BANCÁRIOS!...
BANCÁRIOS!...






Não!.. esta imagem não é de Portugal!...

Em Portugal... os bancários estão amordaçados pelo poder desde 1975.

Não consigo imaginar como foi possível a classe mas bem paga, mais prestigiada e ao mesmo tempo mais aguerrida contra o antigo regime transformar-se na classe mais submissa, mais mal paga e sem prestígio que tem hoje.

Em Portugal, desde 1974, todas as classes trabalhadoras ganharam prestígio e poder de compra excepto uma: os bancários que desceram ao fundo da tabela e hoje se alinham de fatinho preto e ar circunspecto, à porta dos bancos, mais parecendo uma chusma de empregados de agências funerárias.

Estes bancários da imagem são os bancários brasileiros que, quase cada vez que venho ao Brasil, estão de greve!...

Uma imagem de fazer inveja a um velho combatente que arriscou a segurança pessoal e familiar para conquistar privilégios para os outros já que gozava deles na sua classe de trabalhadores.

O que aconteceu em Portugal para que uma classe tão aguerrida fosse castrada tão eficazmente?

O sindicato caiu nas mãos erradas que o destruíram, lhe cortaram a fonte da sua força pela raiz e se transformou num instrumento de manipulação política ao serviço do PS, o partido mais reaccionário da esfera política portuguesa e responsável não só pelo empobrecimento dos bancários mas pela miséria em que o país caiu que ao fim de 40 anos está pior do que no tempo do antigo regime.

Nada de confusões!... há coisas que estão diferentes mas são resultado dum progresso geral do desenvolvimento tecnológico e não de obra política.

O sindicato dos bancários foi castrado quando aboliram as ASSEMBLEIAS GERAIS e as transformaram numa xaxada de directório com gente já filtrada pelo sistema para tomar decisões (erradas).

As ASSEMBLEIAS GERAIS com intervenção e voto a partir da base eram a força, o nervo e o prestígio daquele sindicato. Enfrentaram a ditadura, a PIDE, e os banqueiros pondo-os em sentido num tempo particularmente difícil!

As intervenções espontâneas, que gozavam dum certo anonimato, davam origem a propostas que pelo efeito de contágio de multidão se transformavam em decisões revolucionárias.

Todo o grupo que se apodera do poder vira reaccionário. Ao PS, que apesar de ter partilhado esse poder com forças ainda mais reaccionárias à sua direita, cabe a grande responsabilidade de ter traído aqueles que nele acreditavam e destruído, não apenas as esperanças mas também as realizações dum país que se queria mais justo, mais próspero e mais solidário.

Apesar de tudo o PS não me desiludiu. Sabem porquê?... porque nunca acreditei nele... porque nunca acreditei em nenhum deles. Na minha linguagem de juventude chamava aos partidos "bandos organizados de malfeitores legalmente constituídos!..." e paguei bem caro o preço dessa minha visão. O tempo deu-me razão. Hoje só não vê isso quem não quer... mas eles enriqueceram e eu empobreci sempre!

Não me perguntem, como fazem tantos ineptos, como seria a sociedade sem partidos. Já não estou cá para isso. O meu tempo passou.
Estudem e pensem. A democracia no lugar onde foi inventada não tinha partidos e a sua própria etimologia exclui essa hipótese: demo=divisão administrativa e cracia=poder...

Quem diz que não há democracia sem partidos são as castas que se associaram dessa forma para defender os seus privilégios e não os de uma nação!..

Mas com a democracia nasceu também uma sua irmã gémea de que ninguém fala: demagogia... demo=divisão administrativa e gogia=garganta (palavras sem acções, conversa para enganar tolos) e é isso que se pratica modernamente não apenas em Portugal mas em todo este espectro capitalista selvagem.

Os bancários, generosos mas mal instruídos, foram vítimas dessa confusão. Adoptaram a demagogia julgando-se democratas. Coitados!... mesmo com democracia talvez não tivessem tido mais sorte. É que a própria democracia morreu quase à nascença!..... Sabem porquê?... muito simplesmente porque as decisões tomadas por maioria são sempre medíocres. Matematicamente uma decisão dessas é igual à soma de metade dos mediocres+um...

As decisões geniais são filtradas, às vezes aparentemente aceites mas estereotipadas e nunca passam por ofenderem os interesses daqueles que manobram, sem escrúpulos, as máquinas sociais.

As minhas maiores decepções nas reuniões de que participava então era aparecerem os partidos como uma inevitabilidade, prontinhos com os seus directórios que eu nunca tinha visto na luta e só me restava aprovar as decisões que já vinham feitas não sei de onde!...

Na minha ingenuidade eu acreditava que íamos construir uma máquina administrativa nova, de base, de acordo com os ideais que defendia.

Ora isto contrastava com o poder que eu tinha no tempo da ditadura. De repente, eu um ser interventivo, ficava reduzido a um levantador de braço para aprovar coisas!...

E era a isto que chamavam democracia!... resisti... resisti... resisti... ... ... desisti... era perigoso, agora mais que nunca ser do contra quando todos estavam a favor. Não sabiam de quê... mas estavam a favor de qualquer coisa tão contentes como "gato com um bugalho".
O anonimato do tempo da ditadura tinha desaparecido. Agora antigos companheiros apupavam-me e, pior que isso, corria outros riscos.

Tal como no berço onde nasceu, e mais tarde em Roma, a democracia falhou... mas ainda ninguém se apercebeu disso... ou, tal como a avestruz, metem a cabeça na areia para não enfrentar o perigo na falta geral de ideias para resolver a situação caótica em que o país (e o mundo) caíu...

As desigualdades sociais crescentes, o aumento excessivo da população, a diminuição dos recursos e concomitante expansão dos dejectos, a informação generalizada (mesmo que manipulada) criam estados de explosão social que ninguém vai conseguir conter.

Não vou estar cá... não queria estar cá nesses dias!

Pena tenho ter deixado cá descendentes para passarem por isso!


João Pessoa 03/10/2014


Apostilha
A "democracia" daqui está no auge do seu fervor!

Ontem à noite uma cacofonia caótica, semelhante a graças de palhaço mas com uma intensidade audível de violar as defesas dos vidros que resistem ao barulho normal da rua, entrava pelos ouvidos dentro numa ofensiva violadora de todos os direitos ao bem estar.

Na rua apercebi-me de que palhaços teriam vergonha de fazer aquela charada sem sentido de auto-interrogações curtas e respostas com repetição prolongada de uma única sílaba de pôr os cabelos em pé até a um elefante.

Dava vontade de ir lá e perguntar se não tinham mais nada para oferecer aos seus eleitores!... mas não sou brasileiro, não tenho direitos aqui.

Reflectindo, no boteco, onde fui comer um petisco como jantar, apercebi-me que estes eram os políticos mais honestos que eu já tinha visto!... mostravam tudo o que tinham: "falta de ideias e muita capacidade de incomodar!"


Fortaleza, 05/10/2014




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