EU NÃO MEREÇO ISTO!...
EU NÃO MEREÇO ISTO!...







Esta gente merece isto!... eu é que não!

Contento-me com pouco mas não quero sobras!

E esta é a questão que separa dignidade de submissão, sujeição, servilismo, estados de espírito (posições existenciais) que permitem a dominação, exploração, controlo e opressão de uns pelos outros.

Em 1974 eu era um adulto jovem, activo e acreditava numa sociedade decente, honesta e capaz de realizar as aspirações humanas. Não estava alinhado com nenhuma das organizações políticas que viviam na sombra à espera da sua oportunidade de aceder à mesa onde estava o bolo a ser partilhado por um pequeno número de comensais do regime.

Provinciano, pobre e puro acreditava (e ainda acredito) nos valores básicos da honestidade, decência e decoro tal como eram entendidos numa sociedade sem etiqueta.

Naquele microcosmos já havia "borderlines" mas esses faziam parte duma franja, não marginalizada, mas demarcada no conceito social local, que era objecto de atenção especial e não detinham o poder!

A minha vinda para a capital, como a de muitos imigrantes internos, foi um profundo choque, como a de muitos outros que o não suportaram e afundaram-se.

O poder era centralizado numa só pessoa e todas as instituições eram um seu reflexo: da economia à justiça passando pela educação tudo era controlado, senão pelo olho do "Big Brother", pelo menos, por aquilo que se julgava ser ele.

Como a palavra política tinha sido banida do vocabulário comum, a sua articulação era reservada e podia (quase) conduzir à cadeia se pronunciada em local inadequado. Chamava-se a isto, então, censura!

O regime, capitalista de inspiração nacionalista, levava a sério a sua sobrevivência contra o capitalismo, dito liberal, que os EUA ensaiavam no pós-guerra. Era uma aberração. Os EUA a braços com o problema soviético, supostamente à frente, tinham um problema atrás: um capitalismo retrógrado, segundo a sua concepção.

Portugal, uma insignificância territorial, mantinha um império obsoleto cheio de miséria e de riquezas inexploradas num mundo que já começava a sentir o cheiro da escassez.

Salazar ficou sozinho... mas com génio dum Fidel (ao contrário!) sobreviveu até cair da cadeira. Sobreviveu até depois de cair da cadeira!... os seus acólitos (escravos programados!) nunca tiveram a coragem de desobedecer-lhe. Traíram-no... mas por medo nunca lhe desobedeceram... morreu acreditando que controlava o regime que ferozmente amordaçara!

Depois da, suposta, queda da cadeira ficou no ar um cheiro a carne podre e toda a espécie de necrófagos se agitou. O regime ainda arranjou um fantoche (que deixou afilhados por aí) e a ganância dos mais poderosos afastados do banquete acabou por vencer.

Antes... eramos poucos e indiferenciados aqueles que agíamos de alma pura e coração aberto. Acreditávamos numa sociedade decente, honesta, solidária e virada para a felicidade e bem estar humanos. Os outros, os nossos companheiros de café, de sindicato, de associação de estudantes... que connosco conspiravam contra o regime... uns denunciavam-nos à PIDE; outros traíram-nos após a queda do regime em obediência ao dono que já tinham em silêncio.

Ficámos poucos e dispersos, uns cantando, outros falando, outros calados e todos desqualificados num regime que perdeu a vergonha de ser desonesto, iníquo e monstruoso!

Os próprios militares (filhos de família-alguns) que deram o golpe em 74 e que entregaram o sistema aos afilhados do regime, foram eles próprios desqualificados, presos, reduzidos a insignificâncias por mafiosos confessos que se apoderaram do regime que agora caíu nas mãos de rapazinhos que ainda não tinham nascido, e, os que ainda não morreram, estão hoje mais calados do que eu em 1974!. Há uns que ainda " miam" mas é para declarar a sua impotência!

Eu não mereço isto!... mas eles merecem. O que eu queria era outra coisa.

Os primeiros a traírem as minhas aspirações foram os comunistas. Fui contra, como já fora antes e fui castigado. Mas depois de 25 de Novembro de 74 não são mais culpados do descalabro de que foram acusados durante décadas pelos abutres do regime.

Eles, então, não queriam "democracia" mas o regime que defendiam faliu perante a cupidez doutro regime mais feroz e mais cruel ainda.. mas mais sedutor!...

Eric Berne escreveu um dia: "é pior ser seduzido do que violado. Na violação a vítima não contribui para a sua desgraça; na sedução...sim" (citado de memória).

