Crimeia
Crimeia







Corria na TV, em nota de rodapé, a informação de última hora: "Putin pede à Camara Alta autorização para enviar tropas para a Crimeia"... e logo a seguir... "Putin esclarece que forças militares mantar-se-ão ali até que a situação sócio-política na Ucrânia esteja normalizada" (citado de memória).

A meu lado, duas adolescentes discutiam os óscares americanos. Era uma injustiça se o Sr. "A" porque quem merecia era o Sr. "B".

Tinham mais de 60 anos de esperança de vida à sua frente num mundo onde as incertezas relativamente ao futuro crescem na proporção directa do aumento de população e na inversa da existência de recursos.

Mas as preocupações delas nada tinham a ver com o seu futuro incerto e sim com o de pessoas que vivem e sempre viveram bem à custa, ainda que indirecta, delas.

Porque é que estas coisas acontecem? Ninguém se interroga. A isto eu chamo programação mental. Os seres humanos são programáveis, à semelhança de qualquer máquina , para acreditarem, pensarem, sentirem e agirem de acordo com os interesses dos fazedores de cultura e contra os seus próprios interesses e bem estar.
Voltarei a este assunto um dia se tiver tempo e arte!...
Por agora vou ficar pela notícia de roda-pé da TV.

A Crimeia é uma península virada para o Mar Negro quase, encravada na Rússia, república autónoma, que a Ucrânia reclama como território seu desde aquela confusão que foi o desmembramento da União Soviética.
É ali que se situa a maior base naval, agora russa, onde jaz o arsenal nuclear, em coma induzido, da antiga URSS e é a porta de saída naval da Rússia para o Mediterrâneo, Atlântico Sul e Índico.



Vivi toda a minha vida sob o espectro da guerra. Umas quentes, outras frias, estiveram sempre presentes durante toda a minha existência a tal ponto que um dia, na minha infância, quando me deslocava ao centro da aldeia (uma aldeia bonita e eu não o sabia-agora em decadência!) passando por um espaço desabitado de estrada profunda cortada pela erosão milenar, me cruzei com o que então se chamava uma "cegada", representação carnavalesca itinerante que passava naquele momento.

Tinha acabado a Segunda Guerra Mundial e estávamos no auge da guerra na Coreia (tão longe!... mas o meu mundo de então não tinha dimensão - tudo se passava no mesmo lugar!). Quando vejo aquele gente toda (umas dez pessoas!) com trajos e artefactos inabituais imaginei que a omnipresente guerra já tinha chegado ali... Foi o terror sem ter para onde fugir naquele fosso profundo. Encostei-me o mais que pude à barreira com o coração aos saltos e respirei fundo quando os vi de costas pensando ter sobrevivido à guerra!.. rsrs

Nasci no centro cronológico da Segunda Guerra Mundial e sofri as privações então impostas às populações nos sacrifícios económicos que tinham que fazer para Salazar ajudar Hitler. Tal como agora com o fim da Troica, o fim da guerra não representou o fim das privações. Mas essas privações eram de carácter diferente. Havia dinheiro (porque as pessoas não tinham onde gastá-lo!) mas não havia productos. A maioria estavam racionados e os alternativos de contrabando custavam muitas vezes mais caro.
Os carrascos de hoje tiram-nos o dinheiro e mostram-nos os produtos que não podemos comprar. Quais os mais cruéis?!...

A Guerra Civil espanhola estava ali ao lado mas naquele tempo não havia distâncias. Para mim era tudo guerra. A Guerra da Coreia era bem mais evidente e perigosa sem eu saber porquê mas era dessa que eu tinha medo. Para mim qualquer guerra eram as atrocidades perpetrados pelas tropas napoleónicas, em fuga depois da derrota, cujos relatos de transmissão oral me chegavam pela minha avó.

