Lençóis Maranhenses

Empoleirada numas frágeis estacas de madeira (ou seriam troncos de palmeira!...), a quatro ou cinco metros de altura, situa-se uma frágil construção de madeira com uns carris de duas tábuas paralelas, de cerca de trinta metros de comprimento e a largura duma bitola estreita.
Assim se passa o rio da Formiga em Paulino Neves. O fascínio da aventura sobrepõe-se ao medo e, sem fechar os olhos, só se pára do outro lado!... dali, por entre habitações rudimentares, quintais onde vagueiam porcos com um pau atado ao pescoço para não invadirem o quintal do vizinho(!), matagais, cajueirais selvagens numa pista estreia de areia solta e profunda, onde a velocidade não pode baixar dum mínimo sob pena de afundamento, somos transportados em slalom sacudidos em todas as direcções numa viagem que exige alguma resistência ao incómodo.
A paisagem é a mais inóspita vista até aqui onde proliferam os mosquitos que atacam de todos os lados, mas de uma beleza que representa mais valia para o investimento feito. Cruzamo-nos com aves, mamíferos e répteis de várias espécies mas as condições de agitação tornam infrutíferas as tentativas de recolha de imagens.
Entretanto... a paisagem muda... a uma zona de vegetação do tipo savana segue-se agora uma do tipo estepe. A vegetação reduz-se a uma espécie de gramínea na qual se desenham trilhos que se perdem numa orla de areia ondulada desenhada no horizonte. Os Pequenos Lençóis Maranhenses estão à vista. Com a aproximação a variedade desenha-se: uma rede de charcos bordejados por plantas aquáticas são o habitat de várias espécies de aves em estreita convivência com explorações agrícolas rudimentares, manchas de palmeiral e a presença invasiva das dunas.
É atrás duma destas dunas que descobrimos, inesperadamente, que estamos numa rua de Barreirinhas desconhecendo, ainda, que a uma dezena de metros, do outro lado, se desenha um dos mais belos cenários do mundo: o rio Preguiça.



























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A lancha rápida desliza veloz nas águas calmas bordejadas por uma paisagem luxuriante. Barreirinhas lá fica mirando-se nestas águas calmas de reflexos metálicos. A calma de umas parece induzir a indolência da outra. Até quando?!... à nossa frente um cenário exótico inebriante abre-se em cortina de ambos os lados à medida do avanço da lancha oferecendo sempre mais dum mesmo sempre diferente!... Contraditório?!... talvez!... mas... a realidade preocupa-se lá com isso!... palmeiras de todas as espécies, em flor, com frutos em cachos radiais de braços com filamentos suspensos, de fazer inveja ao mais engenhoso fabricante de candelabros, aves que esvoaçam em reflexos de plumagem colorida, casinhas que aparecem e desaparecem deixando um reflexo fugaz à nossa passagem, manchas de flores selvagens poisadas nas copas das árvores embelezando os mais diversos tons de verdura, frutos selvagens desconhecidos recortados num plano de fundo ou quadro gigantesco de exuberância natural reflectindo-se na superfície das águas tranquilas que se agitam à nossa passagem... até que... esta orla começa a iluminar-se... vai ficando menos opaca apesar da densidade de árvores... que se passa?!... agora já parece a obra de filigrana de algum artífice megalómano adquirindo tons dourados em contra-luz... "aquela duna ainda ali não estava a semana passada..." diz-nos o nosso guia. Os Pequenos Lençóis Maranhenses que já apertam Barreirinhas a montante, estão avançando rio adentro a ponto de um pouco mais adiante já o forçarem a fazer uma curva, tornando-o ainda mais preguiçoso!
Nas dunas instalam os pescadores, vindos de Barreirinhas, a remo, a suas cabanas para pescar ali durante seis meses... no paraíso!... mas longe de tudo a que chamamos civilização.
Do alto dos cento e sessenta degraus do Farol Preguiças oferece-se uma panorâmica deslumbrante única sobre uma paisagem sem elevações visíveis, cuja atracção local é a Praia do Caboré, situada entre a margem esquerda do rio e o mar, selvagem, remota, agreste mesmo na orla marítima mas de uma encanto inegável.





























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O trabalho manual, envolvendo esforço físico, é tido, para o urbanizado ocidental, implicitamente, como escravatura. Confessada e complacentemente reconhece-se-lhe um estatuto digno mas prefere-se a escravatura dum ginásio onde se levantam pesos enormes durante horas seguidas, inutilmente, sem produzir nenhuma mais valia material ou se correm milhares de quilómetros em bicicletas paradas, às vezes, com um sacrifício que não se faria se ele fosse necessário para ganhar para comer!...
A propulsão da balsa do rio Preguiça exige menos esforço que o atrás descrito mas pode parecer, exactamente, escravatura, à luz daquele conceito, embora se trate duma solução engenhosa, prática, silenciosa e limpa. Um cabo amarrado a ambas as margens serve simultaneamente de propulsor e guia, ao longo do qual se faz deslizar a balsa por tracção manual. Os ganhos ecológicos de tal sistema são por demais evidentes na ausência de ruídos, emissões gasosas ou escorrimentos químicos. Até quando!... Do outro lado, por uma pista arenosa numa paisagem de savana e cajueiros, chega-se ao santuário da região.

