A toponímia portuguesa persegue-me. Para trás e para os lados ficam várias terras portuguesas e à frente está Óbidos. É aqui que a vasta planície amazónica se estreita, na zona, outrora, montanhosa, em que o Amazonas teve de cavar o seu leito escoando, para o Atlântico, o vasto pântano formado pelo enrugamento dos bordos da placa sul americana e a de Nazca ao chocarem, há milhares de anos, formando a cordilheira dos Andes, impedindo o escoamento, desta vasta zona, que, até então, se fazia para o Pacífico.
É também aqui que se situa a fronteira do Pará com o Amazonas. A paisagem muda. Os efeitos da maré já não se fazem sentir e altura das águas depende agora da estação do ano cavando margens mais altas numa floresta com mais espaços abertos, explorações pecuárias e as árvores, ameaçadas pela corrente, desenvolvem sistemas complexos de enraizamento para manter-se agarradas à vida. Como estamos a um mês do equinócio do outono e a cerca de três/quatro graus de latitude sul, o sol, ao meio dia, passa na vertical formando sombras que desenham circunferências perfeitas à volta do caule das árvores.
É maior a quantidade e variedade de aves e os primeiros botos só aparecem nas proximidades de Manaus.
O Amazonas é um dos poucos rios, no mundo, sem nascente. Alimenta-se da água dos dois tributários Negro e Solimões. Estes, encontram-se, mas não se juntam permanecendo, lado a lado, por vários quilómetros dando um dos mais extraordinários espectáculos da natureza!... As águas negras do rio do mesmo nome, carregadas de partículas vegetais resultantes da decomposição da abundância destes detritos ao longo do seu curso que lhe dão um pH elevado e uma densidade diferente das do rio Solimões mais carregadas de partículas minerais resultantes da erosão e de cor amarelada, não se fundem e parecem mesmo encetar uma luta de empurra-recua desenhando formas semelhantes às das correntes quentes e frias da atmosfera, quando se encontram. Mas aqui bastante mais visíveis para o observador comum!... Constitui mesmo uma das atracções turísticas da região!...
Alguns quilómetros mais acima, fundaram os portugueses, em 1669, na margem esquerda do rio Negro, o forte de S. José do Rio Negro que mais tarde mudou para Fortaleza da Barra de S. José do Rio Negro. O nome de Manaus só lhe foi atribuído mais tarde, quando a pretexto de colaborarem com os holandeses da Guiana, interessados nestas possessões, os portugueses submeteram o chefe indígena do mesmo nome, com quem tinham mantido relações pacíficas até então.
A cidade, reputada como a mais quente do Brasil, é um verdadeiro sufoco com temperaturas de mais de 40º à noite!... uma população formigante em feira permanente em pleno centro distingue-se de S. Luís pela sua maior insegurança.
Apesar do aparecimento chocante de alguns mastodontes arquitectónicos no centro desalinhando por completo com a arquitectura tradicional e desfeando a paisagem vista de longe, a cidade conserva ainda muita da sua antiga beleza desde as fachadas de edifícios comuns aos palacetes como o dum antigo barão da borracha, hoje Centro Cultural Palácio do Rio Negro albergando vários serviços incluindo a Secretaria do Turismo, vários edifícios da zona portuária com o edifício da Alfândega, que foi trazido pedra-por-pedra da Escócia como balastro dos navios. Uma relíquia rara, senão única!..., é o mercado Adolfo Lisboa, uma réplica do já demolido parisiense Les Halles, atribuído a Eiffel, que conserva ainda todo o seu esplendor.
O centro da cidade desenha-se em concha com vértice na Praça da Matriz e um pouco mais acima próximo da charneira encontra-se um maciço impressionante formado pelo Teatro Amazonas, tido como o mais belo do Brasil e um dos mais belos do mundo; nas traseiras o imponente Palácio da Justiça que, embora pintado de amarelo não perde nada da sua solenidade!...; na frente o Monumento à Abertura dos Portos, formam um conjunto admirável.
Nos arredores, o INPA (Instituto Nacional de Pesquisa Amazonas) é um parque e um centro de investigação digno duma visita sendo de notar o extraordinário concerto que a sua colónia de aves executa constantemente.
Para um cheirinho de floresta, o mais acessível é o lago Janauri, sem grandes surpresas... e a Victoria Regia, na estação seca... uma desilusão!...
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