a alienação dos pobres mentecaptos!...

Lisboa, 25 de Maio de 2014


Apostilha


...e vivam as "selfies"!...

Um casal polaco, no Cabo da Roca, para fazer umas "selfies" lançou-se de uma falésia de 140 metros deixando duas crianças sozinhas a chorar cá em cima.
Os bombeiros levaram dois dias para o tirar de lá com helicóptero!...

E pensava eu que se houvesse "selfies", naqueles tempos, Narciso não precisaria de lançar-se ao Lago para unir-se à sua imagem amada!..

Continua a haver por aí muitos Narcisos capazes de se lançarem em lagos bem maiores, deixando os filhos orfãos, em troca de uma imagem!.

"... que morram as pessoas... mas VIVAM as "selfies"!...


11/08/2014



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