A primeira coisa que me chocou nos comunistas foi o seu cuidado em manter as estruturas do antigo regime acreditando pô-las ao seu serviço: polícias (excepto PIDE), tribunais, aparelho de estado... tudo!... ignorando que tinham sido programados para servir uma certa ordem e que iam continuar a servi-la independente de quem fosse o novo dono!
Ignoravam também que o dono muda facilmente, como tinha acontecido em Abril e voltou a acontecer em Novembro de 75.
De todas estas estruturas, a que foi menos afectada e a que mais e melhor servia o antigo regime foi a judicial. Na ausência do antigo dono esta estrutura ficou órfã e é o maior "handicap" da sociedade moderna. Suposta ser independente, não foi educada para isso e continua à procura do dono para receber ordens e saber o que fazer.

A história dos seus últimos 30 anos é algo que deixaria qualquer um louco por falta de coerência... eficácia e profissionalismo. É hoje talvez a instituição mais desqualificada aos olhos do comum mortal... talvez mais que a própria política, cujos desmandos se esperava que corrigisse como terceiro poder que, de facto, não é... por inquinação do sistema. Na prática existe o poder político, o menos fiável, ao qual os outros dois obedecem.

Perderam!... e perderam a última oportunidade que tiveram!
Para sobreviver tiveram que engolir todos os sapos possíveis, virar democratas, "parlamentares" e miar... miar... frases sem nexo que já não fazem eco nos ouvidos desses seres superficializados que esta sociedade programou para extasiar-se a ouvir iPods, iPads, iPhones num entorpecimento básico próximo da intoxicação.

Perderam porque não entendem que o mundo em que Marx se inspirou já não existe e que na falta de Marx ficaram orfãos e não sabem para quem apelar!
Os detentores do poder, hoje, estão muito mais bem escudados e, por isso, vencem... não têm ideias como eles para assegurar a sobrevivência da espécie mas têm ideias para defender os privilégios da classe dominante de vitória em vitória até à derrocada final. Os gurus actuais chamam-se economistas. Destronaram os xamãs, os bruxos, os exorcistas e toda a espécie de charlatães que prometiam a felicidade!... e, na boa tradição cristã que prega o sofrimento, o sacrifício e a pobreza!... eles condenam-nos sem apelo nem agravo!

Em 1974 perduravam os sonhos duma geração que acreditava numa sociedade perfeita onde o amor, a paz e a liberdade eram os objectivos a atingir!... Havia uns icons!... cada geração tem os seus!... mas aqueles tinham conteúdo... corporizavam um sonho: Bertrand Russell, Sarte, Patxi Andion, Léo Ferré, Joan Baez, Zeca Afonso, Bob Dylan eram nomes descomprometidos apesar das tentativas em arregimentá-los ou desacreditá-los. Do lado revoluciário tínhamos um Cohn Bendit, hoje vendido ao sistema.

Quando após o golpe português me confrontei, nas reuniões onde finalmente podia ir a descoberto, com outro e novo tipo de censura e opressão fiquei estarrecido.
Aquelas reuniões já não eram feitas para discutir nem decidir nada. Tudo estava já decidido e eu só tinha de concordar, votar ou ser apupado e ameaçado se o não fizesse!

Desisti!...

O triunfalismo retrógrado instalado depois de 25 de Novembro de 1975, pelas mãos de militares que agora "miam mas já não arranham", enojava-me!.
Era finalmente a tão desejada democracia!... e tudo me cheirava a oportunismo de abutres cobardes que tinham espreitado na sombra o aparecimento da carcaça deixada pelo predador. Os partidos políticos surgidos como cogumelos, após uma chuvada de verão, encabeçados por gente, agora "progressista", que colaborava, dias antes, com o anterior regime. Todos eram democratas, todos eram trabalhadores, todos eram socialmente solidários. Teve até aspectos bons este período de confusão mental!

O povo embriagado gozava esta suposta liberdade. Podia agora escolher livremente... só que não sabia que apenas podia escolher o seu novo dono. Ignorante, lançava-se como presa fácil nas redes lançadas pelos novos pescadores com novos métodos de arrasto.

E assim virou democrata sem ninguém lhe perguntar se queria sê-lo, duma democracia partidária e, dita, representativa!... não se interrogou acerca dos partidos, o que eram, como surgiram, quem os dominava, o que queriam essas pessoas... e, muito menos, acerca do que é isso de "democracia representativa" para já não falar nessa distorção oligarca da contagem de votos a favor dos mais fortes.

Então!... com a doença repentina da solidariedade hipócrita, todos os partidos eram de esquerda ou populares. Apenas um teve coragem para ficar ao centro!... numa aberração de lateralidade em que o centro ficava num dos extremos!

Os militares, endeusados a princípio, dividiram-se pouco depois captivos da máquina revanchista que começava a instalar-se e "entregaram o ouro ao bandido". Pouco depois a promessa de socialismo era "metida na gaveta", os militares foram sendo despromovidos no conceito popular como estorvos do desenvolvimento, perderam o protagonismo, os não conformados foram perseguidos... e tudo isto dentro da maior "normalidade".

