Belém
Viajar no tempo é uma linha de força constituída por dois vectores que apontam em direcções opostas: as memórias ancestrais e a imaginação criativa. Deslocamo-nos nela instantaneamente por transmutação nas asas da fantasia!... ora em direcção ao passado... ora em direcção ao futuro... e ao rasto deixado por esta ilusão, momento sem tempo, fugaz e intangível, chamamos presente!...
Mas é esse momento fugaz, impalpável e indefinido que dá existência aos outros dois revelando-lhe a realidade, ao vivo, à qual extirpam a matéria para apoderar-se da forma e sobreviver!...
Quantas vezes já tinha visitado a Amazónia projectando o passado no futuro sem lhe dar esse instante intangível do presente?!... milhentas!...
Estou na Amazónia!... dizia-me a mim mesmo ainda na ilusão da fantasia!... ainda não refeito do choque de cair, de noite, dentro duma metrópole de pressão social acentuada!...
Longe vai a sensação de segurança e tranquilidade do nordeste maranhense!... aqui... é preciso olhos multifacetados para ver em todas as direcções!... No entanto, Belém é, para além da muita miséria e consequente pressão social, uma cidade bonita. As suas avenidas orladas de mangueiras gigantes que desenvolvem nas suas copas um verdadeiro manto botânico de plantas adventícias alimentando-se dos nutrientes nos troncos ou em suspensão na humidade elevada do ar põem-nos fora da noção redutora de cidade oposta a selva!...
Alguns espaços recuperados, com gosto, como Viver o Rio ou a Estação das Docas fazem lembrar que o tempo não parou ali... e o antigo Entreposta da Fazenda Real, hoje Mercado Central, conhecido como Ver-o-Peso, nome derivado da pesagem das mercadorias para pagamento de direitos à coroa, património da humanidade pela UNESCO, de arquitectura genial, em azul baço, projectando a sua silhueta sobre o rio, junto ao porto de pesca e próximo do Forte do Castelo, local do primeiro acampamento português que deu origem à cidade, são disso exemplo.

Caía sobre a terra o manto lúgubre de Morfeu quando Belém se esfumava na distância como que levada pelo Zefir. O Nelson Correia debatia-se com a mareta e a corrente da Baía como quem luta com um monstro invisível!... as águas calmas do Amazonas estavam ainda por vir.

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Quando a aurora mostra os seus dedos róseos pela manhãzinha!... o espectáculo é de cortar a respiração! Balouçando-se, qual embalador gigante!.. junto à margem, o Nelson Correia devora as primeiras das mil milhas que o separam de Manaus. Balouçando-me na minha rede salto directamente, dos braços de Morfeu para o reino Apolo!... tudo ali é harmonia!... a cor róseo-dourada dos primeiros reflexos da manhã espelhando-se no vasto lençol de água... , os matizes de verde-dourado e plúmbeo da orla de floresta e seus reflexos na água ora opondo-se ora fundindo-se... , as aves que iniciam os primeiros voos da manhã chilreando... , as casinhas palafitas encrustadas na orla ribeirinha, como grandes aves pernaltas que tivessem acordado mais cedo... não fora a presença à porta dos seus habitantes mais madrugadores.. , uma temperatura cálida... e o ritmo biológico a que o movimento da paisagem se dá ao nosso lado quase que ao alcance da mão oferecendo sempre novas perspectivas da mesma beleza... tudo se conjuga para oferecer um espectáculo único e inesquecível!... eis senão quando!... (parafraseando de novo) uma canoa com duas crianças se dirige para o barco, em rota de colisão, como que, numa desproporção de forças entre David e Golias, quisesse abalroá-lo!... nenhum pára... nenhum se desvia... o choque é inevitável... e o resultado previsível... até que..., no instante derradeiro, num golpe de mestria, é lançado um arpão ao pneu que faz de defensa no barco. O embate não chega a dar-se de frente..., a canoa arrastada acaba por bater de lado uma pancada mais amortecida, ginga quatro ou cinco vezes em oscilações mais curtas à medida que é atracada ao barco, em movimento!... e içada de modo a ficar só com a popa a arrastar!... a estes seguem-se outros, alguns adolescentes, largando uns quando outros abordam...

Trepar ao convés não exige menos perícia acrobática e transportar para ali, sem as perder, as mercadorias para venda é verdadeiramente sensacional... são os vendedores do rio que oferecem os produtos da terra, uma forma de ganhar a vida mais activa do que a daqueles que simplesmente acorrem em busca das ofertas que os passageiros lhes lançam para a água!... estes são uns poucos... aqueles... pequenos e adultos!... são às centenas!...

À vista deste espectáculo... visto pelos olhos dum europeu urbanizado.., a primeira impressão que se tem é de miséria... mas..., como dizia um viajante local: aqui quem disser que passa fome é preguiçoso..., há peixe em abundância e a floresta dá tudo o que é necessário para viver!..., pensei: estas crianças que vivem nestas casinhas de bonecas num local que parece o paraíso!... que não sabem o que é fome, frio, horários, gerindo a sua própria existência em aparente autonomia... será que são mais infelizes que as suas congéneres das classes médias e baixas dos grandes centros urbanos... convivendo com a miséria, o lixo, a depravação pessoal e a degradação social dum sistema que tem cada vez mais para dar a quem tem muito e cada vez menos a quem tem pouco?!...