Je suis charlie
Je suis charlie




"Je suis Charlie"

A coisa que mais me amargura é o poder destruidor que os "Slogans" têm na mente das multidões!

"Yes!.. we can!...", "Je suis Charlie"... só para mencionar os mais recentes e destruidores. Ninguém se interroga acerca do que está por detrás destas mensagens atómicas. A desmontagem duma bomba atómica não é fácil já que ela é o resultado de longos estudos demolidores. Nunca devia era ter sido construída. O mesmo se passa com estas mensagens.

Para simplificar apenas interrogo: " o que pensa um americano pobre, sem abrigo, cheio de dificuldades e perseguições que pode ("can") quando vomita este "Slogan"?...
... ou o que sabe um desmiolado qualquer que ao receber um prémio duma academia "chic" e o exibe com a frase desmiolada "Je suis Charlie"?.


Não sou crente. Não quero um estado islâmico na minha terra. Tal como não queria um regime soviético e quando o muro de Berlim caiu e todos festejavam eu exclamei: dias negros esperam quem trabalha em todo o mundo. Esses dias estão aí.

Os dias pós Charlie ainda não chegaram. Esses regimes não interessam aos valores duma sociedade evoluída, que não é esta, mas servem de equilíbrio aos desmandos que nesta se praticam.

Não sendo crente admiro e aplaudo a chegada, ao primeiro plano de visibilidade social, de uma personalidade excepcional que representa o nível superior de evolução mental da humanidade: o papa Francisco.
Não sei como foi possível a ascensão de tal personalidade já que o sistema, em geral, filtra quem deve chegar lá acima e não deixa passar quem não se identifique com o "Status quo".
Se fosse crente diria que foi um milagre!. Não tenho recurso a essa categoria mental limitar-me-ei a explicar o caso como acaso, tal como foi o acaso que levou ao mesmo lugar, tempos atrás, uma degenerada chamada Lucrécia Borgia que, enganando a cúria, se fez passar por homem e fazer-se eleger papa.


Embora não crente, respeito as pessoas que acreditam. Acreditar é uma instância mental básica que dá consistência à personalidade humana sem a qual esta se desmorona. O crente é alguém que precisa de algo exterior onde balizar a sua existência, que fundamente a sua auto-confiança quando ela vacila nos momentos difíceis, que o ajude a preenchar o NADA do "post mortem".
Quando não pode com o peso da consciência vai confessar-se, é perdoado e volta leve a pensar que já pode ir, outra vez para céu, até pecar de novo!

O não crente tem em si mesmo esse ponto fixo (ou sabe viver sem ele!) e não recorre a uma estância exterior para escorar-se nos momentos difíceis.

É um estado mental bem mais difícil.O não crente bem formado tem que ser uma espécie de santo laico. Não pode pecar porque não tem a quem pedir perdão e carregar um acusador interno por toda a vida é um fardo difícil de arrastar.

É uma responsabilidade imensa: ser autor, responsável por todos os seus actos, não ter a quem recorrer para culpabilizar (deus assim quis!) e perdoar, condição para continuar a enfrentar a existência sem soçobrar. Ser não crente é ter a coragem de ser deus de si próprio (nunca dos outros) e agir melhor que o deus imaginário que habita a cabeça dos crentes que nem sempre os ajuda a serem melhores. Apenas os ajuda a libertarem-se da culpa, o que, às vezes, é muito mau!... a personalidade sobrevive à custa da exploração da personalidade alheia. É o campo da psicopatia... a que a igreja procurou responder desde muito cedo, com a confissão, mas com maus instrumentos e piores resultados.

Por isso a minha admiração pelo papa Francisco já era incondicional antes desta sua viagem ao Oriente onde mostrou a sua verdadeira superioridade mental relativamente a qualquer dirigente mentecapto destes que hoje arrastam este mundo para a catástrofe.

Contrariamente a todos os "slogans populistas" ele teve a coragem de dizer esta frase sábia: "não se deve insultar a fé dos outros". E isto é o mesmo que dizer: Eu não sou Charlie... embora não aprove a morte de seres humanos!....
Eu também não. E nisto estou com Francisco, não por ser papa, mas por ser um ser superior daqueles que a humanidade tanto necessita.

Agora voltemos a quem é Charlie e o que isso representa. O pasquim francês sem reputação nem crédito era uma daquelas aberrações desta sociedade degenerada onde parece que tudo vale e nada tem limites.

Adquiriu com este triste episódio a fama (e o proveito) que nunca teve!...