Se bem que este fenómeno se verifique em toda a natureza, da meteorologia, ecologia... à geofísica, os seus efeitos fazem sentir-se a uma escala tão larga que passaram despercebidos durante a maior parte da vida da humanidade e continuam de difícil percepção à escala local. Chama-se realimentação (feed-back - nome que lhe deu o homem que o aplicou à mecânica e que se julga tê-lo inventado!...). A sua importância é tal que nada da tecnologia moderna seria possível sem a sua descoberta. Observável, embora em todo o nordeste, é aqui que ele reveste a sua mais exuberante expressão a nível local.
Os Lençóis Maranhenses são um conjunto de dunas movediças, entrecortadas por lagoas formadas pela água das chuvas, que avançam do Atlântico para o interior, ao ritmo de vários metros por ano, atingindo já os cento e cinquenta quilómetros da costa. A existência de ventos permanentes soprando do mar com intensidade elevada aliada às altas temperaturas fazem secar imediatamente os detritos arrastados pela erosão e depositados na costa, levantados numa corrente fina de areia, desenhando caprichosos motivos de arte efémera à sua passagem, saltando de duna em duna, alterando-lhe a aparência, o tamanho, a forma e, a longo prazo, o lugar, repondo em terra aquilo que à terra pertence e lhe fora subtraído pela erosão.

BRASIL!... é AQUI! é o título dum vídeo promocional corrido numa televisão local e que mostra toda a beleza dos Lençóis Maranhenses! Esta expressão, com o peso semântico que só os brasileiros sabem dar a estas coisas só tem paralelo noutra que encontrei em Manaus. Numa pequena protecção de madeira num passeio dizia-se: "Sorria... que aqui está a crescer uma árvore!..." em pleno coração da Amazónia!... é obra!... quando por cá, no coração das cidades onde elas sempre escasseiam, há assassinos botânicos chamados presidentes de câmara em abundância!...
Deambular sobre a crista das dunas, trepar as suas vertentes, mergulhar nos seus lagos, observar o movimento incessante da fina corrente de areia deslocando-se à superfície, desenhando no horizonte, em contra-luz, um halo de poeira incandescente, que altera a textura e cor das lagoas em constante mutação é fascinante!... ou espraiar a vista sobre a imensidão esculpida das formas sempre diferentes a cada passo que faz mudar a perspectiva e a incidência da luz com cambiantes discretos é espectáculo indescritível!... como se estivéssemos fora deste mundo... ou, pelo menos, noutro planeta!...
Com o descer do sol a incandescência apodera-se da paisagem; o fim do mundo aproxima-se... e a lua do lado oposto anuncia o reino das trevas!... e nem sequer falta o fogo do inferno na mata logo por baixo.

O reino das trevas não é tão mau como o pintam!... os cajus colhidos às escuras são tão saborosos como antes... e a cachaça do mesmo fruto?!... ah!... essa sim!... infernal!
A travessia nocturna da balsa revela-se uma experiência original com algum pitoresco: um burro que era suposto entrar num barco recusa-se terminantemente para surpresa dos interessados e diversão dos assistentes!... parecia ser habitual mas hoje!... sabe-se lá porquê?!... nesta época de amplas liberdades até os burros têm direito de opinião e não são mais o que eram antes!...


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Barreirinhas tem sido uma cidade pacata, fora do mundo ou antes... dentro dum mundo como todo ele deveria ser! A única via de acesso era rudimentar e com passagens difíceis nos cursos de água em pequenas pontes de madeira.
Os forasteiros eram aqueles que por amor à diferença, à quietude e à natureza inalterada pagavam o preço do desconforto para chegar lá. A construção dum estradão, em curso, vai alterar radicalmente a tranquilidade deste paraíso. A pressão turística é já evidente. Dentro de poucos anos esta região não será mais a mesma!... Para bem de quem?... não necessariamente dos naturais que têm, saibam ou não disso, mais a perder do que a ganhar... nem dos amantes da natureza que têm cada vez menos para onde ir com esta perda!... e que não se importam de pagar o preço da raridade com desconforto ou menos mordomias!... mas os sedentos de dinheiro não deixarão um palmo à superfície da terra sem a chancela da sua degradação!...

E Barreirinhas lá fica e não mais será a mesma. Com ela fica o Lopez, descendente de transmontanos e que sonha visitar a terra dos seus antepassados e a Itália. A devassa da sua terra de adopção poderá proporcionar-lhe isso... mas será um preço demasiado alto!...