O povo, esse brigava entre si, para defender o seu dono, melhor que o do vizinho. Aquele dono que ele fora autorizado a escolher entre os 3 ou 4 que o sistema lhe permitia optar.

Para tornar o processo irreversível enfeudou-se o país, abertamente, ao estrangeiro que pagou generosamente o dinheiro que encheu os bolsos dos donos do sistema mas não contribuiu em nada para o desenvolvimento do país. Era a última machada nas aspirações de qualquer sonhador que ainda restasse por aí.
Em caso de necessidade os novos donos viriam por aí para defender o que era seu.
Se os militares já eram antes inúteis em termos de defesa externa face à desproporção de forças... agora eram também inúteis em termos internos e ficavam redundantes não fora os novos donos encontrarem uma saída para o problema. Passaram, pagos por nós, a defender os interesses deles por esse mundo fora!

O povo continua alegremente a comprar carros, casas, a endividar-se e a votar... feliz na sua liberdade de escolher de vez em quando quem vai enganá-lo no próximo período.

As campanhas eleitorais tornam-se espectáculos mediáticos de prestidigitação verbal para caça ao voto nas franjas mais volúveis dos apaniguados. Nada mais. O mandato torna-se sagrado temporalmente; o programa foi uma diversão. O eleito é agora todo poderoso por 4 anos, "legitimado" pelo voto, para fazer tudo em seu proveito e dos seus traindo todas as promessas feitas com todo o despudor.

Quando damos por isso, num processo de erosão subreptícia mas persistente, vai-se fazendo a inversão de valores. Ser decente, honesto ou solidário é sinónimo de ingenuidade. Cumprir compromissos é de otário. E a moralidade, à medida que vai escorrendo para a sarjeta, começa a ser pejorativa. Ser moralista, hoje, é um dos piores defeitos de carácter que alguém pode contrair.

Defender hoje uma coisa e amanhã o seu contrário virou flexibilidade de espírito e fazer o contrário daquilo que se diz é estratégia... altos dirigentes visitam mafiosos foragidos à justiça e declaram publicamente que os "amigos não se abandonam".

E o mundo embala numa onda de vale tudo. Muito do que aqui se passa é contágio do exterior, um exterior que caminha a passos largos para a autodestruição pela ganância de muitos mas casa vez mais acessível a poucos.

Quando o mesmo povo acéfalo vitoriava a queda do muro de Berlim, como uma conquista sua!... eu exclamei: "dias negros esperam quem trabalha em todo o mundo!"

Esses dias chegaram!...

Em menos de um ano perdemos tudo o que tínhamos adquirido, em termos de desenvolvimento social, em mais de 50 anos! Até mesmo aquisições do antigo regime, que não era meigo, caíram às mãos de rapazinhos sem princípios nem valores, forjados por este sistema de moralidade deslizante, numa época de aparentes "vacas gordas" para as famílias abastadas a que pertencem, que se apoderaram dessas organizações maléficas que gerem a política e que julgam tudo poder.

São mandatários das forças a que enfeudaram o país, eu sei, mas essa é a sua traição maior num tempo sem lugar para "Zorros". Os males que fazem aqui inserem-se na mesma linha daqueles que faziam os colonizadores dos séculos anteriores na persecução deste roubo ancestral em que esta espécie evoluiu.. mas eles nem sequer percebem tão cheios que estão da sua importância, da sua razão e do seu poder!

Livre do papão soviético, o capitalismo mordeu o freio, perdeu o medo, o pudor e a vergonha. O que se passa aqui passa-se em (quase) todos os países do mundo com transferências num só sentido dos pobres para os ricos. Não há lugar ao longo do planeta onde a miséria e a fome não espreitem mais ou menos envergonhadas mesmo nos países mais ricos. E esse fenómeno acentua-se exponencialmente a cada minuto... e cada vez massas maiores de população deslizando alegre e sorrateiramente na escala social esmagadas pela diminuição dos postos de trabalho, a pressão sobre os salários e o aumento dos bónus para os gestores, são arrastadas para a pobreza... nas suas democracias onde julgam ter tanto poder.

E a democracia onde fica no meio de tudo isto?
Bem!... a democracia é aquilo que nunca foi. Esta ideia generosa nascida na Grécia Antiga com ela morreu. Este simulacro que apenas permite a escolha dos piores não passa duma sedução. A ditadura, que é uma violação, é cruel mas, às vezes, até vê aparecer, por acidente, sublinho, um homem bom. Neste regime... NUNCA!

Por isso eu não sou democrata!... pelo menos nesta "democracia". Quando em 1974/5 me propuseram jogar um jogo do qual eu não negociei as regras eu recusei... não era decerto para eu ganhar!

Perdi de qualquer jeito. Fui... tenho sido, repetidamente, violado... mas nunca fui seduzido!

Eles merecem!... mas eu não mereço isto!...


Lisboa, Fevereiro de 2013




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