Adiante...

... falemos de humor...

...humor é a forma suprema da inteligência humana se manifestar!... o humor descobre as relações escondidas que tudo tem com tudo, nesta nossa complexa existência, e apresenta-as em situações onde não eram esperadas... daí a surpresa, o encanto e a felicidade que se sente ao descobrir uma relação nova!...
O humor é uma actividade mental saudável, é psicoterapeutica, mas só é humor se feito por pessoa de inteligência superior e íntegra.

Entre os poucos humoristas que aprecio estão Max: ninguém consegue imaginar porque é que a "Mula da Cooperativa dá dois coices no telhado (coisa quase impossível!) por causa do Zé da Adega não saber cantar o fado.. do...u do..."... e isto não ofende ninguém;
algumas interpretações dum humorista inglês Peter Daniel também me impressionaram mas não conheço bem a sua personalidade para dar um veredicto;
e Raul Solnado. Não sei quem escreveu aqueles textos mas ele interpretava-os magistralmente.. aquelas rábulas acerca da "ida à guerra... da bala que para economizar era presa por um cordel... mas depois ficava a bala e cordel e era ainda um prejuizo maior!..." magistral!... e outras e outras que eram iguallmente impecáveis na exploração do absurdo sem desqualificação humana.

Tenho visto actuações pontuais de outros humoristas estrangeiros aceitáveis mas nunca as daqueles idiotas consagrados como "Mister Bean" ou um outro devasso anterior, já falecido, que invadia os espaços televisivos com escória moral.
O resto que se faz por aí é lixarada de gente medíocre que se não ofende a personalidade de alguém ofende, no mínimo, a inteligência.
Humor é assunto sério falado a rir. Faz-se humor acerca de situações gerais dos imponderáveis da vida, dos absurdos que a nossa limitada inteligência vai descobrindo no real. Humor sobre a personalidade individual ou colectiva é agressão, mesmo que seja a do próprio humorista é de encarar com reservas. As autodesqualificações também são patológicas.
É isto o que Charlie Hebdo tem andado e continua a fazer, em dose reforçada, agora com o apoio desses milhares de "charlietães" que se juntaram para dar um triste espectáculo de mediocridade, falta de senso e reforço a um perigo real.


E se nos debruçarmos sobre o historial de agressão e humilhação da nossa história temos um manancial de recursos muito mais vasto do que o do petróleo, água potável ou ar respirável...
O pasquim do Charlie Hebdo não passa duma paródia grotesca em termos de humilhação. Mas porque é grotesca tornou-se mais visível e mais vulnerável.
Coisa curiosa!.. o grotesco saiu à rua!.. e hoje todos sendo Charlie estão a declarar, sem o saber, "eu sou grotesco!"...

Eric Berne, o homem que mais fundo cavou na mente humana, escreveu um dia: "a patologia..." (mental na ausência de insufifiência orgânica, sublinhado meu) "...aprende-se com palavras e cura-se com palavras na condição que sejam as palavras certas".
"Yes we can!", "Je suis Charlie" e outros de menor virulência são vírus psicológicos contaminantes por palavras.
Eric Berne ("again!") numa teoria um pouco mais elaborada também nos ajudou a compreender que em comunicação existem vários níveis de informação numa mensagem. O nível social explícito; o nível psicológico escondido e nível existencial mais escondido ainda, de tal modo que nem o protagonista tem consciência dele.

"Yes!.. we can"... quem é o "we"?... ele no topo da pirâmide ou o sem abrigo das ruas de New York?. É aqui que se situa a mensagem escondida: quem pode é ele e os seus sequazes... mas o sem abrigo acredita que também pode porque a mensagem é "democraticamente" dirigida a todos a nível social mas só aproveita a alguns (nível escondido). É isto que é preciso repensar nas democracias... o que se promete é o que se faz, e é para bem de todos?... não estarão os políticos a disseminar uma patologia mental perigosa?... mas... adiante...

Quem é Charlie?... o presidente da república francesa que despreza um pasquim que nunca leu ou o político oportunista que se serve deste episódio triste para promover os valores errados que representa?

Será que estes senhores nunca ouviram o "slogan" "Allahu Akbar!". Se quem obedece a este "slogan" está errado como pode estar certo quem obedece a "Je sius Charlie" uma mensagem psicológica com o mesmo efeito devastador apenas com conteúdo diferente. Coitados!... nem percebem que estão no mesmo barco, a cometer os mesmos erros apenas no bordo oposto e remando em sentido contrário.