Seguiu-se a interminável e confusa época que veio a denominar-se de "Guerra Fria" com a corrida aos armamentos em que cada parte anunciava ter fabricado uma bomba atómica com mais megatoneladas a ponto de esgotarem a parada de demarcação de território por esta via pois já não havia terra para destruir com mais tonelagem!...
Embora nunca tenha havido um confronto directo, a destruição causada nesta "parada nupcial" de Guerra Fria causou mais estragos que qualquer outra guerra sobretudo em inocentes sujeitos aos efeitos não controlados das experiências nucleares, no interior da própria América, na Rússia e em lugares ainda mais inocentes como os atóis do Pacífico, isto para não falar do crime maior e mais horroroso da história da humanidade numa altura em que a guerra já estava vencida na Europa: as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.
Aquelas bombas não foram lançadas contra os pobres inocentes do Japão que habitavam aquelas cidades. Foram lançadas contra a União Soviética para demarcar território e mostrar quem era o mais forte. Mas não podiam ser lançadas contra o antagonista. Era perigoso demais. É mais fácil usar indefesos para mostrar a nossa força!

Esgotada a tonelagem das bombas entramos no jogo espacial. O envio da famosa cadela Laika é uma bofetada no rosto da América que, de triunfo em triunfo para ambos os lados termina na reivindicada chegada à Lua pelos americanos. O espaço é enorme, infinito, mas a tonelagem espacial dos antagonistas terminou aqui. Passados mais de 40 anos ninguém mais voltou à Lua, e ambos antagonistas se contentam com uma modesta e partilhada estação espacial orbitando algures por aí até se despenhar, um dia, com todas as consequências, mais uma vez, para inocentes.

Entretanto, ambos os antagonistas foram jogando os seus jogos de poder por aqui e por ali anexando territórios vizinhos, intervindo nos assuntos internos de outros, fazendo e desfazendo governos dentro da sua esfera de colonização com epicentro num acontecimento maior: a Guerra do Vietname, que foi o maior revés externo e interno para a América ao mesmo tempo que a URSS se afundava no Afeganistão.

Entretanto, o monstro inconcebível da URSS desmoronou-se nas mãos dum pacóvio, penso que bem intencionado, mas ingénuo que julgava fazer voltar aquele monstro aos ideais nobres dos princípios apregoados. O que restou dos seus escombros foi cair nas mãos de um bêbado com a cabeça programada pelos americanos que gerou um caos que vai levar muitos anos a reparar.

Não sei que artes teve um antigo quadro da polícia secreta soviética para se apoderar do poder, pegar nos escombros deixados pela devassa americana e tentar devolver ao seu país o prestígio antigo.

Os acontecimentos na Crimeia são uma cartada nessa nova fase do mesmo jogo com o reacender de rivalidades acerca de duas concepções do mundo, já que a China se revelou incapaz de preservar os princípios saudáveis duma sociedade decente e adoptou a sua versão americanizada para pior!.. embora se declare, neste caso, a favôr da causa russa.

A Crimeia é antiga URSS, é Sebastopol vital para a Rússia, e em frente no Golfo de Odessa fica a cidade do mesmo nome, fundada por Catarina da Rùssia, com fortes laços históricos com este país, porto de primeira importância mundial, palco da revolta do Couraçado Potemkin que Eisenstein imortalizou numa obra grandiosa de cinema mundial.

Pedir ou tentar obrigar a Rússia a abrir mão destas jóias da coroa que são história, orgulho, simbolismo e sobrevivência duma grande nação cheia de história e cultura com lugar cimeiro nesta civilização ocidental prestes a desmoronar-se... é mergulhar o mundo num abismo de consequências imprevisíveis.

A Crimeia pode ser o factor desencadeador dessa ruina e aquelas adolescentes ficam sem saber quem ganha os óscares americanos, senão nesta, pelo menos em futuras edições!...

Isso é o que me preocupa!...

Lisboa, 1 de Março de 2014




Visitas: