Cambalacho
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Worten sempre!...


Comprei, no dia 10/02/2016 um telefone Samsung J5 "Desbloqueado" na Worten Vasco da Gama. No escaparate, contendo várias marcas, dizia apenas DESBLOQUEADOS, como se mostra na imagem.

Duas semanas depois esse telefone chegou ao Brasil, para se descobrir com surpresa, frustração e raiva que não era desbloqueado.

Na Worten, com aquela razão que sempre assiste aos poderosos, dizem-me categoricamente que o telefone é desbloqueado... só que não funciona no Brasil mas essa contradição não faz o menor sentido para eles. O analfabetismo funcional tem destas coisas mas quando é utilizado para nos enganar, como mais adiante demonstrarei, é crime.

Para funcionar no Brasil, o meu telefone teria que fazer uma chamada em Portugal de, pelo menos, cinco minutos!...
Já há mais de 2000 anos que se descobriu que este tipo de argumento resulta dum raciocínio falso chamado sofisma. Porque continua a utilizar-se?... porque a ignorância é a doença crónica mais terrível que a humanidade contraiu há milhares de anos!

Ora eu para usar uma coisa que, supostamente, é minha tenho que comprar um cartão telefónico a uma operadora portuguesa e falar cinco minutos nem que seja com um desconhecido a quem não tenha nada para dizer!... para ficar, então, dono do que já é meu!.
Há um argumento. Está escrito no fundo da caixa... mas a gente só vê depois de comprar. E se não quiser aceitar essa condição?!... como é?... já comprou. Pode não ser capaz de ler aquelas letras pequeninas já reprovadas em muitos contratos mas ainda persistentes noutros. A situação legítima, honesta e legal seria no escaparate dizer-se "DESBLOQUEADOS em Portugal ou Europa, consoante o caso.. mas não, não se diz nada e esta falha transforma uma prática que seria honesta numa que é desonesta.

Mas tudo isto não teria muita importância no meio de todos os problemas da vida. Se fosse um caso isolado. Mas não é.
Há cinquenta anos prendia eu, na rua, trapaceiros menores que usavam este esquema para enganar otários que vinham da província com a técnica do vigésimo premiado.

Também ali havia por parte da vítima o dever de defender-se e não acreditar que um citadino lhe vinha oferecer uma fortuna para ele, acabado de chegar, resolver um problema que ele citadino não conseguia. Apesar de tudo era considerado crime, crime de burla e o cambalacheiro menor, um desgraçado de rua, ia para a choldra, repetidas vezes porque não sabia fazer mais nada. Mas era crime porque se tratava de explorar a desvantagem, a credulidade do outro para tirar proveito dela.

Esta sociedade está organizada para defender os fortes dos fracos. Porquê?.. se eles são os mais fortes?... simples: porque são menos. O cambalacheiro de rua e o propagandista de feira foram substituídos pelos cambalacheiros ricos. Hoje o conto de vigário faz-se nos bancos, nas companhias de seguros, nas farmaceuticas, nas energéticas, nas operadoras de telecomunicações, nos "shoppings" e nas televisões. Para comprar um telefone desbloqueado em Portugal tenho que pagar uma "royaltie" a uma operadora de telecomunicações!
Depois do capital ter descoberto as economias de escala e os grandes negócios já não satisfazerem a gula, os ricos viraram-se para o pequeno negócio. Se ele alimentava milhares de pequenos intervenientes porque não meter esses milhares num mesmo saco!?... e ainda por cima impunemente!...
E é assim que temos funcionários pobres a fazer conto de vigário para ricos e ricos filhos de políticos, e outros, a fazer o que faziam os propagandista de feira no passado vendendo banha da cobra que cura todos os males desde as impigens, furúnculos, tosse, catarro, diarreia e caganeira, bem como os males da alma desde o mau olhado, espinhela caída ao cobranto!.
E a versão moderna, por atacado, de todos estes benefícios sob a forma da sorte no jogo... "são só 60 cêntimos e pode ficar feliz para sempre!".. ainda faltam dois segundos.. ainda tem tempo... olhe que os últimos são os primeiros".. "já imaginou o que fazia com 50 cêntimos num cartão que só pode utilizar para fazer compras..."... ahhh!... enganei-me: isto eles não dizem!... são as televisões.

Mas isto não passaria de ridicularias se não fosse mais grave. O que são uns milhares de euros roubados anualmente a cada pobre duma maneira limpa sem a crueldade de antigamente? Os pobres até podem sentir-se felizes por já não lhe usarem a casa, a cama e a mulher contra sua vontade!...

É que usar as palavras no seu significado literal numas situações e no seu significado escondido noutras é sinal dum problema grave que afecta a humanidade, a maioria dela, com uma doença mental epidémica e crónica que desfaz a função social da língua e mina a confiança no uso da palavra, a função mais maravilhosa, depois do pensamento, que a humanidade desenvolveu!

Lisboa, 26/02/2015



Reclamação
A Worten parece não gostar de reclamações. Aqui cumpre a lei "procrastinando". O livro de reclamações não se encontra tão acessível como a venda de telefones pseudo-desbloqueados. Para consegui-lo tive que ir a um serviço especial, tirar uma senha numa máquina sem opção para reclamações, esperar uma hora para ser atendido por um funcionário que, assustado, chamou por um intercomunicador escondido no colarinho, depois saíu, viajou por várias secções até, bastante depois, aparecer finalmente um cavalheiro com o devido livro. Este parece ser mais um mecanismo para desincentivar o uso do livro, o que não sendo ilegal, não é ético... mas disso nem vale a pena falar.








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