Francisco, na sua mundividência rezou pelas vítimas e pelos agressores: Espero que tenha melhor sorte que um seu antecessor muito menos assertivo.

Ao fazê-lo teve um gesto de inteligência rara. Lamentamos a perda de vidas humanas. As vítimas e os agressores, eles próprios vítimas de outras atrocidades cometidas por outros agressores.

A questão que se põe é porque são recrutados e porque se deixam recrutar. Mas isso ninguém discute.

As causas vêm de longe. Os actuais responsáveis herdaram-nas e as suas culpas começam apenas quando as adoptam como valores seus e nada fazem para eliminá-las. Pelo contrário, amplificam-nas acumulando dívida social para as gerações futuras tornando-as cada vez mais difíceis de eliminar.

O bem estar das sociedades ditas desenvolvidas é vermelho. Vermelho de sangue diluído em lágrimas de muitos milhões. Gente do passado, gente do presente e prepara-se para gente do futuro e isto é que é insustentável.

Deixo para trás a barbárie que é toda a história, dita heróica, e transformada em valores, do desenvolvimento humano. O chamado Renascimento e a Revolução Francesa, no ocidente, foram a oportunidade falhada para a mudança deste paradigma indigno dum ser humano decente.

Toda a história dos descobrimentos, a coberto de uma crença religioso hegemónica, mas de facto de saques, razias, e humilhação suprema, a escravatura, com deslocação de seres humanos do seu habitat e desmembramento de famílias expatriadas, as ocupações e rapinas posteriores e continuação da exploração e humilhação das populações locais que subsistem ainda hoje sob formas mais disfarçadas mas igualmente cruéis... geram muita raiva, muita revolta, muito ódio mesmo contra os cidadãos inocentes nos estados humilhadores. Há um potencial explosivo de raiva acumulado na memória histórica mas também no ADN, introjectado pelo mecanismo de evolução natural, destes povos subjugados.

Só a título de exemplo, será por acaso que no mesmo mês em que se dão os acontecimentos de Paris, uma revista séria e prestigiada francesa publica uma investigação jornalística no Níger onde a França faz exploração de urânio para as suas centrais com desrespeito de quase todas as regras sanitárias, de segurança e de valores sociais de populações nómadas que têm um sentido de propriedade diferente do nosso, a que nem o próprio estado nigeriano se consegue opor?.
Agora as nascentes estão contaminadas, as pastagens estão a desaparecer, os animais a morrer e a gerar nados monstros, o que já se estende aos humanos com níveis de radiação que chegam às 2000 vezes superiores às "toleradas" pelas organizações internacionais tuteladas por esses mesmos interesses.

A hipocrisia reina a todos os níveis. A recente intervenção militar francesa no Mali, ali ao lado, pode não ser alheia à defesa destes interesses, justificada como ajuda a um governo fantoche.

Não caberia no meu tempo, nem na paciência do leitor, a descrição de todas as atrocidades em que assenta o bem-estar, pelo menos dos mais favorecidos, das sociedades ditas desenvolvidas.
Desde a colonização de toda a África, América e grande parte da Ásia sobretudo o Médio Oriente às posteriores intervenções militares, nesses países, com o aval de fantoches estrangeirados que nada tem a ver com o sentimento das populações locais, às práticas ditas industriais de que o exemplo dado não passa de um dos muitos que ainda se praticam por petrolíferas, farmacêuticas à exploração financeira por meios sofisticados... tudo concorre para um sentimento generalizado de ódio contra um tal sistema mesmo já dentro desses próprios países.

Na mira e ilusão de usufruir desses benefícios, a hipocrisia interna dos países exploradores, recebe imigrantes oriundos desses países, não porque sejam assim tão liberais como se afirmam mas porque precisam ( precisaram) deles, em período de expansão, para "refrescar" os salários. Isto é para não pagarem um salário de acordo com as leis de oferta e procura que defendem... no que lhes interessa, mas que não praticam.

Num sistema de expansão especulativa geram-se "bolhas" que rebentam. O desemprego atinge em primeiro lugar esses imigrantes, os mais vulneráveis, e os filhos destes, desenraizados, já não são de lá mas também não são de cá. Têm aspirações como se fossem autótones e menos oportunidades ainda do que os mais desfavorecidos locais. Resultado?... preciso dizer?!...

Com os modernos meios de comunicação é fácil juntar as insatisfações de lá com as de cá. A miragem dum mundo melhor faz o resto.

Os Charlies, são Charlies manipulados sem saber porquê. Todos os dias morrem milhares de pessoas assassinadas por razões bem mais triviais de que ninguém fala. O Charlie, um pasquim desprezível que quase ninguém lia recebeu uma solidariedade acéfala porque é um jornal e o que se está a defender, hipocritamente, mais uma vez, é o sagrado valor da liberdade de imprensa, no ocidente tão sagrada como Alahu o é para os seus crentes. Estamos numa guerra de religiões: uma profana outra sagrada ambas igualmente fanáticas.

A sagrada liberdade de imprensa ocidental, à qual até os políticos se submetem com subserviência canina, é uma falácia!... e os seus protagonistas confundem-na com o DIREITO de informar, uma coisa que não existe, que não passa da exploração dos sentimentos mais baixos da intriga e da coscovilhice ou da exposição gratuita do abjecto.
Ou ainda a liberdade de incomodar, importunar, violar privacidade e intimidade de pessoas, o direito a dizer e fazer tudo sem respeito pelo pudor ou crenças alheias porque informar as pessoas é um valor supremo, no seu entender, que se sobrepõe aos interesses dessas mesmas pessoas.

O direito à informação é inalienável. A liberdade de informar é um abuso. Quando alguém está mais interessado do que eu em defender os meus direitos, eu desconfio. Qual o seu interesse nisso? Às vezes nem é o conteúdo que está em causa, são os métodos para obtê-lo que são ofensivos.

Existe sim um DEVER de informar. É o que as publicações sérias, como a GEO, fazem mas essas são quase tão raras como papas Franciscos

O Charlie Hedbo, um pasquim de vão de escada, foi o rastilho para um incêndio que ninguém sabe como apagar.

Tudo o que foi feito foi para exaltar ainda mais os ânimos dos antagonistas que radicalizando-se vão pôr a Europa a ferro e fogo.

Na fronteira sul é já insustentável à pressão demográfica pacífica... imagine-se quando for violenta. E a entrada descontrolada de povos de todas as latitudes vai ampliando aquilo que já é o caos da maioria das grandes cidades, os guetos estrangeiros.
A imigração num país é um assunto muito delicado, mas os "slogans", mais uma vez arrastam a razão para o caixote do lixo. Pô-la em causa é xenofobia!... mas a imigração só é útil para o país e para o imigrante se for lenta e pontual para o imigrante ficar inserido num contexto local e integrar-se... isto é, aprender os hábitos e costumes locais para evitar choques culturais. Imigração em massa gera núcleos isolados da cultura local que acabam por nunca se integrar, resistir à cultura local, pô-la em causa, querer substituí-la pela sua e provocar choques sociais com perda de qualidade de vida para todos, locais e imigrados. A longo prazo descobre-se que metemos o inimigo em casa.

Preciso de dar exemplos?... a França e a guerra das "burqas"... e essa é uma guerra menor... os guerrilheiros muçulmanos... (recuso 'slogans' - os "terroristas" de hoje são chefes de estado amanhã e essa qualificação é facciosa, depende do ponto de vista do observador)

A imigração e os seus efeitos devastadores não se controla com meia dúzia de leis, uns polícias e uns tantos militares. Ela é insidiosa.
E a Europa se quer sobreviver como pólo civilizacional precisa fazer o seu trabalho de casa, fazer "mea culpa", e pedir desculpas pelos erros cometidos.
Precisa de descolar da subserviência aos EUA e do apoio uma uma sua guarda-avançada expansionista, no Médio Oriente, fonte de todos as tensões, riscos e instabilidade modernos, deixar de explorar os povos menos desenvolvidos, ajudá-los a desenvolver-se para não terem necessidade de imigrar e viver em paz e com respeito por todos os povos independentemente das suas crenças.

Os acontecimentos de Paris e a "caça às bruxas" em curso só contribuiem para o estremar de posições e segundo as leis da psicologia grupal, num conflito, não vence o grupo mais forte. Vence aquele que tiver maior coesão entre seus membros. E tem maior coesão aquele que acredita em algo superior ao ser humano. A Europa tem uma religião mas já só acredita em dinheiro.
Não está preparada para este conflito... e é por tudo isto que...

"Je suis PAS Charlie"

Lx17/01/2015



Apostilha
A resposta errada a este trágico episódio teve o condão de, em poucos dias, pôr todos os mussulmanos, e não apenas os fanáticos, contra o Ocidente. Os dias "post Charlie" começam mais cedo do que eu tinha previsto.

18/01/2015


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