Camocim
Ainda o sol dormia o seu último sono a oriente quando deixámos a silhueta poente da grande duna esmagar Jeri na sua penumbra. Praia selvagem a perder de vista, um indígena que vem de lado nenhum, pede boleia para lado nenhum. Um pouco mais à frente sai no mesmo deserto em que tinha entrado.
Os cursos de água e braços de mar passados a vau, em pontões rudimentares ou de balsa, são sempre um momento de distracção. Esta, pouco mais que uma jangada ou prancha de madeira, está quase sempre, do lado oposto e os meios de comunicação modernos ainda andam longe destas paragens pelo que o conhecimentos dos velhos meios de sinalização são a prática mais eficaz. Ao mesmo nível ficam os meios de orientação e propulsão: uma vara e alguma juventude são os ingredientes destes sistemas.
Tatajuba reside algures debaixo das dunas. Uma tempestade de areia eliminou-a da superfície da terra!... Em sua substituição nasceu Nova Tatajuba, que de nova só tem o nome e de Tatajuba umas tantas casas modestas dispersas no matagal e no intervalo das dunas fazendo deste um local insólito, remoto, tranquilo e belo mirando-se num mar sempre soprado por um vento constante que devolve à terra o que dela é.
Agora há que procurar passagem mais a montante que a maré impede a passagem a vau... veredas estreitas no matagal espesso com muitas derivações de trilhos..., uma ponte rudimentar, minúscula e escondida que só o olho habituado sabe encontrar!.
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Levava o sol não mais que uma vara de altura quando entrámos num cenário de conto de fadas!... ilha dos amores!... Na verdade trata-se duma península formada pela foz estrangulada do rio Coreaú formando uma baía a que chamam de Lagoa Grande! (parece que por aqui os termos geográficos andam um pouco trocados!...)
O lugar de paisagem ondulada com tufos de vegetação desenha recantos de um encanto assinalável mas a vista de Camocim, do outro lado, uma fila de casinhas brancas banhadas pelo sol da manhã, estampadas na floresta e orladas pela frente por uma faixa de areia juncada de embarcações diversas, a azáfama deste porto longo a espelhar-se nas águas preguiçosas da Lagoa, fazem parte das miragens de deixam recordações perenes e se transformam em memórias ancestrais!.. e, toda esta beleza... só para nós!... e um urubu que pairava no ar sempre pronto a cumprir com a sua missão de limpeza.
A balsa, aqui mais sofisticada, põe-nos, em breve, a deixar Camocim para trás. Vistos da estrada, os palmeirais parecem dançar uma estranha valsa à nossa volta, à medida que nos deslocamos. Não sei por que aberração de citadino converso, me fazem lembrar a estrutura metálica, artificial das colunas da cobertura da Estação do Oriente, em Lisboa, num verdadeiro insulto à natureza comparando-a com o que a não merece!
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